sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Uma relação delicada ( Abus de faiblesse / Abuse of Weakness ) - 2013



 
Uma relação delicada  (Abus de Faiblesse), estrelado pela talentosa Isabelle Huppert é definitivamente um filme  de delicado tema: o poder abusivo que uma pessoa tem sob a outra e com o qual o que se deixa abusar está de acordo sem ao menos perceber o impacto de dependência e destruição que isso pode lhe provocar. Essa relação de controle pode ter várias motivações: sexual, financeira, afetiva etc e, por mais que quem se deixa controlar queira retomar o controle da situação (ou pensa que está no comando), na verdade ela só nutre mais ainda a relação doentia.  Assim é o novo drama da polêmica diretora Francesa Catherine Breillat, reconhecida por filmes com intenso apelo erótico e perturbadora psicologia feminina.
 
 
O longa é baseado em biografia da própria autora na qual uma mulher aceita sustentar os caprichos de um homem sedutor, intimidador e abusivo. Maud Shainberg (Huppert) é uma cineasta que sofre derrame que afeta seus movimentos. Decide continuar um novo filme e atraída por Vilko Piran (Kool Shen), um homem de origem social e background educacional e cultural bem diferente do dela, o escala para um papel. Ela começa a se envolver em uma relação profissional que depois se torna mais íntima e com aparente desejo sexual.  Chega a ser uma relação fetichista pois ela não é amante mas ao prover a ele cheques e cheques, a relação tem um misto de dependência, poder, abuso e sedução.  Com a atuação continuamente sólida de Isabelle Huppert em vários trabalhos difíceis, ela encarna uma mulher complexa não somente pelo aspecto da doença física mas pelo descontrole emocional e financeiro.
 
 
Breillat tem um bom tema, bastante alinhado à psicologia doentia que se desenvolve em muitas relações, porém o filme não tem um roteiro à altura da ideia, do potencial de enriquecedores desdobramentos e nem da atriz protagonista. Seu maior gap é a falta de situações que poderiam intensificar essa relação de abuso na narrativa, proporcionando peripécias ou um clímax mais dramáticos. Huppert se esforça bastante para interpretar uma mulher com sequelas de um derrame mas a complexidade de sua personagem não cabe dentro do roteiro que é bastante linear e não oferece situações interessantes de intenso conflito entre ela e Kool Shen.  Além do mais, Kool Shen não é um ator experiente e com o talento de Huppert, logo a maior responsabilidade em cena para sustentar o filme recae sobre a atriz.  Ela consegue extrair da personagem uma mulher que não é vítima e que deseja comandar apesar de todas as vulnerabilidades de sua situação.
 
 
Apesar desta lacuna no roteiro, o filme tem muito sentido ao expor que nem sempre uma pessoa tem consciência do abuso psicológico, financeiro etc ou, se a tem, seja por uma fraqueza emocional, um transtorno mental,  desejo por vivenciar intensamente o jogo de poder ou dar algum crédito à pessoa, ela não desistirá facilmente do jogo.  Durante toda a projeção com a intrigante atuação de Huppert não há como não ficar martelando o que se passa na mente de Maud. Para quem entende um pouco mais de psicologia humana, principalmente a feminina, poderá sugerir que as motivações dela para prover dinheiro e mais dinheiro para Vilko podem ser variadas: a necessidade de exercer o poder, o sentimento de carência e/ou invalidez como uma mulher com deficiência física, a paixão ou o desejo sexual,  o voto de confiança a um homem, ou seja, os motivos são perturbadores à medida que não são tão óbvios. Breillat deixa essa subjetividade para o expectador como um grande acerto de que neste tipo de filme cabe muito mais ao público analisar toda a situação e tirar suas próprias conclusões. No desfecho, o último ( e devastador) plano define muito do longa e de um cinema que não dá todas as respostas e permanece na mente por dias.
 
 

 
 
 
Ficha técnica do filme ImDB Uma relação delicada

 
 
 
 
 
 
 
 

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