quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Mostra 2014: Relatos Selvagens (Relatos salvajes/ Wild Tales ) - 2014





Dizem que o ser humano é naturalmente vingativo e mesmo o mais pacífico dos mortais pode perder o controle a qualquer momento. O cineasta Damián Szifrón Argentino prova isso em seu novo longa Relatos Selvagens, criado em formato de contos com uma miscelânea de situações extremistas e hilárias nas quais as pessoas perdem o controle. Produzido pelos Almódovar (Pedro  e Agustín) e outros produtores, o longa é um dos grandes líderes de bilheteria no Cinema Argentino e é uma comédia com humor negro com muito frescor e alinhada a situações cotidianas comuns como uma briga no trânsito, uma multa pública indevida, a corrupção de uma família endinheirada, uma suspeita de traição no relacionamento. Com fatos simples como estopim, o público é convidado a rir muito e refletir sobre até que ponto podemos ser destrutivos e descaradamente cômicos. Nos geniais créditos iniciais, o cineasta dá o tom do espírito cruel que pessoas enlouquecidas e vingativas são capazes.



Esse filme é escandalosamente divertido e não há como se controlar ao dar risadas do descontrole emocional que toma conta dos personagens que agem exatamente da forma que muita gente já teve vontade mas nunca coragem. É como tomar uma pílula de sarcasmo a cada conto e fazer parte da torcida para que os personagens realizem a vingança da maneira mais selvagem possível. O vínculo com o cômico é criado instantaneamente e sempre renovado a cada relato, portanto é mais possível ter atração do que repulsa pelos personagens. Em um dos relatos mais hilários e bem montados,  há o casamento entre Romina (a esplêndida Erica Rivas) e Ariel (Diego Gentile). Ela descobre a infidelidade dele e enlouquece durante a festa. Sua atuação tem as verossímeis neurose e loucura das mulheres Almodovarianas e garante uma das melhores performances no conto "Hasta que la muerte nos separe". Com grande elenco que atua confortavelmente no limite da razão e com muito profissionalismo, o longa conta com a imprescindível presença de Ricardo Darín, um dos ícones do moderno Cinema Argentino. No relato, "Bombita", ele perde a razão ao ter o seu carro multado várias vezes.



É interessante notar que além da ideia original e uma composição narrativa não convencional de pequenos curtas que formam um longa coeso, Relatos Selvagens é muito bem roteirizado, dirigido e montado, criando uma coerência na temática e principalmente nos recursos utilizados pelo diretor como a trilha sonora, complexidade psicológica dos personagens,  variedade de situações  contemporâneas e problemáticas comuns para o ser humano e a movimentação de câmera que cria um cima de suspense e preparação para a situação de violência extrema. A cada plano, o público acompanha o protagonista em um prévio surto. A curiosidade aumenta como perguntar a si mesmo: "o que ele terá coragem de fazer agora?" As gargalhadas são inevitáveis como incitá-lo(a): "continue fazendo isso até o fim e surte de vez." É o típico filme catártico no qual a violência com humor negro liberta o personagem e a audiência naquilo que você pode ter pensado em fazer um dia com aquele(a) canalha que despertou sua raiva e sua insanidade.


O cineasta tem um trabalho meticuloso na mise en scène e esse é um dos melhores indicadores de que o filme é excepcional. Roteiro redondo, diálogos sarcásticos e cortes bem planejados para mostrar a perspectiva do personagem e o contexto no qual ele está inserido. Tudo é planejado para compreender o surto, equilibrando a objetividade e agilidade necessária a cada conto e seu suspense. Essa combinação enriquece a narrativa sem complicá-la demais pois criam um possível processo de identificação do expectador com o personagem em uma data situação, como por exemplo, em um dos mais bem elaborados, o Bombita, Ricardo Darín perde a paciência com um situação comum no meio urbano que costuma provocar revolta, sentimento de injustiça e burocracia. A história abre um plano da detonação de um prédio e Ricardo Darín como um engenheiro especializado em explosivos. Mais adiante, ele chega ao aniversário da filha e, dali por diante, entendemos como essas situações se entrecruzam com uma terceira e decisiva. Toda a mise en scène é projetada para testemunhar a evolução da situação limite e nos brindar com um excelente trabalho criativo e non sense no qual a realidade e a irrealidade se fundem.


Com Relatos Selvagens, o Cinema Argentino demonstra sua versátil capacidade de alinhar a imprescindível produção executiva dos Almódovar com a liberdade autoral e artística do roteirista e cineasta Damiàn Szifrón, uma temática universal facilmente digerida pela nossa falha e existencial condição humana e a experiência e excelência do elenco. O filme é maravilhoso porque nos faz rir e refletir sobre como lidamos com o stress de situações diárias. Ele abre espaço para nossa imperfeição e nossa loucura ocultas na aparente normalidade. Ele nos leva ao absurdo de concretizar na ficção a nossa selvageria com requintes de crueldade e muita diversão. Ele é simplesmente estupendo.






Ficha técnica do filme ImDB Relatos Selvagens

Um comentário:

  1. Parabéns pelo texto, Madame. Acabei de sair da sessão deste filme, e, que filme!!! Uma excelente comédia dramática com toques de thriller e com um humor negro fora de série. É gore, cômico e me lembra filmes comp "Um Dia de Fúria", com Michael Douglas. Gostei da idéia dos seguimentos, cada episódio melhor que o outro. Erica Rivas arrasa, simplesmente arrasa! rs

    Beijos.

    ResponderExcluir

Prezado(a) leitor(a)

Obrigada pelo seu interesse em comentar no MaDame Lumiére. Sua participação é muito importante para trocarmos percepções e informações sobre a fascinante Sétima Arte.
Madame Lumière é um blog democrático e sério, logo você é livre para elogiar ou criticar o filme assim como qualquer comentário dentro do assunto cinema. No entanto, serão rejeitadas mensagens que insultem, difamem ou desrespeitem a autora do blog assim como qualquer ataque pessoal ofensivo a leitores do blog e suas opiniões. Também não serão aceitos comentários com propósitos propagandistas, obscenos, persecutórios, racistas, etc.
Caso não concorde com a opinião cinéfila de alguém, saiba como respondê-la educadamente. Opiniões distintas são bem vindas e enriquecem a discussão.

Saudações cinéfilas,

MaDame Lumière