terça-feira, 31 de março de 2015

Rapidinhas no MaDame: Chef (Chef) - 2014

Rapidinhas no MaDame:
Porque o que importa é o prazer da Cinefilia






Sobre a história: Carl Casper (Jon Favreau) é um chef de restaurante que perde o emprego e dá início a um negócio próprio, um food truck. Sua força de vontade, entusiasmo e paixão pela gastronomia criativa o aproxima do filho Percy (Emjay Anthony) e de leais amigos.



Opinião Geral sobre o filme:   Chef é um filme gostoso de assistir, não somente pela gastronomia apetitosa que aparece em tela e aguça os sentidos mas também por ser um projeto pessoal de Jon Favreau que assina a direção, o roteiro e é um protagonista carismático e de personalidade autêntica. Sua personagem une a figura de um homem comum, com problemas para dar atenção ao filho e em dificuldades financeiras e profissionais assim como um chef talentoso, carismático e com potencial de crescimento.
A história  tem um efeito colateral solar e alegre devido ao bom humor de Jon Favreau, que divide cena com seu amigo Martin (John Leguizamo) e sua ex-esposa Inez (Sofia Vergara),  resgata o espírito da informalidade e simplicidade latinas e tem locações na ensolarada Miami e em vários pontos itinerantes que inspiram novas viagens.
O roteiro é eficiente e só poderia vir de uma inspiração de Jon Favreau, que demonstra sua paixão pela comida. O diferencial é a construção de uma narrativa simples que apresenta valores como a liberdade, a criatividade, a família, amigos e paixões em um formato que traz os encantos de um road movie. Ao investir em um food truck, ele viaja por várias cidades. Esses percursos ajudam a criar uma mensagem de trilhar o próprio caminho na vida e vivenciar aquilo que havia sido deixado de lado e que, agora, pode ser vivido intensamente. Ele também conta uma história motivadora  pois reúne um misto de empreendedorismo, determinação e talento.
Para completar o charme do filme, Jon Favreau chamou atores queridos de seu círculo para pequenas participações que demonstram uma ideia de lealdade e camaradagem como Molly (Scarlett Johansson), Marvin (Robert Downey Jr), Riva (Dustin Hoffman) e apresenta uma excelente habilidade para coordenar  a fotografia gastronômica, visualmente deliciosa, com a bem articulada montagem final.

O desprazer:  Não chega a ser um desprazer porém é necessário alertá-los: assista ao filme após comer bem ou prepare um sanduíche para a sessão. Esse filme desperta uma fome impressionante!


Por que vale a rapidinha?  Filme simples, bonito, inspiracional e com boas vibrações. Qualquer um pode se identificar com Carl Casper em algum momento da vida; ter que dar a volta por cima, contar com os amigos e encontrar um novo caminho para a carreira e a família.


Ficha técnica do filme ImDB Chef

Cinemateca Brasileira exibirá Retrospectiva Roberto Santos



Retrospectiva Roberto Santos
de 02 a 19 de abril
Cópias restauradas pela Cinemateca Brasileira
Entrada Grátis

Roberto Santos é um dos alicerces do cinema paulista moderno. Nascido em 1928, após alguns trabalhos como assistente de direção, faz seu primeiro longa como diretor em 1957, O grande momento, uma das obras-primas do cinema brasileiro. O filme seguinte é considerado outro clássico, A hora e vez de Augusto Matraga, baseada no conto de João Guimarães Rosa, com grande interpretação de Leonardo Vilar e música original de Geraldo Vandré. O filme foi vencedor do I Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e representante do Brasil no Festival de Cannes em 1966. Dirige um dos episódios de As cariocas (1966), A desinibida do Grajaú, adaptação da crônica de Stanislaw Ponte Preta. O filme tem episódios dirigidos por Fernando de Barros e Walter Hugo Khouri e será exibido em nova cópia 35mm, confeccionada pela Cinemateca Brasileia.
Dirige Paulo José e Leila Diniz em O homem nu (1967), uma bela comédia adaptada do conto de Fernando Sabino. Diante da repressão após o golpe militar, aceita o convite para lecionar no curso de cinema da ECA/USP, então recém-criado. Como professor da Escola Superior de Cinema de São Luís e ECA/USP, ambas em São Paulo, Roberto Santos exerceu um papel fundamental na formação de algumas gerações de cineastas e técnicos. Fruto da convivência com alunos e técnicos de cinema, Vozes do medo é um projeto original de realização de um filme como se fosse uma revista, e contou com a participação de Maurice Capovilla, Roman Stulbach, Hélio Leite de Barros, Mamoru Myao, Ruy Perotti, Plácido de Campos Jr., Aloysio Raulino, Gianfrancesco Guarnieri, Cyro del Nero, Adilson Benini e Augusto Corrêa. Em 1971 dirige Adriana Prieto em Um anjo mau, fotografado pelo parceiro dos dois primeiros longas, Hélio Silva.
Ainda professor, realiza um trabalho em parceria com os alunos da USP, As três mortes de Solano (1975), longa-metragem de Roberto Santos baseado no conto A caçada, de Lygia Fagundes Telles. Em 1977 participa de outro filme de episódios, Contos eróticos, baseado em contos premiados no 1° Concurso de Contos Eróticos da revista Status, com o segmento Arroz e feijão. Realiza em 1979 outro de seus melhores filmes, Os amantes da chuva, drama romântico sobre um casal que provoca tempestades quando estão juntos. Lança Nasce uma mulher, uma comédia, em 1983. Em 1987 lança seu último filme, Quincas Borba, uma adaptação do romance de Machado de Assis. O trabalho foi mal recebido pela crítica no Festival de Gramado e, na volta à São Paulo, Roberto morreu no aeroporto, vítima de um infarto fulminante. Autor de clássicos obrigatórios, como O grande momento, A hora e vez de Augusto Matraga e O homem nu, e de filmes a serem revistos e descobertos como Um anjo mau, As três mortes de Solano e Os amantes da chuva, a

Cinemateca tem o prazer de homenagear este mestre do cinema brasileiro.

Coordenador de Difusão: Leandro Pardi
Programação: Sergio Silva
Produção de cópias: Nancy Hitomi Korim
Assessoria de imprensa: Karina Almeida
Produção: Bia Ferreira Leite e Livia Fusco
Site: Bruno Ishikawa


Para acessar a programação, clique aqui.


(Divulgação / assessoria de imprensa)

segunda-feira, 30 de março de 2015

El Cuerpo (The Body ) - 2012





Em um desafiador gênero como o thriller com clara marca registrada narrativa que traz elementos de horror e mistério e uma forte atmosfera de tensão, a produtora espanhola Rodar y Rodar é especialista no assunto. Seus suspenses criam um clima de ambiguidades entre personagens e despertam uma curiosidade detetivesca que, misturada ao mistério da história e um roteiro de reviravoltas, apreendem ao máximo a atenção do público.  Com experiência em longas premiados como O Orfanato (2007) e  Los Ojos de Julia (2010), ambos produzidos por Guillermo del Toro, a Rodar y Rodar lançou El Cuerpo (2012), primeiro longa de Oriol Paulo (co-roteirista de Los Ojos de Julia) que traz no elenco Bélen Rueda, José Coronado e Hugo Silva. 






Novamente em mais uma parceria com a produtora após estrear em Los Ojos de Julia e ser indicada ao prêmio Goya, Belén Rueda se destaca como uma atriz fetiche para esse tipo de Cinema Fantástico. Em El Cuerpo, ela é Mayka Villaverde, uma poderosa empresária, de personalidade controladora e dúbia, casada com o jovem Alex Ulloa (Hugo Silva). Ambos evidenciam um casamento falido no qual o afeto é forçado  e as diferenças surgem com diálogos irônicos e mal resolvidos.  Com o desaparecimento de um corpo no necrotério, Alex começa a ser investigado por Jaime Peña (José Coronado). 


El Cuerpo é um imperdível suspense por conservar o estilo dos thrillers da Rodar y Rodar, que mistura o realismo com o fantástico e tem um roteiro bem construído com elementos surpresa, sujeito a manobras que movem as peças do jogo entre as personagens. A história começa com um corpo que desaparece misteriosamente e um casamento desgastado, ou seja, bons motivos para motivar os mais curiosos, dessa forma, leva o público a crer que essa pode ser uma história de crime passional, porém muitas surpresas ocorrem à medida de que as personagens não são confiáveis e agem como supostos suspeitos. O elenco corrobora  a afirmação de que os atores espanhóis têm um talento especial para trabalhar com thrillers, principalmente porque a forma como eles atuam traz um certo humor trágico embutido na trama como se vê nas cenas de suspense dos filmes de Almodóvar.






Além de ser um excelente entretenimento, El Cuerpo é a realização contemporânea de um gênero que nem todo o roteirista e diretor têm talento para realizá-lo bem, por isso merece ser analisado sob uma perspectiva de um híbrido de vários elementos narrativos que retomam aspectos importantes de outras referências do Cinema, inclusive as clássicas como a tradição do Cinema Noir, do Suspense Hitchcockiano e das tragédias românticas. A prática, a história e a metalinguagem do Cinema suportam amplamente o êxito dessa película, evidenciadas através da construção da narrativa que usa histórias de fantasmas, do crime, da investigação, da intriga e da figura da mulher sedutora e dissimulada do Cine Noir, do clima de suspeita e do mistério do corpo morto de Hitchcock, da vingança e da paranoia das histórias de mistério e horror.




Toda a trama é construída com a combinação desses elementos de forma muito acertada e com uso de flashbacks para jogar o público na teia das dúvidas e elevar a tensão desde o início. Ao ver o corpo de uma mulher casada que some como um fantasma, a primeira suspeita paira sob o marido e sua amante. Aos poucos, a narrativa destila doses ambíguas da relação entre Mayka e Alex e o corpo desaparecido torna-se apenas um detalhe pois analisar quem são esses personagens  e, em especial, como Alex reage às acusações faz parte do processo investigativo, dessa forma, o próprio espectador é desafiado a ser o detetive, com a potencial e ligeira impressão de que está sendo enganado pelo roteiro ou que precisa achar um furo nele para descobrir o desfecho. Essa vontade de ser um bom detetive cresce com a história à medida que, em algum momento específico, pode haver uma manobra diferente para a revelação do crime.  






Para o sucesso do longa, o elenco é um diferencial e o desenvolvimento dos personagens tem uma boa base Noir. Belén Rueda incorpora a femme fatale capaz de dominar o próprio marido como se ele fosse apenas seu mero objeto. Com atitudes dúbias e falas irônicas, ela é o tipo de mulher com a qual nenhum homem gostaria de estar mais casado. Por trás da enigmática beleza espanhola e pseudo autoconfiança da personagem de Alex, está a ótima interpretação de Hugo Silva. Ele encarna um homem vulnerável que parece ter tudo sob controle mas não o tem, assim, ele faz o papel do homem apaixonado, fraco e feito como fantoche pelas mulheres, o que eleva consideravelmente a qualidade desse roteiro ao lado de José Coronado, o detetive que tem a missão de transformar a investigação no inferno de Alex.


O Cinema Espanhol através da produtora Rodar y Rodar têm se destacado em realizar suspenses e reconhecer talentos no audiovisual, o que facilita muito a busca do público por thrillers que tenham mais chance de dar certo, de conhecer diretores e roteiristas habilidosos nesse gênero e de trazer satisfação à experiência cinematográfica. Com a influência de Guillermo del Toro, entusiasta  e expert em filmes que têm elementos sobrenaturais e um toque Hitcockiano, Oriol Paulo realiza um ótimo thriller psicológico que até mesmo Hitchcock teria gostado do desfecho.








Ficha técnica do filme ImDb El Cuerpo

sexta-feira, 27 de março de 2015

Um Fim de semana em Paris (Le Week-End) - 2013

Previsão de estreia no Brasil: 02 de abril/ 2015



Paris tem o status de cidade do Romance. Para o Cinema, ela é simplesmente Paris, onde as pessoas sonham com o amor, seja para encontrá-lo, vivenciá-lo ou renová-lo, Paris é puro charme e nas mãos de um diretor que sabe explorar o seu espaço e as peculiaridades de seu encantamento ao focar uma comédia de relacionamento, ela torna-se naturalmente íntima, fascinante, vívida e testemunha um amor de longa data, colocado à prova e sem máscaras.






A nova comédia de Roger Michell, diretor de "Um lugar chamado Nothing Hill" é um híbrido de comédia romântica com drama ao abordar a viagem do casal maduro formado por Meg (Lindsay Duncan) e Nick (Jim Broadbent) que visitam Paris para comemorar o aniversário de 30 anos de casamento. Eles são dois professores britânicos que  chegam àquela boa idade de ter criado o filho, trabalhado um extenso período e vivenciado diferentes ciclos. Para comemorar o aniversário de casamento, escolhem Paris para renovar o relacionamento mas ao chegar lá, nem tudo é maravilha. Os dilemas, frustrações e diversos sentimentos com relação ao casamento e o envelhecimento são inevitáveis e integram os diálogos do casal, movidos a variados humores. Com isso, o filme resulta em uma bela comédia sobre um amor maduro e como as pessoas  de meia idade aprendem a se adaptar ao casamento, com seus altos e baixos.



 
Com roteiro escrito por Hanif Kureish, de "Minha adorável lavanderia" (Stephen Frears), "Um fim de semana em Paris" inicia uma jornada curta e eficiente para falar do relacionamento entre duas pessoas bem diferentes e que chegam àquele momento da vida no qual questionamentos sobre a vida e o casamento são feitos sem muitas papas na língua, com um certo conformismo e uma boa dose de espontaneidade. Meg é uma charmosa senhora, com beleza clássica e elegante, mais fria e impiedosa com as palavras. Costuma judiar do marido com um comportamento de insatisfação aparente por não ter vivido o que deveria. Por outro lado, Nick tem uma postura mais conformada com a vida, passiva, submissa. Em suas diferenças e com as excelentes atuações de Lindsay Duncan e Jim Broadbent, o casal é  o principal atrativo do longa juntamente com as locações parisienses com seus pubs, restaurantes e hotéis. 





Como em Nothing Hill e as bucólicas e inesquecíveis imagens de uma cidade britânica, Roger Michell tem uma virtude para esse tipo de longa e a coloca em prática aqui: ele usa a cidade como personagem e explora sua beleza. Paris é um encanto e evoca sua magia capaz de provocar o público a uma próxima viagem com ela como destino. A direção chega a afrancesar o trabalho de fotografia e direção com uma narrativa mais  natural que preza por enfocar o casal pelas ruas da cidade e em espaços fechados que valorizam o estilo parisiense como restaurantes e a gastronomia, hotéis próximos a pontos turísticos e o   apartamento de um velho amigo de Nick, Morgan (Jeff Goldblum) durante o jantar com amigos intelectuais. O local da viagem coopera muito para a agradabilidade do filme, tanto que tem visual semelhante às comédias românticas francesas; pelo menos a energia da comédia com toques de drama tem o frescor de tratar assuntos sérios com leveza.





Um fim de semana em Paris é como um fim de semana para analisar a vida desse casal e, de forma empática, se colocar no lugar deles e ver que nenhum relacionamento é perfeito mas que, na imperfeição das relações, há os sentimentos genuínos um pelo outro. Os diálogos têm momentos de impacto como dizer a verdade na cara do conjugue e saber que isso vai machucar. Ainda assim, ser sincero(a) é o caminho certo. Muito do peso dramático da comédia é realizado pela ótima Lindsay Duncan, que ganhou o prêmio de melhor atriz no British Independent Film Awards por essa atuação e tem falas bastante significativas. Ela incorpora perfeitamente bem a mulher de meia idade, sensual e refinada que poderia ter tido uma vida de glamour e requinte, não tem problemas algum para manifestar sua frustração mas também de assumir que também ama à sua maneira. A presença de Jeff Goldblum vem a agregar uma das cenas mais necessárias e bonitas sobre a relação do casal e faz o espectador refletir sobre os relacionamentos e nossas imperfeições e contradições no Amor. Para fechar com chave de ouro,  um dos mais sinceros , melhores e climáticos desabafos é de Jim Broadbent, que ganhou o prêmio de melhor ator no Festival de San Sebastián.







Com o  crescimento de comédias com atores mais velhos, o diferencial  do longa é que o relacionamento não é idealizado como a Paris dos sonhos dos amantes. De forma muito bem acertada, o roteiro aborda um casal sem a casca das aparências e em momentos de crise e desabafos, dessa forma, o aniversário de casamento sem idealização romântica é um ponto central do roteiro e ele é acompanhado com bom humor, descontração. O público ganha como presente observar a viagem de Meg e Nick e suas aventuras por Paris, como por exemplo, não ter dinheiro suficiente para pagar pelo luxo Francês e, mesmo assim, aventurar-se em fazer o que lhes vêm à mente até de maneira inconsequente.  Com essa abordagem mais cotidiana das relações, um casal de atores experientes e um bom texto, Um Fim de semana em Paris vale como uma boa sessão para o final de semana.







Ficha técnica do filme ImDB Um Fim de Semana em Paris

quarta-feira, 25 de março de 2015

"Últimas conversas de Eduardo Coutinho" abre o 20º É tudo Verdade

 

ÚLTIMAS CONVERSAS’

DE EDUARDO COUTINHO,

ABRE O 20o É TUDO VERDADE


Documentário inaugura festival em São Paulo e no Rio de Janeiro
Filme póstumo traz entrevistas com jovens cariocas

“Últimas Conversas”, o documentário final dirigido por Eduardo Coutinho (1933-2014), será o filme de abertura para convidados da 20a edição do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários, nos dias 9 e 10 de abril próximo. Com cerca de uma hora e meia de duração, “Últimas Conversas” traz Coutinho papeando com jovens estudantes cariocas.
“Coutinho não teve tempo de montar aquele que viria a ser o seu último filme”, explica o produtor João Moreira Salles (Videofilmes). “São conversas com jovens que têm toda a vida pela frente. Ao menos pra mim, essa circunstância encerra toda a pungência de ‘Últimas Conversas’”.
“É uma suprema honra apresentar na abertura de nossa 20a. edição o último filme dirigido por Coutinho e agradecemos imensamente à Videofilmes por concedê-la ao É Tudo Verdade”, afirma Amir Labaki, fundador e diretor do festival.
“Últimas Conversas” não carregava, de origem, as marcas de um filme de despedida. Mas, o sendo, é um belíssimo fecho para uma das obras mais originais da história do documentário mundial e do cinema brasileiro”, afirma Labaki.
O É Tudo Verdade 2015 – 20o. Festival Internacional de Documentários acontece simultaneamente em São Paulo e no Rio de Janeiro entre 9 e 19 de abril próximo, com entrada franca em todas as sessões.
SERVIÇO
É Tudo Verdade – 20º Festival Internacional de Documentários
São Paulo de 09 e 19 de abril;
Rio de Janeiro de 10 a 19 de abril;
Belo Horizonte de 29 de abril a 4 de maio;
Santos de 07 a 10 de maio;
Brasília de 03 a 8 de junho.
Fundação e direção: Amir Labaki
O É Tudo Verdade – 20º Festival Internacional de Documentários é uma co-realização do BNDES, OI, PETROBRAS, SABESP. CCBB, PREFEITURA DE SÃO PAULO e RIOFILME, contando com o apoio do Ministério da Cultura - Secretaria do Audiovisual, através da lei 8.313/91 (Lei Rouanet) e da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo – Programa de Ação Cultural/PROAC e Secretaria de Estado da Cultura do Rio de Janeiro
Entrada gratuita em todas as salas de cinema.
(Divulgação / Assessoria de imprensa)

terça-feira, 17 de março de 2015

MaDame Séries Opina: The Affair - 1ª temporada (2014)

MaDame Series Opina
O momento fora de série
sobre Seriados de TV
por MaDame Lumière




 

Sobre The Affair - 1ª Temporada:  The Affair é uma série Americana do gênero Drama que iniciou em 2014 e foi veiculada pelo Showtime. Ganhou o Globo de Ouro 2015 de melhor série dramática e promete uma segunda temporada ainda não prevista. A história aborda os efeitos emocionais de uma relação extraconjugal, colocando como principais protagonistas os amantes Alison Lockhart (Ruth Wilson) e Noah Solloway (Dominic West), ambos casados com outros parceiros, respectivamente  Cole Lockhart (Joshua Jackson) e Helen Solloway (Maura Tierney). Alison e Noah se envolvem em uma sensual, misteriosa e dramática relação e colocam seus casamentos em risco. A narrativa ocorre em Montauk (Long Island, USA), Alison é uma garçonete cuja perda do filho e o difícil relacionamento com Cole a atormenta. Noah é um professor e escritor de romances de Nova York, que depende financeiramente da rica família de Helen e está entediado com as perspectivas de carreira. Durante as férias da família Solloway em Montauk, Alison e Noah se envolvem em um tórrido caso.
 
 



Opinião Geral:  The Affair é uma boa série sobre relacionamentos. Abordará o casamento, a traição, o desejo, a frustração  e todas as demais rachaduras e efeitos psicológicos das relações em questão, porém não é uma série qualquer; a traição é enfocada entre duas pessoas que são casadas, o que as coloca em uma condição de "igualdade" para trair seus cônjuges e depois lidar com as consequências. Além do mais, a história é projetada com dois pontos de vista, o de Noah e Alison, que relatam diferentes perspectivas do vivenciado em um dado tempo narrativo, além de ser entrecortada por uma investigação policial misteriosa. Esse conjunto de virtudes no processo narrativo é um dos destaques da série.

Por consequência, The Affair é intrigante e joga com a ambiguidade das personagens, afinal, quem está falando a verdade? Noah ou Alison? Qual é a melhor versão da história? Não sabemos e isso pouco interessa. O mais importante é a intensidade e realismo dramáticos dos conflitos e como as duas versões dos amantes são construídas narrativamente na tela em um excelente trabalho de direção de atores e do elenco. Para a segunda temporada, os criadores da série foram espertos e criaram a vantagem de ter um gancho forte: os rumos da investigação.

A série  também apresenta  como outros diferenciais a forma realista de como as relações e os ecos nos casamentos e na família ocorrem, o texto bem escrito, a química sexual entre os amantes e o suspense criado por toda a temporada através dos pontos de vista de Noah e Alison relatados a um detetive. As situações têm pouquíssimos clichês e, mesmo quando eles surgem, eles permanecem em segundo plano por conta da atuação crível do elenco.  O roteiro investe em um approach narrativo vigoroso e profundo que deixa ao público o desafio de analisar essas personagens e se a relação extraconjugal é apenas sexo, prazer, carência ou é um inevitável amor. Ele abre espaço para o espectador analisar o provável caráter de cada um, como seriam seus passados, como reagem a traições e ao perdão, quais próximas ações podem tomar e, assim, a experiência é mais envolvente. Com isso, o público tem a opção de acompanhar a série com maior intimidade com as personagens, tentar entender seus comportamentos, paixões, dilemas e decepções.





Contra(s):  Inicialmente, observar duas perspectivas distintas sobre uma mesma situação pode ser entediante e repetitivo para um roteiro mas, a partir do meio da temporada (episódio 6),  a história cresce no seu efeito dramático e tudo passa a fazer mais sentido nessa construção narrativa.


Cena(s) imperdível(is):  Todas as cenas nas quais os casais discutem verbalmente sobre a traição, as cenas mais intimistas de Alison com suas crises existenciais e tentativas de se recuperar de sua tragédia pessoal.


Por que você deve assistí-la?   Paixão, desejo, amor, decepção  etc, mais silêncios inquietantes, desabafos inevitáveis e uma clara evidência de dramas dolorosos, em especial, o de Alison, personagem mais trágica e melhor desenvolvida da série e que rendeu um Globo de Ouro merecido à atriz inglesa Ruth Wilson.

 

Até o próximo MaDame Series Opina
com outras grandes séries


Avaliação MaDame Lumière 


 

segunda-feira, 16 de março de 2015

Rapidinhas no MaDame: Um amor de vizinha ( And So It Goes ) - 2014

Rapidinhas no MaDame:
Porque o que importa é o prazer da Cinefilia






Sobre a história: Oren Little (Michael Douglas) é dono de um condomínio no qual mora e costuma ser antipático com seus vizinhos e inquilinos.  Após perder a esposa e ter um relacionamento distante com o seu único filho, ele tem uma grande surpresa ao conhecer a sua neta Sarah (Sterling Jerins). Com a vinda de Sarah, ele e sua viúva vizinha Leah (Diane Keaton) ficam mais próximos.



Opinião Geral sobre o filme:   Embora o filme tenha um título mal traduzido para o português que não dá uma boa dimensão da história, a nova comédia sob a direção de Rob Reiner é uma doce surpresa. É uma história sobre segunda chance não só para o amor maduro entre duas pessoas que ficaram viúvas mas também uma chance para reconstruir o relacionamento familiar.  O diretor tem experiências em comédias românticas assim como Michael Douglas e Diane Keaton têm carisma e habilidade humorística, o resultado é uma comédia que ganha muito mais pela leveza de não problematizar as relações amorosas como se fossem adolescentes e idealizadas e passa a abordar naturalmente uma potencial relação madura. O roteiro tira mais o foco no casal e o coloca na mudança comportamental de Oren Little, um homem que, seja por medo,  por orgulho,  por decepção pela morte da esposa ou demais motivos, se fechou para o amor e para a família. Ele apresenta um mal humor e atitude antissocial. Aos poucos, a transformação ocorre, mesmo que ela seja simplista sob os moldes de um roteiro mediano . Nesse filme,  não há um roteiro e nem uma direção como o de Harry & Sally - feitos um para o outro ou O primeiro amor (Flipped), boas comédias românticas de Rob Reiner, por outro lado o que importa valorizar aqui é observar as experiências  do diretor  e dos atores no gênero em tornar a atmosfera da comédia agradável, além de trazer uma lição de vida sob a perspectiva familiar. Rob Reiner aparece em cena e entra na diversão. Com Um amor de vizinha, ele contribui  para o hall das comédias recentes e ligeiras para o público mais velho.



O desprazer:  A personagem de Diane Keaton tinha melhor potencial de desenvolvimento do papel. Ela é uma grande atriz de comédia e merecia um destaque maior. O roteiro também poderia ser melhor explorado nos diálogos entre ela e Michael Douglas  e perde sua força quando apela para conversas mais rasas.


Por que vale a rapidinha?  Por ser um filme sobre segunda chance e com Michael Douglas e Diane Keaton. Ver a atriz cantando, dando o seu simpático sorriso e mostrando a sensibilidade da personagem já é um amor.
 
 
 




Ficha técnica do filme ImDB Um amor de vizinha

domingo, 15 de março de 2015

MaDame Series Opina: Orange is the new Black - 1ª Temporada (2013)

MaDame Series Opina
O momento fora de série
sobre Seriados de TV
por MaDame Lumière



 

Sobre Orange is the new Black - 1ª Temporada Orange is the new black é uma série americana do gênero comédia dramática, baseado no livro  Orange is my new Black, my year in a women's prison, de Piper Kerman. Criada em 2013 por Jenji Kohan e exibida pelo canal streaming Netflix, a série ocorre em uma prisão federal no qual Piper Chapman (Taylor Schilling), uma jovem bonita e bem educada, é presa por ter participado de um transporte de dinheiro oriundo do tráfico de drogas. Após ser denunciada pela ex-namorada Alex Vause ( Laura Prepon), ela vê o seu mundo mudar completamente. Com histórias marcantes e sensíveis de outras detentas e uma diversidade de etnias, procedências e experiências de vida, a série mostra o dia a dia da prisão, como sobrevivem, como se ajudam, se defendem contra abusos e injustiças e o que as levou a cometer os crimes.





Opinião Geral:  Essa série é incrível por variados motivos, dentre os quais um dos mais importantes é a sua perspectiva humanizada através de um senso de humor negro equilibrado com histórias reais e dramáticas e roteiros bem escritos e dinâmicos. A intenção da série não é mostrar a violência extrema e um clima pesado em uma prisão federal feminina, mas usar o gênero da comédia para contar grandes histórias de uma forma mais suave e não menos eficaz. É como utilizar o humor para falar de coisas sérias.

Por mais triste que sejam as realidades vivenciadas por essas mulheres,  a série se destaca pela sua articulação narrativa de conciliar humanidade com a diversidade das histórias, demonstrando que todos erram e todos são imperfeitos, até nas ditas "melhores famílias" como a de Piper Chapman, uma mulher inteligente, bonita e de nível cultural mais elevado. Mesmo sendo "bem nascida", ela foi condenada por cometer uma ação ilegal. Pagará por isso e essa fase lhe trará maturidade, assim como para as demais personagens afinal a série não oculta o quão agressivas  elas  foram e podem ser. Ao invés de criticar e estigmatizar a mulher presidiária, a série mostra que elas são como qualquer um, seres humanos.  Como ocorre nos históricos de muitas presidiárias, muitas da série foram parar na prisão por motivos muito recorrentes e normalmente movidos por emoções, contexto e condição sociais ou  más companhias  como roubo, drogas, vingança etc.


Embora Chapman seja uma protagonista essencial, a série tem outra excelente qualidade: todas as personagens têm protagonismo. Cada uma tem um estilo, uma origem, uma história, defeitos e qualidades. Podem ser perigosas em um momento e  oferecer ajuda e se arrepender por uma atitude em outro. Essa dinâmica comportamental é muito interessante e, em momentos chave, ela é comovente e realista. A construção da narrativa é eficiente ao alternar presente e passado entre planos e focar em alguns personagens por episódios, dessa forma, é exatamente essa diversidade de pessoas, histórias e grande elenco que faz Orange is the new black ter uma voz própria dentre as séries atuais. As mulheres precisam sobreviver ao período de condenação e , mesmo com suas diferenças, elas se entendem e aprendem sobre a convivência.  Elas são personagens muito cativantes, divertidas e autênticas e todas têm a oportunidade de cativar o público , com destaque para a  Taystee (Danielle Brooks),  Suzanne "Crazy Eyes" ( Uzo Aduba) e Sophia Burset (Laverne  Cox).


O crime está lá, os comportamentos hostis também e, inclusive, a hierarquia entre as presas e o abuso das autoridades. Essa prisão é um sistema  e ela tem um forma de funcionamento que fornece mensagens ao público. Há grupos de negras, latinas, brancas. Há tráfico de drogas e corrupção. Há mortes, brigas e intrigas. Há sexo, romance, mágoa e solidão. Essa riqueza de detalhes colocados em roteiros muito bem amarrados entre episódios e excelente edição oferecem uma série que não promove só o riso pelo riso, pelo contrário, faz o público pensar sobre como é a experiência e vida dessas mulheres.


Contra(s): Seria bom explorar mais as personagens ligadas às autoridades da prisão, que não são tão fortes como as detentas. Ainda que o foco sejam as mulheres presas, explorar as situações de confronto entre elas e quem comanda pode mostrar ao público outras camadas dos conflitos e desafios encontrados nas prisões femininas.


Cena(s) imperdível(is):  Cena com Taystee (episódio 9), entrevista de Larry no rádio e emoções provocadas nas detentas (episódio 11) e apresentação musical e cena final da temporada  (episódio 13).


Por que você deve assistí-la?  a comédia tem frescor e um mood agradável mesmo tratando assuntos sérios de forma mainstream, o elenco é de primeira e divertido e as histórias são tratadas com humanidade e com camaradagem.

 

Até o próximo MaDame Series Opina
com outras grandes séries


Avaliação MaDame Lumière 

sábado, 14 de março de 2015

Minhas tardes com Margueritte (La tête en friche) - 2010





A Arte  em variadas formas de expressão é uma maneira de aproximar as pessoas. Aquela puxada de assunto  sobre um filme, uma música ou um livro, espontânea e descontraída,  pode ser um grande passo inicial para uma amizade, para desenvolver uma empatia ou carinho muito especial por alguém, para descobrir mais de si e do outro. Minhas tardes com Margueritte ( La tête en friche) é um desses exemplos que conectam as pessoas. O longa de Jack Becker  traz o experiente e excelente ator Gérard Depardieu e a encantadora Gisèle Casadesus em um encontro inesperado quando em vespertino momento de descanso, eles começam a conversar em uma praça.  
 
 
 
 
 
Ele é Germain Chazes, um homem iletrado, provinciano e com um passado de rejeição na família e na escola; ela é Margueritte, uma senhora solitária que vive em um asilo de idosos e aprecia a Literatura de grandes escritores como Camus e Sepúlveda. As tardes de leitura e agradável companhia mudam a vida de Germain em uma comovente conexão com Margueritte através do poder das palavras. A Literatura os une e inspira Germain a se interessar pelos livros, mas também se apresenta como  afinidade e  meio de comunicação com a simpática senhora, a qual ele aprende a amar.
 
 
 
 
 
Esse filme é sobre amizade de duas pessoas que são solitárias e que têm níveis de educação diferentes. Cada uma à sua maneira tem o seu valor. Nisso está sua primordial beleza, em especial nos gestos, sem julgamentos ou preconceitos. Nesse contexto, a eficiência do roteiro é aproximá-las e explorar a emoção  espontânea e transformadora que demonstra o amor que as pessoas sentem e nem sempre sabem como dizê-lo. Ele absorve o poderoso valor de que, por trás de uma pessoa de pouca educação formal, pode ter uma alma caridosa e muito mais educada que tantos outros que carregam um diploma. Isso fica mais claro à medida que a história evolui e usa outros elementos como a camaradagem dos amigos e a atitude de uma mãe. No geral, essa delicada maneira de expor o valor de Germain, que é o centro da história, torna o filme imperdível. Com a experiência cômica e dramática de Gérard Depardieu, a personagem é um homem comum e imperfeito e, apesar de todas as suas tristezas e inseguranças, ele é divertido, bondoso e sábio.
 
 
 
 
 
 
Um dos pontos altos do Cinema realizada pela França são suas comédias dramáticas que encontram graça até mais na mais triste cena, como aqui são mostrados bullying e descaso familiar com os idosos, temas atuais e que não chegam a ser muito explorados porque a intenção é usá-los com um foco mais amplo das vivências das protagonistas. A narrativa tem cortes para situações passadas de Germain no qual ele é humilhado para reforçar a sua dramática história de vida.  Embora não seja o foco explorar esses temas e os coadjuvantes, a história promove uma reflexão ao trazer personagens que não seguem o "padrão" de beleza, juventude e família integrada que a sociedade de "aparências" tanto promove. Esses protagonistas desenvolvem o que é mais importante na vida do que meras relações por interesse: conexão autêntica entre pessoas e com o toque de afinidades que dá espaço para o desenvolvimento dos relacionamentos.
 
 
 
 
 
 
Com a presença iluminada de Gisèle Casadesus, uma verdadeira e gentil dama em cena, contemplá-la na tela é uma honra. Com sua energia solar ao contracenar com Depardieu, é perceptível que a Educação está além dos livros, está no comportamento, na maneira de lidar com os outros. A atitude dela com ele, ao apresentar o mundo literário é como lançar para o universo o bem que pode ser feito às pessoas e, de alguma forma, isso tem um bom retorno na vida. O filme deixa a alma leve com essa atmosfera adorável entre ambos, com  textos literários que falam pela história e com a reviravolta do roteiro que demonstra a nobreza de espírito e de atitude de Germain. Tanto ele como Margueritte evocam a genuína amizade que nasce do inesperado e que não se preocupa com idade, nível cultural e educacional, aparências etc. O resultado é um desfecho emocionante  que mais gestos do que palavras podem expressa-lo.
 



 
Ficha técnica do filme no ImDB Minhas tardes com Margueritte

quinta-feira, 12 de março de 2015

Simplesmente Acontece (Love, Rosie) - 2014






Rosie Dunne (Lily Collins) e Alex Stewart (Sam Claflin) são amigos e confidentes desde a infância. No período do colegial, começam a sentir um afeto mais amoroso um pelo outro, porém seguem caminhos diferentes. Rosie é uma jovem bonita e com potencial que deseja estudar Turismo e abrir seu próprio hotel, ele tem o sonho de estudar Medicina, porém um acontecimento na juventude de Rosie traz novas responsabilidades e a distancia de Alex que viverá em outro país. Dessa forma, essa história é mais um romance com um leve apelo dramático que uma comédia romântica. 
 
 
 
 

 
 
Simplesmente Acontece é baseado em romance da escritora irlandesa Cecelia Ahern,  conhecida por P.S. eu te amo que foi adaptado para o Cinema em 2007 e estrelado por  Hilary Swank e Gerard Butler.  As protagonistas de seus romances são mulheres que  têm que lidar com alguma mudança pessoal que afeta o rumo de seus destinos. A ficção da autora gira em torno do gênero chick-lit, cômico ou levemente dramático, amplamente bem vendido como best seller e com público mais jovem como target, no qual as mulheres passam por desafios pessoais e profissionais. Normalmente envolvem relacionamentos frustrantes, amores não correspondidos e desencontros. A diferença é que Cecelia Ahern costuma ter mais romances dramáticos e seguir a tendência emotiva de Nicholas Sparks.
 
 
 
 
 
 
 
É basicamente um filme sobre encontros e desencontros na passagem do tempo e de como romances são adiados porque as pessoas não se comunicam, não expressam o que sentem para ver no que vai dar. Apesar do longa usar fórmulas românticas tradicionais e ter um roteiro prolixo, bem diferente da criatividade de E se?  que também aborda amigos que se apaixonam; o que torna Simplesmente Acontece empático é trazer algo que acontece de forma muito comum: amor entre amigos. É uma situação difícil de lidar pois ninguém quer perder a amizade e seu valor. Com isso, o filme faz coro a quem diz que, antes de um grande amor, vem uma grande amizade. O desencontro amoroso de ambos está relacionado àquela velha e triste questão de tomar decisões sem ouvir o coração, ocultar sentimentos e deixar de vivenciá-los em uma potencial relação.
 

O longa começa bem e promissor com uma provável atmosfera cool e indie  (fotografia, falas, elenco inglês) mas depois o roteiro não é objetivo, usa clichês sem desenvolvê-los e dá muitas voltas (idas e vindas de Alex e Rosie) sem agregar muito valor  narrativo  aos diálogos e aos problemas da relação. O roteiro não aproveita bem o longo tempo da narrativa, ou seja, ele coloca vários acontecimentos da vida de Rosie, em especial, que dariam um bom material para desenvolver a história mas não os aproveita para explorar os relacionamentos e as personagens. Com esse roteiro, poderia ter tido uma edição mais objetiva, cortando 20 minutos da duração para melhorar o resultado.
 
 
 
 
 
 
 
Tanto Lily Collins como Sam Claflin têm química e são abençoados pela beleza  das terras do Reino Unido, um dos atrativos do longa. Eles têm potencial de crescimento na carreira, no entanto têm que saber escolher os próximos papéis com cuidado tal que possam ser melhor desenvolvidos pela direção de atores. Lily Collins tem a doçura, simpatia e fotogenia. A câmera parece adorá-la. Sam Claflin pôde demonstrar um personagem mais simpático e romântico em comparação ao mais frio de Jogos Vorazes.

 
É um filme otimista, apesar das escolhas feitas pelos protagonistas. As coisas simplesmente acontecem e há esperança no amor, mesmo que uma década se passe, deve haver alguma chance de felicidade afetiva quando percebemos que a vida está nos dando uma nova oportunidade. Faz também a gente pensar sobre palavras que não são ditas quando sentimos algo especial por alguém e como as nossas escolhas impactam nossa vida. Além disso, tem o charme Britânico, sempre imperdível.
 
 
 
 
Ficha técnica no ImDB Simplesmente Acontece

terça-feira, 10 de março de 2015

Assédio ( Besieged) - 1998


 
Esta crítica menciona alguns discretos detalhes de cena e mostra imagens de planos, necessários para exemplificar características de linguagem cinematográfica empregadas por Bertolucci.
 
 
 
Por Cristiane Costa
 


Bernardo Bertolucci é um diretor que gosta de experimentar novas formas de realizar seus filmes explorando a linguagem cinematográfica , a fusão de elementos como a música, o som, os movimentos e enquadramentos de câmera com o intimismo das personagens, em especial, o desejo e sentimentos que quebram regras convencionais e saem do lugar comum.  Com seus clássicos  como O último tango em Paris e Os sonhadores,  Bertolucci tem trabalhado intensamente na experimentação da linguagem cinematográfica como uma manifestação artística diferenciada em seus longas, Assédio (Besieged) é um deles. Reconhecido como um abrangente e autoral exercício de linguagem no Cinema, normalmente o filme está presente em aulas  e artigos científicos que exploram sua riqueza de direção cinematográfica.
 
 
 
 
Thandie Newton é Shandurai, Africana exilada na Itália.
Personagens femininos de Bertolucci costumam entrar em processo de libertação.
 
 
 
A história é sobre o despertar do amor e do desejo entre Shandurai (Thadie Newton), uma bela exilada Africana e estudante de medicina na Itália e o italiano compositor musical  e professor de piano Jason Kinsky (David Thewlis) . Após Shandurai ver o seu marido, um professor de escola primária,  ser preso na África por um ditador local, ela vive seu exílio particular com a esperança de ver o esposo livre. Ela torna-se empregada doméstica na casa de Kinsky e o patrão se apaixona por ela envolvendo ambos no desabrochar da relação. Shandurai fica dividida entre a paixão e sua condição de esposa.
 
 
Esse filme funciona como um ritual de sedução no qual os elementos da linguagem cinematográfica  são conduzidos de forma a explorar a descoberta da paixão e do desejo e, com ela, a câmera inquieta de Bertolucci é parte muito ativa no processo criativo  e testemunha o turbilhão de emoções dos protagonistas. Sendo Shandurai uma mulher casada, dependente financeiramente de moradia e trabalho na casa de Kinsky e uma mulher que é desejada pelo patrão, a sedução de Kinsky é um assédio e a coloca em uma situação delicada para qualquer mulher; porém sob a direção de Bertolucci, bom entendedor do desejo no Cinema, esse assédio não se torna invasivo e imoral, pelo contrário, ele é a mola propulsora do romance. Kinsky sabe deixar Shandurai em paz e à vista, o que é um comportamento muito mais sedutor e eficiente para a história. Cabe bem mais a ela escolher o seu destino amoroso.
 
 
 
 
 
 
Uma bela história de amor construída a partir de contrastes
e do desabrochar do desejo
 
 
 
 
De uma maneira muito intensa nos movimentos e enquadramentos da câmera, o diretor não deixa nada passar desapercebido. É indiscutível a dedicação de Bertolucci à decupagem com controle na direção em Assédio. Shandurai se envolve no mundo de Kinsky não somente ao limpar a sua casa com cuidados, profissionalismo e responsabilidade mas principalmente em apreciar a cultura desse homem tão introspectivo e misterioso, de pele alva e diferente de sua etnia; aqui Bertolucci envolve o espectador em um potencial romance inter-racial e todos esses aspectos são libidinosos e atrativos. De uma maneira muito natural, o público é provocado a torcer pelo casal e sua felicidade e faz parte do jogo voyeurista de observar a sedução.


Além das diferenças econômicas e étnicas na história, o romance tem um engajamento político e libertário e evoca o amor e o desejo sem limitações impostas pela sociedade. Não deve ser visto com olhos acusadores de que Bertolucci resolveu realizar um filme no qual o patrão branco  se envolve com a empregada negra. Na contramão desse pensamento, Bertolucci tem certos cuidados narrativos para não estigmatizar esse longa  e  está se referindo a um filme sobre o amor e o desejo e, acima de tudo, uma realização com apurado senso estético e de poderosa linguagem cinematográfica à serviço do explorar das relações humanas.
 
 
 
 
 
 
Cortes entre planos nos dois protagonistas com presença de expressiva música tocada
no piano por Kinsky: um sedutor jogo de comunicação entre eles.
 
 
 
O diretor usa bastante a música como um dos componentes que conecta os dois apaixonados. Shandurai não perde suas raízes africanas e se vê dançando e cantando os ritmos de sua Terra, enérgicos, alegres, descontraídos e embalados por batuques. Kinsky a observa e fica fascinado. No contraponto, ela se perde no próprio foco na obrigação de doméstica e pára o seu mundo por alguns instantes por Kinsky, ela o ouve tocar sublime música clássica no piano e cede às emoções pouco a pouco.  O interesse pelo mundo do outro e  o desejo são crescentes, assim como os consequentes conflitos.  Em algum dos momentos mais fascinantes desse intocável flerte, ela se sente tão atraída e ao mesmo tempo tão apavorada pelos sentimentos que diz " Eu não entendo a sua música".  Ele também tem repentinos ataques passionais na ânsia de possuir o seu amor, no desespero de que ela atenda o  seu "Por favor, me ame!".
 
 
 
 
A construção de uma sequência de teor passional:
Câmera inquieta mimetiza as emoções da cena em
excepcional exercício de linguagem cinematográfica.
 
 
 
Assédio é um belíssimo filme na sua linguagem cinematográfica, construído com fortes contrastes e aproximações entre dois mundos pessoais bem diferentes. Em uma das construções de  planos chave, Shandurai sobe a escada e se aproxima de Kinsky, que está tocando uma linda música. A câmera testemunha os passos dela, sua decisão por uma aproximação mais pessoal. Em seguida, essa paz da música clássica é interrompida com um conflito verbal e fisicamente impactante que joga para o público um intempestivo momento de confissão e desilusão amorosas. Esse momento do filme é essencial para compreender como Bertolucci entrega um registro autoral de sua direção com forte habilidade de usar a linguagem cinematográfica como expressão de emoções.
 
 
 
 
O desejo é explorado com outras estratégias de construção de planos como
enfocar as reações de Shandurai em diversos momentos.
Ela é a protagonista principal e quem tomará a decisão sobre esse amor.
 
 
 
No geral, a linguagem empregada não é fácil até mesmo para o resultado da montagem, que é fantástica. Essa direção tende a incomodar porque é visualmente inquietante como corpos que se desejam mas não podem se tocar. A todo o momento, a câmera é muito mais que um guia, ela catalisa o desejo em permanente construção da narrativa.  Bertolucci realiza enquadramentos de variados tipos, explora bem o espaço da casa de Kinsky, onde se passa grande parte da história, com diferentes usos de luz e movimentos de câmera, utiliza a música como uma  personagem e entrega com grandiosidade um dos planos sequências mais intimistas de sua filmografia.
 
 
 
 
Tipo de enquadramento a partir de cima :
escada no prédio da casa de Sr. Kinsky. Shandurai no térreo.
 
 
 
Como  aprendizagem a respeito dessa história de amor e desejo, a relação entre Shandurai e Kinsky está acima da relação  convencional empregada x patrão, o que torna o filme dolorosamente dramático. Seria cômodo se o roteiro optasse por uma história de amor facilmente digerível , no entanto, Bertolucci gosta de provocações e, certamente, mais dos meios narrativos do que só os fins das histórias. Os protagonistas  aprendem a conviver um com o outro sem abandonar os sentimentos por mais sofrimentos que eles tragam.  Esse tênue intimismo bem conduzido pela direção de atores de Bertolucci é um traço positivo na experiência com o longa.  Newton e Thewlis não têm um química intensa como provável casal porém são suas diferenças que os tornam realistas para essa história de amor. São  pessoas exiladas em seus próprios mundos, com rotinas solitárias,  que se interessam por suas presenças, que se apaixonam.

 
 
 
 
 
 
 
 
Ficha técnica no ImDB  Assédio