segunda-feira, 1 de março de 2010

Entre Irmãos (Brothers) - 2009


O diretor Jim Sheridan (de Meu Pé Esquerdo) está de volta à cena Hollywoodiana em Entre Irmãos, refilmagem de Brode de Susanne Bier, filme dinamarquês filmado em 2004. Este remake é um drama de guerra que enfoca, além dos dolorosos desdobramentos psicológicos em um militar, questões familiares como a oposição entre irmãos de diferentes personalidades e vivências e um provável triângulo amoroso que contribue para animar a tensão entre eles. A princípio, o argumento de lançar um filme no qual um militar psicologicamente traumatizado volta da guerra e está imerso em uma realidade cotidiana na qual ele já não se adequa mais não é nada criativo no panorama cinematográfico, no entanto a oportunidade de rever Jim Sheridan na direção, David Benioff no roteiro (de Caçador de Pipas e Tróia), um elenco principal atrativo com Tobey Maguire, Natalie Portman e Jake Gyllenhaal e uma participação curta da darling do momento Carey Mulligan (de Educação) é tentadora, mais tentador ainda porque o trailer sugere um triângulo amoroso que colocará em pé de guerra dois irmãos. Somado a isso, um novo drama de guerra de complexidade mais existencial requer uma renovação do roteiro para sair do lugar comum de tantos outros filmes, será que Benioff traz uma nova interpretação das cicatrizes da guerra? Afinal nunca foi fácil avaliar o quanto uma guerra pode afetar o psicológico de um homem de forma irreversível, e principalmente, o quanto as pessoas da família são afetadas pela dor de seu ente querido.





Entre irmãos tem uma boa abordagem inicial em termos de roteiro, exatamente por criar expectativas sobre a família Cahill e o drama que lhes atingirá. Tobey Maguire é Sam Cahill, um capitão de guerra, pai de família com uma linda esposa, Grace Cahill (Natalie Portman) e duas adoráveis filhas Maggie (Taylor Geare) e Isabelle (Bailee Madison).
Ele é um excelente pai, atencioso, amoroso, bem amado, além de um oficial disciplinado, comprometido e bem avaliado. Sam é o filho perfeito. Por outro lado Tommy (Jake Gyllenhaal) acabou de sair da cadeia, gosta de se alcoolizar e de confusões, não tem emprego e nem responsabilidades familiares, tem uma péssima relação com o pai Hank (Sam Shepard) que beira a agressão verbal. Tommy é o filho imperfeito. Apesar da diferença entre ambos, ainda nota-se um respeito mútuo entre Sam e Tommy. No começo do filme, o roteiro ressalta a diferença entre eles inclusive o fato de Tommy ser um derrotado do qual nem Grace gosta. Sam retorna à Guerra do Afeganistão e após um acidente é tido como morto, no entanto ele e o soldado Joe Willis (Patrick Flueger) se tornam reféns de um grupo local extremista liderado por Ysufu (Omid Abtahi) que transforma suas vidas em um inferno. Sam e Joe são torturados e Sam é obrigado a fazer algo trágico que acompanhará o seu retorno aos Estados Unidos e traumatizará sua vida para sempre. Neste ponto do filme, o roteiro divide-se entre mostrar o drama de Sam no Afeganistão e a nova rotina de vida dos Cahill que continua mergulhada entre a dor e a superação de um luto. Grace é a viúva que sofre em silêncio, Tommy se aproxima da família e comforta a esposa e as duas filhas de seu irmão, estabelecendo uma relação bem mais íntima e inesperada, afinal Tommy, o ex presidiário tão criticado mostra que é tão bom quanto o seu irmão. Neste aspecto, o roteiro de Benioff é funcional ao inverter os papéis de Tommy e Sam. Tommy pode não ser o substituto mas como tio é a nova referência masculina para as filhas de Sam que o admiram, em especial, quando no retorno de Sam fica claro que ele já não é mais o mesmo homem. Além disso, o enredo inclue a variável da dúvida sobre a infidelidade pois Grace e Tommy se sentem atraídos um pelo outro por causa da perda e da carência e acabam trocando um beijo.






Em boa parte da película, esse roteiro é dirigido de forma a capturar
o cotidiano dos Cahill com uma série de imagens mais silenciadas pelas emoções de Grace e Tommy que vão desde uma conversa na cozinha pela manhã, um momento de diversão com as crianças em uma pista de gelo, um diálogo mais íntimo e nostálgico ao som de uma música do U2, Winter, indicada como melhor canção no GGA 2010. Sheridan se preocupa em mostrar que eles simplesmente seguem suas vidas, ainda que Grace seja emocionalmente mais complexa do que Tommy com a ausência de Sam. Percebe-se que Natalie Portman se dedica a sentir a dor de Grace, calada e sem muito melodrama. A direção de Sheridan também dá um toque mais contemporâneo ao roteiro. Não estamos falando de guerra do Vietnã e de grandes veteranos, estamos falando do drama de uma família jovem como se ela fosse a nossa vizinha. Grace é jovem, linda mulher, carinhosa e dedicada mãe, esposa fiel que não questiona o marido e essas características são ressaltadas ao longo da fita. Tommy mostra sua faceta de bom genro, tio e irmão que suporta a perda e o retorno de Sam e suas emoções não são aprofundadas. Infelizmente, o roteiro engana o espectador porque esta relação entre Grace e Tommy não se desenvolve como sugerido no marketing da película. Trailers podem ser enganosos e este é um deles, com isso, Entre Irmãos frustra pela propaganda desonesta, perde a oportunidade de esquentar os lençois de ambos e a temperatura da audiência. Apesar disso, é compreensível que o roteiro sugira um triângulo amoroso mas não o leve adiante; o argumento principal da película, embora não divulgado claramente, continua sendo falar sobre o militar que volta à casa após a guerra e impacta o dia a dia de sua família que o vê como um estranho.





Tobey Maguire, indicado como melhor ator principal Drama no GGA 2010 por esse trabalho, faz um papel que o desafia e foge completamente do teen Homem Aranha, uma oportunidade para que ele esconda a cara dele de criança e faça cara de homem maduro. Embora não entregue uma performance suprema (e sua cara continua de adolescente), ele se esforça em tornar Sam Cahill um homem surtado e que carrega uma dor em silêncio. Ele o faz razoavelmente bem porque Maguire transforma Sam em um sujeito muito estranho, que não bebe, não se droga, não bate na esposa, mas está claramente desequilibrado e confuso com relação aos sentimentos, está sofrendo um fardo muito pesado para um homem que representa o Exército Americano e a lealdade à sua Pátria. Sam é um transtornado com um misto de frieza, indiferença, dualidade, paranóia e distanciamento de tudo e de todos. Isso é um comportamento novo no Cinema de Dramas de pós-Guerra? Não, mas há uma variável para assolá-lo neste transtorno mental: Sam Cahill fez uma escolha antes de retornar à casa, uma escolha que afetaria muito mais o seu drama do que somente a tortura de talibãs, conviver com isso o desequilibra por inteiro porque é a sua consciência que o atormenta, uma sensação de esvaziamento sobre o seu próprio ofício de capitão considerando que a situação que ele vivencia foge completamente do heroísmo das Forças Armadas. O Sam, bom capitão das Forças Armadas Americanas morreu no Afeganistão como tantos militares que deixam uma parte ou tudo de si nos campos de batalha ou de tortura.





O problema de Entre Irmãos que o faz cair em qualidade à medida que evolue para o desfecho é que o roteiro deixa ao espectador a nítida percepção de ter sido finalizado antes do tempo. Não é somente uma questão cronológica de distribuição do drama em um pouco mais de 100 minutos de filme (mesmo porque existem filmes com durações menores e ainda assim coerentemente efetivos), mas é claramente o corte inesperado com a sensação de que o drama não foi explorado em sua plenitude e nem mesmo David Benioff preparou a audiência para receber este fim de forma tão imediata e sem qualquer surpreendente fim. Na minha opinião, este andamento final impactou a qualidade geral do filme impossibilitando-me de ter um apreço maior por ele. O problema não são as atuações, nem mesmo a direção (ainda que com falhas). A fotografia e trilha sonora interagem muito bem, o que garante bons momentos nestas categorias. O problema é que, considerando a mesmice de dramas traumáticos pós guerra, Entre Irmãos não desenvolveu muito o personagem de Sam Cahill a ponto de torná-lo diferenciado na cinematografia de guerra e, muito menos, sua relação com os familiares que poderia ser potencializada ainda que distanciada. A relação dele com Grace fica mais distante e ela respeita tal lacuna, o que acaba não agregando nenhuma novidade porque reforça que a guerra afeta até a relação de um casal apaixonado que começou a namorar na adolescência. Sam Cahil se mostra transtornado pelos acontecimentos de guerra, mais indiferente à esposa e as filhas e nitidamente confuso assolado pelos surtos temperamentais, mas quando o filme começa a ficar bom, eis que ele termina. A relação que dá título ao filme "Entre Irmãos" também não é bem desenvolvida, a não ser a apologia de que irmão é sempre irmão e Tommy ama Sam como sua família. Pois é, isso é esperado de irmãos quando vêem outros irmãos em crise, não é mesmo? Como não houve uma efetiva traição de Grace e Tommy, então não havia nada a mais para ser tratado no filme a não ser lidar com um Sam doente. O expectador fica entre os irmãos e Grace aguardando a próxima cena, e infelizmente ela é o the End.



Avaliação MaDame Lumière


Título original: Brothers
Origem:
EUA
Gênero:
Drama, Guerra
Duração:
104 min
Diretor(a):
Jim Sheridan

Roteirista(s): David Benioff, Susanne Bier, Anders Thomas Jensen
Elenco: Jake Gyllenhaal, Natalie Portman, Tobey Maguire, Clifton Collins Jr., Bailee Madison, Sam Shepard, Mare Winningham, Taylor Geare, Patrick Flueger, Jenny Wade, Carey Mulligan, Omid Abtahi, Navid Negahban, Ethan Suplee, Arron Shiver

15 comentários:

  1. Oi Madame, tudo bem?
    Tb estou com saudades. Vc falou em carência aqui em seu artigo. Estou carente do luxo de seus comentários. rsrs
    Sei que a vida de vez em quando dá uma agitada, normal. De qualquer maneira agradeço pelo carinho e atenção.
    Bem, sobre o filme, ainda não vi. Mas estou ansioso para ver esse trabalho. A bem da verdade, Jim Sheridan vem vacilando ultimamente. Mas pelo que vc falou aqui, foi mantido o escopo do filme original. Então a culpa não é dele, nem de Benioff.
    Quanto aos trailers. É isso mesmo. Tem que saber vender não é mesmo?!rsrs

    Beijos

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  2. Olá!

    Tua postagem me fez lembrar que preciso ver outros trabalhos do Jake, gosto dos trabalhos dele.
    "Entre irmãos" me pareceu muito bom! acho interessante a maneira como você expõe os trabalhos recentes e o olhar sobre eles.

    Boa semana, bjs.

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  3. Pude perceber que o final é "brochante". Mas a única crítica positiva que eu ouvi por ai é a atuação de Tobey Meguire. Ele será visto com mais seriedade, com certeza!

    Quando vi o trailer eu fiquei com o pé atrás, pois este só tratou da suposta traição. Minhas dúvidas se confirmaram. Faltou desenvolvimento como eu imaginava mesmo.

    Mas acontece!

    Bjos!

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  4. Madame... Eu fiz uma pequena confusão entre contas do gmail, creio eu. Se uma emily tiver postado algo aqui, fui eu. Por algum motivo desconhecido o gmail de minha pequena prima estava aberto aqui.

    Bjos!

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  5. Madame, gostei desse filme um pouco mais do que você, mesmo reconhecendo todos os seus clichês.

    Também acho que a performance do Tobey Maguire não foi algo supremo, mas certamente foi o melhor trabalho dele até o momento.

    Bjs.

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  6. Madame,

    eu estava mais entusiasmado para ver este filme.
    Mas entendo a sua classificação.

    Bom ainda quero ver..e como o Tobey Maguire está magrinho, rs!

    BJS!

    p.s. achei um luxo o seu musas do cinema!

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  7. Fui perdendo a expectativa por esse aí, a cada crítica negativa que lia. Com a sua não foi diferente. Vi o original, de Susanne Bier, e lembro de ter achado incrívelmente forte (o que não quer dizer necessariamente que foi ótimo).

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  8. Oi Reinaldo,
    Tudo bem! Então estamos carentes um do outro (rs). Está acontecendo mesmo e isso só comprova que construímos uma amizade que começou com nossa grande paixão, o cinema. Isso é tão bom!
    Obrigada por adicionar sua percepção que o trabalho de Sheridan se manteve no mesmo escopo. Também penso assim!
    bjs

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  9. Olá, Renato

    Obrigada por reconhecer a forma como reflito sobre o cinema. O Cinema está a serviço de uma reflexão mais intimista , a meu ver e, que no final, sirva para a coletividade. bjs

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  10. Oi Emily,
    Obrigada pela tua visita. Também gostei de ver Tobey se arriscando em papéis mais sérios. Deve ser difícil para ele tirar a imagem de Homem Aranha e, principalmente, passar uma credibilidade mais madura com a cara de criança que ele tem.
    Bjos!

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  11. Rapha,

    hahaha... acabei de responder a sua prima haha..., ou melhor, você disfarçado de prima.
    Obrigada por avisar-me! bjs

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  12. Bruno,
    Eu queria ter gostado do filme mais mas penso que o elenco o ajudou muito a ser um filme a ser avaliado, afinal, melhor isso do que cair no esquecimento total.
    bjs!

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  13. Rodrigo, meu vizinho rsrs

    Espero que tenha assistido e gostado do filme. Ele está magricelérrimo... e eu gosto de uma carninha e um musculinho (snif, snif)haha... por isso Jake Gyllenhaal é mais meu tipo, pelo menos, neste filme.
    Bjs!

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  14. Oi Wally,
    Também acho que a crítica negativa foi algo geral, quando se tem um elenco como este e um marketing enganoso, a expectativa é que o filme arraso. Sheridan deixou bem a desejar, por isso a versao de Bier é superior. bjs

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  15. Amei , vi este filme em pleno 2016 e pra mim é quase tudo perfeito, tirando o fato que eles cortam muito as cenas e tudo fica meio vago, nao entendi se ela ficou com o marido ou com o irmao no final, apesar que ele conta tudo '-'sei la kkk

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