sábado, 27 de março de 2010

O Leitor (The Reader) - 2008






O inglês Stephen Daldry, diretor do excelente O Leitor, filme com uma ótima receptividade por parte das indicações em premiações do ano passado(só no Oscar 2009 foi honrado com 5 indicações e rendeu o prêmio da Academia de melhor atriz à também britânica Kate Winslet) é o diretor dos dramas contemplativos, reflexivos e degustativamente dramáticos; encabeçam também seu currículo As Horas e Billy Elliot, o que demonstra que ele é um diretor que aprecia um conteúdo cinematográfico inteligente e ainda consegue ser reconhecido recebendo indicações de melhor diretor por seus trabalhos.






Adaptado da obra de Bernhard Schlink, O Leitor é um longa-metragem peculiar em função do roteiro denso e soberbo em termos de conflitos existenciais, enfocando a questão da vergonha a qual julgo a mais relevante e interessante para dar a base do drama, além disso traz questões relacionadas ao Holocausto, à iniciação sexual de um jovem por uma mulher mais velha, à culpa, ao perdão, ao arrependimento, ao medo e uma série de feridas que são desdobradas a partir do romance de Hanna Schmitz (Kate Winslet) e Michael Berg (David Kross, formidável) em uma ambientação pós guerra. Retratado nos anos 50, após o fim da Segunda Guerra Mundial, o filme relata a história do adolescente Michael e da experiente Hanna que se envolvem amorosamente e sexualmente em uma Alemanha em reconstrução. Hanna é uma mulher solitária, isolada e estranha e acaba ajudando Michael quando este adoece, a partir daí, entre uma transa e outra, ele lê as obras clássicas para ela e, como em uma relação de troca, ela ensina a ele a arte do sexo. Michael é praticamente um adolescente inexperiente, então Hanna acaba se tornando sua grande paixão, seu primeiro amor. Repentinamente, ela desaparece da vida de Michael deixando-o devastado e somente anos mais tarde eles se encontrarão. Na ocasião, ele como um aluno de direito e ela no banco dos réus acusada de ações coniventes com o Nazismo.





O Leitor tem uma grande sacada exatamente no reencontro de ambos, e tal reencontro é acompanhado de inéditas revelações e muita dor, raiva e tristeza por parte de Michael que praticamente foi abandonado e não conseguiu esquecer de Hanna nem mesmo perdoá-la. Sendo um aluno de direito e descobrindo uma verdade que pode inocentar Hanna, ele se cala e este silêncio é um dos pontos altos do drama do Michael Berg mais velho interpretado por Ralph Fiennes que conviverá com isso durante os anos em que Hanna ficará presa e demonstrará o teor ambíguo de suas emoções. Do outro lado, Hanna é a mulher "da vergonha" que silencia o que a envergonha. Ela prefere ser condenada e apodrecer na cadeia do que revelar a verdade, logo O Leitor tem uma tensão entre Michael e Hanna, misturando questões éticas com sentimentais e existenciais. Sem dúvidas, a personagem de Kate Winslet é bem complexa porque não se deixa abater por uma vida solitária e muito menos pela vergonha que esconde. Ela é batalhadora e orgulhosa, mas não tem o orgulho da arrogância, o orgulho dela é muito mais voltado a manter uma certa dignidade em sua vida, não ser menos que ninguém mesmo que lhe falte a educação formal e o poder aquisitivo que a poderiam ter levado a uma posição melhor. Por isso, Kate Winslet, com sua competência como atriz, foi privilegiada por este papel e honrou o merecimento com uma excelente atuação cheia de nuances comportamentais. Na fase mais final do filme, Hanna dá um espetáculo de força de vontade para cobrir uma lacuna que simbolizava sua própria vergonha.






Embora o filme perca mais na ação à medida que a fita avança, O Leitor é um drama muito bem dirigido e com um elenco de primeira, em especial, a atuação do jovem David Kross que interpreta muito bem o drama do jovem inocente que descobre o amor e, logo mais, tem sua decepção amorosa que o assombrará mais tarde. Além disso O Leitor tem o louvável aspecto de ser bem reflexivo sob o ponto de vista do silêncio e da vergonha que calam indivíduos em um ambiente de guerra e que têm desdobramentos em um cenário de pós guerra, mesmo na esfera pessoal. É, acima de tudo, um filme de impacto existencial e que faz pensar como alguém agiria no lugar dos protagonistas porque polemiza conflitos morais e traz fantasmas que amedrontam indivíduos feridos pela vida. O filme consegue misturar o silêncio e a vergonha que não são só reflexo de uma sociedade que viu nazistas matando inocentes e fechou os olhos e os lábios para tais atrocidades, mas acaba sendo a base do tenso drama pessoal de Hanna e Michael, por isso o roteiro cobre aspectos do Holocausto e das cicatrizes de uma sociedade pós guerra e os coloca não abertamente no nível coletivo e histórico mas traz estes elementos para a esfera de um casal que foi apaixonado, separado, machucado, envergonhado. Esse enfoque possibilita dizer que O Leitor tem uma nova leitura sobre o Holocausto que não deixa de chegar ao espectador, porém não o chega de forma a filmar campos de concentração, torturas e assassinatos em cena, mas o Holocausto de vidas que são separadas e silenciadas para sempre, vidas que deixam de viver suas próprias vidas, como as de Hanna e Michael.


Avaliação MaDame Lumière


Título original: The Reader
Origem: Alemanha
Gênero: Drama
Duração: 123 min
Diretor(a): Stephen Daldry
Roteirista(s): David Hare, Bernhard Schlink
Elenco: Ralph Fiennes, Jeanette Hain, David Kross, Kate Winslet, Susanne Lothar, Alissa Wilms, Florian Bartholomäi, Friederike Becht, Matthias Habich, Frieder Venus, Marie-Anne Fliegel, Hendrik Arnst, Rainer Sellien, Torsten Michaelis, Moritz Grove

4 comentários:

  1. é um filme bacana, que mostra todo o talento da kate winslet...

    tb achei que o garoto trabalhou bem.

    Mas acho que é um filme que vai cair no esquecimento bem rápido!

    bjos.

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  2. Oi Bruno, fiquei curiosa para saber porque você acha que O Leitor cairá no esquecimento.

    Penso que O Leitor, por não ser um filme comercial, ser longo e com várias camadas, não cai no gosto de qualquer pessoa, então ele já começa em desvantagem sob o ponto de vista de ser lembrado.

    bjs

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  3. Para mim um dos grandes filmes de 2008. Discute a culpa alemã, tonifica a importância do primeiro amor, ilumina a como a maldade pode ser perpetrada pela vergonha, entre outras coisas. Filmaço! Mais um que faz ser absurda a vitória de Quem quer ser um milionário?

    Dado curioso: Stephen Daldry é simplesmente o diretor de melhor aproveitamento em termos de indicação ao Oscar. Com três filmes no currículo ele foi indicado ao Oscar de direção pelos três. E, no que surpreende ainda mais, todos no espaço de uma década. Ninguém conseguiu esse feito e dificilmente conseguirão igualá-lo.
    Bjs

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  4. Oi Reinaldo,
    Também concordo,O Leitor é um dos melhores filmes de 2008 e concordo plenamente sobre a abordagem da culpa alemã. Gosto da forma como esta culpa é elucidada sem retornar velhos enfoques, por isso, a idéia do leitor, do primeiro amor, do reencontro é como narrar uma história de amor que é acompanhada de vergonha, silêncio, culpa, etc... enfim, como disse, na minha percepção, o fato histórico foi levado para a esfera pessoal e ficou perfeito.

    O Daldry é excelente. Ele foi indicado mesmo a melhor diretor nos 3 filmes que dirigiu. Também penso que ele tem bom gosto e seletividade para filmar seus filmes, por isso o currículo de longas-metragem é curto porém sólido. Gosto de profissionais deste quilate.

    Bjs

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