sábado, 31 de dezembro de 2016

MaDame Retrospectiva 2016 - atores : 10 melhores atuações


MaDame Retrospectiva 
por Cristiane Costa




Mais um ano que chega ao fim e, com ele, uma série de personagens marcantes para guardar na memória. Não poderiam faltar as listas de melhores atuações.

Essa lista tem duas perguntas anteriores à sua elaboração: até que ponto o ator entrou realmente no personagem e fez a diferença? até que ponto o personagem combinou tão bem com o ator?

Poderia listar outros atores que não estão aqui e realizaram ótimas atuações como Michael Fassbender (Steve Jobs), Ryan Reynolds (Deadpool), Ryan Gosling (Dois caras legais), entre outros, que entraram bem no papel, mas os filmes , em si, não os ajudaram.

Curta a lista e celebre o talento desses atores! Espero que gostem!




10. Juliano Cazarré em "Boi Neon"

"Simples, carismático, sedutor e viril, tudo isso funcionou bem com Cazarré na paisagem rústica. Seu personagem tem sonhos como qualquer Brasileiro e carrega uma autenticidade que conquista."



9. Vincent Cassel  em "Meu Rei"

"Cassel combina com personagens disfuncionais e passionais. Esse aqui foi feito sob medida para aniquilar o coração de uma mulher! Sua performance torna o perosnagem muito mais real e doloroso."



8. John Goodman em "Rua Cloverfield 10"

"Goodman dá ao filme uma atmosfera aterrorizante na qual parece que ninguém encontrará a saída. Perfeitamente insano e assustador!"



7 . David Thewlis em "Anomalisa"


"Atuação tão dramática cômica, crível com as frustrações do personagem,  que agiganta as infelicidades das quais nenhum ser humano consegue  fugir. Digna de piedade."



6 . Sigurður Sigurjónsson em "A Ovelha Negra"


"Sigurjónsson demonstra sua experiência com um minimalismo exato em cena, próprio de grandes atores, e ainda garante humor negro com um relação disfuncional entre irmãos."



5. Hiroshi Abe em "Depois da tempestade"

"Abe tem uma surpreendente atuação com um personagem de comportamento perdido e semobjetivo. Desperta a empatia com sensibilidade e demonstra que qualquer um tem um lado loser."



4. Bryan Cranston em "Trumbo - lista negra"


"Depois de Breaking Bad, Cranston renasceu para o estrelato. Como Trumbo, um roteirista perseguido em Hollywood, uma atuação crível e bastante segura, própria de atores em ascensão e com potencial."



3. Ricardo Darín em "Truman"


"Aqui é Ricardo Darín sendo Ricardo Darín. É exatamente isso que o valorizou nesse filme. Espontâneo e carismático, seu personagem lida com a doença e a morte com muita naturalidade e bom humor. 



2. Alfredo Castro em "De longe, te observo"


"Um personagem estranho e contraditório que desperta rejeição e curiosidade. A experiência do ator preenche várias nuances enigmáticas em seu protagonista. Revelá-lo  é um desafio que apenas os excelentes atores podem provocar na plateia."



1. Leonardo di Caprio em "O Regresso"


"Oscar mais do que merecido, mesmo com os inimigos de plantão. Uma performance grandiosa que desafiou o ator à exaustão física de seu personagem e à expressividade crua com raras palavras.  Uma atuação digna de épicos." 



Lista foi baseada em lançamentos nos cinemas brasileiros em 2016.

MaDame Retrospectiva 2016: Top 10 melhores diretores


MaDame Retrospectiva 
por Cristiane Costa



Todo ano, uma das listas mais difíceis de compor é a de melhores diretores. Por inúmeras razões que vão desde o estilo, a decupagem, a composição da narrativa x o argumento, entre outros, elencar os 10 melhores diretores é uma tarefa árdua mas incrivelmente gratificante. 

Relembrar cada plano, o quanto o(a) diretor(a) ousou na estética, buscou referências e um contexto significativo, deu voz ao filme e converteu seu talento em uma orquestração de todos os elementos da narrativa, elenco e contação de histórias é ter o privilégio de agradecê-los por experiências cinematográficas fascinantes.


Deixo aqui a lista do top 10 do MaDame, bastante eclética, por sinal, desde documentaristas a diretores que estão em evidência e outros que voltaram à cena cinéfila com filmaços. 

Não há como negar: amo os diretores e suas equipes por fazer o cinema acontecer.




10. Ava DuVernay, A 13ª emenda (13 th), Netflix


"Ava tem iniciativa, coragem, talento e militância. Em a 13ª emenda, ela mostra uma excelente articulação entre história do sistema judicial criminal dos USA e a criminalização dos negros, tudo isso como uma diretora de primeira grandeza e que tem o que relevar à sociedade."



9. Jose Luis Guerín, A Academia das Musas 


"Guerín apresenta ao público uma belíssima jornada à beleza, às Artes e à natureza humana ao explorar as fronteiras entre a ficção e a realidade. A tela irradia com novos caminhos para o desejo, o sonho e a reflexão sobre a existência e o fazer artístico."



8. Todd Haynes, Carol (Carol)


" Haynes apresenta uma direção refinada  com um belo retrato do amor entre duas mulheres em uma sociedade conservadora. Seu mérito está em compor uma narrativa de penetrável sensibilidade e um valoroso trabalho de direção de atores e composição da época."






"O ingresso de Vigas na direção que encantou o Festival de Veneza está em sua segura habilidade ao dirigir uma história compacta que permanece na mente por dias. As atuações expressivas e a intensa atmosfera de tensão sexual e desconfiança entre os protagonistas convergem para um drama contundente."






"McCarthy realiza um drama redondo, da concepção à entrega final. Um elenco grande, com personagens com voz própria e sinergia entre eles, um tema polêmico e moderno, um roteiro que se desdobra em uma investigação jornalística, todos esses elementos cooperam e atuam juntos com a excelente orquestração do diretor."



5. Alejandro Gonzalez Iñarritu, O Regresso (The Revenant)


"Iñarritu tem um grande parceiro: seu diretor de fotografia Emmanuel Lubezki que responde por parte considerável do seu êxito como diretor. A junção entre a natureza crua e distante, a visceral e violenta natureza humana e o trabalho dos dois elevou consideravelmente a grandeza do filme."



4. Paul Verhoeven, Elle (Elle)

"Verhoeven não perdeu a mão e nem a identidade em suas ousadias cinematográficas. Desejo, violência e sexo estão na superfície de Elle, mas o diretor faz a diferença na direção ao entrar na mente do público, aprofundar o impacto do filme em cena e despertar as mais obscuras sensações."



3. Denis Villeneuve, A Chegada  (The Arrival)

"Villeneuve arrisca uma combinação de drama e ficção científica e acerta em cheio com a criação de uma ambientação sci fi enigmática. Como um dos grandes diretores modernos, demonstra sua versatilidade em trabalhar o estranhamento, o suspense e as emoções escolhendo falar sobre a comunicação e sua relação com a evolução, a humanidade e o tempo. " 




2. Hirokazu Kore-eda, Depois da tempestade 
(Umi yori mo mada fukaku)

"Kore-eda não se esquece dos dramas familiares. Nisso está a sua força e notória habilidade como diretor. Aberto à sensibilidade e a como os seus personagens se deslocam no tempo e nas mudanças das relações, o cineasta entrega uma excepcional direção que passa pela transformação das famílias modernas e a necessária condição de seguir em frente."



1. Park Chan-Wook, A Criada  (The Handmaiden)

"Park Chan-Wook não economizou talento em "A criada". Sua direção é tão cheia de brilhantismo e perfeição em toda a condução do processo narrativo. É evidente seu equilibrado cuidado na concepção de uma verdadeira obra de arte cinematográfica, plano a plano e com atuações críveis e instigantes. Combinando drama sedutor e misterioso mas, ao mesmo tempo, libertário e provocativo, sua direção é um magnífico objeto de desejo."






Lista elaborada baseada em lançamentos nos cinemas Brasileiros em 2016, filmes da programação da Mostra internacional de Cinema de São Paulo 2016 e lançamentos Netflix.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

MaDame Retrospectiva 2016: 20 melhores músicas em filmes

MaDame Retrospectiva
por Cristiane Costa





Se há um momento de gratidão, além do privilégio de ver tantos filmes no decorrer de cada ano, emocionar-se e apaixonar-se pela sétima Arte, esse momento é o entregar-se ao poder da música com o Cinema. A gratidão é redobrada.
Da mais alegre e descontraída canção a aquelas que são como farpas no coração, selecionar essa lista passa por memórias de cada filme e essa experiência é incrível. Sentir esperança e ser tomada por uma energia após "Zootopia", ser rendida por lágrimas em "A chegada", surpreender-se com um cover de um clássico dos anos 80 em "Anomalisa", sentir a nostalgia de "Rocky" em "Creed-nascido para  matar", assim, há espaço para muitas emoções ao som da música.

Divirta-se com essa seleção top do MaDame  e aumente o som!





20. Faith em "Sing: Quem canta seus males espanta"
Steve Wonder e Ariana Grande





19. Still falling for you em "O bebê de Bridget Jones"
Elle Goulding





18. True Colors  em "Trolls"
Anna Kendrick e Justin Timberlake





17. Try Everything em "Zootopia - Essa cidade é o bicho"
Shakira





16. Ghostbusters (I' not afraid) em "As caça fantasmas"
Fall out boy, featuring Missy Elliot



15. Girls just want to have em "Anomalisa
Lisa  / Jennifer Jason Leigh




14. Better love em "A lenda de Tarzan"
Hozier




13.   Just like fire em "Alice atráves do espelho"
Pink




12. Girls talk boys em "As caça fantasmas"
5 seconds of summer




11. La grand voyage em "a incrível jornada de Jacqueline"
Ibrahim Maalouf





10. Last Breath em "Creed: Nascido para lutar"
Future




9. Unsteady em "Como eu era antes de você"
X Ambassadors




8. Wish that you were here em"O lar das crianças peculiares"
Florence





7. Changing heart em "Brooklyn"
Michael Brook





6. Papa was a  rolling' stone em "Dois caras legais"
Temptations





5.  Hoje em "Aquarius"
Taiguara





4. Easy living em "Carol"
Billie Holiday e Teddy Wilson





3. Photograph em "Como eu era antes de você"
Ed Sheeran





2. Sweet Dreams em "Um dia perfeito"
Marylin Manson





1. On the nature of daylight em "Conexão Francesa" e "A chegada"

Max Ritcher feat. Dinah Washigton







Lista especialmente elaborada considerando os lançamentos nos cinemas Brasileiros em 2016.

MaDame Retrospectiva 2016 : 10 filmes, 0 expectativa, 10 melhores achados

MaDame Retrospectiva
por Cristiane Costa


 


Está aberta  a temporada de Retrospectiva do blog com uma seleção de listas imperdíveis para você.

2016 foi um ano difícil, em vários sentidos, no Brasil e no mundo, mas não faltou cinema  com uma pluralidade de histórias e emoções para nos conectar com nossa humanidade.

Abrindo esse momento especial com 10 grandes achados nos cinemas, que são filmes que funcionaram como uma caixinha de surpresas.

Não havia uma expectativa alta do  blog com relação a eles ou eles não estavam na combinação radar mais ansiedade, e eis que surge o encantamento ou um consciente reconhecimento pelo trabalho do diretor e equipe.

Divirtam-se nessa Retrospectiva ! Ame o Cinema muito mais em 2017!

Abraços

MaDame Lumière




 
 
 
10. Certo agora, errado antes (Right now, wrong then)
Dir: Sang-soo Hong
 
"Leal à sua marca autoral, o diretor desenvolve uma narrativa com diálogos intimistas que expõem a complexidade das relações humanas, com suas palavras ditas e não ditas, verbalizadas equivocadamente ou não."
 
 
 
 
9. Tempestade de areia (Sand Storm)
Dir: Elite Dexer
 
"Minimalista em roteiro e gigante em significados. Atuações críveis e harmônicas demonstram a opressão e aprisionamento sofridos por mulheres beduínas em vilarejos de Israel."
 
 
 
 
Dir: Xavier Giannoli
 
"A voz insuportavelmente ruim e a vulnerabilidade de Marguerite, expressas através da sua negação são honestos com o espectador. É como rir da tragédia alheia, uma tragédia que funciona como um espelho para qualquer um."
 
 
 
 
Dir: Sang-ho Yeon
 
"um roteiro simples, corre com excelente ritmo do começo ao fim, com um forte elemento de suspense que apreende a atenção do espectador e no qual todos os personagens têm seus momentos de valorização da afetividade e de desespero."
 
 
 
 
Dir: Cesc Gay
 
"um filme comovente que permanece na memória por dias não apenas pelo valor da amizade, mas pelo valor das nossas escolhas que não precisam ir na mesma via do que a sociedade acha como mais natural e esperado."
 
 
 
 
5. As montanhas se separam (Mountains may depart)
Dir: Zhangke Jia

"o início e fechamento de diferentes ciclos da vida de uma mulher, seus amigos e familiares resultam em um belo filme sobre a transitoriedade do tempo e as inevitáveis mudanças que moldam as identidades e sociedade modernas."
 
 
 
 
4. Um dia perfeito (A perfect day)
Dir: Fernando León de Aranoa


"uma comédia dramática com roteiro inteligente que transita muito bem entre o humor e temas sérios. Em um contexto de guerra e suas dilacerantes consequências, é possível conciliar crítica social com leveza e humanidade."

 
 
 
3. A Academia das musas (The academy of muses)
Dir:  José Luis Guerín

"fascinante exercício cinematográfico que instiga pelo poder e dinamismo das palavras e as tênues fronteiras entre o registro documental e a ficção. Explora o microcosmo social no qual tudo pode ser verdade ou uma mera ilusão."

 
 
 
Dir: Denis Gamze Ergüven

"um filme imperdível sobre a beleza da irmandade em uma cultura rígida. Cada irmã tem a sua identidade, mesmo assim, todas sofrem essa opressão contra a mulher. O drama mostra a prisão, mas a experiência liberta."

 
 
 
1. O botão de pérola  (The Pearl Button)
Dir: Patricio Guzmán


"Uma ode visual sobre a história da humanidade. Da poderosa vida existente nas águas à história, evolução e luta de povos latino americanos,  esse documentário é um imperdível storytelling com imagens deslumbrantes."




Lista foi realizada baseada em lançamentos comerciais nos cinemas Brasileiros e na Netflix em 2016.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Invasão Zumbi (Train to Busan, 2016)







Por Cristiane Costa,  Editora e crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação 


O que poderia fazer a diferença em um filme de horror e ação que lança mais uma vez uma invasão de zumbis de origem desconhecida? Em um primeiro instante e com uma visão mais contaminada com essa recorrência temática, absolutamente nada.  O tema não é inédito e ver a tela grande infestada de zumbis asquerosos aparentemente não é inovador, entretanto, com "Invasão Zumbi" (Train to Busan), o primeiro impacto é fascinante. Sang-ho Yeon conseguiu a proeza de lançar um "zombie-movie" que combina uma direção crível, com apurado controle rítmico e uma contemporânea metáfora sobre o comportamento humano durante um caos e pela sobrevivência.  






Como em "O expresso do amanhã" (Snowpiercer), outro excepcional filme coreano, todos os personagens de Invasão Zumbi são levados a pegar um trem e ele se torna o microcosmo de um letal episódio no qual todos têm que escapar a qualquer custo. O destino é a vida ou a morte. Alguns ajudarão aos outros, outros se comportarão de uma maneira individualista, nada solidária. Esse é o funcionamento do ser humano, colocado à prova para sobreviver, seja pelo próprio umbigo, seja pelo coletivo. O diretor demonstrou uma exímia habilidade de articular as emoções com as virtudes físicas e de efeitos especiais, dessa forma, o filme atravessa toda a projeção com uma ação bem ritmada que garante ao espectador não desgrudar os olhos da tela.








Já nos planos iniciais, a figura de Seok Woo (Yoo Gong) é o tipo que alcançará a redenção de uma forma ou de outra, o que traz um elemento emocional e humanista ao propósito da história. Separado, gerente de um fundo de investimentos e um pai frio e ausente, Woo demonstra pouco afeto alheio até mesmo no aniversário da filha Soo-an (Soo-an Kim). Decide presenteá-la com uma viagem. O desejo dela é rever a mãe. Instalados no trem, todos os  demais personagens são amplamente apresentados nessa viagem, com destaque para o casal Sang (Dong-Seok Ma) e Sung (Yu-mi Jeong) e o egocêntrico Yong-Suk (Eui -sung Kim).  Seok Ma traz um fator de diferencial ao elenco, por sua habilidade na ação e humor. 






Invasão Zumbi é um blockbuster coreano  incrivelmente bem dirigido e de primeira grandeza ao não ser pretensioso no que se propõe. Ele tem um roteiro simples, corre com excelente ritmo do começo ao fim, com um forte elemento de suspense que apreende a atenção do espectador e no qual todos os personagens têm seus momentos de valorização da afetividade e de desespero. O diretor não perde espaços em cena e não perde a oportunidade de exibir o horror em cena, cercando ao máximo os personagens. Sua experiência com animação zombie como em "Seoul Station" fica evidente com seu apurado senso de violência gráfica, de criador do caos e de atenção aos detalhes em cena. 

Além de um entretenimento imperdível, o longa é palco de uma luta pela sobrevivência no qual os zumbis são relevantes, mas o que fará a diferença é o ser humano constantemente desafiado e testado em sua humanidade. Muitos abandonarão aos outros, outros demonstrarão a essência da humanidade. O trem é uma necessária e reveladora jornada. Revela o melhor e o pior das pessoas.






Ficha técnica do filme IMDB Invasão Zumbi












quinta-feira, 25 de agosto de 2016

A Corte (L'hermine, 2015), de Christian Vincent




Por Cristiane Costa,  Editora e crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação 





Podemos dizer que existe uma aura de glamour em torno dos filmes que ganham prêmios importantes em festivais consagrados. Por mais que as virtudes e o real valor de determinado longa-metragem sejam questionados, a maioria desses filmes se posicionam no spotlight dos lançamentos do Cinema  fora do circuito  blockbuster e alguns guardam um peculiar mistério que leva à seguinte pergunta: Por que ganharam o prêmio?    O que os torna efetivamente dignos de uma premiação em categorias fortes como melhor filme, direção , roteiro e fotografia? Essa pergunta surge em "A Corte" (L'hermine), de Christian Vincent, vencedor de melhor roteiro no Festival de Veneza 2015. O diretor tem background em realizar seus roteiros, como em "La discrète", ganhador do César. Em seu mais novo filme, ele combina uma história de amor com um drama de tribunal. O resultado provoca um certo estranhamento a depender do olhar crítico de cada pessoa.






Estrelado pelo grande ator Francês Fabrice Luchini (que tem um estilo muito pessoal de atuar e um humor peculiar que mistura a comédia e o drama), A Corte tem um roteiro arriscado para agradar de imediato. O público é levado a participar de um julgamento no qual Michel Racine (Luchini) é um juiz mal humorado, solitário e que a maioria das pessoas não suportam. Ele também aplica penas mais rígidas que ultrapassam os dois dígitos. Por um lance do destino, ele reencontra Ditte Lorensen-Coteret (Sidse Knudsen), que está como jurada. No passado, ele era apaixonado por ela. O reencontro reacenderá suas emoções e, pouco a pouco, ele dá sinais de interesse.


O julgamento  em si não é tão relevante. Não espere um drama de tribunal contundente, embora seja bem escrito. A questão central é o reencontro de Racine e Coteret. Sendo ele um juiz de personalidade introspectiva e duro de lidar, muito do êxito de Christian Vincent como roteirista foi sua habilidade de mostrar que o juiz tem um coração.  A formalidade do exercício jurídico existe, entretanto, ele é mais eficaz porque se contrapõe à descontração que vai tomando conta de Racine. É como ver um homem rígido na profissão e na vida pessoal a ser rendido por um amor do passado. Nesse aspecto, a narrativa leva o espectador a uma história de amor. 





Por outro lado, a Corte tem uma boa dose de apatia. Não há entusiasmo nessa relação, sendo que, mais ao fim, quando o filme se torna mais interessante, já é chegada a hora do desfecho. Como consequência, ainda que Luchini leva a atuação nas costas e com sua recorrente marca pessoal, o filme fica no limbo. Não é imponente como drama de tribunal e muito menos como história de amor. Dessa forma, ainda que o roteiro tenha vencido em Veneza, a execução e a própria ideia de incluir um juiz apaixonado por uma jurada força uma situação incomum ou não confortável para os amantes. É bem provável que uma parte do público não encontrará uma conexão emocional com o filme e ele cairá no esquecimento rapidamente. Ele não conquista fácil.

Surge, então, a pergunta do início dessa crítica: por que esse roteiro ganhou em Veneza? Um dos motivos é simplesmente a coragem de Christian Vincent em fazer algo diferente. Nesse ponto, os franceses são ótimos. Ao colocar um juiz arredio e calejado pela vida em seu próprio ambiente de trabalho, essa corte formal, e trazer um aspecto intimista, o de suas relações afetivas do passado, repentinamente, esse gatilho muda seu comportamento, ele encontrou uma forma de quebrar essa dicotomia profissional x pessoal, racionalidade x sensibilidade, figura de autoridade x um homem de fragilidades. Inevitalmente, essa escolha quebra o movimento "lugar comum" do Cinema Francês contemporâneo que, ou realiza mais comédias leves ou mais dramas de peso.  A Corte, como no Direito, equilibra  a balança.



Ficha técnica do filme ImDB A Corte





quinta-feira, 11 de agosto de 2016

MaDame Blockbuster: Jason Bourne, de Paul Greengrass

MaDame Blockbuster:

Cinema Pipoca e no stress





Por Cristiane Costa,  Editora e crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação 




Existe uma competência natural do Cinema de grandes produções comerciais, os "Blockbusters",  que é fidelizar o espectador mesmo que seja entregando filmes aquém da qualidade e potencial esperados. Essa competência está integrada ao marketing, basta ver a quantidade de produtos que ganham versões sob o guarda-chuva de uma forte marca. É uma estratégia que prevê o investimento de milhões de dólares para manter essa marca no mercado, gerar receitas e lealdade do cliente. Essa manobra comercial e de marketing funciona bem, em termos de negócios, porque ela não corta o elo entre o espectador fã e a obra cinematográfica. É o que acontece com o lançamento de "Jason Bourne", o emblemático e imbatível agente da CIA personificado por Matt Damon.  Em mais uma parceria com o diretor Paul Greengrass (de "A Supremacia Bourne" e "O ultimato Bourne"), a Universal Pictures investe nessa fidelização que, a priori, tem sua força em apenas um elemento: Matt Damon.





Matt Damon é um cara legal e isso define muito de seu sucesso no Cinema. Se a América tivesse uma eleição a namoradinho do Cinema Americano, ele seria um forte candidato. É uma musa de calças! Boa imagem de ator competente e versátil atrelada ao seu carisma de bom moço, pai de família e cidadão que a maioria consegue dar um crédito quando ele dá voz à sua própria forma de pensar e trabalhar. Com toda essa  credibilidade, ter uma conexão leal e nostálgica com Matt Damon e o seu "Bourne" é uma natural consequência para o público que aprecia o ator.  Em sua interpretação, ele reúne três virtudes inegáveis para compor Jason Bourne: um homem comum e dedicado ao ofício, um homem solitário que sofre duas grandes perdas afetivas durante a franquia, um homem habilidoso, tanto no aspecto físico quanto no intelectual para ser um herói real.  Lamentavelmente, o novo filme não soube aproveitar essas três qualificações do personagem e muito menos Matt Damon.

Lançado em 27 de Julho nos Cinemas Brasileiros, o filme enfoca o icônico agente que está nas sombras e é desafiado a descobrir a verdade sobre o assassinato de seu pai , que teria sido morto por terroristas. Bourne, como um produto de um ambicioso  experimento militar e com intenso treinamento de elite, teve sua identidade excluída do mundo realista. É um homem perdido, com um espírito patriota e uma necessidade de pertencimento, ainda assim, não lhe é permitido viver na paz, na luz.  Embora tenha evoluído nos filmes anteriores, que enfocam na jornada do herói que se apaixona, perde a mulher que ama, descobre as intenções de seus patrocinadores e inimigos e se torna uma arma humana letal, nesse filme, ele já chega caído e sem muita motivação.  Falta paixão na história. É um personagem que não parou de atuar no auge de seu sucesso e deveria tê-lo feito.





O roteiro não investe no estratégico thriller de espionagem e ação e no desenvolvimento do conflito do personagem. Jason Bourne permanece como um homem nas sombras e, pela pobreza motivacional de seus antagonistas e das linhas desse roteiro, ele fica isolado em cena. Dessa forma, o roteiro reforça mais a ação que o suspense inteligente. Jason tem que lidar com desafetos como  o agente Asset (Vincent Cassel), está na mira de inescrupuloso diretor da CIA Robert Dewey (Tommy Lee Jones) e objeto de interesse de alpinistas estratégicos como a fingida agente Heather Lee (Alicia Vikander). Nem mesmo a amiga de Bourne, Nick Parsons (Julia Stiles) tem espaço no longa. Bourne está sozinho e tem que se defender a todo o  instante em uma intensa jornada de perseguição. Greengrass investe pesadamente em criar muitos estímulos visuais presentes em caóticas e destrutivas cenas com carros e motos e, principalmente, muita truculência  em brigas físicas regradas em porradas  que são reproduzidas com uma ênfase no som. Em resumo, resta ao público se entreter com esse caos que, aliás, não é muito eficiente na decupagem. Muito barulho e pouca qualidade no design e coreografia das cenas de ação.





Jason Bourne perde a chance de evoluir no conflito existencial do agente, que estava mais presente nos filmes anteriores.  Se a motivação do personagem é descobrir a verdade sobre a morte do pai e aliviar a angústia de tal segredo, oras, as motivações afetiva e familiar são preexistentes e ainda ganham, como bônus, um agente que persegue a manutenção de sua identidade e tem que lidar com o fato de ter sido uma cobaia de uma corrupta estrutura de poder. Boas razões para um melhor roteiro existiam e não foram aproveitadas. O personagem também tem um diferencial, que é a sua própria inteligência de combate, igualmente usada de forma precária na narrativa. Não há cérebro na narrativa e isso é imperdoável sob o ponto de vista dos fãs dessa franquia.





Com essa execução, Greengrass se preocupou com apenas uma questão: a ação. O filme é concebido para explorar ao máximo a correria, um jogo de gatos e ratos que se torna vazio e cansativo. Essa ação  não é entrecortada por um suspense habilidoso, o que é muito frustrante para quem é fã dos filmes anteriores que priorizavam o thriller robusto. Todo o elenco  está ligado no piloto automático, até mesmo a atual queridinha de Hollywood, Alicia Vikander, com um personagem travado e sem muita personalidade. Ela, Lee Jones e Cassel mimetizam personas previsíveis em uma perseguição da Cia e os flashbacks não geram uma ideia de continuidade e coesão que poderiam facilitar a tensão dos conflitos e os propósitos dos personagens.  

Com essas deficiências, principalmente o roteiro preguiçoso, se for para ver esse filme, vá pelo namoradinho da América Matt Damon! Vá pelo icônico Jason Bourne e nada mais! 




Ficha técnica do filme ImDB Jason Bourne