domingo, 21 de outubro de 2012

Os Infratores (Lawless) - 2012




Na América rústica, a Virgínia de 1931, os irmãos Bondurant Jack (Shia Labeouf), Forrest (Tom Hardy) e Howard (Jason Clarke) vivem em Franklin County e são uma gangue conhecida de infratores  que produz e comercializa bebidas alcóolicas no período da Lei Seca. Sua legendária indestrutibilidade, violência e tino para os negócios ilegais os tornaram temidos e com variados inimigos, muitos dos quais interessados em obter parte de seus lucros. O  belo roteiro do novo filme dirigido por John Hillcoat e inspirado no romance "The Wettest County in the World", de Matt Bondurant e roteiro de  Nick Cave é uma jornada à vida fora da lei desses três irmãos, unidos pelo amor e a lealdade, além da liberdade de se levar o próprio negócio sem intervenções das autoridades interesseiras e corruptas.



 
 
Sob a liderança de Forrest, representado magnificamente por Tom Hardy, que merece uma indicação ao Oscar por essa atuação, os irmãos Bondurant  são como os bons infratores que criam a empatia com o público e pelo qual se torce para que nada de mal lhes aconteça. Muito da qualidade do filme está em  adicionar um componente emocional, a  família,  que sobrevive com a violência no seu ouvido, em um ambiente hostil de homens brutos e homicidas, mas que também precisa se defender com violência para se manter unida e sobreviver financeiramente. Os irmãos Bondurant são trabalhadores, leais e protetores entre si, humildes e tem senso de humor, além disso o longa desenvolve bem os personagens dos irmãos à medida que demonstra que cada um tem uma característica que contribui para  a dinâmica e a densidade psicológica da narrativa, assim como para o desenrolar do fatos. Forrest é o líder de poucas palavras e valente, que emula a sensibilidade por trás de seu jeito bronco. Howard é o executor braçal, o lobo solitário e introspectivo que bebe e que protege  a família. Jack é o caçula frágil, imaturo e amoroso, que não tem competência para a violência, o que acaba por ser seu conflito pessoal, mas que é visionário para o crescimento dos negócios. Além deles, temos um elenco muito atrativo com a presença de Guy Pearce como Charles Rakes, o vilão da história em uma caricatura grotesca da autoridade engomadinha, homicida e corrupta;  Jessica Chanstain como Maggie Beauford, a bela ex-dançarina de Chicago que deseja uma segunda chance na vida e  que, em meio à uma região violenta, encontra o seu amor; Mia Wasikowska, como Bertha Minnix, que traz a figura da jovem virginal e religiosa pela qual Jack se apaixona e, para completar o elenco em grande estilo, o fascinante Gary Oldman no papel do gângster Floyd Banner, com uma entrada meteórica e estelar e uma piscadinha memorável.
 
 
 
 
Ao serem tão diferentes, os irmãos Bondurant tornam o filme mais bem realizado nos aspectos de desenvolvimento de personagens que apresentam essa América: um mundo no qual o mais fraco, Jack,  tem que  sobreviver e amadurecer em um ambiente hostil. Por outro lado, Jack não perde sua essência que é a metáfora do sonho, da inocência e do amor. Sua docilidade é, por excelência, o escapismo dessa história violenta e a visão otimista da vida. Ainda que pareça , em um primeiro olhar, o comportamento de um covarde, Jack torna o filme mais leve. É através dele que se criam vínculos mais emocionais na narrativa como: a alegria ao ganhar o primeiro grande dinheiro, ao vestir um bom terno e comprar um belo carro, a fascinação ao ver um famoso e corajoso gangster, a delicadeza do primeiro amor, a tristeza pela perda de um amigo; portanto, embora o personagem de Shia Labeouf incomode ao levar uma baita surra e ser ingênuo em algumas tomadas, o seu Jack é um contraponto da violência da história. Ele se mantém puro por boa parte da história, até precisar crescer, ainda que inconsequentemente e aflorado pelas perdas emocionais. Já Tom Hardy é um esplendor à parte tamanho o seu talento para representar  Forrest. É um homem de personalidade viril e forte, que conversa com o olhar, que observa e está atento aos movimentos e à defesa do seu negócio e de sua família, mas que também tem uma sensibilidade que é desenvolvida tenuamente. Ainda que a casca de sua pessoa seja brutal, à medida que o filme se desenvolve, ele também tem momentos de fragilidade como o de ser ferido e o de se apaixonar por uma mulher. Com uma excelente atuação, Tom Hardy demonstrou bastante maturidade e ser um dos melhores atores de sua geração, crescendo a cada papel e fazendo boas escolhas. Do lado da vilania, pode se dizer que Guy Pearce tem uma  ótima, caricata e necessária atuação para expor o quanto o seu personagem, um mero "assistente "de autoridade, é a infâmia da civilização: é um homem amoral, que mata mais por prazer e de forma gratuita, que comanda para obter lucros próprios e posar na foto com sua ridícula gravata borboleta. Guy Pearce o faz tão bem que chega ser odiável, pois é claramente um personagem sádico e desprovido de digno carater.





No geral, o filme é bem realizado ao contar um história simples e que tem um pano de fundo da História da América. É claro que  houve uma lacuna qualitativa ao tentar equilibrar o seu conteúdo familiar e afetivo com interesses alheios corruptos e violentos, com idílio, ação e suspense, tudo misturado, porém o longa vence pelas atuações e deve ser valorizado mais pelo elenco e pela reflexão sobre a violência. Ao mesmo tempo que traz um elemento biográfico  muito específico e o gênero gângster reinventado, ele está muito coerente com o background de filmes que fazem a diferença ao expor nuances do legado do interior rústico Americano e seus dramas familiares, de natureza violenta, tais como Inverno da Alma, de Debra Granik,  e Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson. Os filmes anteriores de Hillcoat, com A Proposta e A Estrada tem a fotografia e a direção de Arte bem apoiadas em construir naturalmente um retrato de ambientações longíquas, idílicas e hostis. Além do mais, o longa tem um registro interessante no legado cinematográfico sobre gângsters. Enquanto que Jack está em planos nos quais ele resgata as referências mais tradicionais de gângsters através do encontro com Floyd Banner, o vestuário, o carro, as armas etc mais semelhantes as usadas em outros filmes do gênero, o ser fora da lei em Os Infratores não tem todo esse glamour porque não é a base da narrativa glamourizar o gênero. O longa é mais humano, mais real em sua proposta. Forrest não tem vaidade, nem tampouco Howard. Eles dirigem uma caminhonete simples, moram em uma casa de beira de estrada, mal trocam de roupa e sujam a própria mão de sangue usando objetos  mais grosseiros como faca e soco inglês, portanto o longa é muito mais do que retratar homens fora da lei com ou sem glamour;  o que mais importa aqui é refletir sobre o homem e sua relação com a violência,  afinal  como bem dito por Forrest à Jack : "Não é a violência que diferencia os homens, é até onde eles estão disposto a ir."



 
 
 Ficha técnica no ImDB

2 comentários:

  1. O seu texto é um dos primeiros positivos que leio sobre "Os Infratores", ainda que ressalte os seus pontos mais fracos. Tenho muita curiosidade pra conferir este filme, não só por causa do bom elenco, como também por causa da história, que parece ser muito interessante, apesar de batida.

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  2. Bela crítica Madame. Uma análise criteriosa e bem completa do filme e de seus principais elemntos. Hillcoat é um diretor pelo qual eu tenho muita curiosidade, ainda que não seja caapz de afirmar se gosto ou não dele. Outra fonte de curiosidade é a bem comentada, e por ti muit enaltecida, atuação de Tom Hardy neste filme.
    Bjs

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