sábado, 27 de outubro de 2012

Mostra 2012: Reality (2012)






Reality é o novo longa de Matteo Garrone, vencedor do Grande Prêmio do Júri de Cannes em 2012 e um convite ao riso e à reflexão.  Em 2008, o diretor havia ganhado o mesmo prêmio com Gomorra, um filme mais cru sobre o crime organizado em Nápoles. Desta vez, ele retorna com o gênero comédia e apresenta um filme com referências à tradição da comédia Italiana, com personagens populares, cenografia e direção de arte do cotidiano de bairros pobres e diálogos recheados de brigas, festas, confusões, barulho e falas altas.


 
A história é uma jornada cômico dramática à indústria dos (pseudo)ídolos perecíveis mais conhecidos como Big Brothers, os  Grandes Fratellos na versão Italia, na qual o carismático e pobre Luciano (Aniello Arena), vendedor de peixes, pai de três filhos, muambeiro de robôs culinários, animador de festas e um morador da periferia de Nápoles fica alucinado para se tornar um "Grande Fratello" e entrar na casa mais espionada da Itália. Mesmo que recorra a atividades paralelas  para um dinheiro extra e tenha um negócio próprio, uma peixaria, sua situação social é humilde. Vive com a esposa, filhos e vários familiares em uma espécie de cortiço, um prédio miserável em ruínas. Toda direção de arte, figurino e atuações reforçam que esse ambiente é de pessoas pobres, em uma região periférica de Napóles, para qual a realidade Italiana não oferece nenhuma oportunidade de emancipação social, bastando a elas ficar ocupando o seu tempo com a problemática de Luciano e expondo seus autênticos comportamentos em diálogos bem humorados.






Tudo começa quando Luciano começa a ter fascinação pela figura do ex-Big Brother Italiano, Enzo (Raffaele Ferrante), bonito, endinheirado e bem solicitado para alegrar casamentos e baladas. Ele o vê em uma festa sob aplausos e ataques de adoração de fãs e deseja fazer parte deste universo de difícil vida fácil de big brother.Além de todo o fascínio claramente evidenciado closeups de câmera que evoca  esse olhar, ingressar no Grande Fratello Italiano é uma chance de ter dinheiro para sustento da família e projeção social. Em uma oportunidade cotidiana e à pedido dos filhos, ele faz o teste para o programa e, a partir daí, fica obcecado para receber uma resposta de aprovação, passando a realizar mudanças profissionais, ter conflitos afetivos com a esposa, fantasiar que está sendo observado no seu dia a dia a mando do programa,  viver seu cotidiano em um tipo de surto surto obsessivo e depressivo. As situações são diversas e engraçadas com um elenco afiado, mas também momentos únicos de contemplação do drama pessoal de Luciano que persegue, a qualquer custo, a ilusão de ser um celebridade instantânea.



Reality é um filme muito agradável de assistir. Divertido e leve, com um mistura de ficção e realidade. A todo momento o expectador é envolvido em um cotidiano bem realista e no sonho de Luciano; nisso reside o quanto o filme é bem realizado e merecedor de ser visto. Basta atentar-se à maravilhosa trilha sonora do talentoso Alexandre Desplat, que joga o público em uma musicalidade de fábula muito bem orquestrada  e que a todo momento cria uma atmosfera estranhamente fascinante,  como se a audiência estivesse em um mundo real, porém onírico e fantasioso que conecta o expectador à vida de Luciano. Além do mais, há a junção de um tema contemporâneo, o dos ídolos comuns e  instantâneos, com o passado de referências claras ao Cinema Italiano. Sua riqueza moderna e cinematográfica é evidente através de uma moderna estética de influênca neorealista com ótima fotografia, da atmosfera de sonho fábula Felliniana e uso de personagens com carisma popular.




Além da excelente  atuação de Aniello Arena, um dos pontos mais diferenciados do longa que  desperta empatia, humildade, obsessão, bom humor, outro dos  acertos imperdíveis de Reality é a direção de Garrone, um prazer aos olhos como trabalho de direção coerente com  a proposta. Ele inclue belos planos sequência que nos jogam nesse microuniverso existencial de Luciano e que, facilmente, pode ser reproduzido em qualquer realidade em tempos de Big Brother, como no início do filme no qual a carruagem de noivos é filmada a partir de um ponto alto e distante da cidade e  é acompanhada pela câmera, que vai fechando até chegar a um hotel no qual está sendo realizado o casamento e  são apresentados Luciano e sua família. Mais adiante, outro plano sequência mostra  a  família que chega após a festa em um maravilhoso trabalho de introduzir o público no cotidiano dessas pessoas. Cada personagem, a seu modo, é foco da câmera passageira, seja despindo a roupa, seja tirando a maquiagem, seja comendo algo na cozinha, até uma finalização em grande estilo no personagem central. Com habilidade, Garrone trabalha enquadramentos bem articulados com a atuação de Aniello Arena, resultando em closeups de intensa sensibilidade, que mesclam a comédia e o drama e provocam o riso e a piedade. Com um final enigmático, que retoma a ficção x realidade e influencia o expectador a permanecer pensando no que terá acontecido com Luciano, a câmera usa o mesmo recurso do começo do filme de forma belíssima para encerrá-lo. Ela se afasta desse microuniverso e resta ao público pensar na triste realidade da existência contemporânea.
 




Ficha técnica no ImDB
 

Um comentário:

  1. Estava de olho neste filme desde que li sua sinopse em Cannes. Seu ótimo texto só veio a aguçar minha curiosidade, MaDame.

    Beijos!

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