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Crítica | Marty Supreme (2025)






#Drama #Biografia #Esporte #ComédiaDramática #Oscar2026 #CinemaAmericano #TimotheeChalamet #PinguePongue




Por Cristiane Costa,  Editora e Crítica de Cinema | Especialista em Comunicação e Projetos



Marty Supreme, dirigido por Josh Safdie, mergulha na trajetória excêntrica e obsessiva de Marty Reisman, o prodígio do tênis de mesa que transformou o pingue-pongue em um espetáculo de estilo e rebeldia nos anos 50. O longa surge como um dos competidores mais vorazes da temporada do Oscar, impulsionado por uma atuação de Timothée Chalamet que marca sua transição definitiva para a maturidade cênica. Longe da vulnerabilidade de seus papéis anteriores, Chalamet encarna um homem consumido pela ambição e por um narcisismo quase magnético, provando que domina a arte de interpretar personagens complexos que enxergam apenas o próprio umbigo enquanto o mundo ao redor orbita sua genialidade.  



Essa obsessão encontra seu reflexo na estética de Josh Safdie, marcada por sua câmera inquieta e autoral, que se revela o veículo perfeito para traduzir a urgência de uma vida pautada pelo imediatismo. Esse dinamismo visual não se limita a emular a velocidade da bolinha sobre a mesa; ele mergulha nos bastidores das artimanhas de Marty Reisman, capturando a essência de um homem que busca se dar bem a qualquer custo. Ainda que o estilo pulsante do cineasta prepondere sobre a narrativa tradicional, há uma simbiose rara entre a forma e o conteúdo: o ritmo frenético da edição e os ângulos agudos combinam perfeitamente com a personalidade de um protagonista que, claramente acelerado, desconhece limites para sua própria ambição.  








Se a forma visual é pulsante, o conteúdo encontra sua força na atuação de Chalamet. O filme pertence inteiramente a ele, que entrega uma performance de magnetismo raro, equilibrando-se com maestria no limite entre a atração e o rechaço. Ele não apenas dá vida a Marty Reisman; exerce uma força gravitacional que seduz o espectador enquanto exibe uma arrogância por vezes insuportável. Foi justamente nesse equilíbrio que residiu o acerto de sua escalação, rendendo-lhe o merecido Globo de Ouro de Melhor Ator em janeiro de 2026. Chalamet imprime uma densidade que compensa as oscilações do roteiro, especialmente quando a narrativa se afasta das competições de pingue-pongue para focar na busca obsessiva por dinheiro e status. Nesse sentido, o longa revela-se mais um estudo sobre a ambição como manobra de sobrevivência em um mundo hostil, priorizando a psique de um homem que usa seu talento como escudo e arma.  



Ao redor de Marty, as figuras femininas como Rachel (Odessa A'zion) e Kay Stone (Gwyneth Paltrow) surgem sob uma ótica predominantemente utilitária, movida pela paixão e pelo charme perigoso que ele emana. Elas são personagens articuladas em suas realidades sociais, mas acabam expondo suas vidas ao risco de escândalos ou sacrifícios matrimoniais para sustentar os caprichos de um homem que demonstra uma verve muito mais sexual e interesseira do que verdadeiramente amorosa. Essa dinâmica de conveniência acaba revelando as nuances mais sombrias do caráter de Reisman, utilizando a generosidade feminina como um espelho de sua própria desonestidade afetiva. No entanto, a força com que elas resistem e o auxiliam injeta na trama uma fagulha de esperança, sugerindo que, através desse contato com o feminino, Marty possa talvez vislumbrar a honestidade emocional que sua ambição desenfreada tenta sufocar.  




Se nas relações afetivas Marty revela sua desonestidade, na mesa de jogo a raquete e a bolinha transcendem o equipamento esportivo para se tornarem metáforas de uma busca incessante pela perfeição, mas, sobretudo, peças de uma obsessão perigosa. O filme nos coloca diante de um dilema instigante: é difícil discernir se a obstinação de Marty nasce de um amor genuíno pelo esporte ou de um efeito narcísico tão intenso que o jogo serve apenas como palco para seu próprio ego. Ao permitir que a ambição desenfreada tome as rédeas da narrativa, o longa se distancia dos clichês de superação e paixão comuns aos dramas esportivos tradicionais. Em vez de inspirar pela resiliência, a obra incomoda ao revelar como o talento pode ser sequestrado pela vaidade, transformando o que deveria ser um ato de entrega em um exercício de autoadoração que, muitas vezes, atropela a própria essência do jogo.  








Essa obsessão, que transcende o esporte, encontra eco no próprio roteiro. Diferente do que se poderia esperar de um épico de ação, o texto apresenta um engasgo proposital ao priorizar a psique de Marty e sua busca desenfreada por dinheiro em detrimento de um clímax esportivo tradicional. Ao trocar as partidas recorrentes por um cotidiano marcado pelo alpinismo social, o longa firma-se não como um filme sobre o esporte em si, mas como um estudo sobre a ambição usada como ferramenta de sobrevivência. É a atuação visceral de Chalamet que impede que o personagem se torne apenas um homem insuportável; ele nos mostra que essa arrogância é a armadura de alguém que optou pelo jogo para escapar da miséria. Embora o desfecho tente imprimir um tom de humanização, ele chega com a melancolia de algo que talvez tenha vindo tarde demais para uma redenção plena, deixando no espectador a impressão de que, na mesa da vida, Marty Reisman ganhou o mundo, mas perdeu o tempo de aprender a ser apenas humano.  


No fim, Marty Supreme é menos sobre pingue-pongue e mais sobre o preço da ambição quando o talento se torna refém do ego.  




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