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Crítica | A Graça (La Grazia) : O Legado Humano sob os Silêncios do Poder

 




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Por Cristiane Costa,  Editora e Crítica de Cinema | Especialista em Comunicação e Projetos




Há uma conexão naturalmente cinematográfica, elegante e reflexiva na parceria entre Paolo Sorrentino e o ator Toni Servillo. Em obras como A Grande Beleza e A Mão de Deus, o texto e a câmera do diretor encontraram na atuação de Servillo o veículo perfeito para explorar dilemas morais profundos e a figura paterna e de autoridade; e em A Graça (La Grazia, 2025), essa colaboração atinge um novo patamar de maturidade. O equilíbrio entre a plasticidade visual e a humanidade do protagonista é, sem dúvida, o legado mais sustentável da cinematografia de Sorrentino, o que rendeu a Servillo a prestigiosa Copa Volpi de Melhor Ator no Festival de Veneza.







Nesse sentido, a narrativa nos apresenta Mariano De Santis, um presidente e ex-jurista às vésperas da aposentadoria, que enfrenta o peso definitivo de seu mandato: a decisão sobre a aprovação da lei de eutanásia e a concessão de indultos a condenados. Em paralelo a esses dilemas éticos, sua autoridade pública revela-se sutilmente assombrada por uma ferida íntima: a traição de sua esposa ocorrida há quarenta anos, que ainda ecoa em sua subjetividade como moldura de sua história pessoal.



A vulnerabilidade deste homem poderoso não surge como um artifício gratuito, mas como um elemento eficaz de humanização que confere uma dimensão dramatúrgica às cenas de melancolia. Mesmo atormentado pela dúvida, Mariano é movido por uma saudade profunda da esposa falecida, mostrando que sua paranoia não compromete a função, mas a integra. A obra é, essencialmente, sobre esse encerramento de ciclo que força o homem a confrontar amor, legado e a possibilidade do perdão diante de decisões irrevogáveis.



Por outro lado, a estética do filme troca a Nápoles solar por uma Roma solene, de ambientes austeros e silêncios que convidam à reflexão. Com o repertório de Sorrentino, amante da beleza artística, a direção de arte e a fotografia de Daria D'Antonio transformam a morada presidencial, com suas bibliotecas vastas e escritórios elegantes, em uma extensão da alma de Mariano, capturando um homem imerso em dúvidas e dilemas fundamentais.








Contudo, Sorrentino é mestre em equilibrar essa aura de isolamento com a sensibilidade do cotidiano e a quebra de formalismos. A rigidez palaciana se rompe com o som do hip-hop, que surge nos momentos introspectivos e relaxantes do presidente, e pela presença de uma rede de apoio vital. As refeições com a filha, Dorotea (Anna Ferzetti), dedicada magistrada e coadjuvante de destaque, são espaços de diálogo sobre forças e vulnerabilidades, complementadas pelas conversas com o Ministro da Justiça, Ugo Romani (Massimo Venturiello), e pela vivacidade de sua melhor amiga, Coco (Milvia Marigliano), que traz o humor à trama.



Assim, o dilema ético em torno da eutanásia e dos indultos ganha uma representação que foge ao convencional dos tribunais. Ao criar um núcleo físico dentro das prisões, o roteiro utiliza as histórias de homicidas e seus conflitos amorosos como matéria de reflexão para o presidente e sua filha. Aqui, o Direito é lido não pela lei fria, mas pela compaixão e pela análise do que leva o indivíduo a decisões extremas. A inclusão de figuras como o Papa (Rufin Doh Zeyenouin), que rompe expectativas raciais com sua autoridade negra e bem-humorada, e o Colonnello (Orlando Cinque), chefe da guarda que traz uma dimensão de proteção e humanidade, reforça que a justiça percorre a dimensão humana de quem a aplica.








No desfecho, A Graça revela-se belíssimo ao encenar uma retirada de campo respeitosa e nobre. Em vez de uma morte social, a aposentadoria de Mariano reforça que grandes líderes são compostos por falhas, paranoias e dúvidas que são universais. A competência de Sorrentino em manter uma narrativa solene e, ao mesmo tempo, imersiva, culmina na compreensão de que o legado de De Santis não se encerra com o fim de um mandato. Através da interpretação impecável de Toni Servillo, somos lembrados de que o verdadeiro legado reside em nossa permanente capacidade de agir e sentir como humanos.






Imagens. Divulgação.

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