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Por Cristiane Costa, Editora e Crítica de Cinema | Especialista em Comunicação e Projetos
Um dos maiores símbolos arquitetônicos de São Paulo transpõe a barreira do concreto e se transforma em narrativa cinematográfica através de uma perspectiva inédita. Sob a direção de Carine Wallauer, o documentário COPAN chega ao circuito nacional respaldado por sua consagrada trajetória como vencedor da Competição Brasileira de Longas e Médias-Metragens da 30ª edição do Festival É Tudo Verdade. Distribuído pela Vitrine Filmes, o longa adentra a intimidade do edifício projetado por Oscar Niemeyer. A narrativa captura a rotina de moradores e funcionários tensionada por uma eleição interna de condomínio, enquanto, do lado de fora das icônicas curvas, o Brasil tateia o próprio destino no embate presidencial de 2022. Entre corredores sinuosos e assembleias inflamadas, a obra converte a estrutura modernista em um retrato vivo das divisões políticas e sociais contemporâneas.
Erguendo-se como personagem autônomo e pulsante, o gigante inaugurado em 1966 na Avenida Ipiranga celebra seis décadas consolidado como o maior condomínio residencial da América Latina. Seus 115 metros de altura desafiam a paisagem retilínea paulistana e abrigam mais de cinco mil vidas que espelham a heterogeneidade do país. O grande trunfo do filme está na quebra do distanciamento: o fato de Wallauer ter morado no edifício por sete anos, somado à vivência da produtora Viviane Mendonça desde 2015, evita o cartão-postal óbvio. Ao circular por espaços íntimos e restritos ao público, a câmera descobre a humanidade oculta atrás da fachada, entregando um registro visualmente marcante e politicamente atento, onde cada habitante carrega consigo um fragmento do Brasil atual.
O diferencial metodológico do documentário reside na subversão de suas próprias expectativas estruturais. Wallauer abdica deliberadamente das entrevistas formais e sequenciais, recurso saturado no gênero, para confiar na eloquência de uma câmera testemunhal. A diretora, cuja formação artística emana das artes visuais, demonstra rigor fotográfico ao transmutar a monumentalidade do arranha-céu em pura plástica urbana. Essa crônica visual ganha cadência contemporânea através da trilha sonora original assinada pelo DJ KL Jay ao lado de seus filhos, Will e Kalfani. A presença do fundador dos Racionais MC's, ele próprio morador do edifício, injeta no longa o pulso rítmico e o ecletismo indissociáveis da periferia e do asfalto paulistano.
Essa costura estética sustenta um roteiro que se recusa a ser óbvio, articulando com precisão os silêncios, as cores e as texturas das paredes. A tensão dramática atinge seu ápice ao justapor a micropolítica burocrática de uma assembleia de condomínio, marcada por disputas de mandatos e dinâmicas sutis de exclusão, ao calor da eleição presidencial de 2022. O espectador é lançado em um limiar incômodo entre o riso e o lamento, diante de um espelho realista de um país cindido em polarizações intensas, onde a civilidade e a capacidade de diálogo parecem fragilizadas, transformando o cotidiano condominial em laboratório cru da democracia.
Se por um lado a escolha por diálogos recortados e capturados quase por acaso confere organicidade, por outro projeta uma sensação de incompletude, traduzida no desejo latente de investigar os bastidores daquelas existências enigmáticas. Quem são de fato aquelas pessoas? Quanto tempo habitam aquele labirinto? Trata-se, contudo, de uma escolha narrativa calculada: diante da impossibilidade estatística de abraçar o todo, a diretora abraça a incógnita e convida o público à reflexão. Essa complexidade se intensifica no limiar dos 60 anos do edifício, onde a tradição rígida de uma gestão verticalizada há mais de quinze mandatos colide com a resistência progressista que pulsa em seu interior.
É no encerramento das urnas que o filme consolida seu papel de anfitrião e testemunha neutra, distanciando-se de panfletarismos ou escolhas polarizantes. Embora o desfecho político nacional ecoe de forma sutil pelos blocos, a obra opta por lançar luz sobre uma reality mais silenciosa e perene: a permanência das divisões e do isolamento social. Esse distanciamento ganha contornos práticos na própria dinâmica da assembleia, onde a baixa participação presencial e a alta delegação de votos por procuração revelam o quanto os habitantes daquele ecossistema se esquivam do exercício democrático. No balanço entre conservadorismo estrutural e utopia da convivência, COPAN evita respostas fáceis e oferece, em seu lugar, uma crônica refinada sobre o isolamento e a resistência que coabitam o microcosmo das contradições nacionais.
Imagens. Divulgação: Vitrine filmes.




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