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Por Cristiane Costa, Editora e Crítica de Cinema | Especialista em Comunicação e Projetos
Em Era uma Vez Minha Mãe, o diretor Ken Scott abandona a comédia convencional para mergulhar em uma cinebiografia marcada por sensibilidade e força humana, baseada na trajetória do advogado francês Roland Perez. O longa transcende o relato da superação física para se tornar um estudo sobre a resiliência materna incorporada por Esther (Leïla Bekhti).
Através de uma reconstrução de época cuidadosa e uma narrativa que atravessa décadas, o filme explora a construção de um destino que, embora marcado por uma deficiência motora severa, foi forjado pela determinação inabalável de uma mãe contra as limitações do sistema e do tempo.
O longa de Ken Scott se firma como uma comédia dramática que utiliza a deficiência física de Roland Perez não como um fim em si, mas como ponto de partida para uma história sobre a força extraordinária da mãe. Através de uma direção que equilibra o carisma com a autenticidade, o filme evita o sentimentalismo fácil ao permitir que a figura da mãe, Esther, seja apresentada com todas as suas falhas e humanidade.
Interpretada de forma magistral por Leïla Bekhti, que verdadeiramente sustenta a obra com seu timing cômico e densidade emocional, Esther é a personificação da determinação que salva, mas que também domina e, por vezes, sufoca. Essa força é correspondida pelas atuações de Gabriel Hyvernaud e Naïm Naji, na infância, e de Jonathan Cohen, na vida adulta, que dão a Roland a energia vital para acompanhar sua transformação.
A produção é visualmente enriquecida por uma direção de arte cuidadosa, que reconstrói décadas da vida francesa com uma estética envolvente, presente tanto nos interiores domésticos quanto nos detalhes afetivos, como os discos e anotações da cantora Sylvie Vartan. Embora a narrativa se utilize de constantes elipses que podem reduzir a clareza cronológica, esse recurso acaba por priorizar o mergulho na subjetividade emocional de Roland.
A presença da própria Sylvie Vartan em cena surge como um respiro artístico e um fechamento simbólico de um ciclo de admiração que atravessa a vida adulta do protagonista. Atuando como um farol de esperança desde a infância de Roland, a figura da cantora representa o alento necessário para suportar os períodos de isolamento e a pressão constante pela cura. O encontro com a artista sela a superação e valida toda sua jornada.
Embora a obra se destaque pela força dramática e pela reconstrução afetiva, é importante situá-la também no contexto mais amplo. Era uma vez minha mãe foi recebido em festivais internacionais como um retrato sensível da maternidade e da deficiência, dialogando diretamente com debates contemporâneos sobre inclusão e autonomia. Essa dimensão social amplia o alcance da narrativa, permitindo que a história de Roland Perez seja lida não apenas como uma trajetória individual, mas como um reflexo das tensões universais entre cuidado e independência.
Esse movimento também marca uma inflexão na carreira de Ken Scott. Ao se afastar da comédia que caracterizou seus trabalhos anteriores, o diretor revela uma maturidade artística que ressoa além das fronteiras francesas. Essa mudança de registro aproxima o filme da crítica global, que valoriza tanto a autenticidade das atuações quanto o impacto social da trama, consolidando a obra como um elo entre cinema intimista e reflexão coletiva.
Ao final, o filme se destaca por retratar que a gratidão pelo cuidado recebido não anula a necessidade vital de independência, consolidando-se como uma homenagem honesta às mães reais, que em sua imperfeição e entrega absoluta ensinam os filhos a conquistar a própria independência.



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