#CinemaEuropeu #CinemaBritânico#MulheresnaDireção #ChloeZhao #JessieBuckley #PaulMescal #Drama #Luto #SagradoFeminino #AdaptaçãoLiterária ...

Crítica | Hamnet: O Luto Transcendental e o Sagrado Feminino na Lente de Chloé Zhao

 



#CinemaEuropeu #CinemaBritânico#MulheresnaDireção #ChloeZhao #JessieBuckley #PaulMescal #Drama #Luto #SagradoFeminino #AdaptaçãoLiterária #Família #Maternidade #ProtagonismoFeminino




Por Cristiane Costa,  Editora e Crítica de Cinema | Especialista em Comunicação e Projetos




O que acontece quando o gênio da literatura é colocado em segundo plano para que a terra, o luto e o sagrado feminino assumam o protagonismo? Em Hamnet, a diretora Chloé Zhao traduz a premiada obra de Maggie O’Farrell não como uma simples cinebiografia histórica, mas como uma experiência sensorial. Zhao realiza uma transposição literária magistral, onde o lirismo das páginas de O’Farrell encontra sua forma visual na introspecção e no naturalismo que se tornaram a marca registrada da cineasta em obras como The Rider e Nomadland. Diferente de outras adaptações ligadas ao universo de Shakespeare, que tradicionalmente privilegiam o olhar masculino ou a figura do dramaturgo, Hamnet rompe com essa tradição ao colocar Agnes (Jessie Buckley) no centro da narrativa, oferecendo uma perspectiva inédita sobre o legado literário.






A diretora Chloé Zhao com os atores Jessie Buckley e Paul Mescal. Divulgação.




A fotografia de Hamnet é um elemento narrativo por si só. A luz de Zhao, famosa por sua autenticidade, aqui se infiltra nas frestas da casa e na densidade da floresta, criando uma atmosfera de intimidade quase sagrada. Nas cenas ao ar livre, o detalhamento sensorial da natureza - o balanço das ervas, o cheiro da terra úmida, o calor do sol filtrado pelas copas das árvores - serve para validar a conexão de Agnes com seu ambiente. Dentro da casa, a luz é suave, porém carregada de sombras, refletindo a claustrofobia do luto e a proximidade física de uma família que tenta se curar no escuro.




A escolha narrativa de deslocar Shakespeare para Londres é fundamental para entender a dinâmica do casal. Enquanto o autor, interpretado com uma nuance de fuga por Paul Mescal, busca um isolamento artístico na cidade, Agnes permanece ancorada em Stratford. A ausência de Shakespeare retrata um comportamento masculino que escapa à responsabilidade afetiva quando interesses egóicos se sobrepõem ao sacrifício familiar. Agnes, a "filha da terra", enfrenta a tragédia com os pés no chão, enquanto o marido busca a transcendência na palavra escrita.





Jessie Buckley: uma atriz excepcional concorre ao Oscar 2026 como melhor atriz principal





Em Hamnet, o luto é táctil. Agnes processa a perda tocando as luvas e roupas que restaram, tentando segurar o imaterial através do que é palpável. Essa abordagem dialoga diretamente com debates contemporâneos sobre a maternidade real e a espiritualidade feminina, desmistificando a "mãe heroína" para mostrar a mulher que precisa da natureza para processar sua dor. O luto sensorial é testado pela peste, que assume um status duplo: o fato histórico inevitável e o dispositivo simbólico que desafia os dons ancestrais de Agnes. Ao mesmo tempo, o filme se conecta a discussões atuais sobre como o corpo feminino é espaço de resistência e sobre como a maternidade e a perda moldam identidades, ampliando sua relevância além do drama histórico.





  

Ator Jacobi Jupe interpreta o filho de Agnes




A atuação de Jessie Buckley é o centro gravitacional que já garantiu à obra reconhecimento nos principais festivais e premiações da temporada. Sob a direção de Zhao, Buckley entrega uma Agnes dilacerante, forte e vulnerável. Ela é a personificação da "mãe natureza", mantendo seu mistério ancestral enquanto atravessa o luto do não-vivido. Essa performance visceral eleva o filme para além do drama de época, tornando-o um estudo profundo sobre a longevidade da dor e a força das mulheres que a história muitas vezes deixou nas sombras. A recepção crítica tem sido unânime em destacar a intensidade da interpretação, coroada com o Globo de Ouro 2026 de Melhor Atriz em Filme de Drama e o Critics Choice Awards, consolidando Hamnet como uma das obras mais celebradas do ano e Jessie Buckley como favorita ao Oscar.






O título do filme desloca o foco para a experiência do luto e da continuidade da vida.




O título Hamnet é um convite ao despertar. Transcender o luto é um processo para poucos, e o filme demonstra que a dor materna é a mais difícil dessas travessias. Ao enfocar nas promessas e no tempo interrompido, a obra ganha uma nobreza realista. O filme nos lembra que todos perdemos "filhos simbólicos" ao longo da vida e que a jornada de Agnes é a jornada de todos nós em busca de um sentido para o que não foi vivido. Reafirmando a tradição de Zhao em filmar o humano em sua forma mais crua, Hamnet é a corajosa prova de que é preciso permanecer conectada à terra quando o mundo parece desmoronar. 





4,5



Imagens Universal Pictures. Divulgação

0 comments:

Caro(a) leitor(a)

Obrigada por seu interesse em comentar no MaDame Lumière. Sua participação é essencial para trocarmos percepções sobre a fascinante Sétima Arte.

Este é um espaço democrático e aberto ao diálogo. Você é livre para elogiar, criticar e compartilhar opiniões sobre cinema e audiovisual.

Não serão aprovados comentários com insultos, difamações, ataques pessoais, linguagem ofensiva, conteúdo racista, obsceno, propagandista ou persecutório, seja à autora ou aos demais leitores.

Discordar faz parte do debate, desde que com respeito. Opiniões diferentes são bem-vindas e enriquecem a conversa.

Saudações cinéfilas

Cristiane Costa, MaDame Lumière

Pesquisar este blog

Críticas mais Visitadas (Última Semana)