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Crítica | Meu Bolo Favorito (My Favourite Cake, 2024)

 



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Por Cristiane Costa,  Editora e Crítica de Cinema | Especialista em Comunicação e Projetos




O cinema iraniano contemporâneo frequentemente encontra na restrição o combustível para metáforas potentes sobre a liberdade. Em Meu Bolo Favorito, dirigido por Maryam Moghaddam e Behtash Sanaeeha, essa premissa ganha contornos de uma delicadeza cortante ao focar na jornada de Mahin (Lily Farhadpour), uma mulher de 70 anos que decide romper com a inércia da solidão. Essa busca por um novo amor configura-se mais como um ato político do que puramente humano, uma vez que a própria humanidade, no contexto do Irã, é diariamente impactada pela repressão e pelo silenciamento. Mahin assume seu lugar de fala com inteligência, utilizando o humor, presente até em seus silêncios e risadas discretas, como uma ferramenta de subversão.








Essa resistência íntima encontra sua expressão mais clara na forma como a protagonista ocupa o ambiente doméstico. Diferente de outras narrativas onde a casa surge como um cárcere, aqui o lar é apresentado como um território de identidade e pertencimento. Embora silencioso e solitário, o espaço diz sobre quem ela é e sobre sua recusa em negar a própria existência. Mahin adapta sua realidade e vive com autenticidade, defendendo esse reduto contra invasões externas, sejam elas as leis do Estado ou a curiosidade de vizinhos. Com leveza e jogo de cintura, a casa torna-se o palco onde ela comanda a própria vida, permitindo-se dançar, beber e, fundamentalmente, exercer o direito ao flerte.









É nesse espaço de soberania que se abre a possibilidade do encontro com Faramarz (Esmaeel Mehrabi), uma intersecção de solidões que transborda o caráter individual para se tornar coletivo. A beleza dessa conexão reside na sua universalidade: é possível identificar-se com o acalento desse encontro independentemente de geografia, raça ou idade. A relação entre os dois possui a organicidade do que é autêntico, nascendo do ato de permitir-se conhecer o outro através da empatia e da vulnerabilidade. Mais do que um simples romance, o encontro carrega um poder simbólico e humano imenso, especialmente para uma mulher idosa em uma sociedade que frequentemente condena o envelhecimento em favor das aparências e da juventude performática.




Essa conexão, ao mesmo tempo universal e singular, dialoga diretamente com os dilemas do envelhecimento populacional. Esteticamente, a dupla de diretores se posiciona em uma vertente que dialoga com o realismo de Asghar Farhadi, mas flerta com o radicalismo silencioso de Jafar Panahi. Ao contrário da denúncia direta, Moghaddam e Sanaeeha optam pela resistência do cotidiano. Essa escolha foi recebida com aclamação em festivais internacionais, como o Festival de Berlim, onde o contraste entre a recepção global, que celebrou a vida e a liberdade da obra, e a recepção local foi brutalmente evidenciado pela proibição dos diretores de deixarem o Irã para comparecer à estreia. Há relatos de que o filme levou os cineastas ao tribunal e foi alvo de forte repressão interna, reforçando o contraste entre celebração internacional e censura doméstica. Esse cerceamento ecoa o movimento "Mulher, Vida, Liberdade" ao mostrar uma mulher que, mesmo sob vigilância, recusa-se a apagar seus desejos.










Essa metáfora do desejo doce e planejado prepara o terreno para um desfecho agridoce, marcado por uma parcela trágica, mas profundamente realista. Ao aceitar que ciclos se fecham e surpresas acontecem, o longa revela sua humanidade e seu caráter tragicômico mais puro. Em uma realidade de países que sofrem retaliação, a escolha narrativa mostra-se extremamente perspicaz: ensina que é preciso aproveitar cada fatia da vida, independentemente da violência ou do controle externo. O impacto da obra também se estendeu a debates internacionais sobre envelhecimento e liberdade feminina, ampliando sua relevância histórica ao mostrar que a resistência pode se manifestar tanto em gestos íntimos quanto em movimentos coletivos.




No fim, a grande sabedoria que a obra deixa é a recusa em ser infeliz por causa da limitação imposta pelos algozes. Assim, o filme reafirma que até os gestos mais íntimos, como amar, rir ou comer um bolo, podem se tornar atos de resistência.









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