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Por Cristiane Costa, Editora e Crítica de Cinema | Especialista em Comunicação e Projetos
A Warner Bros. Pictures traz em 2026 uma nova e visceral adaptação de O Morro dos Ventos Uivantes, dirigida por Emerald Fennell. Estrelado por Margot Robbie e Jacob Elordi, o filme transpõe a obra de Emily Brontë para uma estética que potencializa o desejo e a obsessão gótica. Fennell mergulha nas raízes da toxicidade que, em 1847, foi recebida como selvagem e escandalosa pela sociedade vitoriana, resgatando o caráter amoral que as adaptações anteriores frequentemente suavizaram em favor de um romantismo palatável.
A fotografia acentua a dualidade entre o Morro e a polida Granja dos Tordos, mas nem o luxo do figurino oculta a apatia de Catherine após o casamento. O filme é fiel ao livro ao ressaltar que ela e Heathcliff se percebem como "uma só carne", ancorando-se na célebre afirmação de Brontë: "Eu sou Heathcliff". É uma fusão metafísica que ignora limites morais, onde o desejo de penetração espiritual e a viciação emocional são filmados com uma crueza que transforma a vingança em um motor de destruição social.
Diferente de versões passadas que higienizaram o protagonista, o Heathcliff de Elordi é um narcisista que usa a crueldade como prova de poder. Catherine, por sua vez, definha em uma "gaiola dourada", provando que o conforto material é insuficiente quando a essência permanece acorrentada ao pântano. Esta versão, visualmente hipnotizante, entrega um espetáculo de blockbuster intenso o suficiente para atrair o público moderno, servindo como uma porta de entrada para quem deseja desmascarar mecanismos de obsessão.
O grande trunfo de Fennell é desmascarar a governanta Nelly Dean (Hong Chau), revelando sua vilania sofisticada e passivo-agressiva. Chau entrega uma performance contida, ecoando figuras de controle silencioso como a sinistra Mrs. Danvers em Rebecca, de Daphne du Maurier. Ela não é a cuidadora fiel, mas a "dona da verdade e da mentira", manipulando informações e omitindo cartas cruciais por pura inveja e um complexo de inferioridade disfarçado de virtude, operando nas sombras da narrativa.
O filme sugere a origem dessa amargura na frase cortante: "uma bastarda nunca se tornará uma dama". Essa ferida de classe impulsiona a sabotagem velada da Nelly, que usa o silêncio e o gaslighting para nivelar as "damas" ao seu abismo de solidão. Sua periculosidade reside em ser invisível até o bote final, traindo a confiança de Catherine sob a máscara da moralidade. É a representação perfeita da perseguição silenciosa que drena a energia vital sem nunca elevar a voz.
O Morro dos Ventos Uivantes é um banquete estético, mas a blindagem emocional nos faz sair do cinema com uma certeza: a intensidade não justifica a destruição. O choro final da Nelly e o segredo sussurrado mantêm o monopólio da história nas mãos da manipuladora. É um alerta poderoso sobre o perigo das "Nellys" que nos cercam, sabotando nossa paz e nossa voz nas entrelinhas da vida, enquanto assistem ao nosso colapso de camarote. Quase dois séculos depois da obra de Brontë, seguimos reconhecendo que a toxicidade nunca será amor.





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