MaDame Lumière

Sou MaDame Lumière. Cinema é o meu Luxo.

Por  Cristiane Costa ,  Editora e blogueira crítica de Cinema, e specialista em Comunicação Dramas que narram o sofrimento de cria...




Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação



Dramas que narram o sofrimento de crianças é uma experiência cinematográfica bastante dolorosa, mas é preciso denunciar, em documentários e na ficção, histórias reais vivenciadas pela infância. Em muitos contextos e locais, a infância não é bem tratada como deveria ser. Quando as narrativas são inspiradas em biografias reais,  por mais revoltante que seja saber sobre os maus tratos às crianças, estes filmes servem para mostrar às pessoas que histórias ruins não devem se repetir. Elas quebram o silêncio da hipocrisia e violência humana.



Dirigido por Jesper W. Nielsen, o longa dinamarquês, Quando o dia chegar (Der Kommer en Dag, 2016)  é ambientado no orfanato Gudbjerg em Copenhagen na década de 60. Inspirado em fatos reais, o nome verdadeiro da instituição é  Godhavn, que recebeu várias denúncias de permitir abusos e violências em geral contra meninos. Em uma época que a Dinamarca tem como lema o desenvolvimento da nação, o diretor Frederick Heck, interpretado por Lars Mikkelsen, apresenta um estilo autoritário, desumano, capaz de realizar experimentos como seus internos, assim como fingir comandar uma "boa instituição" e ser conivente com a violência contra crianças e jovens. 






A história enfoca a jornada de sofrimento de dois irmãos, Elmer e Erik (Harald Kaiser Hermann e Albert Rudbeck Lindhart), que inicialmente vivem com a mãe doente.  Desprovidos de recursos e ociosos, eles começam a realizar pequenos delitos e sofrem das consequências de uma rotina pobre e sem estrutura para desenvolver suas potencialidades. Quando a mãe fica hospitalizada, eles são abandonados e enviados a Gudbjerg. A partir daí, começa a rotina de maus tratos institucionais, alternados com episódios imaginários de fuga e esperança dos irmãos.






A direção tem ações conscientes para não esconder nada do público. Esta transparência sustenta a qualidade do longa à medida que a história  mostra claramente o abuso institucional contra a infância e a juventude. Violência e hipocrisia são constantes  na narrativa, tanto sob uma perspectiva individual como professor pedófilo, diretor torturador, funcionários silenciados, entre outros,  como também reunindo todos estes elementos para escancarar a perspectiva institucional em conservar as aparências e dissimular ser boa para manter sua reputação. 


Por outro lado, neste drama de guerra no qual o orfanato é um campo de batalha para estas duas crianças, o diretor intercala cenas afetivas e lúdicas entre os irmãos que ajudam a acreditar que Elmer e Erik conseguirão escapar desta experiência tão desumana, inaceitável. Em um contexto de prisão e violência, os irmãos demonstram a força do afeto e da família, da proteção aos que se amam, aos sonhos despedaçados que ainda podem ser reconstruídos.



Normalmente os dramas dinamarqueses não colocam freios em mostrar as violências de vários tipos, desta forma, Jesper W. Nielsen  explora o que este cinema costuma ter de melhor:  roteiro, direção de atores e de fotografia. 


O roteiro não deixa pontas soltas e dá conta de diferentes circunstâncias e nuances comportamentais  dos variados personagens.  O elenco tem espaço para mostrar como as várias pessoas reagiriam nestas situações. No mais, a dupla de atores irmãos é o que mantém a beleza e esperança. São carismáticos e maduros. Realizam cenas difíceis nas quais levam tapas e são humilhados, situações realmente complexas para atores mirins, então acabam por oferecer uma excelente atuação.



A dinâmica da história acerta em narrar ao espectador como os irmãos conseguem sobreviver no inferno e mostrar suas virtudes e desafios. Elmer é um exímio sonhador e contador de histórias, que tem como sonho viajar à lua .  É um personagem infantil belíssimo porque, sendo o irmão mais novo, é o que ajuda todos os demais internos a não deixar de imaginar coisas boas, a entretê-los com as imaginativas histórias que servem como um analgésico às almas e corpos feridos. Infelizmente, é o que perderá a inocência, sendo uma das vítimas de abuso sexual.






Erick é um personagem tão complexo para uma criança, o qual o ator performa com muita competência. Por ter 13 anos, ele está na transição entre a infância e a adolescência, entre uma fase que não foi vivida integralmente (e saudavelmente) em sua potência e as responsabilidades e dramas do amadurecimento.  Ele carrega o compromisso de cuidar do irmão menor e, portanto, seu papel é difícil por conta desta responsabilidade paternal tão prematura e frustrante, já que ele é mais uma vítima de abusos, mais uma criança que foi abandonada.






Cabe também mencionar o bom trabalho da atriz Sofie Gråbøl como a professora Lilian, uma mulher sem filhos que oferece o simbólico maternal à narrativa. Ela é a única personagem que verdadeiramente se sensibiliza com a situação dos meninos. Representa aquelas pessoas honestas e sensíveis que são esmagadas pela corrupção e violência institucional, mas que não se rendem às chantagens. Ela sofre o abuso do silêncio, o de se manter calada para que algo pior não lhe ocorra, mas também representa a solidariedade e a justiça.



O experiente Lars Mikkelsen é um gigante na atuação em um personagem extremamente desagradável. É impossível não odiá-lo, entretanto, é possível compreender suas motivações como um diretor de orfanato. Na sua essência, ele pensa estar fazendo o "bem" em uma educação punitiva, algo ainda muito comum em várias instituições. A instituição representa o seu ego e seu ego está a serviço da instituição.




Finalmente, a hábil direção de fotografia de Erik Zappon equilibra momentos torturantes e amargos em um espaço claustrofóbico com os de ludicidade, de liberdade imaginária. São as cenas de afeto e imaginação que aliviam o sofrimento e são o escape para um esperado retorno ao lar. 








Por  Cristiane Costa ,  Editora e blogueira crítica de Cinema, e specialista em Comunicação Com direção de Neil Jordan ,  Obsessão...



Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação



Com direção de Neil JordanObsessão (Greta, 2019) é um daqueles filmes de horror que misturam o absurdo e o imaginário a situações cotidianas nas quais não devemos confiar totalmente nos estranhos. Este clima de atração e repulsa ao encontrar um(a) desconhecido(a) combina perfeitamente com o talento e charme de Isabelle Huppert, uma das atrizes mais experientes e incríveis que conseguem desenvolver um tipo de personagem tão insano e elegante como Greta Hideg.






Ela realiza o papel de uma mulher que atrai suas vítimas, jovens carentes e inocentes, deixando bolsas "perdidas" no metrô da cidade como iscas. Em uma destas investidas, a jovem Frances McCullen (Chlöe Grace Moretz) encontra a bolsa e decide devolvê-la à Greta. Elas desenvolvem uma amizade e, para o azar de Frances, Greta é uma psicopata nível hard. Uma verdadeira stalker de filmes de horror. 



A parceria entre Neil Jordan e Isabelle Huppert funcionou muito bem. A atriz interpreta a personagem com tanta facilidade e naturalidade que chega a ser  sedutor e divertido, mas também intensamente perturbador. Em um pouco mais de 90 minutos de longa, o cineasta tem habilidade para levar os absurdos ao máximo do incômodo. Greta é obstinada, sedutora e inteligente, uma mulher totalmente sem limites, perigosa e sem noção. Huppert consegue dar a ela variadas nuances de insanidade e determinação que são realmente assustadoras.






Do início ao meio do longa, a narrativa se aproxima a algo mais repetitivo que é um tanto aborrecedor em termos criativos, considerando que basta ao filme mostrar a insanidade de Greta e sua atuação de stalker além do crescente desespero de Frances. Nesta faixa de duração, é possível apreciar o filme melhor se o público focar principalmente no talento de Isabelle Huppert e como ela está tomada por um espírito sociopata que apenas a morte da personagem seria capaz de pará-la. 


Greta é própria encarnação do mal em um cotidiano que todos os dias surgem tantos estranhos nas ruas e nas redes sociais que podem ser stalkers a qualquer momento. Ela finge ser maternal, amiga e leal por trás de suas vestes elegantes e sorriso falso. Sua ideia de afeto é totalmente distorcida, doentia, assim, o público está diante de uma elegante e perigosa psicopata. 


De maneira crível, Isabelle Huppert tem total liberdade para atuar nesta parceria. Ela leva o filme como o título. Mais uma vez prova que é uma atriz completa, uma joia rara. O filme só não cai no ridículo ou mais do mesmo por conta da parceria entre ela e o diretor. 







No terceiro ato, Neil Jordan avança qualitativamente na direção. Além da atuação de duas atrizes em boa sintonia, o cineasta faz uma homenagem ao suspense de Brian de Palma e ao gênero horror. Muito consciente, ele expressa que sabe o que faz. Em várias cenas, inclusive na tomada de decisão com relação à edição e à execução do clímax, é inegável seu hábil controle para levar a narrativa entre o imaginário e o real. Em determinadas cenas, especialmente, indo mais ao tenso pico de conflito entre as personagens na casa de Greta, medo e sofrimento se misturam ao riso do absurdo.







Além da ilustre presença de Isabelle Huppert, um dos pontos fortes de "Obsessão" é a capacidade do diretor utilizar ao máximo os benefícios do gênero de forma a favorecer a sinergia entre história, elenco, clímax e desfecho, assim, entregando um filme bem executado, uma homenagem contemporânea ao horror B.








Vaya , de Akin Omotoso é parte da programação da Mostra Cinemas Africanos 10 a 17 de Julho de 2019 no Cinesesc (SP) Por  Crist...



Vaya, de Akin Omotoso é parte da programação da Mostra Cinemas Africanos
10 a 17 de Julho de 2019 no Cinesesc (SP)


Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação




Diretor com reconhecida trajetória na África do Sul, Akin Omotoso  tem experiência como cineasta e ator, tendo realizado até pontas em filmes como Diamante de Sangue e  o Senhor das Armas.  Seu longa "Vaya", presente na programação da Mostra de Cinemas Africanos em São Paulo é resultado de um projeto de 8 anos baseado em relatos reais de pessoas em situação de rua em Joanesburgo. Faz parte de sua maturidade na direção ao realizar uma dramática narrativa com 3 protagonistas excluídos socialmente.






A história inicia com uma viagem de trem brevemente filmada e a chegada dos 3 personagens a Joanesburgo: Zanele (Zimkhitha Nyoka), jovem dançarina que leva a sobrinha para ser entregue à  Patrícia (Nomonde Mbusi), mãe da menina; Nhlanhla (Sihle Xaba), homem do interior que procura ajuda do primo para conseguir um trabalho; Nkulu (Msimang Sibusiso), que tem a missão de buscar o cadáver do pai e levá-lo de volta à família. Todos vieram de local pacato,  são vulneráveis emocionalmente, não têm posses e nem dinheiro para sustento básico e precisam da ajuda de familiares na capital. 



O diretor realiza uma boa direção partindo de um equilíbrio em cena ao retratar cada um dos personagens, demonstrando um bom senso entre direção de fotografia, edição e direção de atores. É um roteiro que não se aprofunda nos diálogos e nas histórias em si, porém, alcança uma harmonia que deixa evidente a situação vulnerável dos três personagens que não têm qualquer apoio real e afetivo dos familiares. Pelo contrário, são realmente negligenciados, tratados mal, enganados e/ou chantageados.



Muito do acerto comercial do filme é torná-lo mais palatável em meio à tragédia pessoal destes personagens. É um filme triste que não oferece saída positiva às pessoas, mas também há leveza na história através do humor e da ingenuidade de cada um deles. São bastante ingênuos (até demais!) e pessoas que, de certa forma, criam um elo de empatia com o público e acreditam que suas vidas podem melhorar, mas a verdade é que eles são empurrados para situações nas quais realmente ninguém se preocupa com eles. Eles estão sozinhos, abandonados na essência.






Os únicos momentos genuínos de afeto e solidariedade vêm das crianças( entre elas, a jovem Azwile Chamane-Madiba) e de um vendedor informal de eletrônicos que interagem  com Zanele. Todos os outros coadjuvantes são violentos, falsos e/ou de moral duvidosa como os bandidões rivais entre si, Xolani (Warren Masermola) e Madoda (Mncedisi Shabangu) que pintam um retrato pessimista da cidade na qual quem manda é quem tem dinheiro, chantageia, engana e mata. Neste sentido, o elenco está bem afiado. Embora o roteiro não ofereça um maior aprofundamento na densidade dos personagens e diálogos, o elenco é bem comprometido e dirigido. 


Nitidamente, Akin Omotoso  não quis tornar seu filme demasiado cru e visceral, decisão que pode vir a frustrar determinados espectadores que preferem um drama social mais contundente, denso em subcamadas. De fato, há a crueza das relações sociais, do abandono familiar, da corrupção e violências da capital Africana, entretanto, ele não leva estas características ao limite cênico perturbador.  Certas decisões da direção são pontuais, diretas ao ponto e rápidas, por isso,  Omotoso perde a oportunidade de fazer cenas mais elaboradas, dramaturgicamente falando. 






No centro da história, seu longa é sobre abandono familiar, um real beco sem saída para pessoas em situação vulnerável em uma cidade violenta e corrupta como Joanesburgo. A falta de humanidade é muito clara, como é relatado normalmente por vários moradores de rua que são abandonados por familiares. Os três personagens são usados, ignorados e/ou enganados. Corrupção, tráfico de drogas, violência contra a mulher, adultério e mentiras são abordados nas cenas que provocam mal estar em como estes personagens estão de mãos atadas. Quem deveria apoiá-los são os que o abandonam, situação que leva ao questionamento de onde estão os valores familiares no mundo contemporâneo.


Com a utilização de música urbana periférica como o rap / hip hop  e tomadas com enquadramentos mais aéreos da metrópole, Omotoso intercala os momentos dramáticos mais intimistas e violentos com decisões de um cinema mais comercial, de fácil aceitação. Esta "suavização" abre espaço para não  aprofundar  demasiado as histórias pessoais, os diálogos, as emoções. 



Ainda assim, "Vaya" é um bom filme ao retratar a luta pela sobrevivência em um contexto de falta de humanidade na qual as relações interpessoais são ligadas ao dinheiro, ao status e posição, aos interesses, aos egos e melindres.  É um contexto que não está longe da realidade de tantas outras cidades do mundo onde  a empatia é algo cada vez mais raro.







Por  Cristiane Costa ,  Editora e blogueira crítica de Cinema, e specialista em Comunicação Desde a criação do MaDame Lu...







Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação



Desde a criação do MaDame Lumière,  um dos pilares de divulgação e promoção do Cinema pelo blog é propor ao leitor revelar a potência da Sétima Arte e da força do olhar do espectador em sintonia com as variadas histórias contadas pelo Cinema. 

Aceitar esta proposta é descobrir novos mundos, percepções e emoções nas diversas cinematografias mundiais, inclusive as que ainda estão invisibilizadas pelo sistema do mercado audiovisual que não dá conta (ou não prioriza) a distribuição de filmes independentes e cult.
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Este mês as curadoras Ana Camila  e Beatriz Leal Riesco em parceira com o SESC São Paulo abriram uma janela de exibição para o Cinema Contemporâneo Africano e suas Diásporas. Está em cartaz a "Mostra de Cinemas Africanos" no Cinesesc até 17 de Julho. Em sua quarta edição, a Mostra traz um total de 24 filmes de 14 diferentes países, com preços acessíveis que podem ser comprados na internet, via site do SESC SP ou na bilheteria do Cinesesc.


O diferencial da Mostra de Cinemas Africanos é o direito à visibilidade e representatividade de produções cinematográficas Africanas, suas histórias, suas realidades e potências em territórios que precisam aprender a valorizar, cada vez mais, as identidades, manifestações artísticas, produções e legados da cultura Africana. 


O Brasil é um destes países que, além de ser um mercado multicultural de Cinema, tanto dos produzidos aqui como dos produzidos no exterior, tem uma população negra, no geral, também uma nação multiétnica que precisa se apropriar da valorização desta ancestralidade e do reconhecimento das produções culturais das diversas Diásporas. 

Segundo os organizadores  o objetivo da Mostra é "mostrar a explosão de riqueza, criatividade e diversidade na última década  de uma cinematografia com um pouco mais de meio século de vida".  O evento traz longas e curtas que são, na sua maioria, inéditos. Eles não entrarão em circuito comercial no país, o que torna esta uma oportunidade singular para cinéfilos e apreciadores do bom Cinema.


Como parte de um momento de conquista da diversidade do Cinema no Brasil,  é fundamental que, aqueles que têm oportunidade de conhecer e prestigiar o evento, realmente o façam. É um momento único que incentiva o conhecimento sobre outras realidades de países africanos, estilos e  formas de direção, cineastas emergentes e que estão na luta, assim como explorar as diferentes narrativas oferecidas pela Mostra. 

Outra característica desta janela de exibição é a presença de várias mulheres diretoras na programação. O protagonismo feminino representa uma evidência do crescimento do evento. Este ano, entre os filmes e cineastas presentes, destacam-se:  Kasala! (Ema Edosio), Afronautas (Nuotama Bodomo) e Pumzi (Wanuri Kahiu), a Irmandade (Meryam Joobeur), Lua Nova (Philippa Ndisi-Hermann) e Ame quem você ama (Jenna Bass).

Segundo o MaDame Lumière, estes são os filmes que são imperdíveis, mas se tiver tempo e dinheiro, veja o máximo de filmes que puder:







"Supa Modo" (Quênia/Alemanha, 2018 de Likarion Wainaina): Destaque no Festival de Berlim em 2018, a história conta a jornada de uma menina com câncer em fase terminal. Diferente dos dramas pesados sobre a doença, o longa utiliza o simbólico poder do cinema, com doçura, imaginação e afeto.





 "Vaya" (África do Sul, 2016, de Akin Omotoso) : história sobre 3 pessoas que chegam à periferia de Joanesburgo e têm que lidar com o abandono de suas famílias e outras situações de vulnerabilidade, violência e maus tratos. Inspirado em relatos reais de pessoas em situação de rua.




"Olhe pra mim" (Tunísia/França, 2018, de Néjib Belkadhi): narrativa sobre um pai que retorna ao país no qual fugiu da família e reencontra o filho autista. A paternidade é retratada como um reencontro transformador.  Nidhal Saadi, que protagoniza o pai, ganhou o prêmio de melhor ator no festival internacional de Cinema de Marrakech (2018).




"Kasala!" (Nigéria, 2018, de Ema Edosio): comédia sobre juventude negra na qual quatro jovens pegam um carro que não pertence a eles e entram em uma tremenda confusão.  A combinação do humor e da fisicalidade dos atores é o destaque, além da vibrante, estilosa e moderna direção.




"Ame quem você ama" (África do Sul, 2014, de Jenna Bass): Uma história sobre relacionamento rompido que coloca em cena os ideias do amor, da felicidade e das relações. Destaca-se por tratar dos afetos contemporâneos. 




"Rafiki" (Quênia, 2018, de Wanuri Kahiu): uma narrativa LGBTQi+ sobre o amor,  amizade e liberdade de duas mulheres, inspirada no conto "Jambula Tree" da Ugandesa Monica Arac de Nveko.



(Hienas. Foto: divulgação)


Os clássicos Senegalenses "Touki Bouki" (1973) e "Hienas" ( 1992) de Djibril Diop Mambéty: O primeiro narra sobre o encontro entre Mory e Anta em Dakar que sonham em ir à França. O drama relata sobre os sonhos da juventude em mudar de país, assim como a realidade e frustrações. O segundo aborda o drama do amor e da vingança e é uma adaptação da peça "A visita da velha Senhora" do autor suiço Friedrich Dürrenmatt, um dos maiores clássicos teatrais em língua alemã.


Maiores informações sobre o evento, acesse a página Mostra de Cinemas Africanos: https://www.facebook.com/pg/mostradecinemasafricanos
Críticas do filme, acompanhe as divulgações também no facebook https://www.facebook.com/crismadamelumiere/ e nesta página.


Por  Cristiane Costa ,  Editora e blogueira crítica de Cinema, e specialista em Comunicação A deslumbrante Glenn Close é uma das ...




Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação




A deslumbrante Glenn Close é uma das melhores atrizes do mundo, sem dúvidas! Não ganhou o Oscar como melhor atriz principal por "A Esposa" (The Wife, 2017, do sueco Björn Runge) mas isto não impactou em nada sua competente carreira e notório papel. Além de ter sido nominada a vários prêmios na temporada de awards de 2019, ela ganhou  por esta atuação duas premiações que reconhecem o seu talento e maestria: SAG e o Globo de Ouro.


Joan Castleman é um personagem que caiu como uma luva para Glenn Close. É como um encontro perfeito que o Cinema tinha que fazer acontecer. De muitos de seus papéis, este é um daqueles aparentemente menores, entretanto,  tem uma complexidade bem peculiar que apenas atrizes com as nuances dramáticas críveis como a dela faria o filme funcionar tão bem. 






Baseado no romance homônimo de Meg Wolitzer, "A Esposa" narra a história de uma mulher que faz uma escolha decisiva, mantém a lealdade ao marido e lida com o silêncio, o peso e a discrição de tal decisão. É um filme sobre renúncia e sacrifício. Alguns dirão que é sobre o amor de um casal de meia-idade, mas é melhor considerá-lo como um pacto em nome do casamento, da família e da carreira, que retrata também as consequências de um contexto de não valorização das mulheres escritoras no meio literário. 



Com uma narrativa bem dramática, Glenn Close encarna uma poderosa ambiguidade entre a devoção, o compromisso e a culpa. Joan é casada com um Joe Castleman (Jonathan Pryce), um escritor que receberá o Nobel de Literatura em Estocolmo (Suécia). Casados de longa data, tem dois filhos,  entre eles, um jovem aspirante a escritor (Max Irons) que tem um relacionamento conflituoso com o pai e se sente desvalorizado.







As primeiras cenas do filme funcionam como um spoiler para quem já está acostumado a inferir sobre roteiros.  O diretor enfoca o casal em seu ambiente íntimo e familiar na Califórnia que recebem uma ligação telefônica na qual Joe Castleman é comunicado sobre o Nobel de Literatura e convidado para o evento.  O close up na expressão incrível de Glenn Close é impactante, tenso, doloroso. Frases como "não acredito no que estou vendo"! "Ela fez isto mesmo?" serão comuns nos pensamentos de alguns cinéfilos e espectadores em geral.



A partir daí, a narrativa se desdobra na preparação para a cerimônia de premiação, entrecortada com diálogos entre o casal e os filhos, flashbacks do passado de Joe e Joan quando se apaixonaram, começaram a escrever sobre literatura na Universidade e firmaram o casamento. De uma maneira bem inteligente,  o roteiro inclui  a figura de um jornalista,  o biógrafo de Castleman, Nathanial Bone (Christian Slater) que vem para provocar e desestabilizar essa aparente perfeição da parceira do casal. A presença de Slater como coadjuvante, um ator objetivo, prático e sedutor,  assegura boas cenas com Glenn Close 



É necessário enfatizar que este filme tem sua força na característica reforçada pelo seu título: a esposa. É um filme que coloca a responsabilidade dramática substancialmente em Glenn Close. Ela, muito consciente e preparada na psicologia do personagem, realiza um trabalho excepcional. Os conflitos são prioritariamente dela a tal ponto que seu marido se torna um homem desprezível em várias cenas. Assim, a condição da mulher talentosa que fez sacrifícios na carreira em uma época machista traz consequências irreparáveis que seguramente ela não merecia. 






Outro diferencial do longa é possibilitar testemunharmos o descontrole da personagem, mostrando que, por mais que Joan seja elegante, discreta e madura, ela chega a um nível psicológico que se desestabiliza no evento. A postura forte e controlada de Joan tem um efeito que, pouco a pouco, vai se desfazendo, fato bem positivo para o arco dramático do personagem. 


Jonathan Pryce realiza um trabalho muito bom para este personagem, bem aderente a complementar a tensão entre o casal. Sendo um ator experiente, ele interpreta um homem idoso bem sucedido que desperta desprezo e piedade. Ele é o Nobel de Literatura e, ao mesmo tempo, uma sombra no casamento. Em algumas cenas chega a ser patético, evidência que reforça que ele apenas é quem é por causa da grande mulher que está ao seu lado. Joe Castleman é um daqueles homens que permaneceram casados  com uma admirável mulher há anos, que aceita o sacrifício da esposa sem dar nada ou pouco em troca, e ainda deixa a dúvida se é tão leal e realmente a ama ou é apenas mais um homem egoísta e infiel em um casamento no qual apenas a parte masculina mais ganha.







"A esposa" é um longa imperdível na carreira de Glenn Close. É um drama feminino doloroso considerando as renúncias que inúmeras mulheres fazem por causa de seus companheiros e amantes. Certamente, leva à reflexão até que ponto realmente vale a pena se sacrificar por qualquer pessoa. É claro que, especialmente, o filme é Glenn Close para todas as mulheres: para as que se sacrificaram no relacionamento e para as que não desejam se sacrificar a tal ponto.  






Por  Cristiane Costa ,  Editora e blogueira crítica de Cinema, e specialista em Comunicação "Quem você pensa que sou" (...





Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação




"Quem você pensa que sou"(Celle que vous croyez, 2019), filme de Safy Nebbou  presente na programação do Festival Varilux deste ano tem a musa Juliette Binoche como protagonista que vivencia o amor e a fantasia através das redes sociais, experiência que traz impactos emocionais para a sua vida real. Ela interpreta Claire Millaud, mulher de 50 anos, professora universitária e recém divorciada. Em uma fase de cura, experimentações e segunda chance, sem muitas pretensões, ela cria um perfil falso no Facebook  e conhece o jovem sedutor Alex (François Civil), um fotógrafo que tem o carisma, a sensibilidade e a beleza que encantariam muitas mulheres.







Com leveza, naturalidade e maturidade, Juliette Binoche apresenta a dimensão de uma personagem que está presente na vida contemporânea: a mulher de meia-idade que saiu de um casamento e está solteira. Podendo ser também a que nunca se casou, segue aberta a um relacionamento e acredita que merece o amor como qualquer outra mulher. Como uma volta à juventude cheia de dúvidas e  inseguranças, esta mulher tem que lidar com os dramas de amor em uma época de relações virtuais, frágeis e voláteis. Para ambos os casos, é muito desafiador se reinventar sem abandonar a essência do eu, a crença no amor, a busca e merecimento da felicidade.



Claire tem a ambiguidade que algumas mulheres nesta faixa etária não deveriam ter, afinal, já viveram experiências e situações afetivas há anos, em menor ou maior grau de complexidade. Por incrível que pareça, Claire é insegura e age como uma adolescente, o que pode soar estranho para muitos(as). Ela inventa um perfil falso e tem medo de ser rejeitada, assim, alimenta uma relação virtual com fotos que não são suas, criando uma Claire paralela, uma projeção da jovem que gostaria de ser ou que imagina ser mais atraente para os homens. Ela nutre a relação com  uma beleza jovial e refrescante padrão e com desejos de liberdade, sexo, paixão, amor despertados em Alex devido a este frescor. Mal sabe ela que muitos homens mais jovens adoram mulheres mais velhas.






Este é um aspecto do roteiro que, apesar de legítimo, enfraquece o personagem. A todo o momento, o filme mostra o medo e a insegurança de um mulher de 50 anos, o que parece um tanto irreal, considerando que, normalmente, uma mulher desta faixa etária se lançaria à paixão, ou pelo menos, mostraria o verdadeiro rosto ao homem que deseja mesmo sob o risco de ser rejeitada. Em outras palavras, mulheres mais velhas são mais práticas, embora não seja regra. Além disso, dificilmente um homem aguentaria investir horas e horas online em uma mulher que não mostrasse ser ela na web cam. Os homens são tradicionalmente seres visuais. 


Com muitas neuras, Claire embala esta paixão com suas mentiras, chegando a uma forte tensão entre vivenciar um amor real com Alex e cortar a relação. Mesmo com esta característica da narrativa, o filme é honesto com o público, principalmente quando analisado sob a perspectiva dos relacionamentos virtuais e do principal trauma que levou Claire a ter tanto medo da rejeição. Acima de tudo, o filme não esconde como é difícil amar e ser amada (o) em um mundo cada dia mais virtual e raso.






O mundo virtual trouxe certas delícias e perigos. Esta ampla possibilidade de conhecer pessoas  em qualquer parte do mundo, de sair da zona de conforto e se arriscar às paixões mais ardentes e misteriosas ou simplesmente de encontrar a sorte de um amor real  não deixa de ser sedutora. Apenas com uma curtida de um aplicativo de relacionamentos é possível ter uma potencial porta de entrada para se apaixonar e também se decepcionar. Há o risco de puxar papo com um(a) desconhecido (a) atraente que, certamente, é uma grande roubada. Por outro lado, há relações estáveis e saudáveis que começaram em aplicativos de relacionamentos. Assim, o mundo virtual transita entre o querer, o sentir e o vivenciar de uma forma muito mais ambígua, ora podendo ser intensa, apaixonante e complexa, ora superficial, decepcionante, rasa. 






Na narrativa, o diretor trabalha muito bem a escolha e montagem entre os planos da realidade cotidiana e virtual, muito em função da escolha por incluir Claire em uma sessão de terapia com Dr. Catherine Bormans (Nicole Garcia). Sem este recorte, o filme teria um esvaziamento narrativo e seria muito difícil sustentar a história. Com a boa atuação de Nicole Garcia, a personagem de Catherine traz a perspectiva de um exímio ouvinte que oferece um ambiente seguro e necessário para Claire ressignificar sua relação, sentimentos e percepções neste amor platônico por Alex. 



Catherine é como nós, como espectadores, a observar a angústia de Claire, mas também, como conhecer um amante atencioso e apaixonante é revigorante. Somos lançados nesta paixão, podemos torcer por eles assim como desacreditar neste tipo de relacionamento. Na fase de flerte, Claire e Alex trazem para a tela o quanto é bom ouvir e ser ouvida(o) por quem nutrimos afetos, como é envolvente desejar e ser desejada (o), como é sedutor sentir prazer, ainda que virtualmente, fantasiando as inúmeras possibilidades de realizar todas estas fantasias de sexo e amor na vida real. Catherine coloca este espelho diante dos olhos de Claire, um espelho que, em diversos momentos da vida, muitos de nós precisamos encarar.







Este é um filme que poderia ser afundado pelos clichês, aliás, não faltam algumas situações clichês que são recorrentes nos flertes virtuais. Entretanto, eles são necessários pois são reais. É muito difícil sustentar um relacionamento virtual, portanto, as situações se repetem como um tédio constante, uma sensação de falta latente, uma ânsia pelo toque e calor do outro. Toda este desconforto é transmitido através da boa atuação de Juliette Binoche. Neste ponto, a experiência da atriz sustenta substancialmente a qualidade interpretativa de Claire. O drama da personagem é ter medo de ser rejeitada, sendo assim, a espontaneidade de Binoche, seu bom humor misturado ao drama, trazem dignidade à esta mulher que carrega traumas e dores do  passado , mas também deseja amar e ser amada.



A narrativa intercala subcamadas com diferentes perspectivas que enfatizam o título: "quem você pensa que eu sou?" . Embora algumas decisões do roteiro sejam bem fantasiosas e até mesmo trágicas e exageradas, esta escolha possibilitou preencher as lacunas do filme que, certamente, ficariam vazias sem este tipo de direção. Muitas vezes, há culpa, arrependimento nas relações virtuais. As coisas tomam um caminho inesperado, os desejos não se realizam, as pessoas não mostram quem são, assim, muitas decepções marcam estes relacionamentos. A sensação final é continuamente a mesma: "quem você pensa que eu sou"? "Quem você é?". Infelizmente, parece que ninguém se entende. Acabam deixando de viver um romance que poderia ser promissor.



Quando certas pessoas vivem um romance virtual com mentirinhas, pensam que isso não fará mal algum. Puro engano. Mentir nas redes sociais se tornou algo comum e previsível e isso destrói o outro, realmente fere a confiança e desvirtua o real sentido de um relacionamento amoroso e até mesmo de uma possível amizade. Assim, a melhor reflexão catalisada pelo longa nestas relações que começam em meio virtual: "quem efetivamente somos?", "O que sentimos?", "O que nos permitimos vivenciar na realidade?", "O que tentamos disfarçar e nos auto enganar?".