MaDame Lumière

Sou MaDame Lumière. Cinema é o meu Luxo.

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Mostra SP 2020 - 22 de Outubro a 04 de Novembro


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Viva à permanência da Mostra SP em 2020!


Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação




Com tantos filmes que abordam a guerra  e a trajetória de soldados em meio à violência, solidão, perdas e traumas, Mosquito (2020), uma co-produção de Portugal, Brasil e França com direção de João Nuno Pinto, tem um excelente recorte narrativo que combina drama de guerra, rito de amadurecimento e biografia em ficção. Segundo seu realizador, a história é inspirada em seu avô, soldado enviado à Moçambique na guerra.









É valioso reconhecer que esse filme é um bom trabalho coletivo com característica bi-nacional nas relações Brasil e Portugal, começando pelo roteiro assinado por Fernanda Polacow e Gonçalo Waddington, além do diretor ser um profissional que fica na ponte Lisboa - São Paulo. Eles trabalham muito bem a questão da trajetória de Zacarias (João Nunes Monteiro), um jovem soldado Português que, como todo adolescente, sonha em viver grandes aventuras e se alista no exército. Ao partir para a guerra em Moçambique, ele contrai malária e é abandonado pelo pelotão. Deixado para trás, ele toma contato com o povo e cultura Africanos, em uma jornada de descobertas, rituais e amadurecimento.  Confrontado por alucinações de desertores, animais selvagens e colonos, Zacarias luta pela sobrevivência e pelo encontro do caminho de volta.




No começo, como evidência de sua educação colonialista e racista,  o jovem soldado se esforça para agradar e/ou aprender com os mais velhos, demonstrando o desejo pelo front de batalha. A presença do Sargento Justino (João Lagarto), seu superior, é do homem autoritário, asqueroso, racista e violador de mulheres negras. Em uma de suas falas mais repugnantes, ele diz que Zacarias há de conhecer uma "selva negra", no sentido abusivo de dominar sexualmente uma Africana. Mais adiante, questões étnico-raciais e de gênero também aparecem na tela, como a relação dos soldados portugueses com os homens e mulheres negros.








Quando Zacarias é abandonado pelo próprio sangue português, ele sentirá na pele o que é ser deixado para trás.  Essa é uma oportunidade de conhecer a África e ter contato com povos nômades e suas culturas ancestrais. Também é quando se dará seu contato com as mulheres Africanas que representam força, liderança e cura em suas tribos. De certa forma, esse é um processo de cura física e amadurecimento para o jovem em meio à solidão de estar perdido na selva.




Assim,  o roteiro chama a atenção pela sua competência entre unir  e articular a falsa promessa de guerras grandiosas com a ideia de colocar o soldado em contato com a cultura regional dos colonizados, como um rito de passagem no desconhecido, com acesso a eventos ritualísticos que são bastante simbólicos na representação da história.




As cenas nas quais Zacarias interage com superiores e outros soldados portugueses mostram os absurdos da guerra  e do imperialismo desmedido e os egos gigantes presentes na batalha, em especial no comportamento dos que comandam. Escancara um nacionalismo mais voltado ao orgulho pessoal, da patente e em uma política higienista de opressão e extermínio étnico-racial e social do que propriamente uma valorização de Portugal como um coletivo e nação.








Com uma direção competente,  o longa consegue conciliar beleza e horror em uma excelente fotografia, além de colocar o personagem em situações realistas ou alucinatórias bem relevantes para transmitir alguns discursos sociais, políticos, existenciais. O forte uso de metáforas e a alternâncias desses opostos criam uma narrativa que vai na contra mão do "mais do mesmo" que há em determinados filmes sobre guerras. Aqui, através de um recorte temporal em 1917,  o diretor consegue anunciar como homens frutos do Imperialismo foram construídos no transcorrer da História.




Por outro lado, assim como há alucinações na história, também há alguns estranhamentos na experiência com o filme. Por mais que seja um personagem em um percurso complexo e importante para contar sobre o Nacionalismo e Imperialismo que impactou tantos jovens soldados, é difícil conectar-se emocionalmente com esse personagem central. Quando ele começa a ficar mais próximo da cultura Africana e, logo, mais interessante, ele tem que retornar e há uma quebra de conexão com ele. Estranhamente, Zacarias está ali, por inteiro, mas não comove, não permanece na memória afetiva. Nisso reside uma das interessantes contradições do longa.








Fotos: uma cortesia Reprodução Mostra SP via assessoria do evento.

  Lançamento  @A2Filmes  na retomada do Cinema nas salas #Drama #Crime #Biografia #CinemaAustraliano Por  Cristiane Costa ,  Editora e blogu...

 



Lançamento @A2Filmes na retomada do Cinema nas salas



#Drama #Crime #Biografia #CinemaAustraliano




Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação



Novo longa-metragem de Justin Kurzel, baseado em romance homônimo de Peter Carey, A Verdadeira História de Ned Kelly (True History of the Kelly Gang, 2019) apresenta a jornada mítica em torno da figura de Ned Kelly, conhecido como um fora da lei na tradição Australiana. Interpretado por dois atores que se destacam, Orlando Schwerdt (Jovem Ned) e George MacKay, na fase jovem adulta, a história conta com elenco crível e atrativo, entre eles Charlie Hunnam, Russell Crowe, Nicholas Hoult e Essie Davis.









Na tradição mítica a respeito do herói e anti-herói, essas figuras se opõem mas também se aproximam a depender do enredo, contextos e tensão entre eles, sendo assim, o filme introduz o público a essas fronteiras entre Ned Kelly ser um homem destinado a ser um herói e um líder representante dos povos ancestrais da Australia contra a soberania e autoritarismo Britânico, ou simplesmente um jovem criado em um ambiente violento e desprovido de reconhecimento passando, assim, à figura de um bandido mítico.




Ambientado na Austrália no século XIX, o jovem vive em extrema pobreza com os pais e irmãos, descendentes de Irlandeses, e são considerados degradados, sem nenhum valor significativo. A polícia colonial representada por Charlie Hunnam, inicialmente, já demonstra a opressão sob a família Kelly, humilhando Ellen Kelly, a mãe do jovem, para a qual paga por sexo.O pai de Ned, conhecido por ser um ladrão de porcos e perseguido pela polícia, está alheio às responsabilidades e sem prestígio com a família. O retrato familiar de Ned Kelly é severamente disfuncional e trágico. Desde muito cedo, ele tinha que amadurecer.








O roteiro consegue ilustrar bem essa ambiguidade em torno da lenda Ned Kelly: potente para ser um líder ou mais um degredado, perdido em si? Através da relação próxima e afetuosa com a mãe, muito bem interpretada por Essie Davis (de Game of Thrones e O Babadook), o jovem é incentivado a se tornar "homem". Na tradição, e diante da opressão dos Ingleses, ser "homem" seria personificar o simbólico líder na prática, o homem capaz de ser temido, amado, odiado; o homem que deveria enfrentar a polícia e demais opressores, obter bens materiais, proteger a família, garantir o respeito da comunidade, ser a representação do temor, da coragem e do heroísmo.








Desse modo, um dos aspectos interessantes dessa realização de Justin Kurzel  diz respeito a conseguir, com um grande apoio do excelente elenco, mostrar essa construção mítica de Ned Kelly a partir de uma narrativa de embate entre os Kellys e a polícia colonial, mas também, apresentando a vulnerabilidade desse mito. Em diversos momentos, tanto como criança quanto como jovem, Ned Kelly enfrenta seus medos, inseguranças, afetos, escolhas, entre outros, transitando entre a ingenuidade e a violência. Ele personifica o garoto em formação, cobrado para ser "homem", no qual os outros personagens colocam algumas expectativas.




Nesse sentido, alguns personagens são imprescindíveis no roteiro para desafiar Ned Kelly a amadurecer e/ou confrontar situações limite e conflitos. Entre elas estão o fora da lei Harry Power (Russell Crowe), o desonesto policial Constable Fitzpatrick (Nicholas  Hoult) e a mãe de Ned. Todos eles, em maior grau, colocam-no em situações dramáticas, nas quais ele tem que tomar decisões. Vale mencionar que o personagem Fitzpatrick não tem escrúpulos, destacando-se como um antagonista de Ned Kelly. Enquanto o Sargento O´Neil (Charlie Hunnam) era um tolo com farda e tinha um pouco mais de carater, Fitzpatrick era daqueles capazes de se aproximar dos Kellys para, depois, persegui-los e golpeá-los com força e violência.




Dessa vez, Justin Kurzel apresenta uma direção um pouco mais sólida considerando todas as categorias constitutivas do longa, possibilitando entrar mais na direção, tendo em vista o tripé dramático narrativo do filme: biográfico, histórico e trágico. Como consequência, um trabalho mais equilibrado na direção. Normalmente, em seus filmes como Macbeth: Ambição e Guerra (2015) e Assassin's Creed (2016), o cineasta demonstrou uma maior ênfase em aspectos técnicos como o visual realista, a movimentação da câmera lenta, e a estética contemporânea na fotografia e iluminação.  








Em Ned Kelly, apesar do clímax imageticamente mais cool, estiloso e sangrento, com forte uso de trilha sonora, explorando esse apreço que Justin Kurzel tem por cenas de batalhas, o que faz a diferença na história é a luta pessoal do protagonista, uma luta por compreensão de si mesmo, uma luta por pertencimento e um lugar no mundo, uma luta por reconhecimento coletivo.  Herói ou vilão?  Sempre dependerá da perspectiva, história e contexto, afinal, também há vilões de farda,de paletós e togas.



Talvez isso explique porque há heróis que usam vestidos.




(3,5)



Fotos: uma cortesia A2 filmes, reprodução lançamento via assessoria do filme. 

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Mostra SP 2020 - 22 de Outubro a 04 de Novembro


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#ExcelenciaPreta #Vidasnegrasimportam #BlackLivesMatter #WashingtontoWashington #DigaNãoAoRacismoeViolencia


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Viva à permanência da Mostra SP em 2020!


Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação




17 Quadras (17 Blocks, 2019) é muito mais do que um documentário, é uma história de amor familiar para as pessoas poderem amar mais umas às outras e lutar contra qualquer cultura de ódio. Centrado no cotidiano da família Sanford por duas décadas, com imagens documentais da família e do lar, com suas lutas contra pobreza, violência, drogas, racismo, assim como sua busca por sonhos, projetos, amor e aceitação, 17 Quadras é um realista e comovente filme sobre uma família negra, moradora de uma das áreas mais violentas próxima ao Capitólio dos Estados Unidos.






Davy Rothbard e os Sanfords criaram a ONG Washington To Washington

que dá oportunidades para viagens de camping para crianças das periferias da região.




O diretor e jornalista Davy Rothbart conheceu os Sanfords em 1999 nessa periferia, que se localiza a 17 Quadras do prédio do Capitólio Americano. Foi um encontro do destino para uma história verdadeira ser contada. Ao jogar basquete, conheceu Smurf, um dos jovens Sanfords (com 15 anos) que estava acompanhado de Emmanuel, o irmão mais novo (9 anos). Dali começou uma conexão entre eles, um voto de abertura e confiança, situação na qual uma criança como Emmanuel gostou da câmera e pediu para ficar um pouco com ela, explorá-la, gravar a vizinhança.




Em entrevista o diretor relembra os primeiros passos do longa: "Emmanuel compartilhou a filmagem que ele e seus irmãos começaram a coletar - absorventemente crua e íntima, momentos familiares e vislumbres intrigantes de personagens da vizinhança. Às vezes, virei a câmera e entrevistei Emmanuel; às vezes eu virei de volta para ele me entrevistar".








Esse encontro cotidiano, espontâneo, descontraído, aberto ao outro, possibilitou o começo de uma narrativa que, na maioria das vezes, é esquecida e silenciada pelo pelo sistema opressivo. Felizmente, o cineasta estava aberto a essa história de afetos, que mostra um círculo familiar cheio de problemas comuns nas famílias vulneráveis, mas, acima de tudo, são pessoas unidas pelo amor, pela coragem e aceitação. São pessoas que tentam sobreviver a qualquer custo, mesmo quando erram. Entre eles, são filmados Emmanuel, o jovem estudioso e com o sonho de ser bombeiro; Smurf, o irmão que está no tráfico de drogas local; Denice, a única filha, aspirante a policial; e Cheryl, uma mãe amorosa que tem o desafio de superar seus próprios vícios e manter a família unida, com alguma esperança.




É uma história de batalhas pessoais e sociais, não apenas nos Estados Unidos, mas em várias regiões do mundo, principalmente no Brasil. É uma família que se confronta com falta de perspectivas, segurança e bem estar, com sonhos inacabados, com miséria, desemprego, violência e tragédias. É uma história que, em duas décadas de concepção, produção, desenvolvimento e finalização, continua fazendo muito sentido para o drama social contemporâneo e realista, um drama que extermina famílias negras e pobres, as mais atingidas pelo racismo estrutural e a violência sistêmica e contínua. É uma história universal que encontrará empatia em muitos lugares. 



Destaca-se por ser um documentário bastante intimista, verdadeiro, atual. Com cenas fortes, que vão desde situações nos quais há o consumo e tráfico de drogas, como também imagens que trazem esperança como o sonho do bombeiro, o sorriso e olhar de uma criança, o abraço de perdão e aceitação entre uma família, absolutamente, há um percurso dramático, revelador e encorajador nesse longa-metragem. Além do mais, é um trabalho jornalístico  e documental de primeira grandeza, tanto no aspecto de humanização do registro, como também em dar voz às narrativas que são silenciadas. O cineasta conseguiu criar um documentário bem pessoal, porém, que não se afasta das lutas sociais e coletivas.




Nesse aspecto de construção da narrativa, Davy Rothbart  e equipe foram bem articulados. Ao mesmo tempo que o cineasta utiliza muito bem os arquivos familiares, os espaços da casa e das ruas, os close-ups e planos mais fechados que conectam os Sanfords a testemunhar seus sentimentos, preocupações e sonhos, ele também consegue uma narrativa que dá conta de como os Estados Unidos foi construído: com exclusão, racismo, violência e miséria. 



Posto isso, o documentário mostra claramente a construção de uma nação na qual nem sempre a liberdade, a democracia e a justiça ocorrem. São situações sociais  vulneráveis ali que não ofereceram saída imediata a quem vive em uma família com tantos problemas. Nesse sentido,  um dos fatores que dão um "clímax" no próprio documentário, um ápice climático de natureza bastante incômoda, socialmente dramática e fruto de uma violência institucionalizada através da pobreza, é quando ocorre uma tragédia na família. Esse momento é bastante doloroso porque ele fragiliza a família, mas também, mais adiante, o luto a ajudará na superação.








Embora tenha sido uma fatalidade do destino durante a filmagem, foi a partir dessa tragédia que Cheryl deu abertura para filmarem a dilacerante dor que a família dela estava vivendo. De certa forma, foi um grito por socorro, um ato corajoso e revelador da violência nas periferias e do descaso com a população negra, principalmente com os jovens e adultos negros que, segundo estatísticas, são os que mais morrem por arma de fogo. O cineasta aponta que ela (Cheryl) disse que "tantas pessoas são mortas por armas na vizinhança, mas nenhuma delas teve as vidas documentadas como a minha família". E ele complementa: "no meio da dor dela, Cheryl teve a sabedoria e perspectiva para entender o valor e a importância que a história de sua família poderia um dia ter".




Com tanta lucidez narrativa,  17 Quadras é um documentário essencial e altamente recomendado. Em um mundo arcaico disfarçado como "moderno", qual o autoritarismo, a violação de direitos e o racismo tentam destruir a diversidade e liberdade de expressões, de pertencer e ser cidadão,  esse longa-metragem une o amor e a dor que estão permeados em toda a realidade do filme, assim, mostrando que, os Sanfords têm falhas e acertos como todos, mas souberam,  aceitar essas lutas e superá-las de alguma forma.








"A história dos Sanfords, para mim, não é apenas um urgente choro por mudança, mas também um poderoso e inspirador conto de amor, perda, luta, coragem, resiliência e redenção. Mais do que tudo, 17 Quadras é uma história de amor - uma família lutando contra o coração partido para descobrir os laços que os unem(....) nossa esperança é que qualquer um que assista ao filme sinta um chamado para fazer o mundo um local melhor para viver para nossos mais vulneráveis cidadãos - lutar para nossas comunidades mais violentas ficarem seguras, procurar novas maneiras de engajar as pessoas que vivem lá - cultivar conexões, fazer amizades, descobrir um sentido compartilhado de propósito, e  despertar criatividade e um sentimento de encantamento. Se nós queremos um mundo mudado, cabe a nós fazer isso acontecer". (Davy Rothbart)






Fotos: Uma cortesia Reprodução Mostra SP via assessoria de imprensa do evento.

Trechos da entrevista de Davy Rothbart, via press book do longa-metragem, disponível para imprensa credenciada. Direitos garantidos. Tradução  livre para português, por Cristiane Costa, crítica de Cinema MaDame Lumière, especialmente para essa publicação.

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Viva à permanência da Mostra SP em 2020!


Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação




Experimentação no Cinema, assim com a Arte em si como um todo, é um território de liberdade narrativa e criativa. São múltiplas linguagens e inter-relações de natureza artística, temática, simbólica, linguística, social, entre tantas outras, que podem ser realizadas através dele e, evidentemente,  o cineasta tem a liberdade para pesquisar, definir, desenvolver e orquestrar recursos,  perspectivas, movimentos, imagens e toda sorte e oportunidades de fruição pela Arte.



Entretanto, espera-se, pelo menos, considerando a potencialidade de conexão com o público, o mínimo de narrativa, ainda que ela seja não-linear. Ela é relevante sob a visão da recepção da obra, e da reflexão e discussões a partir da experiência cinematográfica.






Em Limiar(Threshold, 2020), os realizadores Rouzbeh Akhbari e Felix Kalmenson entregam um filme que perde essa oportunidade de conexão a partir de como a narrativa foi estruturada e desenvolvida. Inspirados pela ideia de um personagem-cineasta que busca locações para seu filme na Armênia, a tentativa foi percorrer uma jornada de interações, relações e experimentações com esses espaços, realidades e historia da região, porém, Limiar não funciona bem como longa-metragem.



Pode-se afirmar que o longa é muito mais uma jornada fotográfica, resultando em uma exposição mais espacial (geográfica) do que o hibridismo tempo-espaço-personagem-enredo-narração em uma narrativa básica. Se Limiar estivesse em uma exposição de Artes Visuais, ele funcionaria bem melhor como produto de Arte. Como Cinema, não.



Deveras, há experimentação visual e sensorial em algumas imagens, porém, o personagem em questão é muito mais um figura sem muita ação, bastante passiva. Não se aproxima nem à função de um coadjuvante. Ainda que os realizadores optassem por um homem sozinho pela Armênia, a relação do homem em busca de locações poderia ter tido algum atrativo em termos de narrativa, até mesmo considerando o próprio processo criativo do diretor. Nem mesmo as belas imagens de uma geografia distante e exótica mantêm o engajamento da obra.







Ademais, considerando o sentido de limiar como lugar que permite a entrada e/ou acesso, que marca o início de algo, ou que expõe o eu, suas subjetividades e limites sensoriais, temporais e abstratos, levando a uma exteriorização dessa alteridade e vivências, também, o filme não coloca para fora a experimentação além da estética. Muitas imagens surgem ali mais como uma contemplação do plano imagético, de forma muito isolada, do que propriamente com função narrativa que aproveite a potência do simbólico e do esculpir do tempo e espaço.



O filme passa a mensagem de que os realizadores não tinham muito claro o que fazer com relação a essa potência da imagem, do tempo e sua relação com o simbólico e com as questões geopolíticas e sociais da Armênia. Nem sempre um processo narrativo de Cinema resulta em um longa-metragem. Às vezes,  um percurso de imagens são como um esboço, uma preparação para algo além.



Nesse sentido, Limiar se aproxima de um exercício estético inacabado e indeterminado. Ele poderia ter sido melhor amadurecido com o tempo, caso a ideia fosse realmente relacionar a geopolítica e as complexas fronteiras identitárias, étnico-raciais, culturais e geopolíticas dessa ex-República Soviética.



A própria sinopse promete algo que não entrega na realização ao mencionar "uma narrativa que caminha entre o mundano e o transcendental". De maneira geral, as imagens terrenas não extrapolam algo espiritual, transcendental e até mesmo catártico. Está longe disso por conta dessa indefinição da narrativa! 



Limiar funciona mais como uma exibição fotográfica, uma contemplação documental de uma viagem mais solitária do que interacional. Perderam a oportunidade de explorar a ancestralidade, as fronteiras, as pessoas e até mesmo a cultura Armênia para que o mundo a conheça melhor.



(1,5)



Fotos: uma cortesia Reprodução Mostra SP via assessoria de imprensa do evento.

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Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação




Muitos filmes independentes e contemporâneos, tanto os procedentes da Ásia e África assim como os da Europa, costumam abordar a questão do Fundamentalismo religiosoOs primeiros por serem palcos de violentas guerras civis de natureza político-social e religiosa como a da Síria e Afeganistão, entre outras, além dos costumes, valores e regras com base na religião que têm causado conflitos ao longo dos anos, tanto no âmbito familiar como coletivo.  Os segundos por receberem muitos refugiados e imigrantes advindos desses continentes, fato que gera uma outra complexidade social que tem sido marcada por intolerância étnico-racial e religiosa na Europa. 




O ator - mirim  Ahmed Kour Abdo como Malik: uma criança que perdeu o irmão na guerra. 




Al-Shafaq-Quando  o céu se divide, cujo título em alemão é Al-Shafaq Wenn Der Himmel sich spaltet, é uma produção que se enquadra nessa dupla origem, ou seja, tem investimentos europeus advindos da Suiça em cooperação com a Turquia. De ascendência Turca, a diretora Esen Iski vive na Suíça e realiza seu segundo longa-metragem, agora disponível para exibição na Mostra SP a partir de 22 de Outubro. 




Nesse caso, as origens do filme influenciaram a execução da obra por duas razões: A história aborda o fundamentalismo religioso e localiza perdas na fronteira Turquia - Síria, e tem um resultado mais estrangeiro ("europeu", "outsider") em comparação a filmes de outros países de origem árabe, curda ou persa. É perceptível que, embora o foco da história está em uma família de religião muçulmana, a narrativa é influenciada pela vida dessa família na Europa. Dessa forma, o Islamismo é usado como ponto central de conflitos e decisões, entretanto, o roteiro e direção são rasos nesse tratamento religioso. 





Os atores Beren Tuna e Kida Khodr Ramadan, respectivamente, mãe e pai: Família Turca




A composição e montagem da narrativa são baseadas em flashbacks e fragmentos do presente sem uma linha temporal bem estruturada. Nesse sentido, o espectador já sabe que um pai perde o filho no início da história, em decorrência da Guerra Santa, e depois é narrado o porquê chegou-se a essa perda. Abdullah (ator Libanês Kida Khodr Ramadan) desempenha o papel do pai conservador e bem religioso. Casado e com três filhos, ele conduz a educação deles com rigidez. Muita da cobrança religiosa é acompanhada por uma real opressão sem margem a nenhum diálogo. Quem mais sofre é Burak, filho mais jovem, interpretado por Ismael Can  Metin.




Apesar de não ser uma história original, torna-se um filme sem engajamento narrativo, nem com a real situação familiar e nem com o fundamentalismo religioso. Ainda que mostre ligeiramente temas nevrálgicos como a religião, a família, a relação entre pais e filhos, os desejos e a liberdade de um jovem muçulmano na Europa, tudo é muito esquematizado e rápido para passar à próxima fase e concluir o que já é sabido desde o início do filme. Além do mais, não é emotivo, falta "alma", por assim dizer.




O argumento tinha potência, porém a execução foi problemática, não dando tempo para conectar as pontas e contribuir com um debate. Um dos exemplos de "ponta solta" é não aproveitar o encontro entre duas pessoas que perderam entes queridos. Abdullah perde o filho e encontra Malik (Ahmed Kour Abdo), uma criança que perdeu o irmão. O que seria um momento de dor a ser compartilhada, com oportunidades para conectar essas emoções e realidades, simplesmente fica na superfície.




Outra questão delicada nesse tipo de execução é demonizar o Islamismo por todo o mal que ocorre em uma família e/ou contexto social. É uma abordagem perigosa porque não contribui para a discussão a respeito de religião, cultura, educação, política, gênero, entre outras questões que entrelaçam a complexidade das relações étnicas, políticas, econômicas e religiosas em países de grande número de islâmicos.  O longa utiliza o Islamismo para mais uma situação - limite: Burak deseja lutar na Guerra Santa, ou seja, nenhuma outra opção foi oferecida a esse jovem, e a religião acaba sendo utilizada negativamente como motivação para uma guerra, assim, trazendo uma tragédia familiar.




O roteiro enrijece demasiado a questão religiosa, colocando uma carga muito pesada no jovem Burak até em situações muito simples.  Ele não pode nem ao menos ter amizades com um europeu ou flertar com uma garota. Absolutamente, com exceção de frequentar a mesquita, ler o Alcorão e realizar as horas de oração, ele mal pode parar no metrô e conversar com um amigo. A religião é utilizada para normatizar e aprisionar a vida do jovem, e muito pouco para mostrar outras problemáticas sociais. Além do mais, não há um arco dramático no personagem Burak nos flashbacks. De uma hora para outra, ele se torna um extremista e, pela execução,  a culpa é do Alcorão. Tal escolha do roteiro não ajuda a compreender esse personagem e muito menos sua inadequação ao Ocidente. 








Com isso, o problema não é apenas colocar pressão sob o jovem, mas essa escolha não tem a ver com a realidade de um homem muçulmano na Europa. Talvez alguns jovens não tenham tanta autonomia e sentimento de pertencimento, porém outros lidam com o cotidiano, suas identidades e subjetividades, suas relações interpessoais. Mesmo que mínima, essa socialização do jovem deveria contribuir com o filme e com a realidade mimetizada nessa ficção. Logo, outro problema é tratar essa falta de liberdade e a influência cultural e religiosa como algo muito esquematizado e racional na decupagem e direção de atores.Torna-se algo frio e pouco empático. O elenco acaba sendo pouco desafiado e, entre eles, Ismael Can  Metin e Ahmed Kour Abdo eram os que mais tinham potencial de desenvolvimento na história.




Finalmente, como público, não temos que dizer a(o) diretor(a) o que ele(a) deve fazer, porém, como cidadãos do mundo e espectadores de Cinema, temos o direito de sinalizar as perdas de oportunidade no debate público a respeito de religião, política, sociedade e novas gerações. Posto isso, o filme perdeu essa oportunidade. Resta ao público observar essas lacunas da narrativa e aprender com essa experiência para, então, não aceitar no Cinema qualquer discurso superficial para temas complexos.








Fotos: uma cortesia Reprodução Mostra SP, via assessoria do evento.

  Lançamento @A2Filmes na retomada do Cinema nas salas #Thriller #MulheresnaDireção  #CinemaHolandês Por  Cristiane Costa ,  Editora e blog...

 




Lançamento @A2Filmes na retomada do Cinema nas salas



#Thriller #MulheresnaDireção  #CinemaHolandês




Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação



Como lidar com o poder, a sexualidade e a intimidade quando o instinto não nos preserva de situações perigosas e potencialmente danosas? Como confrontar-se com pulsões do amor e do desejo que podem nos levar a sofrimentos em sérios conflitos com dilemas morais? Como agir quando não sabemos mais identificar as fronteiras e limites de nós mesmos e nossas paixões?











O primeiro longa-metragem da atriz e diretora Holandesa Halina Reijn é um complexo thriller-drama psicológico que traz para a cena todas essas controversas questões. Estrelado por Carine Von Houten (da série Game of Thrones, da HBO) e Marwan Kenzari (do live-action Aladin), Instinto (Instinct, 2019) narra um arriscado jogo de poder e manipulação no qual Nicoline, uma experiente psicóloga começa a desenvolver sentimentos ambíguos e perigosos por Idris, um criminoso sexual que cumpre pena há 5 anos e está prestes a ganhar a liberdade condicional.





De personalidade narcisista, Idris (Kenzari) está muito seguro de que terá sua liberdade desacompanhada. Além do comportamento contraditório e manipulador, o agressor sexual colocou em ação toda sua habilidade sedutora para conquistar a confiança de todos os outros terapeutas da instituição penal. Entretanto, Nicoline (Van Houten) é a única que não confia nele e não pretende facilitar sua liberdade condicional.





Sustenta-se no desenvolvimento da narrativa um jogo de poder e de intimidade entre os dois. Dúbio e enigmático. Repulsivo e sedutor. Desse modo, o longa transita entre  atração e aversão a esses sentimentos e comportamentos, podendo ser apreciado ou odiado, a depender de como o público vir a compreender o propósito da jovem cineasta.






É interessante notar que, embora haja filmes que tratem a relação entre mulheres e psicopatas ou com agressores sexuais, esse assunto ainda é um grande tabu. É um tema polêmico e difícil também no Cinema; tendo em vista que ainda há mulheres em relacionamentos abusivos sem se dar conta de que foram seduzidas por narcisistas e/ou têm questões psíquicas mais densas a serem cuidadas no campo afetivo. Nesse caso, Halina Reijn, em parceria com o experiente produtor Frans van Gestel e com um ótimo duo de protagonistas, conseguiu trazer essa complexidade que nem sempre é colocada para fora.




Segundo a diretora, após assistir a um documentário sobre o amor no canal TBS, ela se interessou em explorar como mulheres que sabem do risco de envolvimento com um homem abusivo, ainda assim, entram nesse tipo de relação. "Claro que você tem amor em todas as instituições. Apenas realmente me atraiu a ideia de que alguém que conhece o problema que esse psicopata, sociopata ou narcisista tem e ainda pode ser vítima de tal pessoa – e ir muito além de seus próprios limites" (via Press Book*). É claro que o filme retrata a relação mulher e homem, mas é conhecido que o abuso se dá em variados gêneros e tipos de relacionamentos.











De fato, Nicoline e Idris têm danos antes mesmo de se conhecerem, portanto, têm que lidar com os efeitos danosos, as experiências complexas e pulsões incontroláveis que surgem no transcorrer da narrativa. Como psicóloga, evidentemente, Nicoline sabe que ele é um narcisista de mão cheia, assim como que ele tem um passado que nunca será apagado e tem prazer em manipular e jogar esse game. Também, ainda que ela esteja no pool de psicoterapeutas, ela está em uma zona de risco e nitidamente perdendo o controle e entrando em uma espiral de descontrole emocional.





Trata-se de um drama de efeito contraditório que, na execução, tem um recorte narrativo mais objetivo. Basicamente, a  instituição penal é o ambiente principal, onde ocorrem as consultas de psicoterapia, as discussões entre psicólogas, as trocas de olhares e palavras entre Nicoline e Idris. É estranho perceber que, nesta entidade penal, o agressor sexual está tão à vontade que ele tem poder de manipulação entre os funcionários. Halina Reijn não aprofunda a questão em termos de grandes desdobramentos de roteiro, porém, em forte parceria com a roteirista Esther Gerritsen que responde pela densidade psicológica do texto, ela coloca em cena o suficiente para causar barulho e incômodo.





A diretora comenta que é um filme "sobre alguém que nunca mais poderá ter intimidade com alguém devido a danos. Em última análise, é uma história sobre poder,  sexualidade e intimidade (...) é uma luta com intimidade"(*). Com certeza, ela foi bem assertiva nessa citação. É um filme que mexe (e remexe) com a moral, principalmente porque Carine Von Houten e  Marwan Kenzari colocam bastante veracidade e ambiguidade nas interpretações. Esse efeito realista não se trata apenas do desejo e da perda de limites e do bom senso, mas está relacionado à química que os aproxima e os rejeita mutuamente. 





Com destaque para Carine Von Houten, absolutamente, o filme não seria nada sem sua atuação. Ela consegue dar boas nuances dramáticas entre a razão e a loucura, entre o rechaço e o desejo, entre o distanciamento e a intimidade. Desde Game of Thrones, é uma atriz excepcional. Misteriosa, sedutora e elegante, aqui surge mais simples e igualmente potente no drama.  Como também dito pela diretora, "esta é uma história sobre alguém quase enlouquecendo. Porque toda interação humana é íntima demais para ela. Você pode sentir esse barulho" (*). Com efeito, Carine von Houten faz uma personagem inquieta e contraditória. 










E é exatamente a contradição de Nicoline e Idris que traz outra questão poderosamente desconfortável: Quem está manipulando quem? Ambos entram no game! Chega a ter momentos bem irritantes e fora de si. É um jogo onde há atração e repulsa, mas também os dois têm similaridades que os aproximam na esfera do passado danoso. Embora não dito tão visualmente, Nicoline foi e é abusada pela mãe, portanto, a violência sexual é um ponto de intersecção na vida dos dois. Esse histórico de violação deixa os dois personagens bastante vulneráveis, logo, na história ocorre uma atração perigosa entre eles.





Instinto é um filme difícil de assistir, contem gatilhos para pessoas que já sofreram alguma violência sexual ou relação abusiva. No geral, o seu diferencial é  perceber que Nicoline não deve ser julgada por essa paixão. Muitas mulheres já se apaixonaram por seus inimigos, e sair desse círculo vicioso é bastante complexo. O campo da paixão, da intimidade, do poder e do desejo é fortemente minado.






Fotos: uma cortesia Reprodução filme via assessoria da A2 Filmes.

Trechos da entrevista, uma cortesia press book do filme por A2filmes, fonte e créditos: Entrevista realizada por Ronald Rovers, para o site De FILM KRANT, na ocasião do lançamento de INSTINTO no Nederlands Film Festival, em setembro de 2019. Tradução e edição de André Cavallini. Fonte: https://filmkrant.nl/interview/halina-reijn-instinct/

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Mostra SP 2020 - 22 de Outubro a 04 de Novembro


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Viva à permanência da Mostra SP em 2020!


Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação




Contar uma história que reúne infância, amadurecimento e luto é uma das possibilidades mais sensíveis de realizar um drama no Cinema, principalmente sob a perspectiva feminina e com uma mulher na direção. Essa foi  a proposta da jovem diretora Argentina Sol Berruezo Pichon-Rivière  em Mamãe, Mamãe, Mamãe ( título em inglês, Mum, mum, mum), longa-metragem de estreia, que recebeu apoio do Instituto Argentino de Cinema e Artes Audiovisuais (INCAA)  e nominações nos Festivais de Berlim e San Sebastián.








Mergulhada em uma atmosfera familiar silenciosa e melancólica, entrecortada por flashbacks, Cleo (Agustina Milstein) se vê solitária e em luto em seu lar. Qualquer tentativa de comunicação com sua mãe não ocorre. Silêncio e frustração, de novo. Observando a mãe reclusa no quarto, em depressão, Cleo  sofre pela partida da irmã, morta em decorrência de afogamento na piscina da casa.



Mesmo que  solidão e opressão estejam presentes no estado psíquico da menina e  permeiam a narrativa, muito em função do isolamento da mãe e a falta de comunicação, Cleo tem a presença da tia, e o companheirismo de suas primas Leoncia, Manuela e Nerina. É como um sopro refrescante de sororidade em uma temporada de verão. A união das primas traz à experiência de luto uma fase de amadurecimento, desenvolvida como uma curta passagem de tempo, uma transição realmente episódica em detrimento da morte. Desse modo, esse roteiro amarra vivências da infância e da puberdade.








Com apenas 24 anos, a cineasta realizou um equilibrado trabalho de junção entre as impressões intimistas de Cleo e a relação com o cotidiano realista, dessa forma, abrindo espaço para a atuação do elenco e a importância da rede de apoio feminina. Por mais que sejam cenas reais como a curiosidade sobre o primeiro beijo, o medo da menstruação, a tristeza pela depressão da mãe e a ausência da irmã,  a diretora articula um cinema de sutis impressões, porém poderosas no contexto de luto.




Nesse sentido, o longa se revela com uma direção muito pessoal e consciente dos rituais femininos, como oferecer apoio quando outra precisa, conversar sobre curiosidades, inseguranças e desejos, compreender o silêncio que vem da dor da outra. Assim, o filme também é uma homenagem às mulheres à medida que  tem elenco feminino, realizado tecnicamente por mulheres e em uma narrativa que traz elementos como perdas e sofrimento de mulheres.








A beleza de Mamãe, mamãe, mamãe é concebida por gentilezas, cercadas pela inocência, desabrochar do amadurecimento e superação do luto. Nesse aspecto, a presença de planos nos quais as meninas compartilham e verbalizam seus fluxos de pensamentos são essenciais para a qualidade narrativa. Elas atuam muito naturalmente, como se fossem pessoas comuns (não atores), evidência que traz a espontaneidade da infância. Além do mais, na fotografia e composição dos planos, a cineasta orquestra a leveza das sensações e trocas, com isso, realiza um contraponto interessante ao trazer delicadeza visual em um contexto familiar doloroso.








Amadurecer realmente dói e o drama não nega essa dor, porém, não o catalisa para um pólo pessimista e destrutivo. Pelo contrário, ainda que há o luto visível que devasta a mãe, presa em um quarto, ou que leva Cleo aos flashbacks  e memórias dolorosas, Cleo e suas primas vivem o tempo da dor, mas também a bela capacidade feminina de estar junto e superá-lo.






Fotos: Cortesia Reprodução Mostra SP via assessoria de imprensa.