MaDame Lumière

Sou MaDame Lumière. Cinema é o meu Luxo.

Por  Cristiane Costa ,  Editora e blogueira crítica de Cinema, e specialista em Comunicação Mente Perversa , tradução livre adotad...




Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação


Mente Perversa, tradução livre adotada no recente longa-metragem com o ator Max Riemelt como protagonista, é melhor compreendido através de seu título original "Kopfplatzen", que significa "explosão da cabeça" em alemão. Ao observar como a pedofilia, controverso tema do filme, é desenvolvido pelo roteirista e diretor Savas Ceviz, o espectador tem diante de si um material pesado e realista que provoca um mal estar incontrolável: o pedófilo está com a mente no limite da explosão, ou seja, a qualquer momento ele pode cometer o crime de abuso sexual de crianças. 


Este mal estar é contínuo ao longo da narrativa, colocando o público a acompanhar a repulsa, o desejo, a culpa e o sofrimento do protagonista. Como consequência, o espectador presencia outra dimensão do "Kopfplatzen", o do medo e da tensão de ter que testemunhar o pedófilo em ação.





É um filme difícil de assistir e que exige um distanciamento do espectador com relação ao protagonista que, em outro contexto cinematográfico, teria de tudo para seduzir a plateia.  O diretor escolheu muito bem Max Riemelt, um ator experiente em obras e/ou papéis provocativos (Sense8, Queda livre, A Síndrome de Berlim, A Onda). Ele tem uma beleza física generosa, jovem, corpo atlético, sedutor. Sua aparência mistura dois elementos interessantes: uma combinação de jovem garoto de família Alemã com um homem misterioso, bonito e esteticamente impecável no estilo, principalmente neste papel no qual ele desempenha um arquiteto bem sucedido, que mora em um apartamento moderno e gosta de frequentar a academia. 



Este desenvolvimento do personagem é totalmente proposital no roteiro de Savas Ceviz. Embora a narrativa toma um caminho diferente ao colocar um ator tão boa pinta como pedófilo, na verdade, isso faz todo o sentido e implica dizer muito mais ao público: a de que a pedofilia está no cotidiano e em diferentes classes sociais, tipos de famílias e pessoas; ela não escolhe raça, religião, status etc



A escolha por este tipo de personagem oferece uma outra leitura ao público, pois vivemos em uma sociedade de aparências que, por tradição, cultura e comportamento padrão, carrega uma carga forte de preconceitos de variadas naturezas. Neste sentido, no imaginário coletivo, é bem provável que aquele homem loiro, bonito, endinheirado e bem sucedido como Max Riemelt não seja um pedófilo, mas ele pode enganar a muitos e ser um,  assim como qualquer pessoa que pareça "do bem" ou "improvável". Assim, é preciso que o espectador esteja ciente de que os frequentes casos de crime sexual, homicídio e violência doméstica contra crianças são cometidos por familiares e/ou pessoas próximas da família; são cometidos por pessoas que não pareciam ser um risco às crianças, inclusive que deveriam protegê-las.





O drama da pedofilia é apresentado logo de início e provoca bastante desconforto. Markus (Max Riemelt) aparece se masturbando com imagens de crianças, com isso, olhá-lo causa repugnância mas também um forte choque de realidade com o ambiente organizado plano a plano : como este homem gosta de crianças de forma a desejá-las? Como um homem que poderia ter um(a) namorado (a) adulta (o), desejá-lo (a) e amá-lo (a) está sozinho em casa, olhando imagens de menores, sentindo prazer e culpa? Como este homem adotou uma rotina e rituais próprios de forma a ter o seu "momento sexual" com imagens de crianças?  Resta ao espectador sentir nojo deste personagem, rejeitá-lo muito instantaneamente a cada vez que ele se aproxima de alguma criança ou adota hábitos caseiros estranhos com relação a este desejo.



À medida que o roteiro tem seus desdobramentos, percebe-se que o diretor não tem muito o que alterar nos fatos, apenas mostrar toda a complexidade de um transtorno incurável. Continuamente ele mostra o dia a dia de Markus e a tensão de que o crime poderá acontecer de uma hora para outra. O espectador não tem como saber, apenas acompanha. É praticamente uma tortura psicológica filmada com uma estética impecável sob o ponto de vista da organização do ambiente e do cotidiano deste personagem. Markus tem uma rotina: gosta de manter a boa forma, tem um isolamento corriqueiro em seu apartamento limpo e de decoração minimalista,  recusa convites para sair e evita relacionamento com mulheres.



Mais adiante, a narrativa ganha um corpo mais incomodo  e intensifica o drama, aproximando o pedófilo do dia a dia de uma criança em específico, como uma potencial vítima. É uma escolha crível sob a perspectiva de roteiro,  considerando que os pedófilos não conseguem se controlar e, em algum momento, vão manter uma relação próxima a uma criança, normalmente alguém que ele tem convívio social ou lhe agrada à distância. Para expressar os riscos de um abuso de menor, o roteiro evolui ao compor um núcleo familiar que interage com Markus. Ele conhece a vizinha, interpretada por Isabell Gerschke, mãe solteira que vive com o filho Arthur (Oskar Netzel).  Markus desenvolve afetos pelo menino, além de namorar a mãe do garoto. Eles admiram Markus como uma figura paterna que lhes dá segurança, entretanto, ele representa um risco que ninguém conseguiria mitigar.


Esta aproximação de Markus deixa a família em potencial vulnerabilidade, mas só o espectador e Markus sabem, com isso, a narrativa confronta as dimensões de confiança e afeto x risco de abuso. Várias cenas são perturbadoras através de sutilezas, como por exemplo:  a namorada estranha a dificuldade de Markus  em continuar a transa com ela e  atingir o gozo;  Arthur fica sozinho com ele, misturando momentos de afeto e boa convivência com a figura paterna e que entram em choque com a imaginação e os desejos do pedófilo.


Apesar de ser um excelente filme, Mente Perversa mostra o quanto a pedofilia é doentia, logo, exige muita paciência e estômago do espectador para assisti-lo até o desfecho. O diretor realiza um trabalho bem profissional considerando que é muito difícil filmar um pedófilo em iminente ataque, gerando uma insegurança generalizada para a criança e a mãe em cena, fazendo o público  acompanhar a turbulência de sua repugnante doença. Por outro lado, o diretor não propõe nada novo, simplesmente expõe o drama como algo incurável, e o público não tem muito o que fazer porque é impossível gostar de um pedófilo. Por mais que Markus tenha consciência do desejo e busca ajuda psicológica, é complicado ter alguma empatia por ele.






O maior mérito do longa  é Max Riemelt  e sua experiência em papéis polêmicos. Ele dá conta do isolamento e culpa do personagem. Ele faz tudo isso de uma forma bem "transparente", o que provoca estranhamento com o lado "sujo" do pedófilo já que, ao interagir no dia a dia com a namorada e Arthur, ele mostra o lado paterno e afetuoso.  É igualmente um papel difícil que ele consegue equilibrar o caos da pedofilia e o equilíbrio que a narrativa também conserva nos outros elementos  cênicos, dramatúrgicos.  Toda essa combinação é estranha e incomoda, porém efetiva como história.


Evidências de comportamento pedófilo são variadas ao longo da decupagem em uma direção que o cineasta utilizou bem os recursos fotográficos, estéticos, colocando Markus como frequentador de piscinas e um fotógrafo que também tira as fotos das crianças, enfocando a pele dos menores e todo o frescor da infância. Ele tem tanto desejo pelas crianças que sua fotografia chega a um nível estético de obsessão e adoração, assim, fica mais indigesto ver seu transtorno. No geral, a intenção do protagonista, continuamente voyeurista, transforma o filme em uma tortura para ele e para o público. Como toda certeza, uma "Kopfplatzen" difícil de esquecer após a sessão e que deve ser assistida quando o espectador estiver no clima para ver filmes pesados.







Por  Cristiane Costa ,  Editora e blogueira crítica de Cinema, e specialista em Comunicação Em comemoração aos 30 anos da distribu...



Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação



Em comemoração aos 30 anos da distribuidora Imovision, uma das mais importantes no mercado audiovisual, o ator e diretor Francês Cédric Kahn foi um dos convidados e homenageados com a exibição de seu mais recente longa, Feliz Aniversário (Fête de Famille, 2019), filme coral de inspiração autobiográfica no qual o realizador coloca a visão sobre sua família. Com estreia nesta semana no Brasil, o filme conta com um elenco competente  Catherine Deneuve, Emmanuelle Bercot, Vincent Macaigne, Luàna Bajrami e o próprio diretor. A escolha por esta obra para o aniversário da Imovision é bem adequada pois reflete o engajamento e DNA da distribuidora em promover o Cinema independente autoral continuamente com filmes únicos e temáticas contemporâneas.





Feliz Aniversário é aquele tipo de filme cômico - dramático que muitas pessoas poderão se reconhecer nele a partir da  perspectiva de que todas as famílias, em menor ou maior grau, tem um nível de disfuncionalidade. Em um momento, todos estão rindo e aplaudindo uns aos outros, em outro momento, conflitos com desabafos, gritos e choros são manifestados, mudam a dinâmica do ambiente e das relações, além dos silêncios e sentimentos ocultos que agravam mais situações mal resolvidas. O roteiro e execução da obra são bem Franceses e o diretor assum que seu longa é tradicional, entretanto, trata-se de uma história que traz a universalidade das relações  familiares, considerando que não escolhemos quem somos família, temos que lidar com diferentes sujeitos com histórias, personalidades, temperamentos e crenças limitantes variadas.




Banner com cartaz do filme no Reserva Cultural em São Paulo.






Jean Thomas Bernardini, dono do Reserva Cultural e da Imovision, recebe o ator e diretor Cédric Kahn durante a Festa de 30 anos Imovision em São Paulo, realizada em 01 de Dezembro







Cédric Kahn falando para o público na exibição de seu filme na Festa de 30 anos Imovision

"foi preciso um percurso de 30 anos fazendo filmes para que ele ousasse se aproximar do filme retratando a própria família"


Inspirado pelo excepcional Festa de Família  (Festen, 1998) de Thomas Vinterberg, o filme número 1 do movimento Dogma 95, e também  pela direção de John Cassavettes, o pai do Cinema Independente, Cédric Kahn realiza uma boa articulação dos elementos subjetivos, físicos e técnicos para apresentar essa família Francesa que não se reconhece em seus problemas e comportamentos tóxicos. A história começa no aniversário da matriarca Andréa (Catherine Deneuve) na casa de campo. Não se trata de uma família burguesa abastada, mas mediana e falida, com a casa em ruínas, com dívidas e sem dinheiro. É uma família que não faz absolutamente nada para mudar essa situação, que não compartilha conquistas e nem planos, que explode em mentiras e verdades. A decisão por um filme coral foi bem pertinente para explorar as várias pessoas em cena com sutilezas, principalmente a intempestiva atuação de Emmanuelle Bercot como Claire, a filha que retorna dos Estados Unidos e apresenta intensos episódios de transtorno bipolar.





O propósito do diretor não foi explorar nenhum transtorno psiquiátrico, ainda que a personagem de Bercot seja mais "protagonista" e responsável pelas cenas mais emocionalmente vulneráveis e impactantes. Suas relações são imprevisíveis,  dinâmicas e autênticas, o que a torna um chamariz para o êxito do argumento e valoriza o estilo da atriz, que funciona bem em papéis que exteriorizam conflitos pessoais complexos. Na verdade, Cédric Kahn quis muito mais colocar o ponto de vista como ele enxerga sua família, neste sentido, entre uma das principais virtudes da direção está estabelecer um texto bem claro aos atores, dando-lhes também a liberdade de contribuir com os conflitos e questões comuns a qualquer indíviduo como a falta de dinheiro e de trabalho, as dúvidas e inseguranças sobre a carreira e casamento, a relação com o fracasso e o sucesso, a culpa, perdas e ausências, a maternidade, a doença e a morte. O diretor também traz a hipocrisia da sociedade no contato com negros, imigrantes e mulheres (de fora da família).




Com todos esses elementos, mesmo que seja um filme bastante autoral,  a direção e o roteiro dão conta de expor determinados conflitos que valem a pena ser ressaltados sob a perspectiva universal das relações humanas, como por exemplo:


A postura da matriarca (Catherine Deneuve) diante das brigas em pleno seu aniversário. Ela é aquela mãe, como muitas mães por aí, que evitam o confronto e "empurram a sujeira para baixo do tapete". É interessante notar que a atriz , como sempre sublime, mantém essa postura de forma impecável, elegante e acolhedora,  o que não significa que ela não sofra em silêncio e/ou esteja cansada dessa família, principalmente com tantas confusões em seu aniversário, o que não deixa de ser um desrepeito à sua pessoa.  


Outro personagem divertido, porém totalmente instável, perdido e fracassado é o de Vincent Macaigne. Ele traz  relações metalinguísticas para a obra que são relevantes para compreender a dinâmica em cena e as escolhas do diretor. Ao inserir a câmera em diferentes planos, ele é o aspirante à cineasta que, não sabe ao certo se tem essa aptidão e nem o que faz,  nem mesmo a família o considera um artista e/ou um visionário do audiovisual. Sua família ri na sua cara na mesa de jantar, e nem mesmo a namorada leva a sério uma menção a um potencial casamento, dessa forma, ele é uma piada que ajuda o público a (re)pensar a relação com a arte e com o fracasso. A surpresa é que ele não é tão divertido como parece, considerando que há alguns segredos e mentiras nessa história.






Cabe a Cédric Kahn o papel mais conservador, mas igualmente relevante. É aquele irmão um pouco melhor sucedido. Casado e com dois belos filhos pequenos, educados e amorosos. Ele representa o homem que, aos olhos da sociedade, é o estável, o responsável e o controlador da família, porém isso também é uma crítica ácida, já que ele e sua esposa não se tratam de forma apaixonada, não dialogam muito e quase não se olham como cúmplices e amantes; inclusive ela, representada pela atriz  Laetitia Colombani, também não recebe o devido respeito da família em cena.  O efeito de sua atuação coadjuvante é de dar pena da esposa, realmente uma mulher sem espaço expressivo mesmo já casada há anos.


A rainha do elenco é Emmanuelle Bercot, uma das melhores atrizes em dramas contemporâneos do Cinema Francês, com destaque para Polissia e Meu Rei, ambos dirigidos po Maïwenn. Está insanamente intensa e foi uma escolha bem acertada por ter um estilo bem visceral e exteriorizado de atuação.  É um personagem incômodo que desperta rejeição e piedade, unindo essas duas pontas de sentimentos. Há cenas que ela está odiável, como cobrar uma dívida familiar na hora da refeição e ofender sua mãe com fúria; em outra ela está dócil e disposta a reverter a relação problemática com a filha (Luàna Bajrami). Além disso, a presença dela traz um elemento de mistério que aos poucos se desdobra na narrativa. O espectador não sabe porque ela voltou dos EUA e o que aconteceu lá, o que ajuda a despertar o interesse por essa mulher e seus dramas.






Trata-se de um bom recorte narrativo para explorar as contradições familiares e os picos temperamentais e emocionais dos vários personagens que a compõem, assim, tem um efeito reflexivo que possibilita compreender porque a família é tão necessária, e também, desnecessária, por mais duro que seja ressignificar constantemente os afetos que realmente unem pessoas como pais, filhos, irmãos, e parentes em geral. Assim como amamos nossos familiares, eles tambêm são as pessoas mais capazes de despertar certos episódios de raiva, humilhação, culpa, fracasso e mágoas. 


Nesse aspecto, Festa  de aniversário é um microcosmo de uma visão sobre família que se encaixa perfeitamente bem à realidade de muitas. É um aniversário turbulento no qual não há nada a celebrar na superfície e na profundidade dramáticas das discussões, mas que  é possível rir e se divertir do quão humanos e vulneráveis somos no núcleo familiar ; ao mesmo tempo, tem momentos de calmaria que não deixam de atravessar críticas e um humor sarcástico a famílias disfuncionais que não se enxergam como também nocivas. Essa contradição faz parte da vida. Sempre o fará até mesmo nas "melhores famílias".








Fotos  Festa 30 anos  Imovision 01/12/2019 , por MaDame Lumiére
Citação do diretor. Em coletiva para convidados e público da Festa.
Fotos do filme, uma cortesia Imovision.


Por  Cristiane Costa ,  Editora e blogueira crítica de Cinema, e specialista em Comunicação Exibido na 43ª Mostra de Cinema de São...



Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação


Exibido na 43ª Mostra de Cinema de São Paulo e indicado a significativos awards como o prêmio da audiência do Festival de Berlim e o Golden Eye do Festival de Zurique, Cicatrizes (Stitches, 2019) é um daqueles filmes contemporâneos imperdíveis que incomodam pela temática e pelo realismo das atuações e direção. Realizado pelo jovem cineasta sérvio, Miroslav Terzic, com roteiro de Elma Tataragic, o longa tem como destaque a primorosa atuação de Snezana Bogdanovic como uma mãe em busca do filho roubado em uma maternidade há 18 anos atrás.

Para quem aprecia direções que são indicadas ao Câmera de Ouro do Festival de Cannes, certamente irá apreciar esse filme. Ele tem um frescor e naturalidade que se aproximam a novos olhares de direção, problemas sociais e complexidades humanas. A construção da narrativa se dá aos poucos, servindo-se do próprio material humano ao longo da minutagem. A direção de Miroslav Terzic se ocupa em deixar o drama fluir com a realidade angustiante, mas também não se afasta da intencionalidade do roteiro e das atuações realistas, de pessoas reais do cotidiano e de bons atores que dão corpo e densidade ao drama.






Ambientado em Belgrado, capital da Sérvia, o diretor é inspirado por fatos que são comuns em um país que ainda se confronta com os paradigmas da destruição e reconstrução da nação. Em parte do roteiro, é perceptível a destruição moral de quem naturaliza ter feito (e fazer) o mal aos outros, por exemplo, a médica e o policial corruptos, moralmente degradantes. Muitos diretores nascidos em países europeus destruídos por conflitos buscam o Cinema como cenário para tratar questões sociais, políticas, econômicas etc, é como retornar à esta reflexão crítica e apontar como a história de um país afeta diretamente os sujeitos e o coletivo.


Ao assistir ao longa, deve ser considerado o contexto de 18 anos atrás. O que estava acontecendo em Belgrado naquela época? O país já tinha uma história de corrupção política que diretamente afetou as instituições do Estado. Como consequência, em um contexto de caos, destruição e feridas, há pessoas que optam por ser corruptas e ganhar dinheiro por vias ilegais, e logo, podem vir a vender os filhos dos outros. Cicatrizes é um filme de denúncia que como outros foi bem realizado para não nos fazer esquecer da História e seus impactos nas vidas humanas.





O drama de uma mãe, por si só, já é autodestrutivo, porém, nessa história, a espera e a esperança se misturam em emoções visualmente complexas no Cinema e que permanecem em silêncio e/ou são duramente silenciadas. A todo momento, esta mãe é silenciada porque quase ninguém acredita nela. Sua persistência e obsessão em localizar o filho  são interpretados como loucura, transtorno psiquiátrico, logo ela não é ouvida como merece. Com esses aspectos inerentes ao roteiro, a contemporaneidade do longa está em dialogar com as duras relações do cotidiano que massacram as famílias com filhos roubados, desaparecidos. A máquina burocrática do Estado não é muito diferente do que acontece no Brasil, no qual muitas mães são abandonadas e não conseguem ter a escuta e os mecanismos legais para encontrar seus filhos desaparecidos.






A forma como o roteiro mostra o desaparecimento, a partir do ponto de vista da mãe, também intensifica o drama, a tensão e o suspense. Miroslav Terzic  é influenciado pelo thrillers investigativos do Leste Europeu, ainda consegue manter a faceta autoral de sua direção, e  o protagonismo de Snezana Bogdanovic.  



Ele realiza um recorte apenas 18 anos depois do roubo do bebê, logo, o público é colocado no meio de um contexto no qual não se sabe ao certo o que aconteceu, tornando mais complexo a escolha por acreditar ou não na sanidade da mãe. Por diversas vezes, até mesmo o próprio espectador poderá duvidar dessa mãe, não necessariamente por crueldade e frieza, mas porque a história é tão sofrida, não utiliza flashbacks como recurso narrativo e ela tem um histórico de internação psiquiátrica. O roteiro também facilita alguns desdobramentos que mais parecem milagres e que não serão ditos aqui para evitar spoilers. No geral, por mais que haja um processo de empatia pelo espectador, fica desafiador se colocar no lugar de sofrimento dela. São como cicatrizes que apenas ela pode compreender. São cicatrizes de quase duas décadas.






Snezana Bogdanovic como uma mãe em busca do filho roubado é uma atriz de primeira grandeza. Ela não faz nada de excepcional, e mesmo assim, ela permanece como uma personagem bastante humilde e realista, centrada na investigação pessoal,  dramaticamente desolada, mas também capaz de abrir um leve sorriso pela possibilidade de encontrar o filho, de ter coragem em um contexto que coloca ela e sua família em risco. Verdadeiramente,  ela é a única esperança do filme, fato que transforma a atuação de Bogdanovic em um trabalho para poucas atrizes. Apenas uma mãe teria a força e a obstinação dela.










Por  Cristiane Costa ,  Editora e blogueira crítica de Cinema, e specialista em Comunicação Inspirado pelo best-seller de Robert See...



Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação


Inspirado pelo best-seller de Robert Seethaler, A Tabacaria (Der Trafikant/ The Tobacconist, 2018), o realizador Austríaco Nikolaus Leytner adaptou para a tela grande esta obra sobre o amadurecimento de um jovem e as perdas humanas, sejam elas físicas, materiais e afetivas, ocorridas em um período sombrio da História europeia. O longa foi um dos últimos trabalhos do saudoso Bruno Ganz que interpreta brevemente Sigmund Freud; tempo suficiente para apreciar sua crível interpretação, principalmente sob a perspectiva física do famoso mestre da  Psicanálise.





Ambientado em Viena em 1937, a história conta a jornada de vivências e descobertas de Franz Huchel (Simon Morzé), de 17 anos. Ele parte de seu lar bucólico às margens do Lago Attersee e começa a trabalhar em uma Tabacaria. Na capital Austríaca se dão relações de afeto e um amadurecimento intenso, mesmo em meio ao horror com a chegada dos Nazistas. Este contraponto ocorre com os três tipos de relações interpessoais que Franz desenvolve: o trabalho como aprendiz na tabacaria de Otto Trsnjek  (Johannes Krisch) no qual vê uma figura paterna, a paixão por Anezka (Emma Drugonova) e a amizade com Sigmund Freud (Bruno Ganz).



Em um contexto de pré-guerra, o roteiro segue uma linha dramática menos óbvia ao contar  o ponto de vista de Franz. É uma escolha interessante. O jovem traz certa pureza, romantismo e a possibilidade de esperança ao ambiente. Dessa maneira, a guerra não está em primeiro plano, mas está presente com a aproximação das tropas nazistas, trazendo tensão e incerteza, de forma mais contida. Ao mostrar como Franz lida com esses afetos e perdas, partindo em caracterizar um belo, corajoso e esforçado jovem, a história tem a potência de mostrar como a guerra afeta as subjetividades e impõe escolhas difíceis. 








A Tabacaria funciona como um microcosmo dos acontecimentos e emoções. É nela que Franz conhece diversas pessoas, aprende a se expressar, a observar o cotidiano, a defender o que acredita e quem ama. É também, através dela, que cada personagem cumpre um papel para o despertar de Franz. Seu dono,  Otto Trsnjek, é um sobrevivente e um libertário. Com uma deficiente física e vítima de preconceito social, ele dirige um núcleo de resistência e está ali a ensinar o ofício ao jovem e a apresentar-lhe as pessoas da região. Essa figura paterna de Otto pode ser interpretada como a importância e a perda de um pai. Com o avanço do Nazismo, esses pais de outras nacionalidades sofrem perseguição como presas de outras formas de pensar e viver que estavam sendo silenciadas.








Com Anezka, Franz tem o desejo pelas paixões. Ela não é bem o primeiro amor, mas é aquela que desperta o desejo pelo amor, ainda que inconsciente. É através dessa paixão que o jovem começa a conversar com Sigmund Freud sobre os sonhos, fato que possibilita uma brecha para inserir um pouco da interpretação dos sonhos sob a perspectiva Freudiana. Franz descobre o corpo e prazeres femininos com ela, o que os tornam um casal que traz o entretenimento das paixões em vários planos. É também um núcleo narrativo interessante pelo coming of age, e um momento muito marcante considerando como as narrativas afetivas se encontram, se entrelaçam e se separam.





Bruno Ganz é um charme e educação à parte e expressa uma postura bem clássica de Freud. Certamente, pela atuação dele, qualquer pessoa adoraria ter uma amizade com o renomado médico e pesquisador Austríaco. Ele se coloca como um amigo de Franz em uma relação de confiança e humildade. Como se trata de ficção inspirada por fatos reais, infelizmente, uma das lacunas do roteiro foi não explorar melhores cenas com Freud. A passagem dele é tênue, gentil e sem muita profundidade, assim, desfrutar de A Tabacaria é não levar à sala de Cinema ou de TV qualquer expectativa que se trata de um filme Freudiano e nem biográfico sobre Freud. A ideia de amizade não deixa de ser válida ainda que Freud poderia ter tido mais espaço como coadjuvante.  


Sob a análise da decupagem e direção em geral, o diretor realizou um bom trabalho. A direção de arte recria um autêntico microcosmo de época e os planos equilibram os sonhos de Franz, alguns bem construídos com memórias do passado e desejos inconscientes, e outros com a realidade de mulheres, artistas e imigrantes na  Áustria, além de outros horrores do período como a  intolerância, o medo e a miséria.








Filme distribuído pela A2 Filmes, disponível nas plataformas digitais de streaming. 

Fotos: uma cortesia @A2 filmes assessoria de imprensa. 




Por  Cristiane Costa ,  Editora e blogueira crítica de Cinema, e specialista em Comunicação Objetos contam histórias e abrem portas...



Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação


Objetos contam histórias e abrem portas para trazer memórias, resoluções e ressignificações em cada ciclo de vida. Com esta relevante observação, A Última Loucura de Claire Darling (La Dernière folie de Claire Darling, 2019),  o mais recente longa-metragem de Julie Bertuccelli (Árvore, 2010) é uma experiência cinematográfica dramática, cômica e reflexiva, exteriorizando na tela com um breve lampejo de 24 horas na vida de uma senhora madura, lembranças, conflitos, decepções e angústias vivenciados no passado.




Baseado no livro Faith Bass Darling's Last Garage Sale, de Lynda Rutledge, o roteiro mescla temas de interesse da diretora como a venda de garagem, items de colecionadores e pessoais, as narrativas e memórias através de objetos, o tempo, a liberdade e a morte.   A história acompanha o primeiro dia de verão de Claire (Catherine Deneuve) em uma pequena vila em Verderonne, quando ela decide colocar os objetos de sua casa à venda, realizando como um mercado de pulgas no gramado da residência. Diante do ocorrido, sua filha Mary (Chiara Mastroianni) retorna à mansão da família após ficar 20 anos distante da mãe.

Muito mais do que a venda de garagem, que é uma situação excêntrica de Claire nesse dia, o filme apresenta uma complexa reflexão sobre a relação entre objetos, memórias, histórias e relacionamentos. Julie Bertuccelli revela essa relação especialmente afetiva e biográfica: "Esses objetos são como uma janela para a história da família delas – são tingidos pela experiência, eles têm corpo e alma" (1).




Esta combinação narrativa tem uma provocação peculiar e significativa partindo da ideia de que, quando Claire envelhece e está certa de que é hora de atravessar a morte, os objetos evidentemente envelhecem com ela, contudo, eles podem continuar vivendo através de outras pessoas, suas vidas e histórias. Desse modo, Claire não é tão louca como parece. Colocar os objetos à venda é uma libertação pessoal, uma oportunidade de fazer as pazes consigo mesma e com os outros antes de morrer. 

Em toda a narrativa, muito bem construída entre o roteiro, as atuações, a direção de arte e o elemento temporal na montagem, a diretora realiza uma ficção na qual nitidamente ela acredita e é apaixonada.  Seu conhecimento e convicção no roteiro e execução acabam por ajudá-la a cuidar dos detalhes que dividem o que é real e o que é imaginário na mente de Claire. Com isso, a transição entre o presente e as experiências e emoções do passado (flashbacks) da protagonista, amigos e família é suave nas mudanças de planos, mas  traz um forte elemento dramático, o de reviver fantasmas, demônios, conflitos e frustrações.




Catherine Deneuve e Chiara Mastroianni, mãe e filha na vida real, têm transparência, maturidade e naturalidade nas interpretações de seus personagens, evidência que coopera para tornar a história mais  verossímil, ainda que haja recursos fantásticos na história, bem imaginativos, como a presença de  personagens secundários que retomam a infância e juventude e podem ser representações das memórias, metáforas, sonhos, divagações. Suas atuações entram verdadeiramente nos personagens e conflitos, especialmente o de Claire. A diretora não escreveu o papel pensando em Catherine Deneuve, entretanto, fez uma escolha correta que catalisa essa aproximação com o personagem e sua excentricidade.

Ela estava muito envolvida, inventando ideias sem ser intrusiva, interessando-se pelo filme como um todo, não apenas por seu próprio papel. Uma atriz de tal inteligência, com tanta experiência no cinema, é um verdadeiro presente. Eu amo a silhueta dela, que é ao mesmo tempo totalmente ela e a perfeita encarnação de Claire Darling. Saber que ela está vivendo seu último dia dá a essa mulher uma explosão de energia e uma malícia alegre. Você realmente não sabe se ela perdeu a cabeça ou se está apenas fingindo. Catherine é ótima em expressar essa complexidade, aquele estado intermediário. (Julie Bertuccelli sobre Catherine Deneuve, (2))

A dinâmica familiar é relevante para  faceta dramática da história devido aos conflitos silenciados e mal resolvidos. Muitos dos problemas reais das pessoas estão no campo das relações e, no decorrer dos anos, se tornam problemas patológicos, extremamente dolorosos. Optar por não morrer com o peso dessas histórias é uma decisão pessoal e libertadora, por isso esse personagem é interessante, possibilita conexão empática.  Ter uma grande atriz como Catherine Deneuve nesse papel torna o projeto mais crível, tanto que a atriz concordou em deixar os cabelos brancos e contribuir com o desenvolvimento do personagem. 



Ela é eternamente elegante e excepcional, tem uma personagem envelhecida, assombrada e extravagante, mas bastante acessível através das dores que viveu na vida, entre elas a perda prematura de um filho e um casamento com momentos turbulentos.  Além do mais, a boa atuação de Alice Taglioni como Claire jovem vem a somar, considerando que ela é muito parecida com Deneuve. Tem uma elegância natural, clássica, sublime. Consegue transmitir em cena os comportamentos e emoções que, hoje, espelham o estado de espírito e experiências da Claire mais velha.




Mesmo com suas virtudes técnicas, decerto, A Última Loucura de Claire Darling  é um filme que não será fácil para a maioria da audiência. Tem que entrar no seu ritmo e clima para apreciar suas qualidades e reflexões.  Pode ecoar melancólico para uns, engraçado para outros, chato demais para outros mais.

Independente das reações, afinal, para isso que o Cinema é uma seara de espírito livre, o filme é um bom híbrido narrativo que coloca o público em uma mansão antiga que parece túmulo, assim, é uma história que mostra fantasmas, relações mal resolvidas, objetos velhos, enfim, carrega toda uma vida que, na maturidade, precisa expurgar alguns demônios. Este percurso é libertador e, como um desapego necessário, todos precisam experienciar essa liberdade e leveza antes de partir para outro plano.



(3,5)



Fotos e falas da diretora (1) e (2) , uma cortesia A2 Filmes

Por  Cristiane Costa ,  Editora e blogueira crítica de Cinema, e specialista em Comunicação 8 1/2 Festa do Cinema Italiano  chegou...




Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação


8 1/2 Festa do Cinema Italiano chegou ao país em mais uma edição do que há de melhor na contemporânea Cinematografia da Itália. O Festival ocorre de 08 a 14 de Agosto nas cidades de São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Niterói (RJ), Belo Horizonte (MG), Brasília (DF), Curitiba (PR), Porto Alegre (RS) e Recife (PE), depois segue, de 15 a 21 de Agosto para Belém (PA), Florianópolis (SC), Goiânia (GO), Londrina (PR), Salvador (BA), Fortaleza (CE),  Natal (RS) e Vitória (ES), em um total de 16 cidades que ampliam consideravelmente o circuito em comparação à edição anterior.

Este ano a ampliação do circuito conta com o patrocínio oficial da FIAT (FCA Group), igualmente uma marca italiana que, com esta iniciativa, dá um sentido robusto e acolhedor à parceria com o audiovisual, demonstrando a importância de empresas multinacionais e Brasileiras apoiarem as iniciativas de promoção da cultural e do desenvolvimento local do setor. O festival conta com o apoio da Embaixada da Itália em Brasília, parceria fundamental nas relações internacionais que definem e redefinem a promoção do 8 1/2 no país, além dos institutos Italianos de Cultura de São Paulo e do Rio de Janeiro, Cinecittà Luce e dos consulados Italianos das cidades que recebem o Festival.

Assim,  esta edição abre mais espaço de exibição para variadas premières, além de obras que, posteriormente, entrarão em circuito nacional. Este alcance da distribuição do Festival em mais de 300 sessões programadas é uma marca de celebração para os organizadores, patrocinadores, realizadores e para o público Brasileiro que apreciam novas formas de se conectar com o Cinema mundial; principalmente o Cinema Italiano que tem uma miscelânea de boas narrativas que misturam o humor e o drama. Estima-se um público de 25.000 espectadores nestas duas semanas de evento.

Entre as principais novidades desta edição, chega Silvio e os outros (Loro), recente filme do consagrado Paolo Sorrentino (A Grande Beleza, Youth), no qual ele conta sobre o polêmico Silvio Berlusconi; Paolo Virzi e seu Noite Mágica (Notti Magiche) estão na programação como pré-estreia com distribuição da Imovision, assim como o imperdível Dafne , de Federico Bondi, distribuído pela Pagu, que traz uma história de uma mulher com Síndrome de Down, interpretada pela atriz  Carolina Raspanti.

Entre os filmes presentes em outros Festivais e/ou premiados, destacam-se Lucia cheia de graça (Troppa Grazia) de Gianni Zanasi, parte da Quinzena dos realizadores no Festival de Cannes 2018, Bangla , de Phaim Bhuiyan, premiado como melhor Comédia Italiana de 2019 pelos críticos Italianos e  o imperdível drama cômico, Euforia, de Valeria Golino, filme presente no Festival de Cannes 2018 na competição Mostra Un Certain Regard.



A programação conta com novos olhares e realizadores como Entre tempos (Ricordi) de Valerio Mieli , que fala sobre o amor inesquecível e Desafio de um campeão (Il Campione) de Leonardo D'Agostini, que aborda uma história de amizade e futebol.

Um dos momentos únicos é a presença do diretor Marco Tullio Giordana que tem seu longa,  A melhor Juventude (La meglio gioventú), em exibição especial em cópia restaurada. Ele já está no Brasil para entrevistas e sessões com o público entre os dias 08 e 13 de Agosto, passando por conversas em São Paulo (08 e 09), Rio de Janeiro (10 e 11) e Goiânia (13).

Seu filme é resultado de um extenso trabalho de narrativa ao longo do tempo, que aborda a saga de uma família por mais de 40 anos, começando na década de 60, percorrendo diversos acontecimentos da história Italiana. É uma epopeia na filmografia do diretor, um clássico na Itália.





Como não poderia faltar a relação entre Cinema e Arte no 8 1/2 ,  haverá exibição do Ciclo Grande Arte no Cinema em comemoração aos 500 anos da morte de Leonardo da Vinci. Além dos cartazes oficiais do evento com recriações de obras primas de Caravaggio, Leonardo da Vinci, Botticelli, Raffaello e Michelangelo Buonarroti, serão exibidos as pré-estreias em documentário de  Michelangelo - Infinito , de Emanuele Imbucci e Caravaggio - A Alma e o Sangue, de Jesus Garcés Lambert.

A programação oficial da grande Festa do Cinema Italiano pode ser consultada no site oficial https://www.festadocinemaitaliano.com/

Acompanhe o MaDame Lumière para algumas críticas dos filmes presentes na programação.

Confira o belo trailer desta imperdível Festa:






Fotos oficiais e trailer, uma cortesia Festa do Cinema Italiano e assessoria.