quinta-feira, 17 de agosto de 2017

MaDame Cult: A noite dos mortos vivos (1968), de George Romero




Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira de Cinema, especialista em Comunicação 



Falecido em Julho desse ano, o saudoso realizador George Romero estabeleceu um divisor de águas no Cinema de horror com o lançamento do icônico "A noite dos mortos vivos" (Night of the Living Dead), inaugurando a série de filmes "Living Dead" que inspirou tantos outros cineastas do gênero ao enfocar o zumbi. Antes o homem tinha algum controle sobre monstros e criaturas criadas em laboratórios como, por exemplo, Frankeinstein, ou as figuras clássicas de influência literária como o Conde Drácula . Com a chegada dos zumbis de Romero em um cinema independente, o realismo da proposta em um cotidiano caótico e sem muitas explicações insere a simbologia dos zumbis de uma forma crível e perene na cinematografia mundial.




A noite dos mortos vivos é uma obra tão primorosa e visionária que fundamenta todos os elementos da criação de um zumbi que influenciou a maioria dos recursos da mise en scène de filmes de horror/terror.  O enredo começa com personagens jovens que pegam a estrada e viajam para um lugar distante, normalmente próximos a cemitérios e uma casa no meio da floresta. São aterrorizados por uma situação peculiar que foge ao controle e que representa uma ameaça à sobrevivência e à civilização. Ficam cativos em uma casa e sofrem perturbações psicológicas, como histeria, paranoia, com intenso medo de morrer e ser devorado. Esse medo é mais intensificado por aquela sensação de total desconhecimento com relação aos zumbis. Quem são eles?  De onde vieram? Por que um aparente humano quer devorar os seus semelhantes?




Em Romero e seu criativo ineditismo na subversão do gênero, os zumbis surgem como monstros coletivos, ainda não tão desfigurados fisicamente, podendo até ser confundidos, à distância, com pessoas normais vagando pelas ruas. Sem mais nem menos, eles invadem a terra e se alimentam de outros homens. A mídia e a ciência especulam fenômenos radioativos, porém argumentos todos superficiais que intensificam a pequenez do ser humano que não tem respostas para tudo. Assim como aconteceu com o boom da ficção científica Americana nas décadas de 50 e 60, os zumbis da forma que conhecemos hoje surgem em um período caótico nos Estados Unidos  com discursos anti-guerra, conflitos raciais e o medo de ataques bélicos estrangeiros e de alienígenas. Toda esse contexto criou um prato cheio para produções ficcionais baseadas no desconhecido, no caos, no "outro" estranho. Com essa obra prima do Cinema de horror, o cineasta revela mais tabus como a antropofagia, a morte e a destituição e evisceração do corpo humano.





Os alicerces da direção de George Romero não ficam apenas no enredo e no plano das ideias. Longe disso, ele tem um processo criativo de decupagem simples e funcional que tornam sua obra um clássico obrigatório que envelheceu muito bem. A começar pelo pouco uso de iluminação, não apenas pelo período noturno em uma casa na floresta, mas por apontar para referências clássicas do horror expressionista com utilização do jogo sombra x luz, com closes de rostos exageradamente assustados e esteticamente angustiantes, em um constante clima de pessimismo e paranoia. Romero também se preocupa em conceituar didaticamente o zumbi em algumas narrações e ainda deixa os benefícios do mistério e do desespero, tão vitais para o gênero. Explica o que mata um zumbi: morte pela cabeça ou cremação; que serviria como regra básica para outras produções vindouras. Inclui os conflitos entre homens, dentro da casa, em um constante clima de desconfiança que corrobora que não se deve confiar nem mesmo no próprio homem. 





Com  vigor narrativo, a câmera na mão com enquadramentos bastante realistas e bem posicionados mostram a fragilidade do ser humano, como o da atriz Judith O'Dea (Barbara), em excelente performance. Cada vez mais insana e enclausurada em um profundo e perturbador choque, Barbara é um personagem tão interessante que é como se ela fosse uma morta viva, mais insignificante e passiva do que um zumbi. Muito mais do que o medo que, ora paralisa, ora impulsiona à uma ação, o homem retratado em personagens como Barbara, Harry (Karl Hardman) e Hellen (Marilyn Eastman) é pequeno, falho e trágico, simbolicamente eles representam a parte familiar que é perdida e fragmentada de forma violenta, cruel. É um elenco verossímil para reforçar a proximidade da morte e da tragédia, além do individualismo, preconceito e insegurança nas relações.




Ademais, muito afiado na proposta narrativa em um Estados Unidos tradicionalmente dividido por questões étnico-raciais, Romero utilizou um protagonista negro, Ben (Duane Jones), como o líder na luta pela sobrevivência. Uma escolha inteligente e provocativa! Ben é o mais astuto e racional na casa. Ele proporciona um efeito dramatúrgico de incansável superação e cria mecanismos para conter a invasão dos zumbis, desta forma, a pouca ação que existe, apenas ocorre por causa do corajoso personagem negro. Isso pode levar a várias elucubrações sobre o porquê de um personagem negro na liderança e que faz todo o sentido em uma década marcada por Martin Luther King e Os panteras negras. Essas escolhas de Romero funcionam como metáforas para combater a opressão da sociedade burguesa. 


Sem sombra de dúvidas, o desfecho genial é uma crítica social de homo sapiens para homo sapiens, bastante pessimista e perdurável. Além do mais, ficam questões que até hoje podem ser refletidas e são muito contemporâneas: os zumbis são a representação de como o homem é perecível e desfigurado na sua essência, na sua humanidade? Os zumbis são a metáfora de como o homem é capaz de perseguir e devorar o outro em um mundo cada vez mais monstruoso e caótico? Não tenha medo de respondê-las.





segunda-feira, 14 de agosto de 2017

O filme da minha vida (2017), de Selton Mello





Por Cristiane Costa,  Editora, blogueira e crítica de Cinema, especialista em Comunicação 


"Meu pai não deveria ter partido na mesma noite da minha volta. Nem ao menos consegui abrir minha pasta para mostrar-lhe meu diploma. Minha mãe e eu choramos." Este sincero depoimento que exterioriza a ausência de um pai é um dos tantos belos existentes na obra "Um pai de Cinema", do escritor Antonio Skármeta. Adaptado para o cinema em "O filme da minha vida", de Selton Mello, conta a jornada de amadurecimento de Tony Terranova (Johnny Massaro), jovem professor que, após estudar no exterior, retorna à sua casa e não encontra o pai Nicolas (Vincent Cassel). Com pesar, ele e a mãe Sofia (Ondina Clais) têm que levar suas vidas adiante, constantemente com essa dúvida: por que Nicolas partiu e abandonou a família? Independente da resposta, esta é a história sobre um filho.




Com um filme cheio de ternura e graciosidade, Selton Mello  realiza um belo trabalho de contação de história na qual o rito de passagem de um jovem é revelado com uma delicadeza e senso de humor inesquecíveis. Não há como sair indiferente da sessão. O filme inspira a buscar aquela nostalgia da vida que é tão intimamente unida ao próprio ser : em qual momento amadurecemos de verdade? Quando nos apaixonamos? Quando descobrimos o conforto e o prazer do amor? Quando sentimos saudades de alguém? Com suas descobertas, amores e desejos, a vida de Johnny dá um ar de juventude, afeto e esperança que suaviza a penosa realidade fora das telas. Mostra que, ainda que a vida tenha tristezas, decepções e ausências, há tempo para o recomeço, a continuidade, o perdão e o amor.




A espetacular fotografia de Walter Carvalho, que cria um mundo especial no Sul do país, região de Bento Gonçalves, valoriza uma terra pouco explorada no Cinema. Sua excelência na Arte, em sinergia com a direção de Selton Mello, leva a plateia a um lugar que tira as preocupações por algumas horas. É como colocar o público em um sereno universo litérario ou um encantador filme Italiano que enche os olhos com sonhos poéticos. 



Não menos importante, o excelente elenco legitima a candura da história. Petra (Bia Arantes) e Luna (Bruna Linzmeyer) são as belas e misteriosas irmãs que despertam a curiosidade de Tony e  trazem, cada uma a seu modo, esses ingredientes tão essenciais para o amadurecimento de um homem: o desejo, o amor, a amizade, a insegurança, a timidez, a rejeição.  O versátil Selton Mello, no papel de Paco, atua como um homem rústico, direto na opinião, de humor sarcástico. Com proeza, o ator consegue entregar o papel de um bruto  que tem senso de humor e facetas de médico e monstro também, garantindo bons momentos. A participação de Rolandro Boldrin, como o maquinista Giuseppe, traz grandes ensinamentos como o respeito à  experiência, a longanimidade e a memória dos mais velhos, afinal, há que ter generosidade com o tempo das coisas e do ser humano.





Irremediavelmente, a força do elenco está na escolha perfeita por Johnny Massaro e Ondina Clais, filho e mãe juntos, eternos agora no Cinema Brasileiro. Muito mais que ser o principal núcleo dramático, o da família abandonada, Massaro e Clais são muito diferenciados aqui e bem alinhados à dramaturgia de seus personagens. Entre os silêncios e a escuta no lar, ambos vivem a dor dessa partida inexplicável. Ao mesmo tempo, existe uma cumplicidade e companheirismo comoventes. Johnny Massaro se destaca como um crível ator da sua geração, com uma preparação física e interpretativa que lembra aqueles belos atores do Cinema Francês que estão em um momento de desabrochar do charme, da beleza, da graça e do talento. Sua performance tem um frescor sedutor combinada a uma docilidade no olhar e no sorriso que flerta com a câmera. 



Já Ondina Clais, advinda do teatro, tem uma performance incrivelmente humana, arquetípica, melancólica. A vulnerabilidade da mulher que ama, cuida e é abandonada mostra ainda mais a força de ser mulher e mãe com a entrega de Clais. Os enquadramentos de sua personagem Sofia estão entre os mais poeticamente viscerais, sensíveis e dramáticos. O diretor apresenta bastante sensibilidade para criar momentos imagéticos que um olhar, uma hesitação, um silêncio dizem mais do que muitos diálogos, dando assim uma conexão mais íntima, universal e atemporal com a história.





Selton Mello acerta em manter a poesia do livro original, ainda que mude alguns nomes e locações. Segue uma direção precisa, intuitiva, empática. Ele é um dos poucos cineastas ideais para adaptar uma obra do escritor com tamanho senso poético que combina com o estilo da Literatura de Skármeta, assim, a parceria foi eficaz tanto do ponto de vista artístico como também mercadológico, podendo até render uma indicação para o Oscar 2018.  Desde "O Palhaço", o diretor já havia demonstrado que não há limites para a sua poesia cinematográfica, de que ele consegue, através de uma doce simplicidade, muita experiência com Cinema e background cinéfilo, trazer histórias que combinam o humor, a liberdade, o amor e a esperança. 



"O filme da minha vida" é delicioso de assistir! Eleva o espírito. Conforta a alma. Aquece o coração.  É um comovente desabrochar de uma vida que, teria de tudo para se perder com a ausência do pai, entretanto, Tony supera. Tem essa sensibilidade dos  meninos bons, dos raros garotos que merecem passar à fase adulta com momentos marcantes, fortes e inspiradores que servirão para outros ciclos. A história é um suave sopro da vida para a gente se lembrar de que todos os dias estamos rodando os filmes de nossas vidas, então, que eles sejam cada dia mais plenos de afeto.





Ficha técnica do filme Imdb O filme da minha vida

Fotos : cortesia , Vitrine filmes / Assessoria.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

A vida de uma mulher (Une Vie, 2016), de Stéphane Brizé





Por Cristiane Costa,  Editora, blogueira e crítica de Cinema, especialista em Comunicação 


A expressão da vida de uma mulher na narrativa cinematográfica é uma tarefa complexa. Conhecer e explorar seus sonhos, desejos, sentimentos e experiências e passá-los de um universo bastante intimista para a experiência audiovisual com público é competências para poucos. O cineasta Francês Stepháne Brizé se destaca como um deles em seu mais recente filme A vida de uma mulher (Une vie/ A Woman's life), uma coprodução França e Bélgica baseada no romance de Guy de Maupassant . O projeto nasceu há 20 anos após o diretor conhecer a obra literária. A adaptação rendeu o prêmio dos críticos no Festival de Veneza 2016 e duas indicações ao César 2017 (melhor atriz - Judith Chemla e melhor figurino - Madeline Fontaine).





Ambientado na Normandia no século XIX, conta a dolorosa passagem do tempo na vida de Jeanne (Judith Chemla), uma jovem de delicada beleza, gentil e sonhadora que, após retornar dos estudos no convento, se casa com o Visconde Julien de Lamare (Swann Arlaud). Como uma queda ao fundo do poço, Jeanne sofre não apenas a transformação do tempo cada vez com menos flores e mais espinhos, mas também vai desfalecendo com as agonias das suas relações, começando pela infidelidade do marido.





Com uma exemplar competência técnica que combina a sensibilidade poética visual e uma direção segura e crível, Brizé utiliza o formato 1.33 e câmera na mão com um magnífico realismo; dessa forma, dá um efeito ao mesmo tempo solar para as tomadas de sublime beleza e interação entre Jeanne e a natureza, como também um efeito perturbador quando momentos de dor e angústia abalam o psicológico dela. O uso do 1.33 na tela possibilita o rompimento para uma empatia bem próxima à personagem, mais presente, real. A câmera na mão e a montagem, entre flash backs e flash forwards, cooperam para sentir o tempo de uma forma igualmente realista, penetrante. Claramente, é dado ao espectador a intimidade de adentrar a vida dessa mulher, vê-la confinada em uma história familiar, na maior parte do tempo, dilacerante.  





O uso da música do fortepiano, parente do piano, cria uma atmosfera melancólica, com uma musicalidade que intensifica a dramaturgia na mise en scène. É como se Jeanne definhasse mais à medida que seus pensamentos estão deslocados e sua vida confinada a revelações que ela própria não aceita. A música ajuda a reforçar esses momentos intimistas que apenas a junção da música com a imagem poderia expressar tão dramaticamente.


Nesse sentido, as variadas virtudes da direção de Brizé eleva consideravelmente a qualidade da obra e legitima a densidade da vida de Jeanne. As idas e vindas da narrativa constroem as suas memórias, das mais sublimes como um beijo tímido e apaixonado em meio à natureza, como também as lágrimas de uma traição em uma noite obscura.  Reúne várias elipses nas quais transcorrem a passagem do tempo de um modo moderno e dinâmico, que torna a narrativa mais verossímil e permite uma conexão com os aborrecimentos da protagonista. 






Nas principais cenas de seu relacionamento com o marido Julien, com o filho Paul (Finnegan Oldfield) e os  pais barões (Jean-Pierre Darroussin  e Yolande Moreau) é marcante o desequilíbrio natural da vida, algo que espontaneamente emociona e leva à compreensão das emoções humanas. Essa pulsação da vida e da morte na família é complexa e angustiante. Vista a partir do ponto de vista dela, ela é mais brutal e comovente, levando em conta que Jeanne é uma protagonista íntegra e plena de humanidade. Como consequência, vê-la sofrer é torturante. Ela merecia um destino melhor.







A câmera inquieta de Brizé,  a bela fotografia de Antoine Hérbelé e a sensível atuação de Judith Chemla agregam um valor imensurável para essa adaptação. Não é fácil adaptar romances clássicos, porém Brizé deixa uma marca autoral na direção, precisamente em filmar a passagem do tempo como uma via crucis e um estilo muito contemporâneo de Cinema. É um exercício de empatia enorme ao enfocar a vida de Jeanne que, em teoria, deveria ter sido mais feliz ou, pelo menos, menos impactada pela brutalidade da vida. Com a performance excepcional de Chemla, a protagonista não se corrompe em sua natureza idealista, o que é um grande acerto pois, assim, a tendência é que, quanto mais ela é atingida em sua humanidade, mais a sua força física e psicológica é digna de empatia e admiração.





Por Jeanne ser uma mulher leal à sua personalidade, o filme é um presente para as mulheres, em especial. Seu explícito sofrimento está longe de colocá-la como vítima da sociedade. O apelo desse primoroso drama não é o vitimismo. Pelo contrário, a brutalidade das situações são comuns na vida de qualquer uma mulher. Muitas entenderão. Ser traída, estar sozinha, ter problemas com filhos, ter uma visão romântica sobre o relacionamento, enganar-se com falsas amigos,  cumprir o desejo dos pais são algumas evidências de que essa história continua moderna e universal. 



É claro que esses desafios  não são apenas das mulheres, mas, a forma como Brizé realiza o filme, com uma perspectiva bem feminina e uma protagonista sensível, ajuda a perceber como se dá o amadurecimento da mulher que, muitas vezes, não quer crescer mas precisa dizer adeus à ingenuidade a  um custo muito alto.   É bom e seguro continuar jovem e sonhadora, por isso, a personagem é confrontada com o lado sombrio da vida. É o lado obscuro vividos em 27 anos que traz o contraste com a luz que há nessa forte mulher. É o lado obscuro que ressalta o belo paradoxo do quão significativo e único é ser humano. Como pregos cravados, a maturidade doí e pessoas machucam. Então, há lugar para o perdão e para a esperança na alma feminina?



Ficha técnica do filme IMDB A vida de uma mulher

Fotos, uma cortesia Mares Filmes, distribuidora.






quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Dunkirk (2017), de Christopher Nolan


video

 - "O que você vê?"
- "Lar"





Por Cristiane Costa,  Editora, blogueira e crítica de Cinema, especialista em Comunicação 


Dunkirk, o épico de ação de Christopher Nolan não é um drama convencional de guerra, mesmo que tenha colocado o foco na batalha de Dunquerque (1940). Participar dessa experiência em Imax com o forte impacto visual da proposta narrativa de uma ficção imersiva e um design de som que funciona como um bomba relógio a perseguir o espectador ajuda a compreender as motivações de Nolan na realização de um episódio histórico cujo desfecho é, no mínimo, intrigante. 







400 mil soldados  encurralados na batalha de Dunquerque, 3 perspectivas - ar, terra e mar, uma luta pela sobrevivência e um inimigo sem face, Dunkirk mostra a que veio: lançar o público no suspense e no horror de vivenciar a guerra e não saber qual é o próximo passo do inimigo. Uma vez com esse ponto cego, a narrativa transcorre de modo caótico, não linear. Tanto no tempo como no espaço, não existe o benefício da visibilidade para o público, ou seja, estamos todos encurralados em Dunquerque. Essa escolha de Nolan é absolutamente genial e muito em linha com a orquestração dos elementos da linguagem cinematográfica utilizada.







Como soldados das forças Britânicas e Francesas sobreviveram? E por que Nolan faz um recorte narrativo seguro de que não mostrará o rosto do inimigo? Esse estranhamento com Dunkirk é natural e é apropriado para uma batalha que não resultou nem em rendição e nem vitória. Permanece como um fato curioso na História da Segunda Guerra Mundial. Assim, instantaneamente, o filme tem a intenção de colocar o espectador na caótica zona de guerra sem ter acesso a detalhes  e entender essa batalha. Com o uso habilidoso de câmera Imax e o perfeccionismo de Nolan, essa realidade é amplificada em cada plano, com fascinantes enquadramentos e decisões de cortes que fazem toda a diferença para a magnitude da obra. Dos Spitfires ao fogo que domina o mar, os soldados somos nós.





O início marca bem esse propósito. Começando pela terra, o jovem soldado Tommy (Fionn Whitehead) é o rosto protagonista que representa tantos outros jovens de feições angelicais como Alex (Harry Styles), perdidos e sem ação de confronto. Tommy é o escolhido como o principal soldado na terra e no mar, com poucas palavras e um olhar apreensivo, nitidamente, se sair vivo, levará à sua Terra essa experiência atormentadora. Ver estes jovens soldados sem qualquer perspectiva de lutar e enfrentar o inimigo gera bastante incomodo. Ocultar o inimigo não oferece outro tipo de desdobramento para a história, logo, Nolan inclui determinadas cenas para testar os soldados ao máximo, chegando ao nível de um certo sadismo.







É notável que Nolan conecta vários aspectos de sua direção para projetar uma experiência significativa em tela grande. É bem provável que ele tenha se preocupado mais com as sensações da plateia no Imax, assim Dunkirk convence por colocar o espectador no mesmo nível do soldado.  O cineasta intercala 3 frentes de batalha de um modo bastante intenso, dinâmico e estrondoso e cria um clima claustrofóbico, com apelo sensorial. Acompanhado pela trilha sonora perturbadora de Hans Zimmer e com uma edição que entrega um som penetrante, o diretor não dá o tempo ao espectador para se envolver emocionalmente com aqueles personagens. Essa é uma estratégia polêmica e necessária. Se estivéssemos na frente da batalha, teríamos tempo de pensar mais rápido do que o cronômetro de uma bomba relógio ou da mira de um caça?  Teríamos tempo de nos envolver emocionalmente com os outros? Talvez não. Fica a provocação. 





Nesse contexto, o núcleo mar, no qual está Mr. Dawson (Mark Rylance), o civil que ajuda a recuperar sobreviventes, é que mais se aproxima de uma dramaturgia de guerra e da honra e nobreza que também residem nela.  Quando Mr. Dawson e seu filho Peter  (Tom Glynn-Carney) estão em um barco que, facilmente seria alvejado por um caça, aquela embarcação simboliza uma esperança de que, por mais que a guerra mate compatriotas, familiares e amigos, existe uma força maior conectada à prontidão em ajudar os outros, ser útil e seguir em frente.  






Até mesmo suportar a insanidade do soldado interpretado por Cillian Murply e agir friamente diante do ocorrido com o jovem George (Barry Keoghan) são evidências da racionalidade de pensar mais no coletivo do que propriamente nas individualidades, daí se compreende o porquê de um núcleo com senso patriótico.  Agir da forma como Nolan decidiu em algumas escolhas cênicas parece bem cruel, considerando que ele é criticado por ser um diretor "sem sentimentos", todavia, as emoções estão ligeiramente em cena. Elas apenas são estranhas e confusas assim como fazer guerra.





Na perspectiva terra, a menos vibrante, é interessante notar que o comandante Bolton (Kenneth Branagh) é um personagem sério e nada inspirador, incapaz de sujar a própria farda. Sob o ponto de vista estratégico, não tem muita liderança. É um rosto bem nítido e austero na tela, tipicamente de um militar que não está tão conectado aos comandados; mas é este rosto que costuma aparecer na mídia e ganhar uma medalhinha de honra. Por outro lado, o piloto (Tom Hardy) é o rosto mais oculto em cena e enfrenta a alta exposição de uma guerra no ar. Quem é este piloto? Não dá para saber com segurança com tantos caças no ar. Assim como não vemos o inimigo, nem sempre conhecemos os heróis de uma guerra. 





O filme deixa mais perguntas que respostas, mesmo com o desfecho convencional e compreensível (já que  o diretor é inglês). De modo geral, Nolan usa toda sua excelência técnica, bem apoiado pelos seus parceiros em filmes anteriores: o diretor de fotografia Hoyte Van Hoytema ("Interestelar") e pelo montador Lee Smith ("A origem" e "Batman: o cavaleiro das trevas")  para criar uma experiência realista de mergulho nas 3 perspectivas do roteiro. Como um jogo que combina suspense, horror e drama, Dunkirk funciona melhor como uma experiência sensorial e um objeto de estudo dado o impecável trabalho de direção cinematográfica e uma forma diferente de mostrar as aflições da guerra.



Como experiência humanista, Nolan mostra o espírito de luta pela sobrevivência e o acolhimento dos civis como uma exercício pessoal de imersão, portanto, funciona bem para quem captar que Dunkirk  é filmado como caos, requer entrar nesse cenário caótico e  ser desafiado ao incomodo de estar tão perdido quanto estes soldados. Finalmente, nem sempre sobreviver em uma manobra de retirada será uma clara vitória (e Nolan parece saber disso),  assim, ele também  fez um filme para honrar a sua Pátria. Muitos farão críticas duras por esse patriotismo que ocultou a linha de frente do inimigo e não aprofundou o desenvolvimento dos personagens. Ainda assim, como blockbuster fora da curva, Dunkirk é imperdível. É um  dramático sopro de que nem sempre vencer é uma vitória. Sobreviver é muito mais.



Ficha técnica do filme IMDB  Dunkirk

Fotos: Cortesia, Distribuição Warner Bros Pictures

terça-feira, 8 de agosto de 2017

MaDame Noir: Lágrimas Tardias (Too Late for Tears, 1949)


O melhor do filme Noir
por MaDame Lumière




Por Cristiane Costa,  Editora, blogueira e crítica de Cinema, especialista em Comunicação 



A parceria entre Byron Haskin e Roy Huggins foi uma das mais bem sucedidas da cinematografia Noir com a realização do fascinante thrillerLágrimas tardias (Too late for tears, 1949), que consagrou uma das mais perversas femme fatale do Cinema, Lizabeth Scott no papel de Jane Palmer. Disposta a planejar diabolicamente cada passo, seduzir, mentir e matar, Jane encarna a sedutora e sagaz mulher noir que faz de tudo para possuir um mala de dinheiro roubada e usufruir o luxo que tanto almeja.






Casada com  Alan Palmer (Arthur Kennedy) e procedente de uma classe média americana que cresceu pobre, Jane está no segundo casamento e não tem muitas posses. Certo dia, em um passeio de carro noturno, ambos são surpreendidos com uma mala de cem mil dólares. Como uma devoradora tigresa,  ela mostra a verdadeira essência de sua ambição. Em paralelo, é perseguida por Danny Fuller (Dan Duryea), um misterioso pilantra que diz que é o dono da grana e com quem ela está disposta a negociar. O suposto detetive Don Black (Don DeFore) entra em cena para investigar o plano e atrocidades desta perversa sedutora.




Com um roteiro bem equilibrado em reviravoltas, dramaturgia e crime, o protagonismo de Lizabeth Scott é conciso e envolvente. Ela seduz pelo charme refinado e uma insanidade  assustadora por dinheiro. Em diversas cenas, os olhos de Scott são como de uma tigresa sedutora e faminta, chegando à dissimulação de ser gentil. Sua urgência em se apropriar do dinheiro alimenta sua maldade desmedida que parece incontrolável. Desse modo, Jane Palmer é uma icônica personagem feminina noir, pelo foco na ganância, pelo drama de um caráter contaminado e duvidoso, pela vida trágica e sem salvação.





Como a maioria das mulheres do Cinema Noir, ambíguas e sedutoras por excelência,  Jane está disposta a fingir e mentir para os homens em cena. Do mais ingênuo ao mais perigoso, os homens noir se enforcam na própria corda, basta alguns diálogos convincentes da femme fatale e lá estão todos vulneráveis.  Essa enganação não deixa de ser divertida para a dramaturgia noir, pois "a maioria cai como patinhos" em uma ligeira fronteira entre o cômico e o drama fatalista. A atuação de Scott com o excelente Dan Durya contribui muito para a arena de felinos em cena. Danny é o criminoso com aparente autoconfiança e virilidade, porém mais um homem fadado ao fundo do poço, moralmente fraco e influenciável. Jane o usa como convém. A paixão por interesse, em um jogo controlador de quem engana mais que outro, transforma a dupla em um interessante casal amoral. 






Lágrimas tardias tem uma envolvente evolução que apreende pelo vigor noir em um clima de suspense a cada twist, que não perde em ritmo e nem na função de cada personagem. Explicitamente, o filme pertence à Lizabeth Scott, elegante, má e dinâmica em toda a narrativa. É ela que torna eterno este drama noir . Sua performance é um primor porque suas feições e ações cheias de astúcia e objetividade desconcertam seus amantes e não há barreiras para essa sensual criminosa. Quanto  mais ela deseja o dinheiro e persegue seu objetivo, mais  seu drama pessoal fica visível. Alguns enquadramentos dão a impressão de que ela está sorrindo por dentro como se dissesse: "nenhum de vocês vai me parar. A grana é minha!". Mas, na realidade, ela é uma trágica femme fatale com lágrimas tardias!



Ficha técnica do filme Imdb Lágrimas tardias





segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Corações Famintos (Hungry hearts, 2014), de Saverio Costanzo




Por Cristiane Costa,  Editora, blogueira e crítica de Cinema, especialista em Comunicação 


Em um diálogo entre a ficção literária e o cinema, o realizador Italiano Saverio Constanzo inspirou-se na obra Il bambino Indaco (o menino índigo), de Marco Franzoso, para abordar  em "Corações Famintos" a tensão vida e morte entre um jovem casal após ter um filho. Protagonizado por Adam Driver (de "Paterson") e Alice Rohrwacher (de "As maravilhas"), a adaptação transita entre o drama e o suspense no cotidiano dos pais que têm diferenças sobre como cuidar da criança.




Diferente do início do livro, que marca o mistério do enredo, Constanzo decide mostrar o início do relacionamento entre  Jude (Driver) e Mina (Rohrwacher) com um encontro casual e divertido que evolui para uma gravidez repentina. Na superfície, começa como um filme indie sobre relacionamento afetivo com um casal apaixonado que tem que se adaptar à rotina de pais. Entretanto,  surge o melhor que o interessante plot tem a oferecer sobre o horror que tem na obra literária: Mina é uma mãe que acredita que seu filho é uma criança índigo, um ser que deve ser purificado. A partir daí, essa crença advinda da Nova Era inferniza  a relação familiar em uma angustiante espiral de desiquilíbrio psicológico e destruição.






O diretor tem um plot bastante complexo que combina temas controversos como anorexia, veganismo e depressão, porém não explora tanto o potencial da obra no desenvolvimento da narrativa. Tem um esforço extra de compor determinadas cenas com enquadramentos que remetem ao desequilíbrio e prisão domiciliar para reforçar a disfuncionalidade desse lar. Poderia ter apostado mais no suspense e mistério do livro original. No geral, mesmo que as atuações da dupla sejam bem dolorosas e ambíguas, com destaque para a de Adam Driver, o roteiro não oferece situações-conflito distintas e variadas para esses atores. Assim, o casamento está sob risco, a criança, igualmente. Mina precisa de ajuda psicológica e Jude não sabe como agir. Cabe à plateia assistir ao quão doloroso é estar nesse lar e os riscos para a criança.





Inspirado pelo estilo de Roman Polanski e por um romance que relaciona o horror, o mistério e o drama, Constanzo perde alguns chances de reelaboração do suspense por conta do efeito repetitivo de sua decupagem. É notável que ele se posiciona mais no drama e menos no horror, então está longe de emular Polanski nesse trabalho, por isso seu trabalho deve ser analisado sem essa comparação. Por outro lado, apresenta uma história que, independente da forma como foi dirigida, tem muito a agregar à reflexão sobre o desenvolvimento infantil e a maternidade: a importância de cuidar da mãe. Há uma alta escala destrutiva para o lar e a criança quando distúrbios mentais se desenvolvem em mães através de estilos de vida e crenças pouco ou nada saudáveis ou de prontidão para  transtornos psiquiátricos que nem mesmo elas podem controlar. Cuidar da mãe é vital!




De modo devastador, o que permanece em Corações famintos como um incômodo persistente é a impotência de não saber como lidar  com o estado de Mina. Um estado que se divide entre o amor e a loucura, a proteção e a ameaça. Um estado que nem mesmo ela tem forças para lutar porque lhe parece o certo. Como observá-la sem sentir raiva? Como ajudá-la sem julgá-la? Esse incomodo permanece após a experiência com o filme. Vítima ou não, Mina é uma mãe doente. Vê-la nesse profundo estado de fragilidade mental, deixa algumas reflexões  como:  O amor tem essa linha tênue entre fazer o bem e o mal, mesmo que  a intenção e a forma de amar seja a que julgamos correta? Até que ponto o nosso jeito de amar é saudável para o outro?  




Ficha técnica do filme Imdb Corações famintos