MaDame Lumière

Sou MaDame Lumière. Cinema é o meu Luxo.

Por  Cristiane Costa ,  Editora e blogueira crítica de Cinema, e specialista em Comunicação Estar sozinho não é um pro...







Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação



Estar sozinho não é um problema. Há momentos em que a solidão é um convidado especial, daqueles que a gente arruma a sala para ele entrar, prepara um chá ou café,  abre um livro ou escolhe um filme e silencia a alma. A solidão é bem vinda quando ela preserva um território íntimo para dar fôlego, recuperar as forças, brindar um tempo a si mesmo. Por outro lado, quando ela se integra tanto ao cotidiano, cinza, angustiante, dolorosamente sentida, ela é dilacerante. Qualquer fio de amor e esperança é como uma salvação, mesmo que o sonho se transforme em desilusão. Certamente Setsuko de "Oh Lucy" compreende a solidão da pior forma: a solidão com momentos de fuga e desespero.








Interpretada por Shinobu Terajima, Setsuko é uma mulher de meia idade que vive sozinha em Tóquio e trabalha em um escritório com várias pessoas falsas e desprezíveis. Sua vida entediante vai além da porta de seu apartamento bagunçado. Ela não tem amigos. Seus colegas de trabalho são aquelas relações corporativas frágeis, vazias.  Sua única irmã não lhe tem afeto. Sua sobrinha é uma daquelas jovens cheia de vida e ideias focadas em suas próprias aventuras. Setsuko é solitária. Certo dia, ela tem uma surpresa que funciona como um antidepressivo: frequentar as aulas de inglês com o professor americano John (Josh Hartnett). Adepto a uma estratégia de dar nomes americanos aos alunos, ele começa a chama-la de Lucy.



O que seria uma simples aula de inglês, transforma-se no único apego de Lucy para uma rotina menos ordinária. Carismático, alto e boa pinta, John é o sonho americano que seduz e desaparece de um dia para o outro. Lucy inicia uma jornada em busca dele. Assim, ela vive uma grande ilusão, similar àquelas situações nos quais uma pessoa deposita sua felicidade integralmente em uma pessoa. Nesse sentido, as circunstâncias da narrativa são construídas muito mais para combinar o sonho e a realidade e evocar um momento emocional de uma busca desesperada pelo afeto. 







Com essa dualidade sonho - realidade, Oh Lucy é um  doce conto sobre a solidão. Começou a partir do curta de mesmo título realizado em 2014 e a diretora Atsuko Hirayanagi decidiu retomá-lo em longa - metragem. Ela investe em mostrar a solidão de uma maneira fugaz, ilusória e tragicômica. Nessa perspectiva está uma de suas forças emotivas como Cinema: a história é sincera assim como as atitudes espontâneas de Lucy. Impregnado de fantasia e ingenuidade diante das relações fragilizadas do mundo urbano contemporâneo, o filme tem essa beleza de falar de coisas sérias como a solidão, o suicídio, a rejeição sem perder a ternura.


As boas atuações de Shinobu Terajima, Josh Hartnett , Kaho Mihani e Koji Yakusho reforçam que todos os personagens lidam com a solidão de diferentes formas, como o professor mentiroso e loser que não se fixa em um relacionamento, a irmã que critica a outra irmã e é incapaz de olhar a própria vida vazia, o homem maduro que permanece em luto mas que carrega uma energia otimista. São formas distintas de vivenciar a solidão que apoiam o protagonismo de Lucy e corroboram o realismo da história. 


Desse modo, comédias dramáticas como Lucy são como um conforto para os ânimos fragilizados. São realizadas para mostrar que todos são solitários, de uma forma ou de outra, e não há vergonha em realizar uma loucura para buscar a felicidade e partir em uma jornada que coloque o lado depressivo da vida em segundo plano. Finalmente, não há vergonha em assumir o "sou solitário(a) e preciso fazer algo que me arranque dessa solidão. Pelo menos, preciso tentar fazer algo."











Por  Cristiane Costa ,  Editora e blogueira crítica de Cinema, e specialista em Comunicação A Amante  ( Hedi, 2016 ) é o pri...






Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação



A Amante  (Hedi, 2016) é o primeiro filme do diretor Tunisiano Mohamed Ben Attia no qual ele propõe, através do conflito vivenciado pelo protagonista Hedi (Majd Mastoura), mostrar os desafios enfrentados por homens e mulheres da Tunísia divididos entre a tradição da família, da religião e da cultura e os desejos do amor e da liberdade.  Produzido pelos irmãos Dardenne, o longa conquistou reconhecimento e prestígio. Ganhou o Urso de Ouro do Festival de Berlim como "melhor filme de estreia" e  o Urso de Prata de melhor ator para Majd Mastoura. 


A história conecta as dimensões individual e coletiva da contemporânea Tunísia.  Localizado na África do Norte, o país tem maioria muçulmana, com religião baseada nos rígidos princípios do Islã. Se caracteriza como uma jovem república que está em processo de democratização, desse modo, ainda é um país tradicional com casamentos arranjados e tomadas de decisão familiares que protegem a tradição, os costumes e valores morais.  






Nesse contexto, Hedi é um vendedor de carros para a Peugeot que segue a vida mais por vontade dos outros do que por si mesmo. Não demonstra paixão pela profissão. Não tem planos pessoais e ambições.  Sua mãe define com quem ele se casa, onde mora e trabalha. Ele permanece apático. O conflito pessoal toma dramaticidade às vésperas do casamento com a jovem Khedija. Em uma viagem a trabalho, ele conhece a exuberante  Rym (Rym Ben Messaoud) que trabalha como recreadora em um hotel em Mahdia. A atração entre ambos é inevitável e eles se apaixonam.



É importante notar que, como em outros filmes de tradição árabe, o homem e/ou a mulher se mantém como um refém das circunstâncias, evidência que demonstra um severo aprisionamento e silencioso sofrimento que pouco a pouco ceifam a energia dessas juventudes. Ao observar as cenas entre Hedi e Khedija, os gestos, olhares e silêncios de distanciamento mostram o mal estar de uma relação sem interesse e sentimento. Logo mais, o diretor explora a espontânea mudança comportamental de Hedi. O homem que antes não sorria, passa a sorrir até mesmo com os olhos ao contemplar a enérgica e destemida Rym. A paixão que ela tem pelo viver aventureiro e sem regras, com trabalho itinerante e raras certezas é bastante sedutor e libertador para ele. 


Cada cultura tem seus costumes, valores e religião e precisa ser respeitada, então o diretor harmoniza bem as duas pontas do conflito e coloca um especial esforço na direção de Majd Mastoura, que é o indivíduo em meio a essa rígida cultura e o alicerce da narrativa. É o ator que realiza uma performance centrada que mereceu o Leão de Prata e aponta para uma humanidade frágil no qual um(a) tunisiano(a), por mais livre que deseja ser, não pode virar totalmente as costas à família e à sociedade. Sua atuação tem as oscilações de humor de uma pessoa em conflito  e essa tensão entre a responsabilidade por um casamento vs o desejo pela liberdade é moldado com maturidade.



Em um cenário de mudanças sócias, políticas e econômicas na Tunísia, Mohammed Ben Attia realiza um filme bem intimista sem se afastar dessa dimensão das transformações do país. Ele também não é moralista no desenvolvimento da narrativa, então Hedi e Rym realmente curtem um ao outro com descontração, cumplicidade e positividade. Cabe observar que esse romance é uma espécie de mundo paralelo para Hedi, um amor de férias que o tira do duro cotidiano, assim, é uma paixão que está em uma posição fronteiriça, que pode vingar ou não.







O diretor também não trata de política, nem religião e nem sociedade tão abertamente, mas prioriza uma direção que transparece como esses homens e mulheres tunisianos  têm o desafio de lidar com esses novos tempos pouco claros. Em vários momentos, Hedi está mais perdido no tempo, sem iniciativa, dividido entre o sonho e a realidade.  Embora o cineasta não explore outros personagens e lugares, as participações da mãe e do irmão de Hedi contribuem para ressoar o peso da voz da tradição. É um ambiente de cobrança e opressão que não favorece determinadas escolhas. 


A Amante é um bom filme sobre uma paixão que traz o entusiasmo mas também um conflito que demanda uma escolha. Vale a pena conhece-lo como um Cinema que faz repensar a responsabilidade das escolhas, sejam elas libertárias ou tradicionais, em um espaço moral controverso que não prioriza o ego, desejos e vontades. 






Por  Cristiane Costa ,  Editora e blogueira crítica de Cinema, e specialista em Comunicação Robert Guédiguian é um diretor que ...






Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação



Robert Guédiguian é um diretor que não se esquiva de usar seu cinema como um recurso de expressão política. A diferença é que ele o faz sem arrogância e violência porque, de certa forma, realizar um Cinema político é não perder de vista as memórias e histórias, a família, os sentimentos e tudo o que conecta o homem à sua humanidade, às origens e ao coletivo. Para isso, nada melhor do que retratar como os indivíduos reagem e ressignificam os acontecimentos da vida. 


Em mais um parceria com sua esposa, a atriz Ariane Ascaride, em "Uma casa à beira mar" (La Villa, 2017)  o cineasta francês retorna à cidade de Marsellha, na França, região de seu nascimento, para contar uma história sobre família, passagem do tempo, luto, velhice e amor.  Em uma bela e idílica paisagem marítima e de tradição pesqueira, três irmãos se reúnem após o pai ficar doente.  O reencontro mescla o ordinário cotidiano em uma vila pitoresca, as memórias, emoções e incertezas com relação ao presente e futuro e uma leve abordagem de elementos da contemporaneidade europeia como a temática social da imigração.






Guédiguian apresenta humano e intimista retrato do que realmente acredita: as raízes, as memórias, o amor, a bondade, a solidariedade. Com êxito, mesmo diante do difícil momento familiar em cena, o diretor dá tempo aos personagens para vivenciarem essas novas circunstâncias e flashbacks de retornar à vila marítima e lidar com eles, assim, vemos cada irmão com ressignificações diferentes como o  Ángele (Ascaride) , atriz de teatro que revive as lembranças do luto como mãe e as possibilidades de experienciar um amor. Joseph (Jean-Pierre Darroussin) e a jovem namorada interpretada por Anaïs Demoustier  em uma decisão sobre seguir ou não com o namoro e Armand (Gérard Meylan),  o mais local dos irmãos, o cuidador e mais próximo ao pai.


Os mais duros com o cinema de Guédiguian dirão que é um filme burguês idealista realizado por quem não entende de pobreza,  considerando que são vários os franceses abastados que demonstram ter um comportamento altruísta mas que pouco sabem da dura vida; o fato é que, apesar de ter uma família burguesa no centro da narrativa que parece viver uma realidade distante da grande massa de miseráveis existentes do mundo, Guédiguian realiza o seu filme com otimismo, poesia e sinceridade, virtudes que têm muito mais a acrescentar do que diferenças ideológicas. 


O roteiro foi construído de uma forma a moldar mais levezas que durezas, menos política e mais afeto.  Ele se conecta a questões humanas que, quando a doença, a perda, o luto passam diante dos olhos, é impossível não refletir sobre  o nosso lugar no mundo, onde nascemos,  o que realizamos, como amamos, para onde vamos a partir daqui.  O cineasta pega em outras armas de combate para fluir o humano na história. E há melhor arma do que o amor e a nossa capacidade de unir a tradição, as memórias, as mudanças e um futuro mais humanizado?


Nesse sentido, a história tem a delicadeza e a mansidão que retira o espectador de abordagens retratadas violentamente em outros filmes europeus e/ou de diálogos politizados e engessados em torno de uma mesa familiar. Assim, ao tocar em uma tema polêmico de refugiados, por exemplo, Guédiguian prefere catalisá-lo de uma maneira solidária, esperançosa, mesmo que tal escolha faça-o tratar o material com maior romantismo. 








O diferencial do roteiro é dar tempo para que a família reaja naturalmente à revisitação da casa de praia e da vila. É um filme que se alimenta de memórias e por elas pode ser transformado. São muitas lembranças que deixam reticências no ar e que não precisam finalizar em posicionamentos claros.  Assim é a vida, uma ponte que se divide em tantas outras.  


Assim, o cineasta realiza um trabalho consciente de direção de atores, muito bem apoiado pela relação profissional que já tem com suas parcerias de elenco. O diálogo é descontraído e livre nas interações entre os irmãos. Todos esses atores (Ascaride, Darroussin e Meylan) já trabalharam com Guédiguian e se ajustam a uma atuação naturalista no qual ficam bem à vontade  em cena. 


A espontaneidade dos irmãos é tão fascinante, por certos momentos, se questiona se estão preocupados com o iminente luto que vivenciam considerando que seu pai está morrendo. Não menos importante, o pai no leito de morte se torna um dispositivo para maior bem dramatúrgico.  A narrativa se volta mais aos personagens que ao pai em si, o que representa um acerto, uma rota fora do lugar comum visto em filmes que vivenciam o luto.  



São essas saídas eficazes do diretor que dão um contorno narrativo mais humanista, menos institucionalizado e previsível.  O diretor deixa espaços em abertos, interiores e exteriores que se mesclam em uma contínua reflexão sobre o viver e os novos momentos de uma vida  que se apresenta.


Guédiguian  realiza um Cinema demasiado humanista, um sopro de vida cinematográfico que usa as memórias e o que há de vir para mostrar que viver  (e sobreviver) é  ressignificar a própria vida. 







Por  Cristiane Costa ,  Editora e blogueira crítica de Cinema, e specialista em Comunicação A velha expressão "Vingan...







Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação




A velha expressão "Vingança é um prato que se come frio" não se encaixa em "Amaldiçoada" (Brimstone, 2016), uma combinação de western , thriller e horror psicológico dirigido pelo holandês Martin Koolhoven. O filme é uma dilacerante jornada ao inferno no qual a vingança seria tudo a ser evitado se os males encarnados pelo ser humano não levassem vidas à desgraça, porém, ela é uma consequência irremediável para um almejado encontro da sobrevivência e da paz.  


Com uma narrativa que segue uma montagem recortada por livros bíblicos (Revelações, Êxodo, Gênesis) e Retribuição,  o longa apresenta como se dá a origem dos conflitos entre a jovem Liz (Dakota Fanning) e o Reverendo (Guy Pearce).  A construção   coopera para adicionar elementos biográficos que são revelados ao longo da história como um infortúnio que a protagonista está condenada a vivenciar.  


Caracterizada por ser discreta e misteriosa, Liz é muda e vive com seu esposo e filha em uma cidade interiorana. A chegada do macabro Reverendo provoca-lhe um profundo incômodo, dessa forma, a história é desenvolvida de forma a criar tensão em cena, em perversidades que, pouco a pouco, se alargam em ações cruéis de intenso apelo audiovisual que cercam a vida de Liz.  







Dakota Fanning tem um estilo de atuação centrado e equilibrado que combina com a tragédia de seu personagem, corroborando que Liz não tem escapatória do mal que lhe acomete. Guy Pearce, acostumado a personagens estranhos, encarna o próprio mal na figura de um reverendo que mais é o próprio demônio a vagar pela terra. Sua atuação tem um efeito simbólico desagradável onde quer que ele caminhe, como a representação da própria maldição. 


Em uma participação especial está Kit Harrigton, entretanto, pouco significativa, e reforça que ele ainda não foi bem utilizado em longas  metragem. Entre coadjuvantes, destaque para a jovem Emilia Jones, seu frescor em cena em meio a uma parte pesada do drama é notável. Com pequena ponta, Carice Van Houten (Melisandre de Game of Thrones) performa bem um dramático papel como a esposa do Reverendo e é uma atriz que deveria integrar mais elencos no Cinema.





Koolhoven harmoniza bem três questões chave para essa boa produção: o desenvolvimento do sofrimento de Liz, como uma ideia de julgamento e condenação remetendo à ideia do enxofre (Brimstone, termo bíblico em inglês); a estranha obsessão do Reverendo por ela; e uma direção que revela o inferno de uma maneira intensamente sádica que chega a ser incompreensível como os mistérios do bem e do mal. 


Em diferentes cenas, o longa é opressivo não apenas no trato com as mulheres, o que era comum em westerns, um gênero e ambiente cinematográfico bastante masculinos na tradição, mas também porque Koolhoven orquestra uma atmosfera macabra na mise en scène, que retoma referências pagãs de como mulheres eram perseguidas em suas escolhas, violentadas, castigadas e condenadas como prostitutas e bruxas, feridas no corpo e na alma. Desde como a violência se dá no ambiente familiar, como também em um clima de horror que se aproxima de filmes como "A bruxa", Koolhoven é eficiente e não compromete o argumento.


Levando em conta toda essa  combinação de opressiva saga familiar e drama individual em um brutal westernAmaldiçoada é um filme bastante perturbador. Demasiado cruel. Oportunamente simbólico e contemporâneo.  Como uma das interpretações possíveis, ele revela que o mal está no cotidiano a partir de homens que são falsos profetas e que, de uma forma ou outra, são os homens que infernizam seus semelhantes. Fatalmente, o ser humano pode ser benção ou maldição. 







Por  Cristiane Costa ,  Editora e blogueira crítica de Cinema, e specialista em Comunicação A justiça não funciona sozinha...





Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação



A justiça não funciona sozinha. Ela requer uma forma humana tremenda. Ela depende de mulheres e homens determinados a seguir o longo percurso de se obter justiça em um país. Quando a impunidade abala a dimensão familiar de maneira trágica e intimista, a justiça ganha um peso imenso a quem permanece em vida. É muito mais uma questão de honra e compromisso com o(a) ente querido(a) morto(a).





Considerando essa sede por justiça heroica que se mistura com um desejo de vingança, Kalinka (au nom de ma fille, 2016) dirigido pelo realizador francês Vincent Garenq  é baseado em fato real: a morte de uma jovem no Sul da Alemanha em 1982, um caso que levou 30 anos para ir ao julgamento na França.

Conta a história de um pai, André Bamberski (Daniel Auteuil) que tem Kalinka, sua filha morta em circunstâncias estranhas e contraditórias. Quando a jovem Kalinka tinha 14 anos, foi passar uns dias de férias na casa da mãe (Marie-Josée Croze) que morava na Alemanha com o ex-amante e atual companheiro, Dr. Dieter Krombach (Sebastian Koch). Diante do silêncio e negação da mãe, do padrasto de comportamento dúbio e de outras situações duvidosas, Bamberski desconfia que o assassino seja Krombach.








Dessa forma, começa a saga de um pai determinado a revelar a verdade sobre o assassinato da filha. Na narrativa, Garenq conduz uma boa direção independente com movimentos de câmera apoiados por uma decupagem mais próximos à realidade que adentra no seio familiar, conturbado e pouco participativo. As cenas em espaços de autoridade são rápidas, com poucos diálogos e densidade, corroborando que o protagonista tem que levar a luta como um herói solitário. 


Bamberski é um personagem típico de um heroísmo cotidiano, raramente apoiado pelas autoridades francesas e internacionais. Acima de tudo, ele é um pai que tem uma convicção: o assassino é  Krombach com o qual ele também tem uma relação tensa e mal resolvida devido à traição passada. Nesse sentido, a responsabilidade do filme recaí consideravelmente em Daniel Auteuil, que é um experiente e excelente ator para dramas. 


Com essa evidência, é compreensível o fato de que o roteiro, a partir da segunda metade do longa, tende a ficar confuso e superficial no que diz respeito à tratativa e aprofundamento das provas contra Krombach. Não há uma boa exploração das provas no roteiro, então não se trata de um exímio drama de tribunal, funciona melhor como uma combinação drama familiar - suspense. 




Nessa dinâmica que envolve crime, paternidade, luto, drama de tribunal e busca por justiça, o roteiro se perde em desencadeamento de ideias,  argumentações  e ações com relação ao caso e entre o segundo e terceiro atos, o longa tende a ser cansativo e contribuir com a desatenção. Em específico há cenas que, por exemplo, já poderiam finalizar a história, assim chega-se a um ponto que o filme ligeiramente corre em círculos,  mimetizando que a burocracia para a justiça  funciona assim. Ela é exaustiva, com altos e baixos e incoerências. De certa forma, esses aspectos provocam uma perda de engajamento com a experiência que, obviamente, pode variar de espectador para espectador. Assim, dá para ter uma ideia do que esse pai sofreu. Foi testado até o limite, assim como o público é testado a compreender o desenrolar da história.







Estranhamente, a narrativa se caracteriza com poucas manifestações emocionais, em outras palavras, não é um filme sentimental mesmo que haja um luto paterno e determinadas cenas de maior carga emocional.  O diretor Garenq realiza uma direção que não quer cair no risco de ser extremamente emotiva, por isso, a extrema dedicação de Bamberksi tem um apelo obsessivo  e frio, uma força de crer em si mesmo e não desistir. As emoções são catalisadas de outra forma e, de fato, para lidar com a morte de um(a) filho(a) diante de autoridades racionais e arrogantes, é provável que as emoções se tornem mais racionais na prática.


Kalinka é um filme que faz pensar sobre milhares de pais e famílias que há 10, 20, 30 e muitos anos ainda buscam por justiça para seus filhos. Bamberksi não desistiu, por isso, a grande lição do longa é não se calar diante de injustiças e perdas. Há o tempo para o recolhimento, para a dor com lágrimas, para o desejo por vingança, para a mansidão e paciência para a justiça.  Kalinka também faz refletir que, por mais que haja direitos no papel, a justiça em si depende muito do esforço individual que se articula com outros esforços coletivos.







Por  Cristiane Costa ,  Editora e blogueira crítica de Cinema, e specialista em Comunicação O risco de realizar um remak...







Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação




O risco de realizar um remake de uma icônica obra é não conseguir superar-se na própria proposta de releitura contemporânea. Logo, o problema principal não é superar o clássico, mas trazer um diferencial que justifique todo o trabalho realizado na nova produção.


É o que acontece com "Fahrenheit 451" (2018), dirigido pelo jovem Ramin Baharni, uma adaptação do romance de Ray Bradbury, obra que também foi adaptada para os Cinemas por François Truffaut em 1966. Na história situada no futuro, um bombeiro começa a questionar o porquê tem que destruir os livros. Para encabeçar o elenco, dois atores muito interessantes: Michael B Jordan e Michael Shannon. 


Na execução do filme, o design de produção e fotografia oferecem uma boa ambientação sci-fi, um toque de Blade Runner, outra de Vingador de Futuro, entretanto um filme é muito mais do que o visual. 

Esse Fahrenheit 451 se escora significativamente no visual. Fato! A narrativa não tem densidade o suficiente que possibilite os atores trabalharem minimamente com o riquíssimo valor simbólico da obra. Como o roteiro não desenvolve muito bem os atos e não aproveita os coadjuvantes da Resistência, chega uma hora que o filme apenas gasta metragem e nada mais.




Mesmo que Shannon comprove ser um baita ator capaz de hipnotizar o público em mais um vilão, até mesmo ele encontra dificuldades para transitar em um longa que pouco intensifica as reflexões distópicas, políticas e filosóficas em questão. Como a personagem de Montag (Jordan) esconde o seu incômodo com relação à tarefa de queimar livros e não permitir que o conhecimento chegue às pessoas, os dois atores principais pouco interagem, como consequência, os dois acabam ficando isolados. 

Michael B Jordan, uma estrela emergente que ainda precisa ter um bom diretor que o faça voar na atuação, fica em uma situação bastante delicada entre cenas. Ao realizar o papel do bombeiro Guy Montag, o conflito e a responsabilidade dramatúrgica cai consideravelmente sobre ele. 

Mesmo que Jordan seja competente e tenha forte potencial para novas produções no cinema, é perceptível que Baharni não tem sólida experiência como diretor de atores para esse tipo de gênero, então, Jordan permanece solitário e com o peso sobre os ombros. Nesse contexto, restou-lhe ou atear fogo nos livros ou aprender um pouco mais com Shannon. Em determinadas cenas, ele demonstra insegurança em como tornar seu personagem mais profundo, uma preocupação que transcende o caos sofrido por seu personagem.

Sob a perspectiva de uma contação de histórias, seja ela qual for, o filme também tem problemas de foco e de entregar ao público uma boa experiência para pensar o simbólico e atemporalidade da obra. Se a intenção era deixar o roteiro mais solto, certamente, para optar por essa estratégia de não dizer tudo que é preciso, é necessário saber como deixar a obra audiovisual se completar na experiência e olhar de cada um. Nitidamente, Fahreiheit 451 demonstra não ter uma intenção muito clara, em como se dirigir e/ou se posicionar ao público. Acaba focando demais no fogo aos livros, nos conflitos de Montag, tudo a um nível superficial.





Não há dúvidas que a premissa de Bradbury é bastante complexa e dá muito pano para manga para questões políticas, filosóficas, sociais, existenciais, assim, dificilmente o livro será superado e nem o Cinema tem essa responsabilidade. O grande problema é que Baharni não foi o diretor mais adequado para uma obra dessa magnitude.


Basta recordar que o cineasta Denis Villeneuve, ao realizar a versão contemporânea de "Blade Runner" tinha bastante estrada. Já tinha comprovado que tinha repertório e competência para rodar um sci-fi, fato que pôde ser visto em A chegada (The arrival, 2016). 


Pode parecer uma atitude cruel de exclusão dizer que há filmes que merecem determinados diretores, mas essa é uma afirmação necessária. Cabe reforçar: nem todos os filmes funcionam com certos cineastas.





Por  Cristiane Costa ,  Editora e blogueira crítica de Cinema, e specialista em Comunicação Dirigido por Juan Ant...









Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação


Dirigido por Juan Antonio Bayona (de "O impossível"), "Jurassic World: Reino Ameaçado" sofre dos males de sua própria ambição. 


Estrelado pela dupla Chris Pratt e Bryce Dallas Howard, que atuaram juntos em "Jurassic World", o filme também não foi salvo pela beleza, carisma e humor de ambos. Até o romance mal resolvido não teve espaço suficiente para corar bochechas e arrancar suspiros.

O longa perde muito em roteiro em comparação ao seu antecessor e deixa de desenvolver camadas dos personagens e da narrativa de uma maneira mais honesta, natural. Nem mesmo dinossauros como Blue, que tinha bastante potencial para catalisar emoções, é bem utilizada nesse roteiro.






Ainda que seja um filme focado em gerar altíssimo lucro para os produtores, seria possível trabalhar melhor as relações e conflitos como forma a dar continuidade ao bom ritmo, humor e DNA do filme anterior.

Um exemplo claro de superficialidade no roteiro é a presença da especie vilã que, ainda que seja considerada uma ameaça, surge como um elemento raso, pouco representativo como antagonista. O vilão (Rafe Spall) é caricato e medíocre.

Essa superficialidade entra em choque com algumas ótimas cenas com referências ao Cinema de horror. De um lado, um roteiro pouco atrativo. Do outro, fragmentos de uma boa técnica de Bayona.O resultado é desconexo.






Com exceção de uma comovente cena, a contradição vista nesse blockbuster é sua falta de identidade em um momento que ele quer explorar "o novo mundo" e entrelaçar questões como a extinção das especies e o uso de tecnologia na geração de novas. Não faz bem nenhuma coisa e nem a outra.

Sob a perspectiva da tradição de Jurassic Park, esse "novo mundo" não transcende emotividade nesse lançamento. No mínimo, deveriam ter mantido a qualidade de "Jurassic World" e azeitado mais esse roteiro.

É claro que o público vai conseguir se divertir por algumas horas, mas quem for mais observador, exigente e fã da franquia, sentirá que "Jurassic World: Reino Ameaçado" não entusiasma como o seu antecessor.

Cabe aos produtores analisarem muito mais : qual é o "novo mundo" que eu desejo mostrar às pessoas?" "Como posso fazer as pessoas realmente se conectarem a essas novas questões que visam oxigenar a franquia?"

A inevitável questão que permanece após a sessão: como conseguiram tirar a alma de uma franquia que cativa e emociona pessoas há anos? Acreditem! É possível.