segunda-feira, 14 de agosto de 2017

O filme da minha vida (2017), de Selton Mello





Por Cristiane Costa,  Editora, blogueira e crítica de Cinema, especialista em Comunicação 


"Meu pai não deveria ter partido na mesma noite da minha volta. Nem ao menos consegui abrir minha pasta para mostrar-lhe meu diploma. Minha mãe e eu choramos." Este sincero depoimento que exterioriza a ausência de um pai é um dos tantos belos existentes na obra "Um pai de Cinema", do escritor Antonio Skármeta. Adaptado para o cinema em "O filme da minha vida", de Selton Mello, conta a jornada de amadurecimento de Tony Terranova (Johnny Massaro), jovem professor que, após estudar no exterior, retorna à sua casa e não encontra o pai Nicolas (Vincent Cassel). Com pesar, ele e a mãe Sofia (Ondina Clais) têm que levar suas vidas adiante, constantemente com essa dúvida: por que Nicolas partiu e abandonou a família? Independente da resposta, esta é a história sobre um filho.




Com um filme cheio de ternura e graciosidade, Selton Mello  realiza um belo trabalho de contação de história na qual o rito de passagem de um jovem é revelado com uma delicadeza e senso de humor inesquecíveis. Não há como sair indiferente da sessão. O filme inspira a buscar aquela nostalgia da vida que é tão intimamente unida ao próprio ser : em qual momento amadurecemos de verdade? Quando nos apaixonamos? Quando descobrimos o conforto e o prazer do amor? Quando sentimos saudades de alguém? Com suas descobertas, amores e desejos, a vida de Johnny dá um ar de juventude, afeto e esperança que suaviza a penosa realidade fora das telas. Mostra que, ainda que a vida tenha tristezas, decepções e ausências, há tempo para o recomeço, a continuidade, o perdão e o amor.




A espetacular fotografia de Walter Carvalho, que cria um mundo especial no Sul do país, região de Bento Gonçalves, valoriza uma terra pouco explorada no Cinema. Sua excelência na Arte, em sinergia com a direção de Selton Mello, leva a plateia a um lugar que tira as preocupações por algumas horas. É como colocar o público em um sereno universo litérario ou um encantador filme Italiano que enche os olhos com sonhos poéticos. 



Não menos importante, o excelente elenco legitima a candura da história. Petra (Bia Arantes) e Luna (Bruna Linzmeyer) são as belas e misteriosas irmãs que despertam a curiosidade de Tony e  trazem, cada uma a seu modo, esses ingredientes tão essenciais para o amadurecimento de um homem: o desejo, o amor, a amizade, a insegurança, a timidez, a rejeição.  O versátil Selton Mello, no papel de Paco, atua como um homem rústico, direto na opinião, de humor sarcástico. Com proeza, o ator consegue entregar o papel de um bruto  que tem senso de humor e facetas de médico e monstro também, garantindo bons momentos. A participação de Rolandro Boldrin, como o maquinista Giuseppe, traz grandes ensinamentos como o respeito à  experiência, a longanimidade e a memória dos mais velhos, afinal, há que ter generosidade com o tempo das coisas e do ser humano.





Irremediavelmente, a força do elenco está na escolha perfeita por Johnny Massaro e Ondina Clais, filho e mãe juntos, eternos agora no Cinema Brasileiro. Muito mais que ser o principal núcleo dramático, o da família abandonada, Massaro e Clais são muito diferenciados aqui e bem alinhados à dramaturgia de seus personagens. Entre os silêncios e a escuta no lar, ambos vivem a dor dessa partida inexplicável. Ao mesmo tempo, existe uma cumplicidade e companheirismo comoventes. Johnny Massaro se destaca como um crível ator da sua geração, com uma preparação física e interpretativa que lembra aqueles belos atores do Cinema Francês que estão em um momento de desabrochar do charme, da beleza, da graça e do talento. Sua performance tem um frescor sedutor combinada a uma docilidade no olhar e no sorriso que flerta com a câmera. 



Já Ondina Clais, advinda do teatro, tem uma performance incrivelmente humana, arquetípica, melancólica. A vulnerabilidade da mulher que ama, cuida e é abandonada mostra ainda mais a força de ser mulher e mãe com a entrega de Clais. Os enquadramentos de sua personagem Sofia estão entre os mais poeticamente viscerais, sensíveis e dramáticos. O diretor apresenta bastante sensibilidade para criar momentos imagéticos que um olhar, uma hesitação, um silêncio dizem mais do que muitos diálogos, dando assim uma conexão mais íntima, universal e atemporal com a história.





Selton Mello acerta em manter a poesia do livro original, ainda que mude alguns nomes e locações. Segue uma direção precisa, intuitiva, empática. Ele é um dos poucos cineastas ideais para adaptar uma obra do escritor com tamanho senso poético que combina com o estilo da Literatura de Skármeta, assim, a parceria foi eficaz tanto do ponto de vista artístico como também mercadológico, podendo até render uma indicação para o Oscar 2018.  Desde "O Palhaço", o diretor já havia demonstrado que não há limites para a sua poesia cinematográfica, de que ele consegue, através de uma doce simplicidade, muita experiência com Cinema e background cinéfilo, trazer histórias que combinam o humor, a liberdade, o amor e a esperança. 



"O filme da minha vida" é delicioso de assistir! Eleva o espírito. Conforta a alma. Aquece o coração.  É um comovente desabrochar de uma vida que, teria de tudo para se perder com a ausência do pai, entretanto, Tony supera. Tem essa sensibilidade dos  meninos bons, dos raros garotos que merecem passar à fase adulta com momentos marcantes, fortes e inspiradores que servirão para outros ciclos. A história é um suave sopro da vida para a gente se lembrar de que todos os dias estamos rodando os filmes de nossas vidas, então, que eles sejam cada dia mais plenos de afeto.





Ficha técnica do filme Imdb O filme da minha vida

Fotos : cortesia , Vitrine filmes / Assessoria.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

A vida de uma mulher (Une Vie, 2016), de Stéphane Brizé





Por Cristiane Costa,  Editora, blogueira e crítica de Cinema, especialista em Comunicação 


A expressão da vida de uma mulher na narrativa cinematográfica é uma tarefa complexa. Conhecer e explorar seus sonhos, desejos, sentimentos e experiências e passá-los de um universo bastante intimista para a experiência audiovisual com público é competências para poucos. O cineasta Francês Stepháne Brizé se destaca como um deles em seu mais recente filme A vida de uma mulher (Une vie/ A Woman's life), uma coprodução França e Bélgica baseada no romance de Guy de Maupassant . O projeto nasceu há 20 anos após o diretor conhecer a obra literária. A adaptação rendeu o prêmio dos críticos no Festival de Veneza 2016 e duas indicações ao César 2017 (melhor atriz - Judith Chemla e melhor figurino - Madeline Fontaine).





Ambientado na Normandia no século XIX, conta a dolorosa passagem do tempo na vida de Jeanne (Judith Chemla), uma jovem de delicada beleza, gentil e sonhadora que, após retornar dos estudos no convento, se casa com o Visconde Julien de Lamare (Swann Arlaud). Como uma queda ao fundo do poço, Jeanne sofre não apenas a transformação do tempo cada vez com menos flores e mais espinhos, mas também vai desfalecendo com as agonias das suas relações, começando pela infidelidade do marido.





Com uma exemplar competência técnica que combina a sensibilidade poética visual e uma direção segura e crível, Brizé utiliza o formato 1.33 e câmera na mão com um magnífico realismo; dessa forma, dá um efeito ao mesmo tempo solar para as tomadas de sublime beleza e interação entre Jeanne e a natureza, como também um efeito perturbador quando momentos de dor e angústia abalam o psicológico dela. O uso do 1.33 na tela possibilita o rompimento para uma empatia bem próxima à personagem, mais presente, real. A câmera na mão e a montagem, entre flash backs e flash forwards, cooperam para sentir o tempo de uma forma igualmente realista, penetrante. Claramente, é dado ao espectador a intimidade de adentrar a vida dessa mulher, vê-la confinada em uma história familiar, na maior parte do tempo, dilacerante.  





O uso da música do fortepiano, parente do piano, cria uma atmosfera melancólica, com uma musicalidade que intensifica a dramaturgia na mise en scène. É como se Jeanne definhasse mais à medida que seus pensamentos estão deslocados e sua vida confinada a revelações que ela própria não aceita. A música ajuda a reforçar esses momentos intimistas que apenas a junção da música com a imagem poderia expressar tão dramaticamente.


Nesse sentido, as variadas virtudes da direção de Brizé eleva consideravelmente a qualidade da obra e legitima a densidade da vida de Jeanne. As idas e vindas da narrativa constroem as suas memórias, das mais sublimes como um beijo tímido e apaixonado em meio à natureza, como também as lágrimas de uma traição em uma noite obscura.  Reúne várias elipses nas quais transcorrem a passagem do tempo de um modo moderno e dinâmico, que torna a narrativa mais verossímil e permite uma conexão com os aborrecimentos da protagonista. 






Nas principais cenas de seu relacionamento com o marido Julien, com o filho Paul (Finnegan Oldfield) e os  pais barões (Jean-Pierre Darroussin  e Yolande Moreau) é marcante o desequilíbrio natural da vida, algo que espontaneamente emociona e leva à compreensão das emoções humanas. Essa pulsação da vida e da morte na família é complexa e angustiante. Vista a partir do ponto de vista dela, ela é mais brutal e comovente, levando em conta que Jeanne é uma protagonista íntegra e plena de humanidade. Como consequência, vê-la sofrer é torturante. Ela merecia um destino melhor.







A câmera inquieta de Brizé,  a bela fotografia de Antoine Hérbelé e a sensível atuação de Judith Chemla agregam um valor imensurável para essa adaptação. Não é fácil adaptar romances clássicos, porém Brizé deixa uma marca autoral na direção, precisamente em filmar a passagem do tempo como uma via crucis e um estilo muito contemporâneo de Cinema. É um exercício de empatia enorme ao enfocar a vida de Jeanne que, em teoria, deveria ter sido mais feliz ou, pelo menos, menos impactada pela brutalidade da vida. Com a performance excepcional de Chemla, a protagonista não se corrompe em sua natureza idealista, o que é um grande acerto pois, assim, a tendência é que, quanto mais ela é atingida em sua humanidade, mais a sua força física e psicológica é digna de empatia e admiração.





Por Jeanne ser uma mulher leal à sua personalidade, o filme é um presente para as mulheres, em especial. Seu explícito sofrimento está longe de colocá-la como vítima da sociedade. O apelo desse primoroso drama não é o vitimismo. Pelo contrário, a brutalidade das situações são comuns na vida de qualquer uma mulher. Muitas entenderão. Ser traída, estar sozinha, ter problemas com filhos, ter uma visão romântica sobre o relacionamento, enganar-se com falsas amigos,  cumprir o desejo dos pais são algumas evidências de que essa história continua moderna e universal. 



É claro que esses desafios  não são apenas das mulheres, mas, a forma como Brizé realiza o filme, com uma perspectiva bem feminina e uma protagonista sensível, ajuda a perceber como se dá o amadurecimento da mulher que, muitas vezes, não quer crescer mas precisa dizer adeus à ingenuidade a  um custo muito alto.   É bom e seguro continuar jovem e sonhadora, por isso, a personagem é confrontada com o lado sombrio da vida. É o lado obscuro vividos em 27 anos que traz o contraste com a luz que há nessa forte mulher. É o lado obscuro que ressalta o belo paradoxo do quão significativo e único é ser humano. Como pregos cravados, a maturidade doí e pessoas machucam. Então, há lugar para o perdão e para a esperança na alma feminina?



Ficha técnica do filme IMDB A vida de uma mulher

Fotos, uma cortesia Mares Filmes, distribuidora.






quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Dunkirk (2017), de Christopher Nolan


video

 - "O que você vê?"
- "Lar"





Por Cristiane Costa,  Editora, blogueira e crítica de Cinema, especialista em Comunicação 


Dunkirk, o épico de ação de Christopher Nolan não é um drama convencional de guerra, mesmo que tenha colocado o foco na batalha de Dunquerque (1940). Participar dessa experiência em Imax com o forte impacto visual da proposta narrativa de uma ficção imersiva e um design de som que funciona como um bomba relógio a perseguir o espectador ajuda a compreender as motivações de Nolan na realização de um episódio histórico cujo desfecho é, no mínimo, intrigante. 







400 mil soldados  encurralados na batalha de Dunquerque, 3 perspectivas - ar, terra e mar, uma luta pela sobrevivência e um inimigo sem face, Dunkirk mostra a que veio: lançar o público no suspense e no horror de vivenciar a guerra e não saber qual é o próximo passo do inimigo. Uma vez com esse ponto cego, a narrativa transcorre de modo caótico, não linear. Tanto no tempo como no espaço, não existe o benefício da visibilidade para o público, ou seja, estamos todos encurralados em Dunquerque. Essa escolha de Nolan é absolutamente genial e muito em linha com a orquestração dos elementos da linguagem cinematográfica utilizada.







Como soldados das forças Britânicas e Francesas sobreviveram? E por que Nolan faz um recorte narrativo seguro de que não mostrará o rosto do inimigo? Esse estranhamento com Dunkirk é natural e é apropriado para uma batalha que não resultou nem em rendição e nem vitória. Permanece como um fato curioso na História da Segunda Guerra Mundial. Assim, instantaneamente, o filme tem a intenção de colocar o espectador na caótica zona de guerra sem ter acesso a detalhes  e entender essa batalha. Com o uso habilidoso de câmera Imax e o perfeccionismo de Nolan, essa realidade é amplificada em cada plano, com fascinantes enquadramentos e decisões de cortes que fazem toda a diferença para a magnitude da obra. Dos Spitfires ao fogo que domina o mar, os soldados somos nós.





O início marca bem esse propósito. Começando pela terra, o jovem soldado Tommy (Fionn Whitehead) é o rosto protagonista que representa tantos outros jovens de feições angelicais como Alex (Harry Styles), perdidos e sem ação de confronto. Tommy é o escolhido como o principal soldado na terra e no mar, com poucas palavras e um olhar apreensivo, nitidamente, se sair vivo, levará à sua Terra essa experiência atormentadora. Ver estes jovens soldados sem qualquer perspectiva de lutar e enfrentar o inimigo gera bastante incomodo. Ocultar o inimigo não oferece outro tipo de desdobramento para a história, logo, Nolan inclui determinadas cenas para testar os soldados ao máximo, chegando ao nível de um certo sadismo.







É notável que Nolan conecta vários aspectos de sua direção para projetar uma experiência significativa em tela grande. É bem provável que ele tenha se preocupado mais com as sensações da plateia no Imax, assim Dunkirk convence por colocar o espectador no mesmo nível do soldado.  O cineasta intercala 3 frentes de batalha de um modo bastante intenso, dinâmico e estrondoso e cria um clima claustrofóbico, com apelo sensorial. Acompanhado pela trilha sonora perturbadora de Hans Zimmer e com uma edição que entrega um som penetrante, o diretor não dá o tempo ao espectador para se envolver emocionalmente com aqueles personagens. Essa é uma estratégia polêmica e necessária. Se estivéssemos na frente da batalha, teríamos tempo de pensar mais rápido do que o cronômetro de uma bomba relógio ou da mira de um caça?  Teríamos tempo de nos envolver emocionalmente com os outros? Talvez não. Fica a provocação. 





Nesse contexto, o núcleo mar, no qual está Mr. Dawson (Mark Rylance), o civil que ajuda a recuperar sobreviventes, é que mais se aproxima de uma dramaturgia de guerra e da honra e nobreza que também residem nela.  Quando Mr. Dawson e seu filho Peter  (Tom Glynn-Carney) estão em um barco que, facilmente seria alvejado por um caça, aquela embarcação simboliza uma esperança de que, por mais que a guerra mate compatriotas, familiares e amigos, existe uma força maior conectada à prontidão em ajudar os outros, ser útil e seguir em frente.  






Até mesmo suportar a insanidade do soldado interpretado por Cillian Murply e agir friamente diante do ocorrido com o jovem George (Barry Keoghan) são evidências da racionalidade de pensar mais no coletivo do que propriamente nas individualidades, daí se compreende o porquê de um núcleo com senso patriótico.  Agir da forma como Nolan decidiu em algumas escolhas cênicas parece bem cruel, considerando que ele é criticado por ser um diretor "sem sentimentos", todavia, as emoções estão ligeiramente em cena. Elas apenas são estranhas e confusas assim como fazer guerra.





Na perspectiva terra, a menos vibrante, é interessante notar que o comandante Bolton (Kenneth Branagh) é um personagem sério e nada inspirador, incapaz de sujar a própria farda. Sob o ponto de vista estratégico, não tem muita liderança. É um rosto bem nítido e austero na tela, tipicamente de um militar que não está tão conectado aos comandados; mas é este rosto que costuma aparecer na mídia e ganhar uma medalhinha de honra. Por outro lado, o piloto (Tom Hardy) é o rosto mais oculto em cena e enfrenta a alta exposição de uma guerra no ar. Quem é este piloto? Não dá para saber com segurança com tantos caças no ar. Assim como não vemos o inimigo, nem sempre conhecemos os heróis de uma guerra. 





O filme deixa mais perguntas que respostas, mesmo com o desfecho convencional e compreensível (já que  o diretor é inglês). De modo geral, Nolan usa toda sua excelência técnica, bem apoiado pelos seus parceiros em filmes anteriores: o diretor de fotografia Hoyte Van Hoytema ("Interestelar") e pelo montador Lee Smith ("A origem" e "Batman: o cavaleiro das trevas")  para criar uma experiência realista de mergulho nas 3 perspectivas do roteiro. Como um jogo que combina suspense, horror e drama, Dunkirk funciona melhor como uma experiência sensorial e um objeto de estudo dado o impecável trabalho de direção cinematográfica e uma forma diferente de mostrar as aflições da guerra.



Como experiência humanista, Nolan mostra o espírito de luta pela sobrevivência e o acolhimento dos civis como uma exercício pessoal de imersão, portanto, funciona bem para quem captar que Dunkirk  é filmado como caos, requer entrar nesse cenário caótico e  ser desafiado ao incomodo de estar tão perdido quanto estes soldados. Finalmente, nem sempre sobreviver em uma manobra de retirada será uma clara vitória (e Nolan parece saber disso),  assim, ele também  fez um filme para honrar a sua Pátria. Muitos farão críticas duras por esse patriotismo que ocultou a linha de frente do inimigo e não aprofundou o desenvolvimento dos personagens. Ainda assim, como blockbuster fora da curva, Dunkirk é imperdível. É um  dramático sopro de que nem sempre vencer é uma vitória. Sobreviver é muito mais.



Ficha técnica do filme IMDB  Dunkirk

Fotos: Cortesia, Distribuição Warner Bros Pictures

terça-feira, 8 de agosto de 2017

MaDame Noir: Lágrimas Tardias (Too Late for Tears, 1949)


O melhor do filme Noir
por MaDame Lumière




Por Cristiane Costa,  Editora, blogueira e crítica de Cinema, especialista em Comunicação 



A parceria entre Byron Haskin e Roy Huggins foi uma das mais bem sucedidas da cinematografia Noir com a realização do fascinante thrillerLágrimas tardias (Too late for tears, 1949), que consagrou uma das mais perversas femme fatale do Cinema, Lizabeth Scott no papel de Jane Palmer. Disposta a planejar diabolicamente cada passo, seduzir, mentir e matar, Jane encarna a sedutora e sagaz mulher noir que faz de tudo para possuir um mala de dinheiro roubada e usufruir o luxo que tanto almeja.






Casada com  Alan Palmer (Arthur Kennedy) e procedente de uma classe média americana que cresceu pobre, Jane está no segundo casamento e não tem muitas posses. Certo dia, em um passeio de carro noturno, ambos são surpreendidos com uma mala de cem mil dólares. Como uma devoradora tigresa,  ela mostra a verdadeira essência de sua ambição. Em paralelo, é perseguida por Danny Fuller (Dan Duryea), um misterioso pilantra que diz que é o dono da grana e com quem ela está disposta a negociar. O suposto detetive Don Black (Don DeFore) entra em cena para investigar o plano e atrocidades desta perversa sedutora.




Com um roteiro bem equilibrado em reviravoltas, dramaturgia e crime, o protagonismo de Lizabeth Scott é conciso e envolvente. Ela seduz pelo charme refinado e uma insanidade  assustadora por dinheiro. Em diversas cenas, os olhos de Scott são como de uma tigresa sedutora e faminta, chegando à dissimulação de ser gentil. Sua urgência em se apropriar do dinheiro alimenta sua maldade desmedida que parece incontrolável. Desse modo, Jane Palmer é uma icônica personagem feminina noir, pelo foco na ganância, pelo drama de um caráter contaminado e duvidoso, pela vida trágica e sem salvação.





Como a maioria das mulheres do Cinema Noir, ambíguas e sedutoras por excelência,  Jane está disposta a fingir e mentir para os homens em cena. Do mais ingênuo ao mais perigoso, os homens noir se enforcam na própria corda, basta alguns diálogos convincentes da femme fatale e lá estão todos vulneráveis.  Essa enganação não deixa de ser divertida para a dramaturgia noir, pois "a maioria cai como patinhos" em uma ligeira fronteira entre o cômico e o drama fatalista. A atuação de Scott com o excelente Dan Durya contribui muito para a arena de felinos em cena. Danny é o criminoso com aparente autoconfiança e virilidade, porém mais um homem fadado ao fundo do poço, moralmente fraco e influenciável. Jane o usa como convém. A paixão por interesse, em um jogo controlador de quem engana mais que outro, transforma a dupla em um interessante casal amoral. 






Lágrimas tardias tem uma envolvente evolução que apreende pelo vigor noir em um clima de suspense a cada twist, que não perde em ritmo e nem na função de cada personagem. Explicitamente, o filme pertence à Lizabeth Scott, elegante, má e dinâmica em toda a narrativa. É ela que torna eterno este drama noir . Sua performance é um primor porque suas feições e ações cheias de astúcia e objetividade desconcertam seus amantes e não há barreiras para essa sensual criminosa. Quanto  mais ela deseja o dinheiro e persegue seu objetivo, mais  seu drama pessoal fica visível. Alguns enquadramentos dão a impressão de que ela está sorrindo por dentro como se dissesse: "nenhum de vocês vai me parar. A grana é minha!". Mas, na realidade, ela é uma trágica femme fatale com lágrimas tardias!



Ficha técnica do filme Imdb Lágrimas tardias





segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Corações Famintos (Hungry hearts, 2014), de Saverio Costanzo




Por Cristiane Costa,  Editora, blogueira e crítica de Cinema, especialista em Comunicação 


Em um diálogo entre a ficção literária e o cinema, o realizador Italiano Saverio Constanzo inspirou-se na obra Il bambino Indaco (o menino índigo), de Marco Franzoso, para abordar  em "Corações Famintos" a tensão vida e morte entre um jovem casal após ter um filho. Protagonizado por Adam Driver (de "Paterson") e Alice Rohrwacher (de "As maravilhas"), a adaptação transita entre o drama e o suspense no cotidiano dos pais que têm diferenças sobre como cuidar da criança.




Diferente do início do livro, que marca o mistério do enredo, Constanzo decide mostrar o início do relacionamento entre  Jude (Driver) e Mina (Rohrwacher) com um encontro casual e divertido que evolui para uma gravidez repentina. Na superfície, começa como um filme indie sobre relacionamento afetivo com um casal apaixonado que tem que se adaptar à rotina de pais. Entretanto,  surge o melhor que o interessante plot tem a oferecer sobre o horror que tem na obra literária: Mina é uma mãe que acredita que seu filho é uma criança índigo, um ser que deve ser purificado. A partir daí, essa crença advinda da Nova Era inferniza  a relação familiar em uma angustiante espiral de desiquilíbrio psicológico e destruição.






O diretor tem um plot bastante complexo que combina temas controversos como anorexia, veganismo e depressão, porém não explora tanto o potencial da obra no desenvolvimento da narrativa. Tem um esforço extra de compor determinadas cenas com enquadramentos que remetem ao desequilíbrio e prisão domiciliar para reforçar a disfuncionalidade desse lar. Poderia ter apostado mais no suspense e mistério do livro original. No geral, mesmo que as atuações da dupla sejam bem dolorosas e ambíguas, com destaque para a de Adam Driver, o roteiro não oferece situações-conflito distintas e variadas para esses atores. Assim, o casamento está sob risco, a criança, igualmente. Mina precisa de ajuda psicológica e Jude não sabe como agir. Cabe à plateia assistir ao quão doloroso é estar nesse lar e os riscos para a criança.





Inspirado pelo estilo de Roman Polanski e por um romance que relaciona o horror, o mistério e o drama, Constanzo perde alguns chances de reelaboração do suspense por conta do efeito repetitivo de sua decupagem. É notável que ele se posiciona mais no drama e menos no horror, então está longe de emular Polanski nesse trabalho, por isso seu trabalho deve ser analisado sem essa comparação. Por outro lado, apresenta uma história que, independente da forma como foi dirigida, tem muito a agregar à reflexão sobre o desenvolvimento infantil e a maternidade: a importância de cuidar da mãe. Há uma alta escala destrutiva para o lar e a criança quando distúrbios mentais se desenvolvem em mães através de estilos de vida e crenças pouco ou nada saudáveis ou de prontidão para  transtornos psiquiátricos que nem mesmo elas podem controlar. Cuidar da mãe é vital!




De modo devastador, o que permanece em Corações famintos como um incômodo persistente é a impotência de não saber como lidar  com o estado de Mina. Um estado que se divide entre o amor e a loucura, a proteção e a ameaça. Um estado que nem mesmo ela tem forças para lutar porque lhe parece o certo. Como observá-la sem sentir raiva? Como ajudá-la sem julgá-la? Esse incomodo permanece após a experiência com o filme. Vítima ou não, Mina é uma mãe doente. Vê-la nesse profundo estado de fragilidade mental, deixa algumas reflexões  como:  O amor tem essa linha tênue entre fazer o bem e o mal, mesmo que  a intenção e a forma de amar seja a que julgamos correta? Até que ponto o nosso jeito de amar é saudável para o outro?  




Ficha técnica do filme Imdb Corações famintos 

sábado, 5 de agosto de 2017

O valor de um homem (La loi du marché, 2015), de Stéphane Brizé




Por Cristiane Costa,  Editora, blogueira e crítica de Cinema, especialista em Comunicação 



Realizador de filmes como "Mademoiselle Chambon" e "Uma primavera com minha mãe",  Stéphane Brizé se destaca como um cineasta que aprecia abordar dramas sociais e familiares que levam seus personagens a determinados limites emocionais. Como consequência, a experiência com seus dramas é forte, projetada na plateia com histórias que tocam em temas contemporâneos que são facilmente encontrados no dia a dia como uma forma de opressão. O valor de um homem, protagonizado por Vincent Lindon, que ganhou os prêmios de melhor ator no Festival de Cannes 2015 e o César 2016 veio a consolidar sua filmografia focada no realismo social.







As primeiras cenas já indicam que esse filme tem influência e/ou diálogo com o naturalismo dos irmãos Dardenne. Assim como Marion Cotillard  luta para manter o emprego em "Dois dias, uma noite", Lindon interpreta Thierry Taugourdeau, um senhor de 51 anos, casado e pai de um filho com deficiência. Desempregrado, Thierry é colocado à prova em variadas situações à procura de emprego. O realismo da câmera na mão de Brizé, observadora das mazelas humanas, mostra a humilhação sofrida pelas pessoas quando buscam emprego ou quando precisam se manter em um trabalho. Também mostra, como o ser humano é reduzido a pó ao depender de uma sociedade economicamente opressora.





A atuação de Vincent Lindon tem o primor de um homem concentrado em observar a situação social na qual se encontra. Embora suas emoções não estejam à vista, ele está sentindo o drama. Agora  está de volta à classe trabalhadora francesa e exposto a contundentes situações. Também tem o desafio de manter o próprio emprego, como mais um sobrevivente da selva chamada mercado de trabalho. Pouco sorri. Pouco fala. As poucas vezes que tem alegria, está com a família. O estilo durão e seco do ator também coopera para reforçar a excelente performance do personagem, com olhos e feições que precisam dar conta do drama de Thierry.




Quando encontra um emprego como segurança de supermercado, o drama está em fazer parte de uma arena social na qual empregados são observados, pessoas sem dinheiro e com problemas financeiros agem desesperadamente. Com 51 anos, já experiente de guerra laboral, vivenciar este cotidiano é pesado, cansativo. Os dilemas morais do protagonista são aquecidos como em uma panela de pressão. Seu olhar sempre astuto, tenso e frio, a observar os outros, deixa o espectador em suspense. O que fará Thierry? Ele acredita no seu trabalho? Como se sente? Ele suporta viver assim? Fará alguma loucura?

Fica claro que, transferindo esta ficção para o plano real do cotidiano, diariamente, a classe trabalhadora tem que suportar várias situações humilhantes para sobreviver no emprego, para ter o que comer e pagar as contas. Depender dessa cova dos leões capitalista e empresarial tem um preço alto, no qual nem sempre a humanidade será valorizada. Muitos poderão vir a se questionar: "O que estou fazendo aqui?" "Qual é o valor de um homem?" Nesse sentido, o filme de Brizé é mais um angustiante drama que tem tudo para ser catártico para quem carrega este peso e sabe como dói. Indubitavelmente, o  homem vale muito mais do que pensa.






Ficha técnica do filme Imdb O valor de um homem

Fotos: uma cortesia, Imovision


sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Perdidos em Paris (Paris pieds nus, 2016), de Abel & Gordon





Por Cristiane Costa,  Editora, blogueira e crítica de Cinema, especialista em Comunicação 


Este ano o Festival  Varilux atingiu uma marca inédita com um público de mais de 180 mil espectadores no Brasil, estabelecendo-se como o maior festival de cinema Francês do mundo com um crescimento de 15% em relação a edição de 2016. Sucesso de bilheteria no festival e o filme mais visto, "Perdidos em Paris", dirigido e protagonizado por Dominique Abel e Fiona Gordon e com a última atuação da musa Emmanuelle Riva tem a magia de um sonho cômico.




Fiona é uma bibliotecária que trabalha no Canadá e que sonha em conhecer Paris. Um dia recebe a carta de que sua tia Martha (Riva), uma idosa de 93 anos que vive sozinha em Paris, precisa de sua ajuda. Martha corre o risco de ser internada em um asilo. Disposta a reencontrar a tia, Fiona viaja à cidade luz e encontra Dom (Gordon), um morador de rua charmoso e egoísta. Juntos, partem em busca de Marta e se envolvem em muitas confusões.



"[..alguém nos mostrou um vídeo que ela (Emmanuelle Riva) fez para o The New York Times, na ocasião em que concorria ao Oscar. Nesse vídeo, gravado em seu apartamento, ela dançava e imitava Chaplin. Foi quando imediatamente decidimos que seria ela”] ( Dominique Abel).


Narrado como um peculiar conto, com inspiração no cinema mudo e burlesco e que lembra grandes nomes como Charlie Chaplin,  Buster Keaton e Jacques Tati, a contemporânea comédia francesa da dupla tem a graça e a inocência dos corações desajustados e solitários. Tem a ternura que falta no mundo e que tão bem faz ao coração, levando os espectadores a uma Paris menos glamourosa e criando um universo lúdico com situações inusitadas que convergem para inspiradores encontros e desencontros de almas. 






Com a experiência da arte clown, a inspiração dos icônicos atores do cinema mudo e a filmografia burlesca de Abel e Gordon, Perdidos em Paris apresenta uma viagem de afeto e diversão aos que, normalmente isolados dos padrões da sociedade, encontram-se como amigos, como família e como amantes. É o caso dos 3 personagens em cena, todos adoráveis e nada convencionais. Fiona é aquela mulher introspectiva que não segue vaidades femininas e que conquista pela espontaneidade. Dom tem o charme de um bailarino de tango e é possível que já tenha tido uma vida melhor, mas anda vestido maltrapilho e sem um tostão. Martha é a mulher idosa, esperta e ainda sana a sobreviver fugindo pelas ruas de Paris. Todos são personagens que não têm o olhar atento da sociedade Parisiense e não precisam dessa hipocrisia nesse cenário. Eles têm os olhos encantados do público e a leveza poética em cada atitude, isso basta.


O encantamento com esta comédia vem de um resgate da  antiga escola teatral cômica, da valorização do palhaço e da performance corporal desajeitada, também apoiado por uma estética colorida e fantasiosa como a dos filmes Wes Anderson. Em diferentes momentos, o cuidadoso trabalho de Abel, Gordon e Riva é uma homenagem a Chaplin e Tati, principalmente na bela cena de Emmanuelle Riva e Pierre Richard, que torna eterna a graciosidade da saudosa diva Francesa. Dom, como o vagabundo que não tem eira nem beira e oferece seu tempo e coração à tímida Fiona faz recordar os casais cômicos do cinema clássico que não se entendiam em um primeiro momento, porém, depois começavam a ter empatia um com o outro.





A diretora e atriz Fiona Gordon comenta: " Nadamos firmemente contra a maré: austeridade e cinismo não são coisas que queremos explorar. Preferimos nos concentrar em um pouco de inocência e espontaneidade, algo feliz". Fica evidente que os diretores conseguiram preencher a sala do Cinema com uma magia de transportar o público para outro mundo mais suportável, uma história delicada e engraçada. O filme acende essa chama da nostalgia pelos grandes palhaços do cinema, com um riso bobo, desencanado e ingênuo que, muitas vezes, é necessário para continuar sobrevivendo em um mundo caótico e perverso. A poesia e o non sense das várias cenas aliviam o peso do cinismo da vida real. Os personagens se perdem em Paris  e certamente deixam um doce aprendizado: é preciso se perder para encontrar e reencontrar novos afetos e, quem sabe, ser mais feliz



Ficha técnica do filme ImdB Perdidos em Paris

Fotos: cortesia agência Febre/ Pandora filmes/Festival Varilux
Citações dos diretores: uma cortesia agência Febre.