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#CinemaEuropeu#CinemaEspanhol #Marrocos #Drama #CríticaSocial #Niilismo #ElDeseo #OliverLaxe #PedroAlmodovarProdutor




Por Cristiane Costa,  Editora e Crítica de Cinema | Especialista em Comunicação e Projetos




O cinema de Oliver Laxe é frequentemente definido por travessias que transcendem o deslocamento físico para alcançar um estado de suspensão metafísica. Em Sirât, produzido pela El Deseo, essa busca ganha contornos de um road movie existencial que utiliza o deserto do Marrocos como palco para uma jornada melancólica e árdua. 


A premissa de um pai, Luis (Sergi López), em busca de uma filha desaparecida funciona como um chamariz narrativo que, gradualmente, perde fôlego em favor de uma imersão sensorial. Nota-se, contudo, uma lentidão latente que precede a própria busca, manifestada na indagação sobre o tempo transcorrido até o início da jornada. Esse desespero intrínseco, embora avesso ao melodrama, revela-se no sacrifício de cruzar um território hostil na companhia de nômades contemporâneos, cujas vidas são pautadas pelo niilismo das raves ilegais.





Diretor Oliver Laxe no making do filme. Divulgação.




Essa travessia não se dá apenas pela imagem, mas também pelo som, que emerge como personagem central e, por vezes, intrusivo. A técnica apurada cria um design sonoro que transita entre o intrigante e o insuportável, funcionando como um recurso que reflete o modo de vida alucinógeno e distante do grupo de ravers. O ruído eletrônico atua como uma manifestação de autenticidade daqueles que buscam no som uma viagem existencial ou uma fuga de uma realidade repressiva. Entretanto, essa tentativa de escape é confrontada pela crueza do ambiente marroquino, filmado por Laxe com uma permanência que contrasta com o trânsito dos personagens. O deserto estabelece-se como testemunha solitária, uma dicotomia viva entre a oportunidade de saída e a prisão imposta por um solo que é, literalmente, um campo minado.



Essa construção sonora e visual encontra eco no reconhecimento técnico da obra, amplamente celebrado no Prêmio Goya, onde o longa conquistou seis estatuetas, incluindo Melhor Fotografia, Música Original e Montagem. A vitória em Melhor Som estabeleceu um marco histórico ao premiar, pela primeira vez, uma equipe composta exclusivamente por mulheres, com Laia Casanovas, Yasmina Praderas e Amanda Villavieja. Esse reconhecimento técnico, que se estende às indicações ao Oscar 2026 nas categorias de Melhor Som e Filme Internacional, valida a periculosidade da travessia como algo permeado por riscos físicos, mas essencialmente psicológicos.








Para além do rigor técnico, a narrativa se sustenta na solidariedade rústica entre o grupo e a família de Luis, fundamentada na sobrevivência mútua dentro de um inferno real que abrange desde a opressão social até as dificuldades intrínsecas da vida. A figura do filho, Esteban (Bruno Núñez), é o elemento que ancora essa experiência em camadas de afeto e autenticidade. Como uma criança em transição, que foge aos padrões normativos de acolhimento social, o menino torna-se o ponto de luz em meio ao niilismo do deserto. Sua presença humaniza a jornada, oferecendo leveza e esperança através de gestos simples, como a lealdade ao pai ou a busca pela irmã.



Essa centelha de esperança, contudo, é confrontada pelo sadismo fatalista da direção. O desfecho revela-se frustrante ao interromper a única via de esperança da narrativa, gerando um choque que altera a percepção do público sobre as consequências subsequentes. Ao optar por um rumo apressado e punitivo para a figura da criança, o filme parece sugerir que o inferno é uma constante inescapável em qualquer travessia sob condições hostis. Essa escolha impacta negativamente o equilíbrio do longa, transformando a melancolia existencial em uma constatação amarga de que a vida, em territórios de exceção, é um campo minado natural onde o risco não garante a redenção.








Assim, o encerramento reafirma a travessia como suspensão existencial, onde o silêncio traduz o vazio. Embora careça de inovação, o desfecho demonstra coerência com a trajetória de esvaziamento proposta. O silêncio que se estabelece no ir e vir dos personagens traduz uma melancolia existencial perene, independente de para onde se vá ou do que se tente escapar. O título Sirât, remetendo à ponte estreita, acaba por representar não uma superação espiritual gloriosa, mas a constatação de que o esforço para manter-se vivo é uma fuga contínua. Resta ao espectador o desconforto de uma obra que, ao filmar o misticismo do deserto, acaba por encontrar apenas o eco de um vazio que nenhuma rave ou afeto parece capaz de preencher totalmente.




3.5





Imagens Retrato filmes. Divulgação.

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Por Cristiane Costa,  Editora e Crítica de Cinema | Especialista em Comunicação e Projetos




O cinema iraniano contemporâneo frequentemente encontra na restrição o combustível para metáforas potentes sobre a liberdade. Em Meu Bolo Favorito, dirigido por Maryam Moghaddam e Behtash Sanaeeha, essa premissa ganha contornos de uma delicadeza cortante ao focar na jornada de Mahin (Lily Farhadpour), uma mulher de 70 anos que decide romper com a inércia da solidão. Essa busca por um novo amor configura-se mais como um ato político do que puramente humano, uma vez que a própria humanidade, no contexto do Irã, é diariamente impactada pela repressão e pelo silenciamento. Mahin assume seu lugar de fala com inteligência, utilizando o humor, presente até em seus silêncios e risadas discretas, como uma ferramenta de subversão.








Essa resistência íntima encontra sua expressão mais clara na forma como a protagonista ocupa o ambiente doméstico. Diferente de outras narrativas onde a casa surge como um cárcere, aqui o lar é apresentado como um território de identidade e pertencimento. Embora silencioso e solitário, o espaço diz sobre quem ela é e sobre sua recusa em negar a própria existência. Mahin adapta sua realidade e vive com autenticidade, defendendo esse reduto contra invasões externas, sejam elas as leis do Estado ou a curiosidade de vizinhos. Com leveza e jogo de cintura, a casa torna-se o palco onde ela comanda a própria vida, permitindo-se dançar, beber e, fundamentalmente, exercer o direito ao flerte.









É nesse espaço de soberania que se abre a possibilidade do encontro com Faramarz (Esmaeel Mehrabi), uma intersecção de solidões que transborda o caráter individual para se tornar coletivo. A beleza dessa conexão reside na sua universalidade: é possível identificar-se com o acalento desse encontro independentemente de geografia, raça ou idade. A relação entre os dois possui a organicidade do que é autêntico, nascendo do ato de permitir-se conhecer o outro através da empatia e da vulnerabilidade. Mais do que um simples romance, o encontro carrega um poder simbólico e humano imenso, especialmente para uma mulher idosa em uma sociedade que frequentemente condena o envelhecimento em favor das aparências e da juventude performática.




Essa conexão, ao mesmo tempo universal e singular, dialoga diretamente com os dilemas do envelhecimento populacional. Esteticamente, a dupla de diretores se posiciona em uma vertente que dialoga com o realismo de Asghar Farhadi, mas flerta com o radicalismo silencioso de Jafar Panahi. Ao contrário da denúncia direta, Moghaddam e Sanaeeha optam pela resistência do cotidiano. Essa escolha foi recebida com aclamação em festivais internacionais, como o Festival de Berlim, onde o contraste entre a recepção global, que celebrou a vida e a liberdade da obra, e a recepção local foi brutalmente evidenciado pela proibição dos diretores de deixarem o Irã para comparecer à estreia. Há relatos de que o filme levou os cineastas ao tribunal e foi alvo de forte repressão interna, reforçando o contraste entre celebração internacional e censura doméstica. Esse cerceamento ecoa o movimento "Mulher, Vida, Liberdade" ao mostrar uma mulher que, mesmo sob vigilância, recusa-se a apagar seus desejos.










Essa metáfora do desejo doce e planejado prepara o terreno para um desfecho agridoce, marcado por uma parcela trágica, mas profundamente realista. Ao aceitar que ciclos se fecham e surpresas acontecem, o longa revela sua humanidade e seu caráter tragicômico mais puro. Em uma realidade de países que sofrem retaliação, a escolha narrativa mostra-se extremamente perspicaz: ensina que é preciso aproveitar cada fatia da vida, independentemente da violência ou do controle externo. O impacto da obra também se estendeu a debates internacionais sobre envelhecimento e liberdade feminina, ampliando sua relevância histórica ao mostrar que a resistência pode se manifestar tanto em gestos íntimos quanto em movimentos coletivos.




No fim, a grande sabedoria que a obra deixa é a recusa em ser infeliz por causa da limitação imposta pelos algozes. Assim, o filme reafirma que até os gestos mais íntimos, como amar, rir ou comer um bolo, podem se tornar atos de resistência.









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