quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

O lamento (The Wailing), de Na Hong-jin





Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação




O time dos diretores Sul Coreanos não costuma decepcionar, com Na Hong-ji e seu filme "Lamento" (The Wailing/ Gok-seong, 2016) não seria diferente. Com frescor em uma direção que não perde o foco e a autoconfiança no que está realizando, o longa é a prova mais recente de um horror sobrenatural que segura ao máximo o benefício da dúvida para o espectador. 



Ao longo de seus 156 minutos de duração, a história é envolvente e entrelaça uma série de cenas e twists que desloca o espectador para diferentes situações e direções. A constante dúvida e necessidade de descobrir o assassino é uma força atrativa mas também repulsiva, em especial quando um dos personagens que mais sofrem é uma criança, a pequena Hyo-Jin (Hwan-hee Kim), filha do policial Jong-goo (Do-wom Kwak).






Em uma pequena aldeia, vários assassinatos começam a acontecer. Tais acontecimentos são acompanhados de um clima macabro com aparente uso de magia negra e espíritos do mal. Com demais companheiros,  Jong-goo começa a  investigar as evidências, entretanto, inicialmente tanto o policial como seus colegas não estão efetivamente dedicados a encontrar o assassino.  


O diretor insere em cena o humor assim como o medo e a covardia de Jong-goo, detalhe que torna mais vivaz a transformação posterior do personagem. A investigação é levada a sério a partir do momento que Hyo-Jin tem comportamentos nada dóceis como o início de uma aparente possessão demoníaca. O pai inicia a jornada instintiva de proteger a filha, intensificando o efeito dramático do herói comum. 

O Lamento entrega um senso de direção muito sólido de Na Hong-ji. Mais maduro, cineasta vence o desafio de ter realizado um filme bastante longo a ponto do próprio tempo de duração não comprometer o resultado. Ele apreende toda a atenção para a desconfiança que toma conta da experiência, considerando que ali qualquer um pode ser o assassino e a natureza humana é testada a expurgar e enfrentar os próprios demônios. 




A cenografia, fotografia e direção de atores têm uma conexão bastante crível, na qual se conserva o espírito da tradição das histórias de fantasmas comuns na cinematografia asiática, mas também o diretor é consciente de não repetir o mais do mesmo, assim, o gore e o horror são sutis e bem combinados ao suspense e drama policial e ao contínuo clima de deixar o público sem qualquer certeza. O elemento humorístico é incluído de forma inteligente, até um mero xingamento da pequena Hyo-Jin carrega a dualidade do sofrimento e do cômico, coisas que determinados diretores asiáticos conseguem realizar com maestria.






Além da ótima performance de Do-wom Kwak, atrapalhado e vulnerável, o que possibilita criar um vínculo empático com o personagem e a figura de um pai comum que poderá ou não falhar, a grande estrela é Hwan-hee Kim que realiza uma atuação desafiadora para sua pouca idade. Não basta apenas mover o corpo  como se estivesse possuída pelo mal. Suas interações com o pai são sensíveis mas também tragicômicas. Por incrível que pareça, mesmo em meio ao sofrimento, há uma carga de humor em sua interpretação que poucas crianças poderiam realizá-lo sem cair no ridículo. 










Personagens coadjuvantes como a mulher misteriosa vestida de branco (Woo-hee Chun) e o homem japonês (Jun  Kunimura) realizam atuações fundamentais para o grande protagonista do filme: a dúvida. Suas aparições trazem a seguinte interrogação: culpado ou inocente? Quem são? A que vieram? Esse jogo narrativo do roteiro poderia ser uma manobra de tapeação do público, afinal, há vários filmes de horror que embromam o espectador e subestimam sua inteligência, entretanto, O Lamento provoca o lado detetivesco sem recorrer às velhas fórmulas do horror sobrenatural e amplia o olhar para variadas facetas e hipóteses. 







As mortes estão acontecendo, Hyo-Jin corre perigo e a presença de xamanismo parece ser a única solução para destruir o mal. Apesar de todos estes elementos narrativos, a história está além do espaço e o do tempo, ela ganha um plano mais fantasmagórico em uma realidade que podemos imaginar dentro e fora da história. Não existem certezas na ambivalência do ser humano e a violenta paisagem pintada por Na Hong-jin é apenas mais uma ponta desta  misteriosa ambiguidade. 


Com uma mescla de gêneros coesa e vertentes espirituais, O Lamento é um excelente trabalho de direção, equilibrado e refrescante em todos os sentidos e imperdível para os fãs e não fãs do gênero. Faz perceber que nós, como humanos, também somos fantasmas de carne e osso, que diversas vezes não saberemos como distinguir o bem e o mal e conviver com eles como aceitação e destino. Somos ambíguos por natureza  e talvez alguns  de nossos pecados nunca serão perdoados. 




Ficha técnica do IMDB O lamento 










terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Lucky, de John Carroll Lynch







Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação.



Há poucos filmes que verdadeiramente são predestinados a encantar resultando na celebração e no encerramento de uma vida. Como pequenas jóias com grandes significados, eles surgem em uma caixinha de surpresas, inesperados e tocantes em suas sutilezas e iluminam a experiência cinematográfica com valiosas reflexões que surpreendem pelo inestimável valor. Assim é "Lucky" (2016) o derradeiro filme do icônico Harry Dean Stanton, falecido em setembro de 2017, sua aparição ressalta ainda mais o ator respeitável do cinema independente que ele representa e como ele contribuiu para este nicho.


Trabalhou com cineastas renomados como  David Lynch (O império do sonhos e Twin Peaks), Wim Wenders (Paris, Texas), Ridley Scott (Alien - o oitavo passageiro),  Francis Ford Coppola  (O poderoso chefão II), Martin Scorsese (A última tentação de Cristo), entre outros. Mas em Lucky, ele tem um aura diferente. É como se ele tivesse reunido todos os outros personagens e sua experiência, desafiado o tempo e celebrado a eternidade do Cinema. Neste sentido, os sortudos somos nós, cinéfilos e espectadores em geral, pois é uma honra se despedir de Stanton ao contemplar essa magnífica atuação. Gentil e nobre como um até logo de quem não será esquecido.






Discorrer sobre Lucky em uma crítica é  muito pouco diante da magnitude e das possibilidades acerca da obra. É o tipo de filme que não cabe na escrita, deve ser levado à vida, para ver e rever. O longa tem uma honestidade extraordinária a ponto de mostrar, como uma profética despedida, o adeus de Harry Dean Stanton de uma forma magnífica e assustadoramente impactante, ressaltando o que o tornou tão único no Cinema. Uma atuação crível com todas as qualidades que o consagrou nos anos 80 ao interpretar Travis Henderson em Paris, Texas, uma das suas mais precisas e inesquecíveis atuações. 



No longa, ele é Lucky, um ex-cozinheiro da Marinha que aos 90 anos segue sua rotina com disciplina: higiene e cuidados pessoais, exercícios físicos, ida à lanchonete, ligeiras interações com vizinhos e conhecidos e conversa com os amigos em um bar. Chegou ao anonimato da idade avançada cheio de sabedoria, autenticidade e mansidão, entretanto, mesmo com uma saúde de ferro, Lucky começa a sentir o medo da mortalidade, um sentimento que ninguém deseja pensar, porém,  é comum quando a velhice chega. Mesmo respeitado e querido pelos amigos, o vazio, a solidão, a rotina são inevitáveis.






De maneira brilhante, é na simplicidade do roteiro que, em nenhum momento ultrapassa a modéstia, que Lucky é um belíssimo filme. A parceria entre os roteiristas Logan Sparks e Drago Sumonja e o diretor John Carroll Lynch rendeu uma narrativa singela na qual o medo de morrer tem lugar e é uma consequência natural da humanidade mas ele também é como um despertar para a vida. Assim, existe mais vida do que morte em Lucky. 


Diálogos lúcidos e expressivos entre Stanton e David Lynch lançam possibilidades para reflexão sobre a existência e o significado da vida, utilizando eventos aparentemente ordinários criados com bastante perspicácia . Lynch atua com um magnetismo fora de série, crível em cada expressão e palavra. Em cenas de intensa revelação das emoções, Stanton alcança notável destaque pela naturalidade que faz um grande ator, com destaque para uma das suas principais falas em um bar, diante de amigos. Ele provoca um impacto sagaz que penetra na alma, descomplicado, sábio e sensível. Inevitavelmente, ele traz o sorriso e a razão.


Vencedor do júri ecumênico do Festival de Locarno 2017, Lucky  é profundamente sincero em cada peça. Desde a ambientação do cotidiano de uma cidadezinha americana no deserto, passando por esta rotina entediante na qual o sumiço de um cágado vira assunto com teor filosófico. De fato, as melhores conversas nascem a partir de assuntos meramente comuns, nas quais as pessoas estão desnudas de suas mais dissimuladas máscaras. Tudo isso que não seria valorizado em outro filme, aqui ganha uma bela dimensão humanista. Dá para perceber a honestidade dos diálogos. 






Com igual qualidade e perspicácia, a composição dos planos e escolha de determinados elementos na mise en scène têm  insights incríveis, a notar, o desfecho contém dois elementos da natureza que são relacionados ao protagonista e expressam uma louvável simbologia do poder da vida. Embora sem muita experiência em direção, John Carroll Lynch fez um trabalho exemplar, com o compromisso de deixar fluir as atuações dos titãs David Lynch e Harry Dean Stanton. Esta generosidade na direção de atores está muito conectada com a própria generosidade do filme.


Lucky é como um amuleto da sorte. Quando os pensamentos são tomados de medo e morte, lembrar de tudo o que foi feito nesta jornada é celebrar a nossa humanidade e agradecer pela vida.


Nota: Descanse em paz, Harry Dean Stanton.  Você vive no  e através do Cinema. 




Ficha técnica do filme IMDB Lucky

Fotos, uma cortesia Imovision.





segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Thelma, de Joachim Trier







Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação.



Quando um cineasta se arrisca em um terreno no qual ele não é experiente e sai da zona de conforto, o mínimo que deve ser feito pelo espectador é observar e ponderar seus riscos e acertos e a experiência cinematográfica significativa com a mudança. Conhecido por dramas humanos naturalistas, o diretor Joachim Trier em parceria com o  co-roteirista Eskil Vogt (de "Blind") realizaram um giro de 180º graus na realização de "Thelma"thriller sobrenatural ambientado em Oslo e indicado pela Noruega ao Oscar 2018. Inspirado por referências como Hitchcock, Brian de Palma e filmes italianos do gênero terror (giallo), Trier foge da cinematografia que o tornou conhecido, contudo, não deixa de centralizar a vulnerabilidade do ser humano no seio das relações familiares e afetivas.





" Ao fazer um thriller sobrenatural, pensei: "O que posso trazer para a mesa que é
esperançoso? (Joachim Trier)




Interpretada pela jovem revelação Eili Harboe, a protagonista Thelma tem a híbrida personificação da garota de educação rígida mas também ansiosa pelas oportunidades de aceitação social e descobertas que a faculdade traz. O filme é baseado em um rito de maturidade com o desabrochar do primeiro amor, o drama do ciclo para a vida adulta com repressão, desejos e sexualidade e enfrentamento dos pais assim como uma série de fenômenos sobrenaturais e psicossomáticos como as convulsões sofridas pela personagem e todo o processo ansiolítico de se libertar da rigidez familiar e se entregar ao amor por outra mulher. Assim, Thelma é a dolorosa jornada de uma jovem que precisa amadurecer e lidar com as turbulentas emoções e difíceis decisões em uma sociedade norueguesa ainda tradicional.


Como argumento, a história de Thelma não é nada diferente do que já se viu em algum lugar do Cinema, quando jovens passam por ritos de passagem e a angústia do amadurecimento. A diferença aqui é que o filme é o mais recente "ame ou odeie" entre os lançamentos do ano.  Ao tomar para si o risco de unir o drama real com alegorias do horror e a tradição de contos primitivos nórdicos, Trier sai muito do lugar comum que o consagrou, além de não ser especialista neste gênero. Desta forma, o longa exige uma postura flexível do espectador que aprendeu a gostar de Trier a partir de ótimos dramas como "Oslo 31 de Agosto" e "Mais forte que bombas". De fato, as primeiras sequências de Thelma levam a pensar : "Que inferno é esse? O que ele está fazendo com sua carreira?". Depois é possível dar algum crédito ao seu esforço.







Thelma tem sua melhor performance muito mais na atuação de Eili Harboe que transita bem entre a vulnerabilidade, a ingenuidade e a força. Seu papel é tão difícil que dificilmente qualquer atriz o faria bem, assim, o filme foge consideravelmente do desastre por causa de Harboe, que é um rosto mais fresco no cinema e é perceptível sua entrega ao trabalho por inteiro, principalmente nas cenas de convulsões psicológicas não paternas, na sintonia que estabelece com seu pai Trond (Henrik Rafaelsen) e nos delicadas interações com seu novo amor Anja (Kaya Wilkins). Para o bem do cinema contemporâneo, ela é uma atriz que pode ser convidada para outros trabalhos para expansão de sua carreira além da Noruega.


Ainda que o filme tenha altos e baixos na execução, Thelma é uma personagem interessante que tem de tudo para criar uma identificação com os estados repressivos que mulheres carregam por anos, seja pela educação tradicional, seja pelo medo de encarar os próprios desejos, preferências e sonhos. Embora os roteiristas detenham-se muito ao aspecto sexual e afetivo dela e seu envolvimento amoroso com Anja e deixam de desenvolver outras camadas da narrativa, a protagonista é muito mais que isso: é uma representação do ser primitivo desafiado a encarar o seu destino. Por conta disso, o longa tem contornos que levam ao resgate das referências pagãs, das bruxas, uma oposição ao Cristianismo adotado pela família. É um filme feminino bastante obscuro capaz de despertar rejeição já que ele se dispõe a mostrar pulsões que não são fáceis de encarar.







Com igual importância, Thelma tem traços psicológicos de uma jovem que é estranha dentro do lar, cujo passado é revelado mais adiante e o  porquê deste distanciamento entre ela e sua mãe Unni, interpretada pela excelente Ellen Dorrit Petersen.  Mesmo que seus pais a controlem até mais por questões morais, nitidamente ela é solitária e inadequada a este mundo tradicional. Unni e Trond não confiam nem mesmo na filha, o que coopera para intensificar o quão estranha é esta relação. Deste modo,  Anja é como sua passagem para a libertação. A escolha por um amor homossexual no roteiro vem a contrapor a tradicional sociedade e é um caminho óbvio na concepção de história para colocar a personagem a enfrentar os seus próprios preconceitos, assim como um gatilho para todo o mal estar que ela precisa superar.








Sob a perspectiva da execução narrativa, em vários momentos, o roteiro se perde em cenas que, ao priorizarem o estranhamento e as manifestações da natureza como pássaros, cobras e a natureza circundante, nem sempre conseguem deixar claro a função relevante de tais elementos na cena.  Inclusive, há cenas entre Thelma e Anja que parecem mais um fetiche lésbico do diretor do que propriamente uma exploração da mise en scène e da relação entre as personagens, além do número elevado de convulsões, cansativo e nem sempre bem contextualizado. O longa também abandona a oportunidade de criar uma densidade maior na relação entre pais e a filha aproveitando a situação do passado que tanto traumatizou a família, e o desfecho é fácil e morno demais considerando a intensidade do desenvolvimento.








Todos esses riscos fizeram parte da experiência de um diretor que não é um homem do suspense sobrenatural, porém, no geral, o filme tem significado claro. Acima de tudo, Thelma é um intenso drama humano que usa elementos do horror. O equilíbrio entre o real e o imaginário, o físico e o somático, a repressão e a libertação, o padrão social e o primitivo, o amor e o medo de amar ganha uma dimensão pulsante que facilmente pode ser comparada às experiências de qualquer um. Quem nunca viu seu físico desabar quando o emocional perdeu os alicerces? Quem nunca teve medo e ansiedade e prostou-se sem forças para enfrentar os desafios? Quem nunca teve vontade de tomar uma decisão completamente inaceitável em seu meio social e familiar? Essas emoções e desejos são recorrentes, o que os distingue na experiência humana é como se manifestam e podem ser representados no cinema.



Neste sentido, quem julgar o filme apenas pelos predicativos do gênero horror, terá mais chances de se frustrar com as falhas. Joachim Trier arriscou bastante no thriller sobrenatural, contudo, o que está debaixo da superfície do longa continua real e palpável, ele permanece o mesmo diretor  e seu serviço é favorável a mostrar os profundos dramas existenciais.





Distribuição e cortesia das fotos: Distribuidora Mares filmes

Ficha técnica do filme IMDB Thelma

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Lygia, uma escritora Brasileira





Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação.




Realizado pela TV Cultura, o documentário Lygia, uma escritora Brasileira é uma bela voz que ecoa para celebrar uma das mais autênticas literárias do país. Com direção de Helio Goldsztejn  e roteiro de Eneas  Carlos Pereira,  o longa recentemente lançado nos cinemas Brasileiros contribui muito para jogar luz à trajetória de Lygia, uma mulher à frente do seu tempo, que construiu uma literatura pós modernista com forte presença de temas universais e do feminino, com destaque para "As meninas", romance  ambientado na época da ditadura militar e em 1995 adaptado para o cinema sob a direção de Emiliano Ribeiro. 






O documentário não traz uma proposta peculiar de narrativa e preservar um formato tradicional foi o melhor caminho na realização. Ele mantêm suas origens com influência dos recortes televisivos e faz  o espectador mergulhar na intimidade da escritora como se ela fosse uma amiga próxima. O diretor e equipe da TV Cultura buscou nos arquivos  do audiovisual algumas entrevistas como a do Roda Viva e relatos de diferentes ciclos de Lygia como a dedicação às letras, o casamento com o jurista Goffredo da Silva Telles, a perda precoce do filho cineasta (Goffredo Telles Neto), o feliz casamento com o grande crítico de Cinema Paulo Emílio Sales Gomes, além da presença da nova geração da família com a participação de suas netas Lucia Telles e Margarida Zanelato. 






Com o crítico de cinema Paulo Emílio: parceria, companheirismo e paixão



Para aproximar a história de Lygia às opiniões de escritoras e da crítica literária, o diretor inclui entrevistas com personalidades como Tati Bernardi, Jô Soares, Manuel da Costa Pinto, Marcelino Freire, entre outros, sendo que, os dois últimos conseguem dar um peso histórico, argumentativo e crítico sobre a importância da literatura da escritora. Outra boa escolha foi a participação de Isabella Lubrano, jornalista e blogueira especializada em literatura, que demonstra grande afeto e respeito pelo trabalho da escritora e é bem esclarecida sobre a obra. Sob o ponto de vista da influência de Lygia nas juventudes, os relatos de Lubrano trazem um frescor de que gente comum e jovem, conectada digitalmente, também aprecia literatura e a defende como parte de um cotidiano que não deve ser esquecida. 


Por outro lado, a presença de Glamour Garcia não agregou tanto valor pois ela não conseguiu demonstrar muito repertório para falar de Lygia e estas cenas ficaram superficiais, infelizmente dando a impressão de que o diretor colocou uma transexual  no longa apenas para dizer que colocou, seguindo um "politicamente correto" na agenda de diversidade de gênero. De maneira geral, algumas entrevistas são desnecessárias nos documentários e pouco estão em sintonia com o resto do longa, o que colabora para observar a diferença entre um bom documentário e um excepcional.















Com Monteiro Lobato, Antônio Cândido e Jorge Amado: uma gigante entre gigantes




Paulistana e com 94 anos, Lygia Fagundes Telles é uma imagem viva da inspiração e força feminina na Literatura. Nasceu para ser uma imortal das Letras em um meio  que teve maioria masculina. Uma fina rebelde com uma sofisticação apurada, um equilíbrio sensato e uma sabedoria vivaz nas palavras.  Foi amiga de grandes nomes como Mario de Andrade e Oswald de Andrade, vanguardistas da modernidade literária, assim como de suas contemporâneas como Clarice Lispector e Hilda Hilst com seus estilos completamente diferentes . Seu documentário mostra o quão admirável ela é em vários sentidos, partindo de uma clara evidência de que ela escolheu os seus próprios caminhos, com os pés no chão, sabendo que viver de Literatura não seria plenamente possível e que o Brasil é um país difícil de viver. Mas, ainda assim, ela marcou sua presença na escrita com um estilo bastante autoral, realista e provocativo ao inserir temas como a morte, o amor, o sexo, o adultério, a repressão, o egoísmo, a loucura. 











Membro da Academia Brasileira de Letras, 
Lygia se destacou como uma das grandes mulheres da Literatura.
 Indicada ao Nobel de Literatura em 2016

Com  Hilda Hist e José Saramago: 




Alguns dizem que ela é pessimista e de palavras pesadas, entretanto, sua biografia é muito mais luminosa e diz sobre uma condição não paralisante diante do mundo. Aliás, este é o papel do escritor: ser ativo no mundo, explorá-lo, agir e reagir com suas palavras. Lygia  ilumina coisas que estão debaixo da superfície e que nem todo o escritor consegue explorar, nem todos gostam de revelar, assim, ela pede ao leitor uma participação mais ativa no ato da leitura e de observar a nós mesmos. Esmiuçar a condição humana é virar o ser humano do avesso, por isso, com louvor, ela é conhecida como escritora do avesso. 






Uma verdadeira dama da Literatura Brasileira.




A grande lição de vida que permanece ao ver "Lygia, uma escritora Brasileira" é a sua escolha pela Literatura, sua belíssima e inspiradora vocação. Sua trajetória é marcada pela generosidade, delicadeza e  beleza de quem encontrou nas palavras refúgio e libertação. É interessante notar que, desde a faculdade de Direito da USP, Lygia buscou uma militância cuja experiência a ajudaria a amadurecer e a escrever os livros da década de 70 como "Antes do baile verde" e "Seminário dos ratos", revelando subtemas sociais como a moral das famílias urbanas, o papel dos militares e a ditadura, a analogia do fantástico com a política e os ratos. É uma escritora de contextos, em sintonia com o seu tempo que nunca desistiu de falar sobre o país e centralizar a humanidade.


Ela também demonstrou atitudes no decorrer da sua carreira que refletem seu incômodo com as injustiças sociais e seu enfrentamento, mas também sua força de viver experiências diferentes em sinergia com as Letras e as Artes como os trabalhos  cinematográficos que realizou com o seu filho cineasta Goffredo Telles Neto no qual participou do  Narrarte, além da adaptação de Capitu (1968) realizada com seu esposo Paulo Emilio, desta forma, Lygia se aproximou do mundo do Cinema, da escrita de roteiro e interpretação.

Agora ela ganha a tela como musa para inspirar e emocionar. Imperdível bela Lygia!








Fotos, uma cortesia cortesia da Trombone. 




segunda-feira, 6 de novembro de 2017

O Escafandro e a borboleta (Le escaphandre et le papillon, 2007), de Julian Schnabel








Por Cristiane Costa,  Editora e crítica de Cinema, especialista em Comunicação.





Adaptação do livro "O Escafandro e a borboleta" (The Diving bell and the butterfly) para os cinemas, o filme realizado pelo pintor e cineasta Julian Schnabel (de "Basquiat") é a comovente histórias do escritor, jornalista e ex-editor da Revista Elle Francesa, Jean-Dominique Bauby, conhecimento como Jean-Do e interpretado por Mathieu Almaric. Após sofrer um acidente vascular cerebral em 1995, Bauby ficou totalmente paralisado da cabeça aos pés e adquiriu um raro transtorno neurológico chamado Síndrome do encarceramento (Locked-in). Com esse grave quadro, ele só conseguia mover a pálpebra esquerda, que foi a única forma de se comunicar com médicos, fonoaudiólogos, fisioterapeutas, familiares, colegas etc.







Este filme é uma obra belíssima, tanto sob uma perspectiva esclarecedora sobre a importância do sistema nervoso e sua relação com as atividades diárias como também sob as perspectivas narrativa, artística e cinebiográfica . O apuro estético de Julian Schnabel torna o filme sensível, porém não melodramático demais, combinando muito bem os aspectos das limitações físicas de Bauby com uma jornada de reflexão sobre suas memórias e as oportunidades afetivas que não viveu plenamente. 







Nas primeiras cenas, Bauby acorda em um hospital em Bercky-sur-Mer após ficar 3 semanas em coma. Apesar de compreender o que os outros falam, não consegue falar. A sensação é imediatamente dramática. Muito sabiamente, a direção realiza o filme com o ponto de vista de Bauby, que percebe e tem contato com as pessoas e o ambiente através de apenas 1 olho. A câmera é a janela para o mundo interior do protagonista e abre espaço para que o espectador possa ver a prisão mas também a consciência, a história e as emoções de Bauby. 

Assim como filmes  quem tem pessoas com tetraplegia ou quadriplegia como "A teoria do mundo", "Intocáveis", entre outros, "O escafandro e a borboleta" carrega em si aquelas fatalidades que a vida têm, que naturalmente provocam comoção, mostram a superação do homem e como enfrentar sofrimentos. Durante um passeio de carro com o filho, feliz e em uma paisagem bucólica, além de ter uma vida de status ligada à moda e ao glamour, Bauby perdeu tudo isso de uma hora para outra.  O AVC afetou seu tronco encefálico que desempenha uma importante função ao lidar o cérebro à espinha dorsal e transmite informações motoras e sensoriais. Com essa área comprometida, além da paralisia, ele não tinha a fala. 







Muito da superação na biografia de Bauby e da impressionante força para viver estão na forma como foi estabelecida um sistema de comunicação que utiliza a pálpebra. Inicialmente, as perguntas eram baseadas em "sim" ou "não", para as quais ele piscava uma vez para o sim e duas vezes para o não. Posteriormente, além de todo o suporte médico e especializado que ele teve condições de ter, Bauby foi apresentado a um alfabeto Francês que utilizava as mais recorrentes letras do idioma. Essas letras eram classificadas pela frequência de uso, uma pessoa mostrava determinada letra ou  lia o alfabeto em voz alta, olhando fixamente para ele e Bauby piscava cada vez que escolhia a letra que desejava. Com isso, ele construiu frases e, por incrível que pareça, um livro intensamente poético, vibrante e intimista, com a ajuda de Claude (Anne Consigny) que escrevia o ditado.







Com a síndrome do encarceramento, raramente ele voltaria a andar e a assumir toda a competência funcional da fala e dos movimentos considerando que o tronco encefálico realiza esta conexão, no entanto, a real beleza de sua história mostrada nesse fascinante filme é como ele não perdeu sua imaginação, memória e consciência. São elas que revelam quem é o Bauby para as pessoas. São elas que assumem as formas de ele escapar do escafandro e voar como borboleta. Seu cérebro manteve essa funcionalidade, o que corrobora o poder do sistema nervoso; ainda que limitado em alguns aspectos, em outros, ele se preserva. 



Em si o filme é uma grande lição de vida e como é importante amar enquanto há tempo, falar o que sentimos enquanto podemos, fazer o que gostamos. Bauby era um charmoso homem que vivia no luxuoso ambiente da moda, mas que também percebeu o valor das pessoas quando lhe faltou o caminhar, o abraçar, o afagar e o falar. A presença de pessoas familiares ou próximas como a mão de seus filhos, Céline (Emmanuelle Seigner), seu pai Papinou (Max von Sydow), da fonoaudióloga Henriette (Marie-Josée Croze) e de Claude, mostram que, por mais que haja sofrimento, o que nos faz viver e sobreviver é estar perto de quem amamos, lembrar que temos uma história com elas, que estas pessoas sofrem  mas também podem nos ajudar e dar forças. Nesse sentido, Bauby, que é pouco aprofundado nos planos do passado em termos de densidade psicológica, claramente, assume que poderia ter vivido  melhor e investido mais no afeto das relações. As cenas mais poéticas e chorosas do longa mostram esses sentimentos, lembrando dos filhos, do pai, de uma antiga namorada.





Quanto à construção da narrativa, ela é bem diferenciada em comparação a dramas que abordam pessoas presas a uma cama e/ou cadeira de rodas.  Não a toa foi indicado a quase 100 categorias em festivais  e ganhou prêmios como melhor direção e Vulcain prize em Cannes (2007), Globo de Ouro (2008) de melhor direção e melhor filme em idioma estrangeiro, BAFTA (2008) de melhor roteiro adaptado, o César Awards (2008) de melhor ator (Mathieu Almaric) e melhor edição. Não deu Oscar, porém, a aceitação da crítica e do público é positiva, destacando o longa como uma das melhores cinebiografias existentes sobre histórias sobre pessoas com limitações físicas e neurológicas.






O filme é uma jornada artística de um diretor que é, por profissão e vocação, bastante envolvido com arte, então esse é um detalhe importante  a observar e degustar durante a projeção. As cenas em flashback, muito bem intercaladas na montagem de Juliette Welfling (de "O profeta"), dão uma fluidez crível entre a imaginação, a realidade, os devaneios e as memórias, além do mais, a fotografia magnífica de Janusz Kaminski só comprova que ele é um dos maiores diretores de fotografia do mundo, responsável por longas como "A lista de Schindler" e "O resgate do soldado Ryan". E se Steven Spielberg confia nele, obviamente o bom gosto estético de Julian Schnabel não deixaria essa chance escapar. 

Finalmente, "O escafandro e a borboleta" tem mesmo este ying e yang de Bauby, os opostos que precisam conviver por um destino trágico na vida. Escafandro é o Bauby preso ao mar, controlado e sem movimento. Borboleta é o Bauby com asas à imaginação, sentindo a liberdade que tanto deseja. Todo o resto é sofrimento mas também poesia, paz e redenção. 












segunda-feira, 25 de setembro de 2017

150 Miligramas (2016), de Emmanuelle Bercot






Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação.



Emmanuelle Bercot é uma diretora que gosta de abordar temas polêmicos em seus filmes, característica que é bastante atrativa no seu estilo. Demonstra que ela não foge do enfrentamento e apresenta esperança e um senso de justiça nas histórias. Assim como "De Cabeça Erguida", seu antepenúltimo filme que contava sobre o sistema socioeducativo para jovens delinquentes, com "150 miligramas" (La Fille de Brest) ela retorna à direção para jogar luz na obscuridade da indústria farmacêutica.


Baseado no livro de Irène Franchon, Mediator 150 mg, Bercot aborda os questionamentos acerca deste medicamento, produzido pela farmacêutica Servier e retirado do mercado em 2009.  O medicamento prejudicou entre 500 a 2 mil pessoas na França. Era receitado para tratamento de diabéticos com problemas de sobrepeso, depois foi usado como inibidor de apetite.  Começou a provocar efeitos colaterais com sobrecarga cardíaca para os pacientes, levando a óbito vários deles.






No papel de Irene está a atriz Dinamarquesa Sidse Babeth Knudsen, conhecida por "Depois do casamento", de Susanne Bier, e quem tem realizado trabalhos na França, mais recentemente "A Corte" de Christian Vicente. Knudse é uma excelente atriz. Aqui ela incorpora um perfil obstinado, carismático e bem humorado, na pele de uma pneumologista do Hospital Universitário de Brest. Irène começa a desconfiar do Mediator, o que dará início a um processo de investigação sobre os males do medicamento.


A decisão pela adaptação para o Cinema partiu da própria autora e produtores, mas Bercot abraçou a causa muito mais pela garra de Irène Franchon, um drama de quem bateu de frente com a indústria pharma, ação bastante heróica, levando em conta que é um dos segmentos industriais mais poderosos do mundo, estratégico, competitivo, lucrativo e lobista por excelência. Além de ser um mercado que provoca reações controversas considerando que todas as pessoas, gostando ou não, colocam fé,  se vêem obrigados a confiar ou simplesmente odeiam essa indústria.






A performance de Knudsen mostra que esta não é apenas uma história sobre um escândalo pharma, é parte da biografia de uma mulher que se preocupava com os pacientes e embarcou em um processo exaustivo, de alta exposição pessoal que colocou em xeque se ela era insana, vaidosa ou justa. Por outro lado, é um personagem que não ganha empatia fácil, mesmo com os esforços da atriz que marcou bem a personalidade da especialista. Todas as virtudes da protagonista estão na narrativa: mãe de família, boa esposa, divertida, atenciosa, corajosa, justa. Entretanto, sua obstinação e ego têm um ritmo ligeiro demais, o que dificulta uma conexão mais emocional com a personagem.





Bercot optou por incomodar ao máximo o espectador, começando pelo realismo visceral do ambiente hospitalar, como por exemplo, imagens fortes de corpos em cirurgia ou na necropsia. Outro incomodo é o jeito acelerado da heroína, que pode ter sido uma decisão da diretora ou uma característica biográfica. Assim, Bercot não dá muito tempo para digerir a história, que é confusa e complexa em determinados espaços. É o tipo de roteiro que exige total atenção às reviravoltas, idas e vindas de Irène e de aliados como o personagem de Benoît Magimel. Mesmo que pareça um roteiro de difícil adaptação, em alguns momentos, esta dificuldade é projetada para a experiência com o filme e o prazer é comprometido.

É um bom longa, desafiador na forma como foi roteirizado pela diretora e Séverine Bosschem, mas não supera em qualidade de direção os antecessores como "Meu Rei" e "De Cabeça Erguida".  Suas lacunas estão mais em determinadas sequências e desencadeamentos que dificultam o acompanhamento do sentido para a compreensão da história. Não é Bercot em ótima forma, assim o mérito fica mais por conta de Knudsen. Ela interpreta uma heroína que faz refletir sobre  a importância das escolhas e ações éticas e os riscos envolvidos.






Ficha técnica do filme IMDB 150 miligramas

Distribuição California filmes

Fotos, uma cortesia California Filmes.