#CinemaBrasileiro #CinemaPernambucano #Drama #FábulaSocial #CríticaSocial  #HistóriadoBrasil#Violência #MulheresnaDireção Por  Cristiane C...

Crítica | A Vida Secreta de Meus Três Homens

 



#CinemaBrasileiro #CinemaPernambucano #Drama #FábulaSocial #CríticaSocial  #HistóriadoBrasil#Violência #MulheresnaDireção




Por Cristiane Costa,  Editora e Crítica de Cinema | Especialista em Comunicação e Projetos




O cinema feito em Pernambuco consolidou-se como a voz mais altiva e esteticamente arrojada do Brasil contemporâneo, destacando-se pela coragem de não silenciar as violências estruturais que ainda ressoam no país. Essa cinematografia entende que a história não pode ser apagada, mas deve ser recontada para que o passado deixe de ser um trauma oculto e passe a ser um território de enfrentamento. É nesse território que Letícia Simões insere sua obra, dialogando diretamente com essa escola de "filmar a ferida", bebendo da fonte de cineastas como Kleber Mendonça Filho, que em obras como O Som ao Redor já demonstrava como os fantasmas da nossa formação estão encrustados nas paredes de nossas casas.



A Vida Secreta de Meus Três Homens, dirigido por Letícia Simões, é uma investigação sensorial que utiliza o arquivo familiar para escavar as fundações violentas do Brasil. O longa, que transita entre o documentário e a fabulação, apresenta-se como uma peça fundamental para compreender o presente, não através de grandes eventos oficiais, mas pelas rachaduras na intimidade de três figuras masculinas: o avô, o pai e o tio da cineasta. Essa investigação se materializa na imersão da memória, evitando o maniqueísmo barato e propondo um mergulho na maturidade de uma direção que entende que a história de um país é, antes de tudo, a soma de seus silêncios domésticos e traumas hereditários.






Diretora Letícia Simões. Divulgação.



Essa imersão utiliza a imagem como dispositivo híbrido e essencial, funcionando como registro que resgata tanto o afeto quanto o apagamento. Ao interrogar fotografias e fragmentos de arquivos, o filme estabelece que a imagem é o território onde a história sobrevive à violência do esquecimento. Entretanto, essa escolha narrativa não busca o confronto direto ou a reprodução do ódio; pelo contrário, a decupagem nos convida a observar que a violência histórica não é um agente externo, mas algo que reside dentro da esfera familiar. É um exercício de transparência corajoso, onde a diretora não oculta as manchas de sua própria linhagem, mas as expõe para demonstrar como o segredo familiar é o primeiro estágio da amnésia coletiva de uma nação.








Para conduzir esse mergulho, a presença da narradora Nash Laila atua como uma ponte de dupla face, unindo o propósito coletivo à consciência individual. Ela exerce o papel de viabilizar a história de cada personagem, enquanto nos força a refletir sobre a nossa própria responsabilidade histórica. Ao lado dessa voz, o elenco masculino dá corpo à investigação de forma visceral: Guga Patriota interpreta o avô Arnaud, o adolescente envolvido com justiceiros; Giordano Castro encarna Fernando, o pai delator e colaborador da ditadura em sua vida itinerante; e Murilo Sampaio entrega uma performance sensível como Sebastião, o fotógrafo negro, gay e periférico.



Entre todos, é em Sebastião que o filme encontra sua dimensão mais pungente. Ao ganhar uma câmera, ele revela um potencial diferenciado, mas o longa deixa claro que a própria violência estrutural não o deixou em paz, espelhando a realidade de inúmeras pessoas colocadas à margem da pirâmide social no Brasil.









Na experiência com esse híbrido peculiar, contudo, o engajamento não é imediato, justamente por se recusar a entregar a violência de forma mastigada ou catártica. O filme exige do público uma postura de arqueólogo, acompanhando escolhas narrativas que tratam fantasmas como presenças que se recusam a dormir. A naturalidade com que Letícia Simões conduz a trama é, em si, uma escolha radical: ao não reproduzir o ódio que está no cerne da violência, ela permite que o espectador processe o desconforto de uma forma mais intelectual do que puramente visceral. Não se trata de despertar polos emocionais extremos, mas de oferecer um espelho honesto para a formação do caráter masculino brasileiro.




Essa recusa em simplificar culmina em um desfecho que consolida o longa como um estudo sobre a proximidade da barbárie, revelando que a violência pode habitar o rosto das pessoas que amamos. Ao responder à pergunta "Como chegamos ao Brasil de hoje?", o filme aponta para um cotidiano onde o horror é itinerante e doméstico, construído à custa de vidas como a de Sebastião. O desfecho gera angústia, mas sela o filme como um manifesto: reconhecer esses familiares é a primeira ruptura ética necessária para libertar a nós mesmos. Ao encarar esses fantasmas, que são pessoas comuns atravessadas pela violência humana e institucional, o longa se posiciona contra o silêncio, lembrando que em um país de retrocessos, a violência permanece à espreita dia após dia.








Imagens Embaúba Filmes: divulgação

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