terça-feira, 29 de outubro de 2013

Mostra 2013 : El Crítico (2013)




O Cinema Argentino é a clara expressão de um Cinema que consegue ser original de uma forma bem singular, além de levar em si um humor muito próprio que sabe entreter com um toque de sarcasmo. Não a toa ele se tornou um dos Cinemas mais apreciados no Brasil. O humor Argentino nunca é gratuito e serve para refletir sobre um contexto ou um comportamento, contribuindo muito para um entretenimento inteligente. Exemplo disso é o Crítico, primeiro longa metragem de Hernán Guerschuny, um dos filmes imperdíveis para arrancar boas risadas da plateia na Mostra.




A narrativa é muito bem construída em um contexto metalinguístico, tanto sob a perspectiva da história e construção dos planos como do desenvolvimento do personagem e da transformação do protagonista: Téllez (Rafael Spregelburd) é um renomado crítico de Cinema, que odeia as comédias românticas. O bem humorado roteiro enfatiza em variadas cenas que, além de Téllez ter aversão à esse gênero, ele é um homem  de personalidade  austera, um racional crítico da vida que opina negativamente além do Cinema,  ou seja, faz o papel natural de "dono da verdade",  com uma leve e natural arrogância na argumentação que, infelizmente, é um comportamento de muitos críticos. Com esse jeito de ser,  ele não se abre o suficiente para as relações afetivas e para a sensibilidade. Ao ter problemas financeiros, é obrigada a fazer coisas que não gosta como se arriscar a escrever um roteiro comercial, depender de familiares e da espera pelo aluguel de um apartamento. O interesse por um novo imóvel será o ponto de convergência entre ele e um romance, de acaso romântico que mudará sua forma de ver o amor, assim como ocorre nas comédias românticas.




Mesmo com esses atributos, Téllez é um sujeito divertido e muito bem interpretado pelo ótimo Rafael, que consegue dar verossimilhança aos clichês de um crítico, inclusive ao carregar a clássica mochila nas costas, ter uma aparência nada vaidosa, ser desajeitado com as mulheres e dar cotação mínima a filmes que não lhe agradam. Tudo isso contribui para as risadas, mas a  grande sacada do roteiro é que o crítico se apaixona pela bela Sofia (Dolores Fonzi), uma cleptomaníaca , o oposto dele. Ao se apaixonar, ele vive uma comédia romântica na pele e, como um gênero em busca de vingança, ele provará de emoções e dilemas que criticava antes. Essa ideia é muito original para uma ficção e, na cinematografia Argentina, ficou com um saboroso gosto de bom Cinema que é capaz de se comunicar com o público. Traz à memória da plateia cenas nostálgicas de filmes românticos e cria uma história de paixão entre duas pessoas bem diferentes, mas também quebra a austeridade de uma crítica que precisa ser sensível até aos gêneros considerados menores por boa parte deles. É um filme imperdível na forma como Hernán conseguiu usar os padrões da comédia romântica e brincar com eles de uma forma leve e que leva à reflexão de  que, não importa ter o conhecimento de  n teorias de Cinema e cinematografias, no final das contas, Cinema é apaixonar-se por Cinema.






 

sábado, 15 de junho de 2013

Especial Namorados no MaDame Romance: O Melhor Amigo da Noiva (Made of Honor ) - 2008

Especial Namorados

por

MaDame Romance

O Cinema e o Amor, juntos para sempre







O melhor amigo da noiva é uma comédia muito cativante e uma das mais adoráveis do gênero. Muito de sua irresistibilidade é dada pelo casal de amigos, Tom e Hannah, interpretados respectivamente por Patrick Dempsey e Michelle Monaghan em perfeita química. A história é bem verossímil com o que acontece em algumas histórias de amor, pois evoca o afeto desses dois amigos que nunca namoraram mas já se amavam.


Tom conheceu Hannah na universidade e se tornaram muito ligados no transcorrer dos anos. Ambos fazem confidencias um ao outro, conhecem os gostos e comportamentos. Tudo gira em torno de uma bonita amizade e nada mais. Ele continua colecionando várias mulheres e é o tipo de homem que não se envolve emocionalmente com nenhuma delas.   Após um período separados, devido a uma viagem de Hannah, Tom se dá conta de que sente a falta dela, porém quando ela retorna, é tarde demais para qualquer declaração amorosa. Surpresas à vista que tiram a paz de Tom.





O roteiro é praticamente o próprio título do longa, logo cabe a cada expectador descobri-lo e se divertir com  as peripécias de Tom, o melhor amigo da noiva. Vê-lo como a "madrinha" da noiva é hilário pois não é comum um homem ser selecionado para apoiar  a noiva nos preparativos de um casamento. Momentos românticos  não faltam. Revelações sentimentais arrancam os suspiros da mulherada que ainda acredita que o Amor pode transformar um homem mulherengo. Patrick está charmoso e muito  bem nesse personagem, retomando seu lado cômico na comédia, um gênero que lhe foi muito comum nos anos 80 com filmes como Namorada de aluguel, Garoto de programa e Namorados por acaso. Michelle é muito meiga e dá um peso carismático, o que facilita a empatia do público com sua personagem. Sua atuação é  compatível a amigas que permanecem amigas de um homem sem exigir nada em troca. O longa também traz belas imagens da Escócia    que dão um toque mais cultural, além de ter um dos melhores beijos das comédias modernas.





O mais imperdível do longa é a oportunidade de perceber que um verdadeiro amor  começa com uma grande amizade. Muitas vezes o amor pode estar na frente do nariz e ninguém se dá conta, afinal, a vida é assim, cheia de mistérios  e incertezas. Nem sempre amigos se apaixonam porém, quando isso ocorre, nem sempre ambos declaram o amor que sentem um pelo outro, seja por insegurança, seja por medo de estragar a amizade, entre outros. Não há pecado em se arriscar a transformar um amigo em amado(a), contato que ambos apostem na relação e estejam mutuamente apaixonados. 


Ficha técnica no Imdb

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Especial Namorados no MaDame Romance: Minhas adoráveis ex-namoradas (2009)

Especial Namorados

por

MaDame Romance

O Cinema e o Amor, juntos para sempre





Aquela história que conta que o homem galinha é capaz de se apaixonar (e talvez até já tenha amado verdadeiramente uma mulher) é o bem da verdade em Minhas adoráveis ex-namoradas, comédia romântica dirigida por  Mark Waters,  com  os bonitões Matthew McConaughey e Jennifer Garner como Connor Mead e Jenny Perotti, dois amigos de infância que namoraram na fase adulta e romperam o relacionamento. Ao se encontrarem nos preparativos de casamento do irmão de Connor, Paul (Breckin Meyer), as velhas lembranças do passado despertam. Connor se envolve em uma situação inusitada na qual vê fantasmas e inicia uma jornada de revisitação ao seu passado amoroso no qual ele percebe como se transformou em um mulherengo insensível.

O argumento do filme é divertido. É uma boa lição para um homem que, por machismo, impediu a propria felicidade de viver intensamente um verdadeiro amor.  Connor é um fotógrafo famoso e sedutor, daqueles que fotograva lindas mulheres e mistura trabalho com sexo. Ele tem uma extensa lista de mulheres com os quais mantém relacionamento fugazes e sexualmente casuais. Ao encontrar  o fantasma da sua primeira transa, Alisson (Emma Stone), ela o guiará ao passado e mostrará a influência que o tio dele, Wayne (Michael Douglas) teve em seu perfil Don Juan, as decepções amorosas, as fugas afetivas de não encarar o amor como um caminho e uma realidade. Nesse contexto, Connor revisita seu namoro com Jenny e muitas revelações acontecem. 





O roteiro poderia ter colocado fantasmas de outras namoradas que efetivamente fizeram parte do currículo amoroso dele, ressaltando mais o perfil de mulherengo de Connor e os desastres sentimentais que ele causou. As  namoradas aparecem mais com uma função figurante do que propriamente coadjuvante.   Ele se detém a incluir  a fantasminha Emma Stone, que está irreconhecível pois conseguiram  transformá-la em uma adolescente feia e engraçada, além de Michael Douglas, voltando do além com a missão de consertar o sobrinho e remir suas péssimas influências machistas. Uma outra fantasma é a secretária de Connor, interpretada por Noureen DeWulf que, por sinal, está viva mas vira fantasma, fato que evidencia um furo e/ ou esquisitice do roteiro.





No geral, o filme é um ligeiro entretenimento e atende no quesito romantismo.   Matthew e Jennifer estão plasticamente tão bonitos que, ainda que vaidosos, ou foram muito maquiados ou fizeram aplicação de botox, além de terem juntos uma química agradável, o que faz com que o público torça para que eles se acertem. Também é interessante, para uma comédia romântica, colocar o foco no homem de forma a levá-lo a uma transformação mais emotiva. Definitivamente, a ficha de Connor caí assim como deveria cair para vários homens. Após o desfecho do longa, fica a reflexão tanto para mulheres quanto para homens de que quantas vezes perdemos a chance de desfrutar o amor por simplesmente pegar uma rota de fuga.


Ficha técnica no Imdb



domingo, 9 de junho de 2013

Especial Namorados no MaDame Romance: Do que as mulheres Gostam (2000)


Especial Namorados
por

MaDame Romance
O Cinema e o Amor, juntos para sempre





Nancy Meyers deixou saudades e ótimas comédias românticas que expressam seu entendimento sobre a alma feminina e o complexo relaciona mento afetivo com os homens. Seus filmes tem frescor e muito humor, o que os caracteriza como bem otimistas como deve ser a espera do amor, além de abordar também protagonistas mais maduras e às voltas com relações amorosas. Seus últimos filmes como Simplesmente Complicado, o amor não tira férias e Alguém tem que ceder são inesquecíveis dentro do gênero, com destaque para Do que as mulheres gostam (What women Want), que traz Mel Gibson em atuação hilária, ótimas atrizes como Helen Hunt e Marisa Tomei e um roteiro peculiar e engraçado no qual  um homem é capaz de ouvir os pensamentos das mulheres.

Nick Marshall (Mel Gibson) é um executivo bem sucedido da publicidade, mulherengo e chauvinista. Ele não leva as mulheres à sério e faz o tipo de que nunca se apaixonou de verdade e nem exerceu seu papel de pai. O destino lhe prega uma peça: ele não é promovido à um cargo de diretoria e entra em seu lugar, exatamente uma mulher, Darcy Maguire (Helen Hunt). Com o desafio de criar uma proposta publicitária que entenda e conquiste o sexo feminino, certo dia, ele sofre um acidente e passa a ouvir os pensamentos de todas as mulheres, fato que cria divertidas e românticas situações e uma oportunidade dele desenvolver sua sensibilidade e mudar seu comportamento machista.







Nancy Meyers nos brinda com uma ótima comédia romântica, que fala sobre a transformação de um homem em compreender o que as mulheres pensam e assumir as fragilidades dele. Ainda que a mulher é muito mais sedutora ao ser misteriosa, a ideia inusitada do roteiro é excelente pela empatia desenvolvida no sexo masculino. A mulher não é tão óbvia como muitos homens pensam e, ainda que o filme seja cômico, o bem da verdade é que Nancy aborda questões relevantes de forma sutil como: a ausência do pai, a competição profissional entre homens e mulheres, a educação machista etc. Por outro lado, com senso de humor, o filme ressalta que as mulheres precisam de amor, mas também acham os homens babacas e frágeis em muitos momentos, como quando eles não transam de forma a dar prazer para a mulher, não sabem ouvi-las e dar conselhos, as desprezam ou se acham superiores e não jogam limpo.





Muito do exito da comédia é Mel Gibson e seu talento cômico. No início, Nick é um homem que está acostumado a fazer publicidade com apelo mais masculino como cigarros e bebidas, depois ele tem o desafio de vender publicidade para mulheres. Esse traço do roteiro dá mais valor ao filme e gera uma demanda desafiadora para o personagem.  Não há como perder a oportunidade de vê-lo se arrumando como uma mulher e sofrendo a dor da depilação. É uma das melhores atuações do ator, que deixa as armas e explosões de lado e assume outro caráter, o mais sensível e sob uma perspectiva mais feminina e de harmonia nos relacionamentos. Para um personagem que ouve as mulheres e passa de chauvinista a um homem mais compreensivo com o sexo oposto, ele está fantástico em variadas situações, misturando bem as facetas sedutor maduro, apaixonado, pai e executivo. A presença de Helen Hunt e Marisa Tomei dá um toque especial e de qualidade à película e mantém a química entre elas e Mel. O filme é imperdível e ainda garante  trilha de Frank Sinatra!






Ficha técnica no IMDB

sábado, 8 de junho de 2013

Rapidinhas no MaDame: Se beber não case III (The Hangover III) - 2013

Rapidinhas no MaDame:
Porque o que importa é o prazer da Cinefilia





Sobre a história: Os amigos Alan (Zach Galifianakis), Phil (Bradley Cooper), Stu (Ed Helms) e Doug (Justin Bartha), conhecido como o bando de lobos, entram em uma hilária confusão, sob a mira do criminoso Marshall (John Goodman) que deseja seu ouro de volta, roubado pelo Mr Chow (Ken Jeong). Tudo começa quando a família de Alan decide interná-lo em uma clínica psiquiátrica para ajudar Alan em uma mudança comportamental. Os amigos apoiam a decisão e se comprometem a acompanhar e permanecer com ele, porém no meio do caminho, Marshall sequestra Doug e chantageia o grupo a encontrar Mr. Chow, que ainda mantém contato com Alan.

Opinião Geral sobre o filme:  Esse é o último filme da franquia . Fecha com dignidade a divertida e louca jornada desses quatro amigos. Diferente do filme 2, que foi muito ruim, cheio de piadas forçadas e grosseiras e com um ritmo abaixo da média, a parte 3 tem o frescor e o estado de espírito do filme 1. Ele se supera ao honrar sua relação  de respeito pelo espectador. O grupo de amigos estão juntos para o que der e vier e ressaltam que, muito do sucesso de Se beber não case, é exatamente a amizade masculina que os une, cheia de diretas e excentricidades. Sua amizade é espontânea no trato diário, sem melindres e essa praticidade interpessoal na narrativa faz toda a diferença.  O roteiro  tem um ótimo equilíbrio com marcas muito autobiográficas da franquia na narrativa: inclui traços da confusão que eles entram e recupera um tom nostálgico dos filmes anteriores. O expectador vê a volta da criança do primeiro filme, agora mais crescidinha, o sequestro de Doug, o reencontro com Jade (Heather Graham), a relação de Mr. Chow com o grupo, o retorno à Las Vegas.  Também, conta com boas cenas de ação, o que acaba por agregar valor ao roteiro. Com destaque para a atuação de Zach Galifianakis, cujo comportamento maluco cria situações ou expressões que dão mais dinamismo cômico à narrativa, o filme ainda conta com a participação de uma humorista à altura: Melissa McCarthy, no papel de  Cassie, uma vendedora de loja. O filme é excelente diversão para o adeus a esses caras muito legais. Recomendado!


O desprazer: Poderia contar com situações mais insanas e engraçadas como a do primeiro filme. Para não avacalhar de vez como foi o filme 2, o diretor manteve certo controle narrativo sobre a produção, o que não chega a prejudicá-lo. 


Por que vale a rapidinha? O filme não faz feio e dá dignidade ao encerramento da franquia. Como comédia, Se beber não case tem personalidade e partiu de uma ideia que mistura a leal amizade masculina com os efeitos  colaterais  narrativos de hilárias bebedeiras e ressaca. Sem dúvidas, o bando de lobos deixará saudades de tomar mais uma!



Ficha técnica no ImdB

domingo, 2 de junho de 2013

Rapidinhas no MaDame: Velozes e Furiosos 6 (Fast and Furious 6) - 2012

Rapidinhas no MaDame:
Porque o que importa é o prazer da Cinefilia




Sobre a história: Dom (Vin Diesel), Brian (Paul Walker) e seus amigos estão de volta às perseguições e explosões com seus carros super máquinas para manter a família unida. Para ajudar Hobbs (Dwayne Johnson) na captura de Shaw (Luke Evans), o líder de uma perigosa quadrilha internacional,  eles terão o perdão em troca e a chance de trazer de volta Letty (Michelle Rodriguez), que está viva e em campo inimigo. 

Opinião Geral sobre o filme:  Velozes e Furiosos é uma franquia que deu certo, sobrevive com seu charme de filme de ação e aderente ao entretenimento de um bom blockbuster: mulheres e homens bonitos, carros turbinados e velozes, trilha sonora bombástica, enriquecimento fácil, ligeiro humor, romance, a ideia de amizade, amor e família e muitos fãs.  Todas essas virtudes estão no filme número 6, o que garante uma ótima sessão pipoca. O roteiro é bem estruturado de forma a criar um dinamismo na busca da integridade da família com a ação da narrativa e a possibilidade de curtir a vida plenamente após roubarem 100 milhões de dólares. Letty é a peça que faltava. O bando de Dom vai atrás dela, que é a queridinha de Shawn, fato que se torna um incentivo e um desafio. Despertam-se lembranças de Dom sobre o romance com Letty e os sentimentos de culpa e perdão  de Brian. Mesmo diante de ótimas e inverossímeis cenas de ação, o público se diverte e quer mais fúria  e velocidade nas manobras  e essa família de volta.

O desprazer: Provavelmente devido à classificação do filme para atingir   o público adolescente, faltaram cenas de sexo para subir o termômetro entre Dom e Letty.  Além disso, o  humor  foi um pouco mais forçado para dar a ideia de piadas mais 'non sense', portanto,  concentre-se na ação e nos herois para melhores prazeres.


Por que vale a rapidinha? Porque a família Velozes e Furiosos é unida e tem estilo. Independente do roteiro, dos carros, da grana, das porradas, a união é o que permeia a franquia e como essa família foi construída desde o primeiro filme.

Ficha técnica no ImdB

sábado, 1 de junho de 2013

MaDame Series Opina: Girls - 1ª Temporada

MaDame Series Opina
O momento fora de série
sobre Seriados de TV
por MaDame Lumière








Sobre Girls - 1ª Temporada Girls, TV show  da HBO criado em 2012, é produzido e coestrelado por Lena Dunham. A série é uma comédia dramática que conta os altos e baixos de quatro amigas na faixa dos 20 e poucos anos que vivem em Nova York: Hannah (Lena), Marnie ( Allison Williams), Jessa (Jemima Kirke) e Shoshanna (Zosia Mamet), que também dividem as cenas com um excêntrico elenco masculino. Cada uma delas tem um estilo e problemáticas que mimetizam  as variadas situações vivenciadas por mulheres na transição para a vida adulta.

Opinião Geral:  Girls é uma grata surpresa para uma série de protagonistas femininas. Ao contrário de Sex and the city, mais fashionista e com uma abordagem mais 'mulherzinha' e idealizada, Girls está em um patamar mais dramédia e, portanto, é mais crua em seu tom cômico e traz um novo frescor. É hilária e tem um humor sarcástico que a aproxima de uma série mais realista e honesta com a mulher.  A autenticidade é o seu diferencial, ainda que rir do drama dói. Não importa a idade que a mulher tenha, certamente ela se identificará com cada drama que envolve relacionamentos, autoconhecimento e autoestima, carreira e mercado de trabalho. A série tem um humor negro no qual é possível rir da própria tragedia e de quão esquisita e neurótica é a vida moderna feita por cada um. Com roteiros curtos e eficazes, Lena transmite transmite mensagens realistas de que uma mulher continua uma garota em diferentes momentos da sua jornada .


Prós:  A atuação  dramática cômica de Lena Dunham, a honestidade e realismo da narrativa e  os roteiros enxutos que resumem e transmitem a dolorosa e hilária complexidade do amadurecimento de uma mulher.



Contras:   Embora o elenco central feminino seja bom e diverso, os personagens de Marnie, Jessa e Shoshanna não tem o mesmo nível de atuação e timing cômico como o de Lena, o que deixa visível a diferença entre elas. Certamente, sem Lena, Girls não teria o mesmo efeito.


Cena(s) imperdível(is):  Todas as cenas de sexo entre Hannah e Adam, quando Hannah descobre que o ex-namorado é  gay, quando Hannah perde os privilégios financeiros dos pais, quando Charlie revela o diário de Hannah à Marnie.


Por que você deve assistí-la?  Porque é honesta com o expectador e porque a vida de toda mulher é uma dramédia.



Até o próximo MaDame Series Opina
com outras grandes séries


Avaliação MaDame Lumière 

sábado, 18 de maio de 2013

Festival Varilux de Cinema Francês: Aconteceu em Saint Tropez ( Des Gens qui s'embrassent) - 2013





 Para quem aprecia  um agradável e despretensioso Cinema Francês , a comédia é um dos gêneros mais bem vindos e marcantes das produções realizadas pela França e são valorizadas pela audiência que as aprecia tanto a ponto de se tornarem fenômenos de audiência. Leves e bem humoradas, de uns anos para cá, filmes como Potiche, E agora , onde vamos? E Os intocáveis misturam questões mais sérias como a independência da mulher, a religião e a deficiência física e unem o humor como uma das matérias catalisadoras para rir da própria seriedade e se emocionar com as variadas situações que vão da amizade ao amor.


Nessa temporada de  Festival Varilux de Cinema, um dos filmes mais aguardados, devido às críticas em 2012, é Aconteceu em Saint Tropez. Sob a batuta da cineasta Danièle Thompson, conhecida por Rainha Margot e por ligeiras comédias de costumes, a diretora usa a seu favor sua veia genética de cineasta,  sua experiência como roteirista  e as influências judaicas para realizar uma divertida comédia  com abordagem familiar, que mistura romance e uma reflexão sobre o amor e a tolerância.





A história conta as desavenças de 2 irmãos de família origem judia, mas que levam a vida de formas bem diferentes.  Para viver estes dois irmãos, Danièle tem no elenco a presença de dois atores bem comediantes, o que facilitou a produção. Zef (Eric Elmosnino) é um musicista judeu, mais tradicional, que se torna viúvo após a esposa ser atropelada. Roni (Kad Merad) é um empresário hedonista do ramo de luxo. Às vésperas do casamento  da filha de Roni, a esposa de  Zef falece, situação dramática que, em um roteiro francês se transforma em motivo de riso. Para apimentar mais ainda os efeitos piadistas, as 2 primas, as belas Lou de Laâge e Clara Ponsot tem 1 amor em comum:  Sam , interpretado pelo também comediante Max Boublil. A voluptuosa Monica Bellucci faz o papel de Giovanna,  esposa de Roni e de origem católica. Ela é a personificação da mulher dona de casa  vaidosa e fútil mas de bom coração. O grande destaque cômico é Aron (Ivry Gitlis), o pai dos irmãos, já senil, que garante tiradas muito engraçadas. Também virá dele as lembranças dos filhos e a sabedoria sobre a união.





Apesar das diferenças entre os familiares, ora em irônico e suave pé de guerra, ora em demonstrações afetivas de que somente o amor e a tolerância os mantêm unidos, roteiro é desenvolvido com uma direção bem descontraída, em planos cotidianos ou advindos de momentos coletivos em família: : um jantar de aniversário, uma festa no barco, um casamento, um enterro etc. Estas situações  também  servem de contexto claro para marcar as diferenças de estilo de vida entre os irmãos. As delícias do filme são que, ainda que seja uma comédia mais americanizada com direito a momentos de comédia romântica, ele é um filme para emocionar e ressaltar que todos somos diferentes uns dos outros e erramos como família, mas ainda somos uma família que precisa ser tolerada para ser uma família de verdade. Além dos ótimos atores como Eric, Kad e Ivry, o texto piadista sem ser tão medíocre faz com que o público se torne íntimo dessa família e ria das situações que, por padrão, deveriam arrancar tensas e melancólicas expressões. 




Além da abordagem família, Aconteceu em Saint Tropez é uma comédia sobre o amor, aquele que perdemos como o da esposa que falece; aquele que ganhamos ainda que tentemos escapar dele; aquele que precisamos manter para seguir adiante. Sem dúvidas, é um filme sobre o amor e a tolerância e o seu desfecho reforça tal condição. Alguns personagens são utilizados em momentos certeiros para selar a necessidade  de união:  ainda que os irmãos Se alfinetem, as primas se mantêm unidas. Ainda que o velho patriarca esteja caducando, dele vem a sábia e lúcida paternidade. Daniele cria formas de unir a família e, automaticamente, o público é inserido nos costumes, ora hedônicos, ora religiosos. Com sua origem judia, a cineasta soube brincar com as diferenças dos laços familiares sem ofender a religião.





Aconteceu em Saint Tropez só repete a agradabilidade proporcionada por uma ligeira porém reflexiva comédia de costumes Francesa e, portanto vale o ingresso. O fato de todas as famílias terem seus desentendimentos e alternarem momentos de amor e raiva transforma o longa em um produto eficaz já que o público se identifica com ele. Também é interessante perceber que, embora Daniele poderia ter polemizado mais as rixas familiares e incluir mais humor negro no roteiro, a comédia cumpre um papel mais comercial, sendo facilmente digerido por pessoas que não apreciam o cinema Europeu em comparação ao cinema Americano, mas que podem começar a tomar mais familiaridade com  a forma francesa de realizar comédias, que costuma render boas bilheterias com muito mérito.

sábado, 11 de maio de 2013

Festival Varilux de Cinema Francês: Prenda-me (Arrêtez moi) - 2012






Prenda-me, uma produção França / Luxemburgo dirigida  por Jean-Paul Lilienfeld, retrata a violência doméstica contra mulheres. Com Sophie Marceau no papel de A Culpada e Marc Barbé como o marido agressor Jimmy, o longa enfoca uma forma diferente de retratar a mulher que, de tanto apanhar do esposo em um terrível terrror doméstico, principalmente psicológico, em um momento de desespero e dor , de repente, o mata. Acaba carregando o segredo do homicídio e a culpa por quase 10 anos. Às vésperas do período máximo para reabrir o caso, ela aparece no plantão policial de uma delegacia, decide confessar o crime à delegada Pontoise e pede para ser presa. Como desafio, encontra a resistência da policial em prendê-la.


O roteiro trabalha em um espaço temporal de uma noite na qual o diálogo entre A Culpada e a policial é desenvolvido. A mulher agredida reconta todos os seus traumas e violências sofridas que surgem como flashbacks de memórias. O público acompanha o tormento de seu casamento. À medida que Pontoise ouve o relato da Culpada, cada vez mais a incentiva a não se entregar à polícia, inclusive se recusa a tomar o depoimento e reabrir o caso.








Essa lógica estranha de uma policial que não dá andamento à prisão de uma criminosa é interessante porque mimetiza o real da opinião de muitas pessoas a respeito da violência doméstica.  Por que prender a vítima e homicida do marido, namorado, noivo, irmão , pai ou quem quer que seja agressor, se ele é um covarde batedor de mulheres? Provavelmente uma boa parte do público, principalmente o feminino, diria a ela: "Culpada, vá embora para casa e deixe seu marido apodrecer no inferno.", porém temos que analisar que , à medida que o diálogo evolui, A Culpada realmente é a culpada. Ela sente culpa por mais que o marido dela merecesse ser penalizado. Ela sente culpa pelo filho que já cresceu com personalidade rebelde , agressiva e de torturador psicológico como a do pai mas, acima de tudo, ela é uma viúva e mãe. Se fizermos um paralelo com a vida real, os sentimentos que afloram da A Culpada, que não tem um nome mas personifica a maioria das mulheres que apanham de seus maridos, são comuns. Muitas agredidas sentem arrependimento  e culpa ao denunciar seus agressores familiares, principalmente aqueles com quem tem um relacionamento afetivo.







Um recurso eficaz e muito Francês no roteiro  é o humor sarcástico. Aqui, ele é bem ponderado no diálogo e até usado em situações absurdas e sem sentido entre ambas as atrizes, no entanto, ele é bom porque ele alivia a carga obscura da violência, o peso do drama e estende o diálogo o tornando mais suportável. Se não houvesse esse humor, o filme seria um porre! Ainda que esse recurso pareça estranho em um filme que retrata a violência doméstica, ele é usado inteligentemente quando se deseja dizer uma verdade que moralmente não é politicamente correta, como por exemplo: quando a policial sugere que o marido tinha mesmo que morrer ou que ela vai dar uma lição no filho imaturo da Culpada. 


O humor é  muito aliviante após as cenas na qual a mulher é agredida pelo marido e que são bem mais viscerais. De uma maneira bem diferenciada e bem proposital, o diretor optou por não mostrar o rosto de Sophie Marceau durante boa parte das cenas com o marido, além de colocar a câmera a partir dela, que foi acoplada na atriz para que as agressões fossem visíveis de maneira real. A esposa são os olhos do espectador, desta maneira, incomoda bastante ver o  ator Marc Barbé como o nervoso e covarde marido se aproximando da vítima e surrando-lhe, em especial, a cena do elevador. A câmera treme como se fosse uma câmera na mão que desestabiliza a imagem reforçando o quanto essa esposa é desestabilizada pela agressão do marido e, portanto, a escolha da direção é bem acertada ainda que, em termos imagéticos, esse tipo de filmagem cria bastante mal estar visual ao espectador.








As atuações são boas. Marc está muito bem porque mimetiza o assustador desiquilíbrio de um homem agressor. Seus olhos são raivosos como de um cão endemoniado. Seu rosto dá até nojo! Certamente, o destaque maior vai para ambas as atrizes. Sophie evoca bem o rosto da mulher culpada, amargurada e traumatizada por um passado tão infeliz como o dela: pai agressor, marido agressor, filho agressor. É como um pesadelo familiar! Ela deseja ser punida por ter sido tão punida na vida. O fato de ser uma mulher comum que não faria mal nem a uma mosca e se tornou uma assassina em uma situação limite de agressão faz com que a veracidade tome conta da tela. É possível acreditar nessa mulher destruída! Ainda que guardando os traços da beleza francesa, ela está bem transtornada, com olheiras e rosto marcado por cicatriz, o que garante credibilidade à esposa sofrida. Mais sóbria mas igualmente afetada por seu emprego burocrático de uma policial  em plantão e viciada em automedicação, Miou-Miou está ótima e dá mais leveza e sua experiência ao drama. O roteiro não lhe ajuda pois ela bem que merecia um papel melhor, mas ela é dotada de uma atuação bem humorada da forma mais negra possível. Atuar assim era necessário pois ela é a policial que resiste a prender uma mulher que matou o marido agressor. Ela representa uma lei que não funciona da forma que está, na qual muitos agressores não são condenados e nem presos. Devido ao não funcionamento de uma lei que deveria proteger as mulheres, ela se torna a própria anti-lei durante o seu plantão, aquela que diz: seu marido foi um canalha e merecia morrer! Com o humor, o diretor alivia o que seria uma heresia para a lei atual e opressora dos homens.

O desfecho do filme é compreensível, mas conservador e, portanto, só reforçou a dúvida do por quê o público teve que acompanhar todo o diálogo para ter um final tão acomodado. Com o tema da violência doméstica em voga e dada a seriedade dessa trágica realidade, o cineasta poderia ter optado por outras escolhas, mais dramáticas, viscerais e mais provocativas contra o status quo de uma sociedade machista que alimenta esse mal estar contra as mulheres.





domingo, 5 de maio de 2013

Festival Varilux de Cinema Francês 2013: O homem que ri (L'homme qui rit) - 2012




Um dos grandes expoentes da Literatura Francesa e de renome mundial, Victor Hugo e suas talentosas obras  que misturam o grotesco ao belo e mostram os males da aristocracia e da monarquia sobre o povo, são um belo e cheio prato para as adaptações para o Cinema.  Normalmente emocionam por misturar o monstruoso e o  sublime com vieses político e romântico. Além do recente os Misérables de Tom Hooper, Victor Hugo está nas telinhas novamente. Desta vez, o cineasta Jean-Pierre Améris decide revisitar a obra O homem que ri, que em 1928 foi também dirigida por Paul Leni, estreando  Conraid Veigt no papel principal de Gwynplaine, homem que tem uma cicatriz de um constante riso no rosto e que o transforma em motivo de riso e de horror.  Esse personagem serviu de inspiração para compor o Coringa de Batman.





O romance é considerado uma clássica alegoria política do homem comum,  grotesco, miserável e saltimbanco. Gwynplaine é monstruoso aos olhos do povo, da monarquia e da aristocracia, mas faz o povo ri da própria fatalidade e da pobreza e é ignorado pela Corte, ainda que tenha uma origem nobre, riqueza e direito à palavra em um Parlamento. Sua aberração o torna um dos mais belos e trágicos personagens de Victor Hugo porque a história em si é emocionante, misturando a realidade e o sonho, o grotesco e o sublime, a tristeza e o amor. No século XVII, Gwynplaine (Marc-André Grondin) é filho do nobre Lord Clancharlie que traiu o Rei James II. Como vingança, o monarca ordena, além da morte de seu pai, que Gwynplaine seja vendido a um grupo chamado "comprachicos" (compradores de crianças) e que tenha o rosto desfigurado. Ele é abandonado com o rosto marcado por uma cicatriz de um sorriso macabro e aterrorizante. Posteriormente, encontra Déa (Christa Théret), orfã e cega e, juntos, são acolhidos e adotados por Ursus (Gerárd Depardieu). Ursus é um modesto e itinerante saltimbanco, um tanto excêntrico e engraçado já que nunca derramou uma lágrima, mas é capaz de ter a sensível e bondosa atitude de criar duas crianças abandonadas.







Na fase mais adulta, Gwynplaine e Déa se apaixonam e se tornam a atração de um espetáculo do circo "O homem que ri": Ele, a evocação do monstro grotesco. Ela, a metáfora da virginal pureza. As apresentações cativam a audiência, não somente pela comédia, mas pelo amor. O jovem desfigurado desperta a curiosidade e o riso na plateia e o desejo da voluptuosa e perigosa duquesa Josiane (Emmanuelle  Seigner). Ao descobrir sua real origem, desdobramentos trágicos ocorrem a ponto de evidenciar ainda mais sua miserável vida: a de um jovem destinado a ter o rosto marcado, a ser motivo de piada e riso e que só encontrou o amor verdadeiro nos braços de sua humilde família composta por Ursus e Déa. Em uma das cenas mais retóricas  do filme, em um discurso político no Parlamento, fica claro que a aristocracia Francesa é muito mais monstruosa que o rosto de Gwynplaine. A monarquia e a nobreza são o verdadeiro grotesco!






O encanto de O homem que ri é a beleza do amor entre Gwynplaine e Déa e o  protetor afeto do pai Ursus, juntamente com a composição do filme, que mistura o sublime e o grotesco, uma direção de arte mais pautada nos antigos circos itinerantes Franceses, que demonstram a pobreza do povo e o reflexo do rir da própria desgraça que advém da própria Arte Circense. Ao assistí-lo, é mais possível lembrar-se da cinematografia de Tim Burton com um pouco de Terry Gilliam do que do Expressionismo do antecessor longa de Paul Leni.  Os efeitos visuais do longa são leves e ressaltam mais o figurino e a dicotomia nobreza x pobreza. Diante da tela, a atmosfera de um sonho advindo de uma fábula literária é o que enche os olhos e emociona. Contemplar a pureza da jovem cega Déa que não enxerga a feiura de Gwynplaine e que o ama profundamente é um dos motivos que transforma esse filme em uma viagem afetiva em meio à tragédia de dois orfãos. Já não se vêem como irmãos, mas como homem e mulher a desabrochar o amor, um sentimento que supera o dramático meio no qual vivem,   tomado pela vergonhosa e massacrante ambição de uma monarquia e nobreza que deseja ver o povo a milhas de distância e como ratos de esgotos. Assim, como a clássica obra de Victor Hugo, o Corcunda de Notre Dame, que enfoca o amor do grotesco Quasímodo pela preciosa Esmeralda, aqui também há um romance inspirador entre a Bela e a Fera e que cria uma conexão emotiva mais íntima com a audiência.





Sob a perspectiva mais politizada, o roteiro deixa mais a desejar em função de que não explorou de maneira mais inteligente e profunda ações que poderiam ser mais proveitosas na relação de Gwynplaine com a política, por exemplo. Não precisava ser um tratado cinematográfico para não perder muito da magia, mas o dinamismo e conteúdo das cenas poderiam criar um outro olhar mais e mais metafórico a respeito da função política do "O homem que ri". O filme só se detêm a ridicularizá-lo, ainda que necessário, e colocá-lo como um ser desgraçado que até mesmo é usado pela duquesa. Devido à estas questões, o longa perde a oportunidade de ser mais marcante. Felizmente, os atores da trupe conquistam porque formam uma família pobre e trágica pela qual é impossível não sentir compaixão, além disso Emmanuelle Seigner faz uma participação pequena, mas ardilosa o suficiente para comprovar o mau caratismo da nobreza. Ainda que esta seja uma versão mais contemporânea, o simpático Marc- André Grondin poderia ser mais convincente  na função de uma aberração. Sua atuação é mais mediana  e o roteiro não lhe ofereceu mais possibilidades de ser exposto e desafiado. Gérard Depardieu tem como benefício a sua experiência, seu lado bem humorado, carismático e de gigante bonachão, características que facilitaram sua inserção no papel. Ainda que se exilado na Bélgica e fugido dos impostos do Leão Francês,  Gérard ainda é um ator ícone do Cinema Francês. O destaque vai para Christa Théret, uma das jovens estrelas emergentes da França, que mesmo em um papel coadjuvante, demonstra o lado mais onírico e puro de uma bela virgem que ama e deseja um homem desfigurado. O fato de ela ser cega, de ter sido criada como se Gwynplaine fosse seu irmão e de ele não se sentir digno de seu amor, torna esse traço romântico do filme muito mais contido, trágico e poético. Por causa deles, esse não é um filme para rir, mas para chorar.

sábado, 4 de maio de 2013

Festival Varilux de Cinema Francês 2013: Adeus, Minha Rainha ( Les Adieux à la Reine) - 2012




Adeus, Minha Rainha, drama histórico Francês dirigido sob a batuta de Benoît Jacquot, traz a mise-en-scene 3 belas atrizes: Diane Kruger como a Rainha Maria Antonieta, Léa Seydoux como a sua leal leitora Sidonie e Virginie Ledoyen como o amor da Rainha, Gabrielle de Polignac. Adaptado do romance homônimo de Chantal Thomas, a história acontece em 1789 em Versalhes e enfoca os tensos bastidores da pré-Revolução Francesa às vésperas da Tomada da Bastilha e da queda do Monarquia de Luis XVI. Muito mais do que um drama, o longa tem uma direção que abusa do suspense e da iminência de que cabeças podem rolar a qualquer momento, incluindo a de Maria Antonieta, além de oferecer ao expectador um novo olhar, o feminino, através da devota criada da Rainha, Sidonie, e dos profundos e discretos sentimentos lésbicos que a Rainha nutre pela Duquesa Gabrielle, emoções que conjuntamente influenciam o desfecho do longa, assim como provocam a curiosidade no público a respeito das relações afetivas que une estas três mulheres.







Através de Sidonie e sua absurda lealdade à Rainha é que o filme se sustenta. Ela é o ponto de vista que guia e que, ao mesmo tempo, coloca a curiosidade na mente do observador! Como em um estado de negação a qualquer custo, ela se recusa a acreditar que a Rainha está na mira dos rebeldes e está disposta  a permanecer ao lado de Maria Antonieta nem que tenha que renunciar a sua própria segurança e se colocar em uma posição cada vez mais submissa a favor dos caprichos e instabilidades da monarca.  Com a excelente atuação de Léa Seydoux com sua beleza  e frescor juvenis, suas olheiras marcantes que ressaltam sua servidão e seu olhar dissimulado e misterioso, a protagonista Sidonie é o grande acerto deste filme. Ao trazer uma leve temática homossexual através do amor e desejo de Maria Antonieta por Gabrielle, a devoção de Sidonie pode ser considerada somente a lealdade de uma serviçal ou pode ser especulada como o potencial desejo de uma jovem pela sua Rainha. Algumas cenas do longa projetam prováveis evidências de um algo a mais nos sentimentos: Sidonie apreciava o toque da Rainha em sua pele, observava as confissões afetivas de Maria Antonieta à Gabrielle, contemplava o belo corpo nu da duquesa e não poupava esforços em abrir mão do orgulho e amor próprios para satisfazer a sua Rainha.  Sob esta perspectiva e, considerando a intrigante forma de atuação de Léa Seydoux, que é por si só uma atriz de olhar naturalmente misterioso, Sidonie é a atração  principal do filme.






Com uma ótima atuação de Diane Kruger, menos louca, mimada e excêntrica em comparação a outras Marias Antonietas do Cinema,  o expectador observa uma Rainha mais vulnerável por um amor lésbico. Neste ponto, Diane fez uma concentrada e elegante interpretação, mais contida no aspecto passional mas perfeitamente verossímil e convincente. O romance homossexual não é concretizado visualmente na tela, mas ele é sugerido e atiça mais a imaginação do público exatamente pelo fato de não ser concebido através do sexo, por isso estes se tornam momentos mais sedutores e de ligeira tensão. A aproximação, pele a pele, se dá mais pelo carinho de amigas como um beijo na mão, um olho no olho ou um abraço intenso. Aqui, o filme se torna mais interessante porque ele oferece à audiência o benefício de imaginar por si mesmo se Maria Antonieta teve um romance tórrido com Gabrielle e se a Rainha era homosssexual por excelência ou bissexual. Ao explorar levemente esses sentimentos da Rainha, o cineasta Benoît criou uma outra dimensão cinematográfica para Maria Antonieta que vai povoar a mente dos curiosos pela história da Monarquia Francesa e pela sexualidade de personalidades icônicas.  Como o roteiro não se propõe a criar um dinâmico foco sexual na história, é impossível não ficar com vontade de buscar o íntimo da rainha nas literaturas, assim como quem foi Sidonie e suas reais intenções de inabalável devoção.






Ao ser o filme que abriu o último Festival de Berlim, ter ótimas atrizes, primorosa direção de Arte e bonito figurino, é evidente que era esperado mais deste roteiro para compor um inesquecível drama histórico. O filme escolhe os bastidores de uma pré-revolução, que é a dimensão histórico social, mas não a explora de forma tradicional e plenamente, o que provoca um sentimento de que faltou acontecimentos catalisadores no filme. O longa somente gera o contexto e a tensão para enfocar  as personagens femininas, suas emoções e escolhas. Se por um lado, tal escolha faz com que questões mais históricas não sejam exploradas, como por exemplo, a rebeldia de uma Revolução, suas ações e desdobramentos, por outro lado, como Cinema, ele gera um olhar bem mais interessante sob o aspecto inovador: o da criada de uma Rainha e seu dedicado Amor, sem julgamentos, somente a entrega genuína. A  personagem feminina de Sidonie é bem construída para conceber esse tipo de olhar e é o fator principal que deve ser considerado para  analisar e valorizar este longa. Mesmo em sua aura de mistério, há momentos específicos  que evidenciam claramente como Sidonie , mesmo em sua aparente maturidade e força de carater, era muito leal à Rainha. Ela era tão empenhada a ponto de fazer questão de não ser reconhecida e de não acusar as reais facetas políticas e pessoais de sua Rainha, assim como estava ali tão disponível que não buscava um romance ou  um homem para satisfazê-la afetivo e sexualmente, nem desenvolver suas amizades com outras criadas e, muito menos, fugir para bem longe . É um filme que fala sobre amor, auto sacrifício e renúncia de uma criada e, portanto, merece seus méritos na compreensão das variadas dimensões do que é o Amor e como ele é capaz de nos exaltar e nos humilhar.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Festival Varilux de Cinema Francês 2013: Camile Claudel 1915 (2013)





 
O filme Camile Claudel 1915 com a mais que excelente Juliette Binoche no papel de Camile Claudel, escultora Francesa, irmã do escritor Paul Claudel e ex-amante de Rodin, é uma demonstração da reclusa decadência de uma mulher apaixonada, que foi abandonada pelo grande amor e foi internada em um longíquo hospício para ser enterrada por uma sofrida vida. O longa dirigido por Bruno Dumont é um dos destaques da programação do Festival Varilux de Cinema Francês, que estreou em 01 de Maio e percorre 40 cidades em todo o país.
 
 
A história gira em torno de Camile confinada em um hospício no Sul da França, aguardando a visita de seu irmão Paul. Preservando sua beleza frágil com um olhar distante e, em alguns momentos dócil, ela  convive com mulheres tão destruídas quanto ela. O filme não se detêm a contar a história de amor que ela viveu há mais de 20 anos com Rodin. Após uma introdução de que ela foi amante do escultor e internada pela família, o filme a retrata já no hospício, muito abatida, suja. Este início convida o público a acompanhá-la em uma prisão na qual não existe vida, ainda que ela seja respeitada pelas irmãs e outras internas e pelo diretor do local. Ali o mundo parou e só ficou na mente dela a mania de perseguição e seu ódio por Rodin. Camile expressa a dor de uma mulher que efetivamente se sente perseguida, traída e abandonada, mas também demonstra que sua loucura é visualmente muito mais lírica e psicológica que física na forma como o longa foi dirigido. O diretor consegue criar uma atmosfera bem bucólica, de um confinamento que a separa completamente do mundo externo, que tem certa poesia à medida que a coloca tão próximo ao espectador mas também muito distante da França glamourosa de grandes artistas. Ela é um ser isolado, do choro ao silêncio, passando por surtos de ameaçadora agressão e momentos de oração, ela tem uma vida a qual nenhuma mulher genial e talentosa deseja chegar.
 
 
 
 
 
Além da atmosfera de reclusão e muita solidão, o que torna Camile Claudel 1915 um filme melancólico, ele é claramente difícil de assistir por ter um roteiro muito mais contemplativo que falado. Há muito pouco diálogo e o que sustenta o interesse é obviamente a concentrada atuação de Juliette Binoche, ora deprimida e extremamente chorosa como um grito de clamor desesperado, ora sorrindo levemente com a esperança de que a tirem daquela prisão. Juliette é o filme! Sem ela, não seria possível assistí-lo e suportá-lo em 1 hora e meia de projeção, ainda que o diretor seja bom, tenha um senso de direção  realista muito Europeu que se alterna com a sublime atuação da atriz. Ele parte de planos visuais de extrema beleza como os paisagísticos e vai ao detalhe de um copo, uma comida em preparação e os pés que descem uma escada. No geral, não necessariamente é somente a contemplação que o torna um desafio para as plateias, afinal observar com admiração o talento dramático de Juliette Binoche é para muitos.
 
 
 
 
Na verdade, é o abandono, a paranóia e a solidão de uma artista Francesa como Camile que faz com que o filme seja um exercício de coragem para o público, principalmente para as mulheres que tem mais tendência a se sensibilizar com a escultora em função de que ela foi abandonada por um homem. Dá muita compaixão perceber que Camile foi engolida pelo seu amor por Rodin. Ela simplesmente endoideceu e ficou muito mais louca convivendo com aquelas outras mulheres que já haviam perdido a sanidade mais que ela. Embora o filme expresse essa loucura dela uma forma muito elegante e serena, reflexões sobre um aspecto afetivo da cinebiografia de Camile são necessárias: "O quanto ela sofreu? O quanto ela realmente enlouqueceu devido ao amor e ao abandono? O quanto Rodin e Paul Claudel foram carrascos? O quanto a mulher artista foi silenciada na França?" O espectador tem que ter vontade de assistir a um filme como Camile  pois, até mesmo suas palavras que pedem ajuda podem ser suaves delírios de uma mente doentia; por outro lado, há momentos que chamam a atenção para o mistério de sua personalidade, muito citado pela História, pois dão a impressão de que ela foi uma mulher muito inteligente e acima de sua época e, portanto, foi silenciada pelos homens com os quais conviveu, incluindo o irmão Paul. Muito bem dirigido no aspecto de enquadrar planos que evocam a solidão, o silêncio e a loucura, Camile Claudel retrata uma vida que ninguém deseja ter, principalmente após ter amado perdidamente.
 
 
 

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Feliz 2013 e muita Cinefilia na cabeça e no coração!



 

Oi Cinéfilos,

Desejo-lhes um Feliz Ano Novo com muita Cinefilia na cabeça e no coração para viver a vida com mais prazer e não endoidecer de vez.

Se for para viver um ano bem intenso de alegrias (e é isso que sempre espero e desejo a todos), que ele seja de frente para o telão do Cinema e falando muito sobre a sétima Arte. Começar o ano sabendo que temos o Cinema ao nosso lado, com novos lançamentos e memoráveis revisitações de filmes enche o coração de felicidade.
 
MaDame is alive, mais 2013 do que nunca!

Hoje retornei ao Cinema com o  1º filme do Ano: Hobbit, de Peter Jackson.
Foi nostálgico ver um Hobbit diante dos meus olhos. Contemplar cada personagem do Senhor dos Anéis foi como abrir o Ano com a afirmação de que o Cinema é incrivelmente parte da memória e da vida daqui por diante, sempre mais e mais.

Pensei na paz que deve ser morar em um Bolsão, a mesma paz que desejo em 2013. Pensei na magia do Cinema e como é bom começar o ano com um grande e afetivo filme como é toda a produção de Tolkien. Pensei em mais um ano, lutando para sempre conquistar o bem na vida, assim como é a luta constante dos nossos heróis do Senhor dos Anéis. Pensei como é bom ter um lar e, principalmente, um lar chamado Cinema.

Beijos e abraços. Saudadonas!

Desejo que 2013 seja o ano de muitas jornadas cinematográficas, afinal, cada filme é uma aventura para qual até Bilbo Bolseiro partiria.

MaDame