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Prenda-me, uma produção França / Luxemburgo dirigida  por Jean-Paul Lilienfeld, retrata a violência doméstica contra mulheres. Com ...

Festival Varilux de Cinema Francês: Prenda-me (Arrêtez moi) - 2012






Prenda-me, uma produção França / Luxemburgo dirigida  por Jean-Paul Lilienfeld, retrata a violência doméstica contra mulheres. Com Sophie Marceau no papel de A Culpada e Marc Barbé como o marido agressor Jimmy, o longa enfoca uma forma diferente de retratar a mulher que, de tanto apanhar do esposo em um terrível terrror doméstico, principalmente psicológico, em um momento de desespero e dor , de repente, o mata. Acaba carregando o segredo do homicídio e a culpa por quase 10 anos. Às vésperas do período máximo para reabrir o caso, ela aparece no plantão policial de uma delegacia, decide confessar o crime à delegada Pontoise e pede para ser presa. Como desafio, encontra a resistência da policial em prendê-la.


O roteiro trabalha em um espaço temporal de uma noite na qual o diálogo entre A Culpada e a policial é desenvolvido. A mulher agredida reconta todos os seus traumas e violências sofridas que surgem como flashbacks de memórias. O público acompanha o tormento de seu casamento. À medida que Pontoise ouve o relato da Culpada, cada vez mais a incentiva a não se entregar à polícia, inclusive se recusa a tomar o depoimento e reabrir o caso.








Essa lógica estranha de uma policial que não dá andamento à prisão de uma criminosa é interessante porque mimetiza o real da opinião de muitas pessoas a respeito da violência doméstica.  Por que prender a vítima e homicida do marido, namorado, noivo, irmão , pai ou quem quer que seja agressor, se ele é um covarde batedor de mulheres? Provavelmente uma boa parte do público, principalmente o feminino, diria a ela: "Culpada, vá embora para casa e deixe seu marido apodrecer no inferno.", porém temos que analisar que , à medida que o diálogo evolui, A Culpada realmente é a culpada. Ela sente culpa por mais que o marido dela merecesse ser penalizado. Ela sente culpa pelo filho que já cresceu com personalidade rebelde , agressiva e de torturador psicológico como a do pai mas, acima de tudo, ela é uma viúva e mãe. Se fizermos um paralelo com a vida real, os sentimentos que afloram da A Culpada, que não tem um nome mas personifica a maioria das mulheres que apanham de seus maridos, são comuns. Muitas agredidas sentem arrependimento  e culpa ao denunciar seus agressores familiares, principalmente aqueles com quem tem um relacionamento afetivo.







Um recurso eficaz e muito Francês no roteiro  é o humor sarcástico. Aqui, ele é bem ponderado no diálogo e até usado em situações absurdas e sem sentido entre ambas as atrizes, no entanto, ele é bom porque ele alivia a carga obscura da violência, o peso do drama e estende o diálogo o tornando mais suportável. Se não houvesse esse humor, o filme seria um porre! Ainda que esse recurso pareça estranho em um filme que retrata a violência doméstica, ele é usado inteligentemente quando se deseja dizer uma verdade que moralmente não é politicamente correta, como por exemplo: quando a policial sugere que o marido tinha mesmo que morrer ou que ela vai dar uma lição no filho imaturo da Culpada. 


O humor é  muito aliviante após as cenas na qual a mulher é agredida pelo marido e que são bem mais viscerais. De uma maneira bem diferenciada e bem proposital, o diretor optou por não mostrar o rosto de Sophie Marceau durante boa parte das cenas com o marido, além de colocar a câmera a partir dela, que foi acoplada na atriz para que as agressões fossem visíveis de maneira real. A esposa são os olhos do espectador, desta maneira, incomoda bastante ver o  ator Marc Barbé como o nervoso e covarde marido se aproximando da vítima e surrando-lhe, em especial, a cena do elevador. A câmera treme como se fosse uma câmera na mão que desestabiliza a imagem reforçando o quanto essa esposa é desestabilizada pela agressão do marido e, portanto, a escolha da direção é bem acertada ainda que, em termos imagéticos, esse tipo de filmagem cria bastante mal estar visual ao espectador.








As atuações são boas. Marc está muito bem porque mimetiza o assustador desiquilíbrio de um homem agressor. Seus olhos são raivosos como de um cão endemoniado. Seu rosto dá até nojo! Certamente, o destaque maior vai para ambas as atrizes. Sophie evoca bem o rosto da mulher culpada, amargurada e traumatizada por um passado tão infeliz como o dela: pai agressor, marido agressor, filho agressor. É como um pesadelo familiar! Ela deseja ser punida por ter sido tão punida na vida. O fato de ser uma mulher comum que não faria mal nem a uma mosca e se tornou uma assassina em uma situação limite de agressão faz com que a veracidade tome conta da tela. É possível acreditar nessa mulher destruída! Ainda que guardando os traços da beleza francesa, ela está bem transtornada, com olheiras e rosto marcado por cicatriz, o que garante credibilidade à esposa sofrida. Mais sóbria mas igualmente afetada por seu emprego burocrático de uma policial  em plantão e viciada em automedicação, Miou-Miou está ótima e dá mais leveza e sua experiência ao drama. O roteiro não lhe ajuda pois ela bem que merecia um papel melhor, mas ela é dotada de uma atuação bem humorada da forma mais negra possível. Atuar assim era necessário pois ela é a policial que resiste a prender uma mulher que matou o marido agressor. Ela representa uma lei que não funciona da forma que está, na qual muitos agressores não são condenados e nem presos. Devido ao não funcionamento de uma lei que deveria proteger as mulheres, ela se torna a própria anti-lei durante o seu plantão, aquela que diz: seu marido foi um canalha e merecia morrer! Com o humor, o diretor alivia o que seria uma heresia para a lei atual e opressora dos homens.

O desfecho do filme é compreensível, mas conservador e, portanto, só reforçou a dúvida do por quê o público teve que acompanhar todo o diálogo para ter um final tão acomodado. Com o tema da violência doméstica em voga e dada a seriedade dessa trágica realidade, o cineasta poderia ter optado por outras escolhas, mais dramáticas, viscerais e mais provocativas contra o status quo de uma sociedade machista que alimenta esse mal estar contra as mulheres.





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