sábado, 29 de julho de 2017

Cartas da Guerra (Letters from war, 2016), de Ivo M. Ferreira


Por Cristiane Costa,  Editora e crítica de Cinema, especialista em Comunicação 

Adaptação do livro "Cartas da guerra" de  António Lobos Antunes,  o longa-metragem do mesmo título, realizado pelo cineasta português Ivo. M Ferreira, conta a história do escritor quando esteve dezoito meses na Guerra Colonial Portuguesa e escrevia cartas sobre seus sentimentos e a batalha à esposa Maria José. Iniciada em 1961 e finalizada em 1974, esta guerra está ambientada em Angola e mostra a violenta ofensiva de Portugal contra os movimentos de libertação das províncias na África (Angola,Guiné-Bissau e Moçambique).




António, interpretado pelo ator Miguel Nunes, é um médico que funciona como uma lente para o espectador e testemunha o previsível retrato da solidão na batalha, mas também insere um olhar romântico e nostálgico com relação à esposa. É para sua saudosa companheira que são as cartas, introduzindo o espectador como observador dos sofrimentos de um marido apaixonado que sente saudades da esposa (Margarida Vila- Nova). 


Mesmo sem participar ativamente da mise en scène, Maria José é uma das razões de ser do longa através desta evocação do amor de um homem por uma mulher. As cartas tem um teor muito bonito em cada palavra, muito triste e doloroso em cada saudade. A leitura das cartas surge na figura de uma voz feminina, assim, ela o ouve, ela não foi embora. Ele tem forças para sobreviver mesmo demonstrando um nítido estado depressivo.




Antonio exacerba o seu desejo e amor por ela com profunda devoção, que chega a uma intensidade erótica em alguns fragmentos. Em planos sensuais e, até mesmo, impregnados de uma solidão de singular beleza, Maria José não responde as cartas, não reage. A câmera enquadra apenas esta mulher na tela, cada vez mais distante do marido. Assim, a perspectiva deste aspirante a escritor, preso a uma guerra de contexto ditatorial, é colocada em cena de forma poética, bastante intimista, enfatizando que o filme não é apenas sobre um momento histórico de Portugal, mas também como a guerra separa famílias e aprisiona homens na solidão e na dor da saudade.




"Cartas da guerra" é muito bem fotografado, em preto e branco, como um magnífico livro de memórias atemporal que converge o poder do audiovisual ao da palavra escrita. Esta característica é um chamariz da obra, que não oculta o desespero de Antonio em várias cenas e a importância da produção epistolar como um forma de expressar as emoções angustiantes quando um ser humano perde o convívio com a família, com o amor, com a sociedade e luta uma guerra sem sentido, meramente territorialista.




Se por um lado, estes relatos de Antonio cheios de angustia e solidão aproximam o público aos horrores da guerra, seus impactos nas individualidades e são belíssimos para a decupagem e direção de fotografia, por outro lado, falta neste filme um melhor equilíbrio entre o que vem do registro epistolar e o que vem do registro da História, do conflito bélico em si. É comum, em determinados pontos da narrativa, ver a repetição das lamúrias de António e demais personagens não são desenvolvidos. Atores como Ricardo Almeida, João Pedro Vaz e Welket Bungué poderiam ter sido melhor aproveitados.


O cineasta deixa de explorar o potencial de magnitude da obra ao tomar a decisão de mostrar mais o intimismo de António que propriamente a batalha. Ainda que seja compreensível sua decisão diante de uma adaptação, contraditoriamente, a guerra é vista à distância. As emoções provocadas pelo filme já não têm o mesmo poder após certo tempo de projeção. Ficam desfalecidas, voltadas ao morrer de amor e de saudades de António.




Ficha técnica do filme Imdb Cartas da Guerra

Fotos: cortesia Imovision

Livro



quinta-feira, 27 de julho de 2017

O futuro perfeito (El futuro perfecto, 2016), de Nele Wohlatz




Por Cristiane Costa,  Editora e crítica de Cinema, especialista em Comunicação 


Assim como não podemos viver sem blockbusters, também não podemos viver sem os filmes independentes. Equilibrar as distintas naturezas das produções cinematográficas na experiência da Cinefilia e saber apreciá-las é uma das mais reveladoras jornadas que o Cinema oferece. A agradável descoberta é perceber que  haverá sempre um roteiro, uma direção, uma montagem que mostrará uma outra forma de comunicar uma ideia, propor uma reflexão. O vigor do Cinema é constantemente reciclado através das sutilezas do processo criativo. Nesta caixinha de surpresas  surge o vencedor do prêmio de melhor filme no Festival de Locarno, "O futuro perfeito", uma produção da Argentina com a direção da alemã Nele Wohlatz.






Com uma duração curta (65min), um elenco internacional (China, India) e  falado em espanhol e mandarim, o longa centraliza a cidade de Buenos Aires e a onda crescente de imigração. É para a capital portenha que a jovem chinesa Xiaobin (Xiaobin Zhang) é levada a viver com sua família. Cercada pelas responsabilidades e tradições dos pais, donos de uma lavanderia, ela pouco sabe do seu destino, mas toma ações para se adaptar à nova realidade e ter autonomia. Sem saber falar o idioma local e diante de um mundo desconhecido, ela se matricula em um curso de espanhol, trabalha em um supermercado, começa a juntar economias e a namorar o indiano Vijay (Saroj Malik).








É interessante notar que, muito mais do que um filme realizado sob a perspectiva feminina com uma personagem de 17 anos em um rito de amadurecimento e mudanças, o longa é sobre empoderamento feminino acrescido de uma dinâmica linguística bem peculiar e inteligente na construção da narrativa. Xiaobin está aprendendo o castelhano, está construindo o seu vocabulário e repertório, sua forma de se comunicar, refletir e argumentar, e enfrentando os desafios da linguagem e suas relações com a cidade, as pessoas, o trabalho, a cultura, o futuro. Assim, esse roteiro curto se torna imenso com diferentes possibilidades de interação linguagem, identidade e sociedade, principalmente em um mundo cada vez mais global que tem discutido  a questão da imigração e a representação e representatividade étnica e de gênero. 







De uma forma crível, a história apresenta algumas cenas chave que demonstram a evolução de Xiaobin: seu posicionamento com relação ao futuro e seus desejos, como interage no relacionamento amoroso e com os colegas de curso, como exerce seu potencial imaginativo a medida que domina cada vez mais o idioma. A atuação naturalista da atriz, um pouco introspectiva e amadora, também corrobora a fase de adaptação da jovem e ajuda a ver seu esforço e evolução do início ao desfecho do filme. Xiaobin virou atriz por acidente e topou realizar este longa. Como ela própria disse: “Nas filmagens, eu só tinha que viver de novo aquilo que eu tinha vivido de verdade”


A relação entre sua capacidade criativa e argumentativa e um dos tempos verbais que aprendeu, o condicional, é um dos momentos mais brilhantes. Com isso, ela começa a imaginar o seu futuro e as inúmeras possibilidades de viver. É exatamente essa distinta forma de desenvolver uma ideia no espaço narrativo de um filme que faz com que seja essencial abrir as caixinhas de surpresa do Cinema Independente e olhar novas perspectivas de produção audiovisual.







Ficha técnica do filme Imdb O futuro perfeito

Fotos: uma cortesia Zeta filmes
Citação atriz Xiaobin Zhang - site da Mostra



A economia do amor (L'économie du couple, 2016), de Joachim Lafosse




Por Cristiane Costa,  Editora e crítica de Cinema, especialista em Comunicação 


Há quem diga que um casamento não sobrevive à falta de dinheiro. Faz sentido. Independente do idealismo romântico, do amor e da confiança, problemas financeiros costumam desgastar a vida de um casal e exigir um alto nível de cumplicidade, paciência e jogo de cintura. Por outro lado, essa mesma falta de dinheiro pode surpreender os amantes, amadurecendo a relação com o fortalecimento conjugal em tempos sombrios.  Em "A economia do amor", o realizador belga Joachim Lafosse mostra um outro lado do problema financeiro em um casamento destruído: o conflito pós divórcio na hora de compartilhar os bens.

Protagonizado por Bérénice Bejo e Cédrik Kahn, o longa conta a história de Marie e Boris, pais de gêmeas, recém separados e  vivem sob o mesmo teto. Ela comprou a casa, porém ele pagou pela reforma e valorizou o imóvel. Não concordam com a partilha da casa por divergências financeiras. Vivenciam um cotidiano caótico em uma opressora batalha no lar. Desavenças, magoas e diferenças são colocadas como uma arma afiada constantemente pronta para ferir, humilhar. Não abrem mão do orgulho, não dão espaço ao diálogo. Neste núcleo familiar claustrofóbico e em ruínas, o conflito é angustiante para eles e para a plateia.





Lafosse opta por levar ao máximo o conflito do ex-casal  a ponto de oprimir a quem assiste ao filme  e mostrar o quão desgastante e doloroso é estar em uma relação que já é insuportável, porém, ele não entrega uma dramaturgia complexa e sofisticada em diálogos e situações em geral como conflitos entre casal em longas como "Meu Rei" (de Maïwenn). Lafosse dirige as cenas com mais embate verbal, imediatismo e explosão das emoções, desta forma, o espectador vê um casal barulhento que, em muitas situações, age de forma mimada e pouco adulta. 


Essa mise en scène sufocante se complementa com a caracterização dura, inflexível dos personagens, principalmente de Bérénice Bejo, que incorporou a mulher que não ama mais o marido. Sua postura rígida e tensa se torna uma faca de dois gumes na sua performance. Por Marie ser uma personagem tão reativa, profundamente incomodada, sua atuação é endurecida. Esta rigidez não a deixa natural, não a relaxa. Por outro lado, Cédric Kahn é menos rígido na atuação. Consegue demonstrar mais suas dificuldades de estabelecer diálogos e rapport, a posição do homem que se sente humilhado (inclusive, financeiramente) e as falhas como pai e marido. 





"A economia do amor" é um recorte muito específico do diretor para estressar o pouco que sobrou desse amor, então vale a pena ser visto mesmo sendo angustiante e ruidoso de várias formas. Como Cinema, sua melhor virtude está em mostrar a incomunicabilidade de muitos separados e divorciados e como é desafiador por um fim na relação e preservar  algum respeito, afeto. Mesmo em meio a tantas brigas e verborragia entre Marie e Boris, eles não se comunicam. As palavras machucam e pouco acrescentam e ajudam na convivência. É este o aprendizado maior : A economia não é sobre dinheiro, o valor da casa e dos demais bens, estamos diante de um filme que fala muito mais sobre a economia do amor após 15 anos de casados. 

E o que resta após uma separação? Mais débitos ou créditos?



Ficha técnica do filme Imdb A economia do amor 

 Fotos: uma cortesia Imovision

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Julho Agosto (Juillet-août, 2016), de Diastème



Por Cristiane Costa,  Editora e crítica de Cinema, especialista em Comunicação 



Quando as férias chegam ao fim, a bagagem de experiências e aprendizado são uma das mais essenciais memórias para enfrentar os dias que virão. Momentos de paixão, de amor, de amizade, de alegria, de liberdade, de decepção e tantos outros se acumulam nas histórias e trazem esse amadurecimento vital. E quando se é jovem, esse repertório de experiências, com seus dilemas, frustrações e conquistas, é o que fará a diferença no enfrentamento cotidiano. É o acontece no novo filme de Diastème, músico e escritor francês, que apresenta a jornada e dilemas de duas irmãs adolescentes durante as férias.





Laura (Luna Lou) e Joséphine (Alma Jodorowksy), respectivamente, 14 e 18 anos, são filhas de pais divorciados e vivenciam diferentes momentos de sua juventude. Laura é a de forte personalidade. Entre a puberdade e a adolescência,  ela está desabrochando sua beleza e desejo e lidando com acessos de raiva e rebeldia. Também luta pela apropriação de suas próprias ideias, desenvolvendo sua identidade como mulher, ainda que tenha atitudes muito pueris. Joséphine é a delicada, que guarda uma certa ingenuidade misturada com curiosidade e sensualidade. Naturalmente bela e misteriosa como as musas francesas, ela está no auge do termo  "menina-mulher", o que a leva a ceder ao desejo, à paixão de verão e a aventuras arriscadas. Na casa de cada pai, lidam com situações comuns como as dificuldades financeiras da família, gravidez da mãe, más companhias, infrações, ciumes etc.




Na intencionalidade do diretor, "Julho Agosto" entrega o que promete: "Eu queria evocar a adolescência, desde o momento em que a criança vira um adolescente até quando o adolescente vira um adulto. Eu também queria falar sobre família, concentrar em relacionamentos românticos, capturar ternura entre personagens, trabalhar em algo doce e gentil, cercar-me de personagens que realmente amo."

De fato, ele entrega sua promessa, mesmo quando os roteiristas Diastème e Camille Pouzol se arriscam a incluir um evento criminal, que desanda a harmonia  e fluidez da narrativa. Esse conflito derivado de um crime não chega a alterar a delicadeza da história porque é uma infração tratada com certo humor e non sense, com um toque de humor francês que naturaliza coisas que são sérias. Ele gera estranhamento, mas o  foco continua sendo a adolescência e o desabrochar entre a fase criança/ adolescente e entre a fase adolescente/adulta. O evento também é aceitável sob o ponto de vista de trazer respaldo ao conflito enfrentado por Josephine.




Concebido como uma comédia dramática com uma perspectiva feminina, o diretor realiza um filme despretensioso e delicado que seguramente ajuda a compreender o universo destas irmãs.  Com a direção de fotografia de Pierrre Milon (de "Entre os muros da escola" e "As neves de Kilimanjaro"), o naturalismo em cena torna o drama mais cotidiano, vívido. Aproxima  o público no seio familiar destas jovens, inserindo-no até mesmo nos conflitos emocionais dos pais como uma gravidez surpresa e um homem maduro que tem medo de uma segunda chance no amor. Com a competência de Milon, esse naturalismo em cena  deixa o filme leve, mas também dramaticamente compreensível, capaz de criar empatia e aproximação.





Apesar de terem diferença de 4 anos de idade e distintos florescimentos de suas feminilidades, Laura e Joséphine se apoiam mutuamente e têm uma boa confiança que coopera para alicerçar essa família dividida e cheia de problemas. Quando o roteiro se volta a retratar esses ritos de amadurecimento, ele ganha em dramaturgia pois expressa a dor  e a delícia de amar, dar e receber afeto, desfrutar a vida, mas também chorar, se decepcionar e dizer adeus a pessoas que amamos e aos ciclos da vida. Nesse aspecto, vivenciar as férias com os pais torna-se o microcosmo de algo muito maior, que é propriamente a vida, o valor da família e do afeto. Por isso, os últimos planos do filme são tão bonitos e virtuosos para reverberar o significado desta história.



Ficha técnica do filme IMDB Julho -Agosto

Fotos e citação do diretor, uma cortesia CineArt filmes

Soundtrack (2017), de 300 ml



Por Cristiane Costa,  Editora e crítica de Cinema, especialista em Comunicação 


Como apreciadores do Cinema, temos que estar abertos a todo o tipo de narrativa, até mesmo aqueles filmes que, por trás de um aparente estilo cult, existencialista, tem cenas que não conseguirão se comunicar conosco da forma que gostaríamos. "Soundtrack", direção e roteiro de 300 ml (de "O código Tarantino"), apresenta este desafio:  "a que ele veio, afinal? Segundo seus criadores, "uma história sobre valores e amizades". Com a presença de Selton Mello, Seu Jorge e Ralph Ineson,  ele pode ser interpretado como um filme que utiliza efeitos sensoriais, emoções melancólicas, um círculo masculino de "bróders" e uma profunda  inadaptação de um artista que se afugenta em um local solitário, inóspito.





A história do fotógrafo Cris (Selton Mello) poderia ser a história de qualquer um de nós: deslocado e em crise.  Ele toma a decisão de ir à uma estação de pesquisa polar para iniciar seu projeto artístico. Parece mais uma fuga do que propriamente ser produtivo na concepção da Arte. Assim, Cris não mostra muito que faz, exceto ligeiros experimentos fotográficos e jogar conversa fora com seus colegas que, aliás, não necessariamente demonstram um afeto genuíno por ele. São relações em construção.


E o que fotografar neste fim de mundo? Quase nada . É mais uma história do confuso estado mental do personagem que propriamente de amizade.  Estamos diante de um filme que se comunica mais pelas sensações, este depressivo isolamento do ser humano, esta constante busca pelo trabalho. O protagonista tem como maior desafio lidar com si próprio e conceber sua Arte. Levá-lo para uma estação polar, no meio do nada, não oferece escapatória a não ser encarar os conflitos. Em outra interpretação, considerando os demais do elenco, Cris também precisa socializar com os que estão ali. Todos  têm a opção de ser amigos ou apenas suportarem uns aos outros. Assim seria na Antártida.






O incomodo que provoca o filme não é pela melancolia aparente, o nada para fazer. É que poderia haver apenas Selton Mello e Ralph Ineson e isso já seria o suficiente para estabelecer esta proposta de amizade. Sem desmerecer o trabalho dos demais, mas a amizade  não é testada aqui entre todos, salvo as melhores cenas entre Melo e Ineson. Logo, mesmo que na intenção dos diretores haja essa  bem intencionada "brodagem", este é o filme do Cris,  sua crença no  trabalho e sua experiência cinestésica de estar no fim do mundo como um artista em busca de criatividade e evolução, de comportamento mais intimista, pessoal, de difícil acesso. 


Potencialmente, o que pode vir a apreender a atenção do público, em maior ou menor grau, é perceber que apenas Cris será capaz de se entender e seguir em frente com sua Arte, sua exposição. Ninguém mais. É um personagem estranho e misterioso, mas acessível em sua humanidade . Nesse sentido,  algumas cenas da "brodagem" aborrecedora não acrescentam muito ao conflito.  As melhores cenas sobre humanidade estão na interação de  Mello e Ineson.






A "Soundtrack" que dá título ao filme  é a playlist do Cris. A sonoridade que quebra o silêncio ou que permanece apenas na audição de quem ouve as canções. Ela inspira o artista no processo criativo mas sua potência não é externalizada ao extremo. A playlist também é utilizado como elo entre Cris  e seus colegas. Em determinados momentos,  ele divide uma música com outro companheiro ou com o grupo. Vale  mencionar que essa trilha não é original e o que está em cena é uma seleção de músicas que fazem parte da jornada de Cris. 






A possibilidade de converger música e fotografia, entrecortada por diálogos, silêncios e enquadramentos mais intimistas intensifica as marcas biográficas do personagem e relação deste grupo. O mundo particular de Cris transita entre estas mídias e a cinestesia  amplia  as diferentes percepções das relações humanas e conflitos individuais do elenco. Desta forma, "Soundtrack" é um filme mais audiovisual  que semântico. Não espere muitos diálogos e pistas de quem é este personagem, ele gira em volta de seu próprio mundo privado que, mesmo após o desfecho do longa, fica a questão: "o que ele tinha em mente"? Pelo menos, nesta experiência, fica evidente  que ele transmite o drama de qualquer artista ou não artista:  "o que estou fazendo neste mundo? Qual o significado do meu trabalho? O que faço a partir deste ponto?"


Embora a narrativa não  agradará a todos dadas as peculiaridades do roteiro, como trabalho de estreias em longa - metragem, 300 ml cumpre um papel bem preciso na criação dessa ambientação inóspita, uma Antártida no Brasil, considerando que o filme é 100% realizado em computação gráfica. Esse resultado não deixa de ser um primor audiovisual em um filme Brasileiro realizado com elenco internacional, falado em inglês e português. Tendo pouca transição nesse espaço limitado, já que os personagens estão isolados no meio do gelo,  as internas criam um ambiente cinzento, solitário, deprimente, o que corrobora o visual do longa e que eles só tem uns aos outros como companhia. O calor humano virá destas frágeis relações. O resto, fica por conta dos sentidos da plateia.




Ficha técnica do filme ImdB Soundtrack

Fotos: cortesia Imagem filmes

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Paris pode esperar (Paris can wait, 2016), de Eleanor Coppola




Por Cristiane Costa,  Editora e crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação 




Viajar é muito bom. A maioria concorda. Percorrer uma jornada, sem qualquer preocupação, seja sozinho(a) ou acompanhado(o) é um daqueles deleites que, uma vez ou outra, temos que dar a nós mesmos. É sobre liberdade, autoconhecimento e conhecer pessoas, lugares. É sobre seguir uma rota mais afetiva e menos cerebral. É sobre viver um sonho como se ele fosse projetado na tela ilusória do Cinema. Quanto menos planejada for a viagem, mais surpreendente ela pode ser. O novo filme de Eleanor Coppola, "Paris pode esperar" (Paris can wait/ Bon jour Anne), seu trabalho de estreia, segue essa deliciosa tônica de um road movie pelas estradinhas que ligam Cannes a Paris. A companhia não poderia ser melhor: Diane Lane e Arnaud Viard.



"Ellie mostrou um “excepcional senso de confiança – confiança em si mesmo antes de tudo, e então confiança nos outros para interpretar e expressar sua visão. Fiquei encantada de ser parte desse projeto cinematográfico" (Diane Lane)


Na história, escrita por Eleanor,  Anne (Diane Lane) é uma esposa dedicada, apoiadora constante de Michael (Alec Baldwin), seu marido e um ocupado produtor de cinema. Após anos de convivência, ela dá sinais de incômodo pela ausência dele, mas o casamento se preserva. À convite de Jacques (Arnaud Viard), sócio do Michael, Anne aceita viajar de carro, de Cannes a Paris. Aventura-se com esse charmoso francês, de gosto refinado e sorriso cativante.





O roteiro é baseado em um acontecimento real com a diretora. Em uma das suas viagens, ela se viu com uma gripe forte. Impossibilitada de viajar de avião, foi de carro à Paris com um amigo. Por ser uma historia de memórias, reais e inventadas,  ela é libertadora e sedutora, o que permite ao espectador relaxar e imaginar o que quiser. Como resistir ao charme de uma viagem a dois pela França? O que aconteceu entre Eleanor e seu amigo? O que é verdade ou uma mentirinha graciosa nesse roteiro de inspiração biográfica? Tudo é possível e não há maldade alguma em imaginar coisas nesse clima de amizade e hesitante sedução entre os amigos. 





É evidente que a diretora fez um filme para se divertir e não esconde seu entusiasmo. Ela passa uma  verve cômica, de curtir os prazeres da vida como a gastronomia Francesa, o pernoite em um hotel bucólico, um piquenique à beira de um lago e todos os deleites de viajar ao lado de um francês divertido, amante da boa vida.  A escolha dos atores foi bastante apropriada pois, além da química irresistível entre duas pessoas maduras, existe uma relação de respeito entre  Anne e Jacques. Ela tem um estilo simples e refinado, que não usa sua beleza como arma de sedução, então, age natural e envolvente. Ele, já mais previsível, tem todos os vícios de um bon vivant, o que o torna bem cômico e atrativo.





"Paris pode esperar" é bem solar por essas razões: a natural beleza, crível e espontânea atuação de Diane Lane, o vigor cômico e charme de Arnaud Viard e as pitorescas paisagens francesas. Essa combinação acaba superando a inexperiência de Coppola na direção, principalmente em planos e enquadramentos que ela não faz nenhuma cerimônia em deixá-los mais amadores, filmados de forma despojada. Grande parte de suas cenas encanta mais pela conexão entre os atores, um tanto tímidos, um tanto abertos à experiência e, também, pela coragem de Eleanor que não estava preocupada em seguir uma gramática fílmica  cirúrgica como a de seu marido e  filhos. Ela fez bem. Preservou sua autenticidade. O resultado é um convite à uma viagem à França sem precisar voar. 





Desde "Sob o sol de Toscana", Diane Lane é uma atriz encantadora para comédias que libertam essa radiante energia de viver. Sua maturidade a deixa cada vez mais bela e carismática. Embora sua personagem tenha demonstrado alguns desconfortos, tipicamente convencionais, quando uma mulher está viajando com o amigo do esposo e fica preocupada com a excentricidade de um sedutor francês; pouco a pouco, ela libera essa beleza que está além do aspecto físico, ela desabrocha a beleza do viver uma viagem como uma inesquecível aventura. 


Sob essa perspectiva, essa comédia torna-se um entretenimento agradabilíssimo, mas também, o melhor benefício dessa experiência cinematográfica é que, tanto ela quanto Viard desempenham os papeis de dois solitários, cada um à sua maneira, que servem de companhia um para o outro. Ao analisar o filme com essa dimensão mais afetuosa, de amizade e companheirismo, quando a viaja acaba, o maior desejo é dizer: "viajem mais um pouco, Anne e Jacques, pois Paris pode esperar".



Ficha técnica do filme Imdb Paris pode esperar

Fotos , uma cortesia California filmes


sexta-feira, 7 de julho de 2017

A Garota Ocidental - Entre o Coração e a Tradição (Noces), 2016





Por Cristiane Costa,  Editora e crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação 


Um dos maiores desafios na experiência como expectador de um filme é acompanhar o sofrimento e a tragédia anunciada de um personagem que está preso à cultura e tradições, principalmente quando há dilemas e um choque dilacerante entre o desejo de liberdade e as convenções que estão relacionadas à paz e harmonia familiar. Nesse contexto,  não há meio termo e nem outra saída a não ser romper em definitivo ou aceitar o desejo da família.


Em "A garota ocidental - entre o coração e a tradição", escrito e dirigido por Stephen Streker, a jovem e bela Zahira (Lina El Arabi),de origem paquistanesa e radicada na França, se vê em conflito com seus pais (Babak Karimi, Neema Kulkami) e  irmão Amir (Sébastien Houbani), que querem que ela escolha um paquistanês para se casar, porém, Zahira tem uma personalidade libertária, quer viajar, dançar e amar como uma mulher que tem autonomia para decidir sobre seus relacionamentos e futuro. A partir desse argumento que provoca uma tensão a emoção e a razão, a história é desenvolvida com foco nas sequências familiares e determinadas cenas na qual ela vivencia o amor e a possibilidade de ser livre e feliz. 





Essa é a primeira aparição em longa metragem da atriz revelação Lina el Arabi, que atua de forma crível, inclinando fortemente para o seu lado corajoso, autêntico. Mesmo nas cenas nas quais oscila para o vínculo afetivo com a família, sua atuação não banaliza a indecisão da personagem. É um personagem difícil, ainda que o motivo seja recorrente em filmes de cultura oriental, pois o Paquistão é um dos maiores países de religião muçulmana. Ir contra o lema de "fé, unidade, disciplina" do país e suas famílias religiosas é uma afronta vista com maus olhos. 


Nesse sentido, é também interessante notar que, no desenvolvimento da história, as tomadas mais tensas são as com o pai. Segundo a tradição, o líder de uma família é o primeiro que será envergonhado pelos filhos divergentes, tanto que há uma preocupação clara do pai e do filho sobre o que a comunidade paquistanesa pensará sobre Zahira e sua rebeldia. Seu irmão Amir, ainda que muito ligado à irmã, exerce  a figura do filho homem que se responsabiliza em controlar a vida dos demais irmãos. Está li, à espreita, com o peso de não frustrar o pai, de proteger a família de qualquer vergonha.








Esse roteiro tem uma "gordura",  que envolve situações que poderiam chocar a sociedade paquistanesa se viessem à tona, assim, em termos de fluidez narrativa, o filme dá voltas que não seriam tão necessárias, coloca cenas que "incham" a história ao máximo para adiar os momentos decisivos e trágicos.  Essa escolha do roteirista é previsível porque a situação de Zahira não tem muito escape, logo, não acontecem tomadas mais externas ou que envolvem tantos outros personagens em cena.  O roteirista/diretor faz de tudo para prolongar os acontecimentos e, ironicamente, o final é abrupto, rápido. De certa forma, esse espaço claustrofóbico no seio familiar é uma prova de que Zahira está em um tipo de prisão. 





Nas cenas mais belas e sublimes está o seu romance com Pierre (o ator francês Zacharie  Chasseriaud). A amizade entre os dois tem aquele desabrochar de afeto, de um desejo às escondidas, de um "será que vai acontecer um relacionamento sério? "será que há esperança para os jovens amantes"?. Sendo ele um estrangeiro nesse cenário, as impossibilidades do amor ficam mais evidentes. O diretor dá a plateia uma mistura de amor e dor ao rodar uma sequência bem fotograda e com um clima de delicado romance quando Zahira e Pierre estão curtindo uma breve viagem. Em contraposição, esse desencadeamento de sonho x realidade fica mais visível no desfecho. Um final que machuca como navalha. Extremamente doloroso e chocante como uma tragédia grega!







Ficha técnica do filme ImdB A garota Ocidental

Fotos: uma cortesia, Cineart



quinta-feira, 6 de julho de 2017

Cine Família: Uma Família de Dois ( Demain Tout Commence) - 2016






Por Cristiane Costa,  Editora e crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação 




Nesses tempos modernos, o conceito de família tem sido discutido à luz da evolução do tema em relacionamentos homo afetivos, em mulheres que optam pela maternidade independente, em avós que criam seus netos como filhos, entre outras configurações de família. Afinal, o que é uma família? Ela tem um valor muito mais amplo que as diferenças e polêmicas a seu respeito. Podemos dizer algumas palavras essenciais sobre família: afeto, amor incondicional e dedicação. 




Distribuído pela Paris filmes e destaque na edição 2017 do Festival Varilux de Cinema Francês, o filme de Hugo Gélin, "Uma família de Dois" (Demain tout commence), estrelado por Omar Sy e Gloria Colston, tem de tudo para conquistar o afeto da plateia exatamente por explorar esse tema. Trata de uma família que se formou a partir do pai e da filha. Samuel (Sy)  curtia  a vida de solteiro sem qualquer responsabilidade em uma França ensolarada. Descobre-se pai de Glória (Colston) quando sua ex-namorada Kristin (Clémence Poésy) abandona a filha em seus braços. Viaja a Londres na tentativa de encontrar a mãe da criança, porém sem sucesso. Acaba morando na cidade e cuidando da filha.




Como uma comédia dramática, a projeção ganha espaço à medida que o roteiro desenvolve cenas que se dividem entre o carisma e conexão de Samuel e Gloria, mas também as perguntas sobre a  mãe que a garota realiza. De uma maneira muito simpática, Omar Sy exerce seu costumeiro bom humor e o estilo de um pai jovem e um tanto descolado, que trabalha como dublê de ator de ação (o que compõe um aspecto heroico e lúdico do pai super protetor), que vive em um mundo de fantasia e autopreservação da filha, que tenta esquivar-se ao máximo de qualquer sofrimento à Gloria. A energia entre ele e a excelente atriz mirim é encantadora. A presença do amigo homossexual Bernie (Antoine Bertrand) adiciona um significado especial de humor, amizade e lealdade, pois ele também faz parte dessa família e apoiou Samuel quando ele mais precisava. 







São essas evidências que se convertem em traços sensíveis da história. Imediatamente, o desenrolar dos fatos demonstra que existe um cuidado paterno extraordinário e uma dose de preocupação quando um pai cria o filho sozinho, o que é comum e compreensível.  Outro aspecto é a importância de haver respeito entre os pais, ainda que o relacionamento não tenha dado certo e o valor da parentalidade. Em diversas situações, mesmo que os roteiristas se percam nas cenas mais conflituosas entre Samuel e Kristin e entrelaçam escolhas mais condescendentes que realistas quando o assunto é o conflito entre eles , "Uma família de Dois" tem uma ternura especial que não cabe na tela, que explode em emoções no coração de quem vê e se sensibiliza com a historia, que perdoa e acredita em segunda chance e transformação. o desfecho é uma prova de que a família é quem guardamos no peito e nos acrescenta afeto para ser uma pessoa melhor. Comovente!





Ficha técnica do filme ImDB Uma família de dois

Fotos: uma cortesia, Paris Filmes

Lançamento no Brasil: 29 de Junho de 2017