sexta-feira, 7 de julho de 2017

A Garota Ocidental - Entre o Coração e a Tradição (Noces), 2016





Por Cristiane Costa,  Editora e crítica de Cinema MaDame Lumière e Especialista em Comunicação 


Um dos maiores desafios na experiência como expectador de um filme é acompanhar o sofrimento e a tragédia anunciada de um personagem que está preso à cultura e tradições, principalmente quando há dilemas e um choque dilacerante entre o desejo de liberdade e as convenções que estão relacionadas à paz e harmonia familiar. Nesse contexto,  não há meio termo e nem outra saída a não ser romper em definitivo ou aceitar o desejo da família.


Em "A garota ocidental - entre o coração e a tradição", escrito e dirigido por Stephen Streker, a jovem e bela Zahira (Lina El Arabi),de origem paquistanesa e radicada na França, se vê em conflito com seus pais (Babak Karimi, Neema Kulkami) e  irmão Amir (Sébastien Houbani), que querem que ela escolha um paquistanês para se casar, porém, Zahira tem uma personalidade libertária, quer viajar, dançar e amar como uma mulher que tem autonomia para decidir sobre seus relacionamentos e futuro. A partir desse argumento que provoca uma tensão a emoção e a razão, a história é desenvolvida com foco nas sequências familiares e determinadas cenas na qual ela vivencia o amor e a possibilidade de ser livre e feliz. 





Essa é a primeira aparição em longa metragem da atriz revelação Lina el Arabi, que atua de forma crível, inclinando fortemente para o seu lado corajoso, autêntico. Mesmo nas cenas nas quais oscila para o vínculo afetivo com a família, sua atuação não banaliza a indecisão da personagem. É um personagem difícil, ainda que o motivo seja recorrente em filmes de cultura oriental, pois o Paquistão é um dos maiores países de religião muçulmana. Ir contra o lema de "fé, unidade, disciplina" do país e suas famílias religiosas é uma afronta vista com maus olhos. 


Nesse sentido, é também interessante notar que, no desenvolvimento da história, as tomadas mais tensas são as com o pai. Segundo a tradição, o líder de uma família é o primeiro que será envergonhado pelos filhos divergentes, tanto que há uma preocupação clara do pai e do filho sobre o que a comunidade paquistanesa pensará sobre Zahira e sua rebeldia. Seu irmão Amir, ainda que muito ligado à irmã, exerce  a figura do filho homem que se responsabiliza em controlar a vida dos demais irmãos. Está li, à espreita, com o peso de não frustrar o pai, de proteger a família de qualquer vergonha.








Esse roteiro tem uma "gordura",  que envolve situações que poderiam chocar a sociedade paquistanesa se viessem à tona, assim, em termos de fluidez narrativa, o filme dá voltas que não seriam tão necessárias, coloca cenas que "incham" a história ao máximo para adiar os momentos decisivos e trágicos.  Essa escolha do roteirista é previsível porque a situação de Zahira não tem muito escape, logo, não acontecem tomadas mais externas ou que envolvem tantos outros personagens em cena.  O roteirista/diretor faz de tudo para prolongar os acontecimentos e, ironicamente, o final é abrupto, rápido. De certa forma, esse espaço claustrofóbico no seio familiar é uma prova de que Zahira está em um tipo de prisão. 





Nas cenas mais belas e sublimes está o seu romance com Pierre (o ator francês Zacharie  Chasseriaud). A amizade entre os dois tem aquele desabrochar de afeto, de um desejo às escondidas, de um "será que vai acontecer um relacionamento sério? "será que há esperança para os jovens amantes"?. Sendo ele um estrangeiro nesse cenário, as impossibilidades do amor ficam mais evidentes. O diretor dá a plateia uma mistura de amor e dor ao rodar uma sequência bem fotograda e com um clima de delicado romance quando Zahira e Pierre estão curtindo uma breve viagem. Em contraposição, esse desencadeamento de sonho x realidade fica mais visível no desfecho. Um final que machuca como navalha. Extremamente doloroso e chocante como uma tragédia grega!







Ficha técnica do filme ImdB A garota Ocidental

Fotos: uma cortesia, Cineart



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