segunda-feira, 25 de setembro de 2017

150 Miligramas (2016), de Emmanuelle Bercot






Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação.



Emmanuelle Bercot é uma diretora que gosta de abordar temas polêmicos em seus filmes, característica que é bastante atrativa no seu estilo. Demonstra que ela não foge do enfrentamento e apresenta esperança e um senso de justiça nas histórias. Assim como "De Cabeça Erguida", seu antepenúltimo filme que contava sobre o sistema socioeducativo para jovens delinquentes, com "150 miligramas" (La Fille de Brest) ela retorna à direção para jogar luz na obscuridade da indústria farmacêutica.


Baseado no livro de Irène Franchon, Mediator 150 mg, Bercot aborda os questionamentos acerca deste medicamento, produzido pela farmacêutica Servier e retirado do mercado em 2009.  O medicamento prejudicou entre 500 a 2 mil pessoas na França. Era receitado para tratamento de diabéticos com problemas de sobrepeso, depois foi usado como inibidor de apetite.  Começou a provocar efeitos colaterais com sobrecarga cardíaca para os pacientes, levando a óbito vários deles.






No papel de Irene está a atriz Dinamarquesa Sidse Babeth Knudsen, conhecida por "Depois do casamento", de Susanne Bier, e quem tem realizado trabalhos na França, mais recentemente "A Corte" de Christian Vicente. Knudse é uma excelente atriz. Aqui ela incorpora um perfil obstinado, carismático e bem humorado, na pele de uma pneumologista do Hospital Universitário de Brest. Irène começa a desconfiar do Mediator, o que dará início a um processo de investigação sobre os males do medicamento.


A decisão pela adaptação para o Cinema partiu da própria autora e produtores, mas Bercot abraçou a causa muito mais pela garra de Irène Franchon, um drama de quem bateu de frente com a indústria pharma, ação bastante heróica, levando em conta que é um dos segmentos industriais mais poderosos do mundo, estratégico, competitivo, lucrativo e lobista por excelência. Além de ser um mercado que provoca reações controversas considerando que todas as pessoas, gostando ou não, colocam fé,  se vêem obrigados a confiar ou simplesmente odeiam essa indústria.






A performance de Knudsen mostra que esta não é apenas uma história sobre um escândalo pharma, é parte da biografia de uma mulher que se preocupava com os pacientes e embarcou em um processo exaustivo, de alta exposição pessoal que colocou em xeque se ela era insana, vaidosa ou justa. Por outro lado, é um personagem que não ganha empatia fácil, mesmo com os esforços da atriz que marcou bem a personalidade da especialista. Todas as virtudes da protagonista estão na narrativa: mãe de família, boa esposa, divertida, atenciosa, corajosa, justa. Entretanto, sua obstinação e ego têm um ritmo ligeiro demais, o que dificulta uma conexão mais emocional com a personagem.





Bercot optou por incomodar ao máximo o espectador, começando pelo realismo visceral do ambiente hospitalar, como por exemplo, imagens fortes de corpos em cirurgia ou na necropsia. Outro incomodo é o jeito acelerado da heroína, que pode ter sido uma decisão da diretora ou uma característica biográfica. Assim, Bercot não dá muito tempo para digerir a história, que é confusa e complexa em determinados espaços. É o tipo de roteiro que exige total atenção às reviravoltas, idas e vindas de Irène e de aliados como o personagem de Benoît Magimel. Mesmo que pareça um roteiro de difícil adaptação, em alguns momentos, esta dificuldade é projetada para a experiência com o filme e o prazer é comprometido.

É um bom longa, desafiador na forma como foi roteirizado pela diretora e Séverine Bosschem, mas não supera em qualidade de direção os antecessores como "Meu Rei" e "De Cabeça Erguida".  Suas lacunas estão mais em determinadas sequências e desencadeamentos que dificultam o acompanhamento do sentido para a compreensão da história. Não é Bercot em ótima forma, assim o mérito fica mais por conta de Knudsen. Ela interpreta uma heroína que faz refletir sobre  a importância das escolhas e ações éticas e os riscos envolvidos.






Ficha técnica do filme IMDB 150 miligramas

Distribuição California filmes

Fotos, uma cortesia California Filmes.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Últimos dias em Havana, de Fernando Pérez




"É uma das cidades mais bonitas do mundo. 
Olhe bem para ela, antes que ela acabe de ser destruída”. 

(Morango e Chocolate, de Tomás Gutiérrez Alea (Titón) e Juan Carlos Tabío)


Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação.



Diego (Jorge Martínez) está em uma cama, moribundo e dependente dos cuidados do amigo Miguel (Patricio Wood). Em uma fase quase terminal da AIDS, com dificuldades para comer e respirar, Jorge representa bem um fragmento das palavras de Che Guevara : "é preciso endurecer mas sem perder a ternura jamais". Em uma Cuba cada vez mais abandonada, dura e entregue à decadência, é ele que traz a alegria, a imaginação e o acolhimento a um lar em ruínas, um minúsculo apartamento em um cortiço de Havana. É ele que, mesmo à beira da morte, mostra que é preciso manter a esperança em uma vida precária. A revolução Cubana não resolveu os problemas de desigualdades, então depende de cada um  resolver os problemas diários com otimismo.





Dirigido por Fernando Pérez (de "Suite Habana"), Últimos dias em Havana é uma homenagem ao clássico cubano "Morango e Chocolate" (Fresa y chocolate, 1993), de Titón e Tabío. É centrado na amizade que supera as diferenças e os desencantos da vida. Se Jorge é otimista, Miguel é o anti-herói mal humorado e decepcionado com seu cotidiano. Ainda que cuide do amigo, ação que expressa sua generosidade e lealdade, é um personagem misterioso que não vê prazer em nada. Em algum momento de seu passado, ele se frustrou muito. A precisa atuação de Patricio Wood mostra um homem morto-vivo, mais esvaído que Jorge. Miguel apenas se mobiliza para conseguir o visto para emigrar aos Estados Unidos. Cuba não é mais seu presente e nem seu futuro. Sua racionalidade evidencia que os resquícios da revolução Cubana ficou no plano das aspirações idealistas. Ter dificuldades para colocar comida e ter água em casa não faz de Havana um lugar minimamente honrado para viver.






Ao espectador é dado o privilégio de ter esperanças, independente se for um adepto do Neoliberalismo ou um saudosista do Socialismo, considerando que o mundo é um lugar instável em muitas sociedades e todos são afetados ou serão afetados, direta ou indiretamente, por esse caos sócio-econômico e político. O idealismo, seja ele de qualquer natureza, é um motor que continuamente precisa funcionar para aliviar o cotidiano bruto, por outro lado, ele  carrega também um imaginário que nem sempre acontecerá na realidade. Acima de tudo, o filme é sobre amizade e a tolerância que torna a vida mais leve e significativa. Também, é um filme sobre a decadência da sociedade Cubana. O declínio em cena torna mais vívida a amizade e vice-versa, pois, é exatamente nesse cenário de empobrecimento que os personagens se apoiam e fica mais perceptível que uma das poucas riquezas humanas ainda está no campo das relações de afeto e humor.





Embora não tenha o propósito de intensificar as diferenças políticas de Morango e Chocolate, no qual Diego (Jorge Perugorría) é um artista homossexual libertário e contra o sistema, e David (Vladimir Cruz), um estudante fiel à ideologia comunista, a narrativa ainda consegue expressar uma ligeira melancolia com um sistema socialista que não deu muito certo. Esse é o lado mais depressivo, o de observar que, das construções sujas e em ruínas aos rostos de um povo em nítido sofrimento, a frase do filme de Titón em 1993, tornou-se realidade: "Olhe bem para ela (Havana), antes que ela acabe de ser destruída". Vinte e quatro anos depois, Cuba é retratada com uma economia estagnada e os personagens sobrevivem com muitas dificuldades financeiras e atividades ilícitas e/ou periféricas. Dessa forma, com êxito, Fernando Pérez desenvolve uma boa direção a partir das entrelinhas atitudinais dos personagens e toda a pobreza que circula em Havana. Nelas eles tentam sobreviver em uma miserável cidade, se necessário, tirando proveito das situações mesmo que não sejam pessoas ruins, como a jovem Yusisleydis (Gabriela Ramos) e um garoto de programa imigrante.  O diretor acerta em não julgar esses sobreviventes. 




Últimos dias em Havana não é extraordinário, todavia, é dirigido com sensibilidade e bom humor por um dos mais importantes diretores cubanos da atualidade. O filme estreiou na Berlinale Special, ganhou prêmios em Málaga e na recente edição do Cine Ceará. É uma bela dramédia por causa das atuações de Jorge Martínez, Patricio Wood e Gabriela Ramos. Mantém a poesia na sua dramaturgia, mas também é um claro retrato da decadência social em Cuba sob a mira de um diretor que não esconde seu desconforto. 


Com maior mérito está Patricio Wood e as várias camadas de seu personagem totalmente insatisfeito com essa vida deplorável.  É angustiante ver os conflitos de Miguel que o próprio não consegue superar e nem expressar verbalmente. De poucas palavras, seu rosto esconde aflições e o constante comportamento de um estranho no país que prefere permanecer em silêncio. Mesmo sem saber seus segredos mais íntimos, é possível imaginar que um deles seja a frustração por Cuba, por ver tanta miséria e ter o desejo de ir viver como um imigrante nos Estados Unidos. Observar sua dificuldade em ler poucas linhas em inglês  dá uma breve ideia das dificuldades que ele, ainda teria que enfrentar, ao ser um imigrante de meia idade em um sistema selvagem como o Americano. Um sistema que sofre o risco de colapso internacional e que ele seria apenas mais um número na máquina de resultados e lucros.





O desejo de partir de Havana é um descontentamento que reflete o desespero de ver o lar em ruínas, passa por uma decepção para a qual parece não haver mais cura. Quantos Brasileiros atualmente também estão insatisfeitos com o Brasil? Muitos. E isso aqui nem é Cuba! Em verdade, ninguém gosta de partir do lar, porque o fracasso não é apenas do país, desistir da Pátria é frustrante, desesperador, uma decisão extrema. Na maioria das vezes, são a família e os amigos que dão a esperança pela permanência. Não valemos nada sem esse afeto.




Ficha técnica do filme IMDB Últimos dias de Havana 

Fotos, uma cortesia Esfera filmes assessoria

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Heartstone (2016), de Guðmundur Arnar Guðmundsson




Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira de Cinema, especialista em Comunicação



Com sessões abertas esse mês no Cinesesc e em exibição nas próximas semanas em todos os países nórdicos, Heartstone desnuda o coming of age de dois amigos que começam a sentir desejo um pelo outro e são desafiados a lidar com esses conflitos internos. Thor (Baldur Einarsson) e Christian (Blaer Hinriksson) vivem na Islândia em uma região arraigada na tradição dos pescadores, dos homens que ainda carregam o estigma medieval de homem rústico, viril e ligado às raízes. O companheirismo bem visível no cotidiano dos garotos e a afetuosa amizade transbordam no naturalismo em cena, e os jovens experienciam um processo de angústia que essa sociedade não está preparada para lidar.




Com excelente aceitação e premiações em festivais nos USA e Europa, o filme foi destaque na 40ª Mostra internacional de cinema de São Paulo na categoria de novos diretores, ganhou o prêmio Queer Lion no Festival de Veneza de 2016 e em Novembro participa do Nordic Council Film Prize, dessa maneira, faz parte de um conjunto essencial de filmes independentes modernos que abordam questões LGBT na juventude como "Hoje eu quero voltar sozinho", "Moonlight", "Girlhood", "Tangerine". Assim como a maioria de seus contemporâneos Queer, Heartstone é dirigido de uma forma sensível e realista, com um frescor cinematográfico que não oculta a densidade dos conflitos internos, a turbulência das emoções e a hostilidade social.







De maneira certeira, o filme captura as incertezas da sexualidade com sutilezas, levando em conta que Thor é o garoto de comportamento heterossexual que quer ganhar o coração da garota. Seu personagem é desenvolvido como o garoto destemido, de masculinidade notória. Por outro lado, Christian é mais tímido e de feições delicadas. É ele o primeiro a ter outros sentimentos pelo amigo e quebra os rótulos heteronormativos mesmo com os riscos de um ambiente inseguro e intolerante. Com isso, na construção da narrativa, uma das grandes belezas da dramaturgia em cena é que o afeto entre ambos passam por provações, porém, não é quebrado. Há o forte vínculo da amizade, evidência que intensifica o sofrimento, pois adolescentes precisam ter o chão que os amigos proporcionam e não querem perdê-los. A inquietude cresce ao passo que o primeiro  desafio é aceitar o desejo por um amigo ( e o de ser desejado por um do mesmo sexo) para, depois, também enfrentar a família, os vizinhos e demais conhecidos. 







Nessa perspectiva intimista sobre a juventude, amadurecer dói. Ela dói muito mais quando a experimentação  da sexualidade traz os pesos da dúvida, do (auto)preconceito, da angústia, do medo , da rejeição. Não é apenas a sociedade que pode rejeitar a homoafetividade, mas a própria pessoa que está descobrindo sua sexualidade também tem hesitações e intolerâncias como qualquer ser humano. O filme joga com esses dois aspectos:  o de quem tem os primeiros desejos pelo mesmo sexo e o de quem não sente a mesma coisa, o que ajuda a considerá-lo como uma produção cinematográfica acima da média e que abre espaço para  a aceitação e a reflexão sobre o tema. Com destaque, a madura performance de Baldur Einarsson representa um ponto de relevante tensão dramática já que é o personagem que dá o benefício da maior dúvida: ele sente algo a mais por Christian ou não?




Com maestria, Guðmundsson emula bem a sua experiência pessoal e a intenção como diretor. Primeiramente, realiza uma escolha crível pelos ótimos atores Baldur Einarsson e Blaer Hinriksson que mostram madurez em cenas comuns que poderiam ter o risco de não expressar o seu potencial dramático. Teve sensibilidade de realizar uma excelente direção de atores pois, parte considerável do êxito do roteiro e da direção, é a clara diferença entre Thor e Christian que  corrobora as diferentes aflições que se exteriorizam em enternecedoras cenas e pontos de vista. Thor, como a representação do garoto que gosta de meninas, reage mal, mas existe uma  belíssima lealdade a Christian que está acima de seus conflitos. Por outro lado, Christian, o garoto mais sofrido e humilhado pela família, toma a ação mais impulsiva e trágica da narrativa. Como um grito de desespero, Christian não aguenta o próprio âmago desesperado assim como tantos jovens  em fase de descoberta da sexualidade.


A naturalidade da câmera de Guðmundsson em um verão inquieto cria um contraste impressionante e basilar para a qualidade do longa. Ao mesmo tempo que os garotos estão vivenciando a intensidade do coming of age com todas as descobertas, dúvidas e angústias, a paisagem bucólica de uma longíqua vila de pescadores se opõe à natureza hostil das relações humanas. Por fim, Heartstone é um dos mais belos filmes da Escandinávia, profundamente angustiante, mas igualmente afetivo.




Ficha técnica do filme Imdb Heartstone

Fotos, uma cortesia por Pro Cultura

terça-feira, 5 de setembro de 2017

O Castelo de Vidro (The Glass Castle, 2017), de Destin Daniel Cretton





Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira de Cinema, especialista em Comunicação




Os dez primeiros minutos de "O Castelo de Vidro", adaptação para o cinema do best-seller homônimo de Jeannette Walls e dirigida por Destin Daniel Cretton é uma prova ao julgamento prematuro de qualquer espectador. Trazem aquele momento de hesitação se o filme funcionará bem ou não. Narrado como a biografia da autora sobre sua família disfuncional, o longa começa de uma maneira não muito atrativa, aparentemente mediano e apegado ao sentimentalismo dos dramas comerciais americanos. Subitamente, o filme começa a fluir na sua natureza dramática, conquista pelas beiradas, cresce nas atuações e mostra a importância da escolha de um bom elenco.








Ambientado no interior dos EUA e em Nova York e com uso de flashbacks que colaboram para o vai e vem de acontecimentos na família Walls, o filme tem Brie Larson, a vencedora do Oscar de melhor atriz por "O quarto de Jack" como a protagonista Jeannette. Alternando o papel com sua versão pré-adolescente, performada pela talentosa Ella Anderson, Brie Larson contracena com Woody Harrelson como seu pai Rex e com Naomi Watts no papel da mãe Rose Mary. Com destaque para a relação pai e filha, esse trio de atores é o responsável pelo filme não cair no sentimentalismo, considerando que a história tem eventos comuns e tristes em qualquer família como o alcoolismo, a pobreza, o fracasso e vários traumas da convivência e das ausências.






Rex e Rose Mary são os pais que defendem um estilo de vida nômade na criação dos filhos. Por incrível que pareça, o livro narra que o pai era averso a qualquer padrão mais confortável de vida, chegando a ser um sem teto. Mesmo em uma cultura americana que propaga a objetividade, a prosperidade e o sucesso individual, Rex e Rose Mary não acreditam nisso e impõe aos filhos  não ter acesso a uma infância abundante. O drama gira em torno de uma trajetória itinerante na qual os filhos têm dificuldades para estudar, estabelecer amizades e raízes, ter uma "vida normal"


Interpretado com natural maestria por Woody Harrelson, Rex é o adorável cabeça-dura que entre o jeito turrão, oscilante entre o mau humor e a graça, tem o amor dos filhos mas também provoca rejeição e conflitos. Jeannette é a filha mais próxima e madura, que confia, ama, tolera e aposta nos pais durante a infância mas que, na fase adulta, quer ter uma vida abastada e pensar em seu novo casamento e projetos. Nesses elementos dramatúrgicos, em especial no choque de personalidades entre Rex e Jeannette,  estão a principal espinha dorsal do drama e por conseguinte, o poder de encanto e empatia dessa cinebiografia.





Duas questões relevantes na experiência com o filme é perceber que a relação entre pais e filhos tende a ser tensa e contraditória por excelência. A outra é notar que essa família carrega uma faceta disfuncional que, na verdade, é normal e deveria ser tratada como algo natural, afinal não existem famílias de "comercial de margarina"



Sobre a primeira problemática, ao mesmo tempo que amamos os nossos pais e temos orgulho deles, podemos sentir raiva, vontade de crítica-los e se libertar de suas ideias e convicções. Nesse sentido, o elenco faz a diferença para catalisar esses sentimentos e o perfil de Brie Larson para essa personagem é muito adequado para atingir esse nível. Ela é uma atriz verossímil que consegue performar bem em situações muito dramáticas sem reagir exageradamente às emoções (o não ao fake overracting). Ela ainda conserva a densidade emotiva e esse domínio interpretativo faz dela uma excelente atriz para dramas independentes. Para uma criança (e mulher) que tem um pai alcoólatra fracassado e o ama muito, esse equilíbrio em cena é elogiável.




Sobre a segunda questão, acompanhar a trajetória de uma família disfuncional cria um elo de empatia, ou seja, é como dizer que "aquele problema entre pais e filhos ali em cena não é um problema apenas de Jeannette e seus irmãos, pode ter sido um problema meu em algum momento da minha vida ou de alguém que eu conheço ". Parte significativa da disfuncionalidade vem de Rex, por isso a experiência de Woody Harrelson é vital elevar a qualidade. Dele vem a mola propulsora dos conflitos. Rex tem os lados bruto e amoroso que contam muito para o realismo da história. Ele tem a incrível capacidade de ser amado e odiado em menos de cinco minutos. 


Os homens pais de família  que têm o vício do alcoolismo e são provedores instáveis despertam emoções bem contraditórias. Quem tem ou teve pai alcoólatra, sabe o quão traumático pode ser essa experiência para qualquer pessoa. Alguns vivem como vagabundos e fracassados que despertam muito mais esse paradoxo: ninguém os quer por perto pois são agressivos e obstinados mas também há aqueles que são acolhedores, autênticos e engraçados. Outros já são trabalhadores demais e começam a declinar na primeira dose de álcool da semana. Entre altos e baixos, eles vão despertando a compaixão. Assim é o Rex de Woody Harrelson, um fracassado teimoso e legal, um papel que caiu como uma luva para o ator. Nesse aspecto, o longa ganha bastante com seu personagem à medida que a narrativa evolui e Harrelson consegue projetar seu perfil cômico-dramático. As arrastadas duas horas são perdoáveis e os afetos pelos Walls surgem naturalmente.






O Castelo de Vidro traz o conforto de saber que, em pouca ou grande parte da vida, ter uma família disfuncional é um presente contanto que ela seja cercada de amor e união. E, verdadeiramente, a gente percebe onde o amor existe mesmo que as manifestações de afeto não sejam perfeitas, que os membros da família não saibam expressar seu amor de maneira cálida, que os conflitos tragam mais sofrimento que resoluções. O filme funciona bem como uma autoajuda e também expõe um vital ensinamento em tempos de intolerância e ódio: o lar importa, a família importa. Independente das dificuldades que uma família passa ou tenha passado, o lar  é o melhor porto seguro. E se ele não for um porto seguro, ainda vale a pena lutar para que ele seja.




Ficha técnica do filme Imdb O Castelo de Vidro

Fotos, cortesia Paris filmes


segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Lady Macbeth (2016), de William Oldroyd


Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira de Cinema, especialista em Comunicação 



Não se ignora o coração de uma mulher, mesmo que não a ame.  Este é um prólogo que se ajusta bem a Lady Macbeth, primeiro longa-metragem de William Oldroyd. Como a anunciação de uma tragédia que evoca a paixão, a obsessão e a independência de uma mulher,  o filme baseado no romance Lady of Macbeth de Mtsensk District, de Nikolai  Leskov, apresenta a jovem Katherine (Florence Pugh) em um casamento fadado ao fracasso. Em uma região rural da Inglaterra do século XIX, Katherine é a esposa de Boris Macbeth (Paul Hilton), um ríspido senhor bem mais velho que ela e que a trata como uma mercadoria. Para agravar a hostilidade que tenta fraquejar Katherine em variadas situações do cotidiano, o seu sogro Boris (Christopher Fairbank) reforça o assédio moral.





Em um nítido matrimônio de fachada, Katherine é constantemente ignorada, humilhada. As primeiras cenas já antecipam ao espectador que ela é uma mulher solitária que, em pleno frescor da juventude e seus desejos, tem um marido que não a satisfaz afetiva e sexualmente. A experiência de William Oldroyd como diretor de teatro vem a agregar um peso à narrativa como uma ópera que abre e fecha quadros de profunda dramaticidade da condição da mulher da época. A abordagem teatral na decupagem, fotografia e composição dos planos é convertida em uma misè en scene austera, de beleza irretocável, com enquadramentos que são como pinturas milimetricamente intercaladas e direcionam mais o olhar para o drama feminino. Resta ao espectador contemplar a brutalidade dessas relações humanas e ser a testemunha da violenta ruptura de uma mulher enclausurada que deseja viver suas paixões.




Lady Macbeth é uma provocante narrativa sobre a libertação de uma mulher. Sua pungente simbologia como romance e ópera filmada é sua capacidade de romper o desejo reprimido, tão sintomático nas expressões e ações de Katherine. Com a plausível atuação da competente Florence Pugh, envolta em mistério, sedução e audácia, a personagem não coloca limites para sua independência. Age com comando para não perder o controle, mas também está febril pela paixão. Sua turbulenta performance em cena é um chocante rompante, bastante impulsivo, mas que, como estratégia da conversão da repressão em liberdade, a violência é precisa, bem conduzida pelo diretor. Assim, este belo filme transita bem entre o rigor de um lar que cala a voz da mulher e vai em direção à uma explosão do desejo, do sexo e da crueldade. Ninguém estará livre dos violentos impulsos de Katherine, nem mesmo uma outra mulher, a empregada Anna (Naomi Ackie), igualmente uma personagem trágica, presa à submissão e com um desfecho desolador. A notável interpretação de Naomi Ackie contribui para o clima de temor e desconfiança nessa estranha casa e dá uma excelente tensão e suspeita no relacionamento dela com Katherine.





As cenas ardentes entre Katherine e Sebastian (Cosmo Jarvis) são essenciais para o desabrochar da rebeldia e da sexualidade contra essa tradição higienista nas relações afetivas. Katherine entrega seu corpo e coração a um empregado negro, bruto e irresistível. Ela encontra o orgasmo nos braços de um homem negro e pobre. Ela se deixa ser devorada pelas delícias da paixão em uma entrega realista, pulsante, sem preconceitos. Essa química entre eles é muito significativa na crítica social do filme, visualmente perceptível. O cineasta trabalha até mesmo a mudança de Katherine que antes se vestia com espartilhos apertados que sufocavam seu corpo e a deixavam de mau humor. Depois, ela se apresenta com os cabelos soltos, mostrando o corpo nu ou partes dele e fora das formalidades de senhora. Totalmente entregue à luxúria e aos perigos da traição, ela impressiona pelo jogo sedutor e sem freios. Toda combinação inter-racial e seus efeitos tão carnais e envolventes amplificam a relevância e magnitude da obra  em um contexto social que, por tradição, branquea o amor. 




É um relacionamento que é quase inexistente no Cinema Americano, mas o espectador poderá ver em filmes independentes como Lady Macbeth. Geralmente, o Cinema comercial não mostra um homem negro transando com uma mulher branca.  Ele pode sugerir, mas não enquadra a relação sexual em cena. É mais comum ver mulheres negras transando com homens brancos, fato que reforça as tradições colonialistas do senhor do engenho e da escrava. Felizmente, o roteiro de Lady Macbeth intensifica essa libido entre os amantes e não trata Sebastian como um mero objeto sexual, como os negros eram tratados antigamente e ainda o são. Em uma das cenas mais românticas, a natureza literária dos amores impossíveis é visível: Katherine está perdidamente apaixonada. Então, a relação não é apenas sobre prazeres sexuais.




Finalmente, o filme tem muito mais luz do que trevas e é esperado que possa iluminar algumas mentes ultrapassadas. Muitos acham que uma mulher apenas se liberta quando enlouquece. Esse pensamento, quando associado a descrédito e preconceitos machistas, é bastante equivocado e desprezível. Em um olhar mais superficial, Katherine parece tresloucada, mas não é. Para acentuar a força dramatúrgica, ela vai ao limite, assim, é uma mulher passional, inteligente e corajosa ainda que o drama retrate seu ímpeto cruel das paixões. O Cinema, o Teatro e a Literatura costumam utilizar comportamentos insanos como representações para reforçar a independência das mulheres, porém, a ferocidade feminina é eficaz nas Artes à medida que ela rebate a violência imposta por muitos homens às mulheres. É como metaforicamente "dar o troco na mesma moeda"


Violar a autoestima e o valor de uma mulher é uma das maiores violências e loucuras do mundo. A mesma mulher que ama, gera e cuida do ser humano é a mesma que continua sofrendo abusos e não é respeitada; portanto, se Lady Macbeth é uma obra que representa uma sociedade em 1865, depois de 152 anos, o romance continua contemporâneo e medular. Muitos ainda não aprenderam que a mulher é livre e dona do próprio desejo e afetos. 



Ficha técnica do filme IMDB Lady Macbeth

Fotos, uma cortesia California filmes


terça-feira, 29 de agosto de 2017

10 países, 10 filmes na Netflix para quebrar sua rotina

MaDame Listas
Filmes na Netflix
por Cristiane Costa





Com a comodidade de ter plataformas como Netflix a poucos segundos do controle remoto vem a responsabilidade de escolher bons títulos. Parece tarefa fácil, mas não é. Vários espectadores já passaram por aquele momento em que navegar pelas categorias do menu dura mais de 10 minutos (e até muito mais). Haja paciência para encontrar alguma novidade que faça valer a pena o tempo, não é mesmo? Mas, acredite! Quem procura bem, acha coisa boa!


Apesar do catálogo ainda carecer de grandes lançamentos com agilidade na disponibilização, Netflix é uma diversão imprescindível para alegrar os lares e tem um potencial cada vez maior de trazer títulos que não entrariam em cartaz ou que passam muito rápido pelas salas de cinema. Uma das maiores vantagens também é descobrir filmes de vários países que, não necessariamente, foram ovacionados em vários festivais e nem todos passaram pelos cinemas Brasileiros.

Pensando na sua comodidade, MaDame Lumière selecionou 10 filmes para você quebrar a sua rotina. Foram escolhidos 10 diretores(as) de diferentes países que se destacam na categoria de filmes estrangeiros e também para assegurar a diversidade na seleção.


Além dos longas serem ótimas diversões, eles tratam de temas de interessante apelo como o desejo e diferentes formas de prazer, a tradição e impactos familiares em histórias da Índia, Itália e Israel, o difícil universo da moda e da profissão de top model e outros temas como canibalismo, zumbis, homossexualidade,  paixão e relações de poder, amor e amadurecimento.

Esta seleção está imperdível! 

Boa sessão!

Cristiane Costa 
Editora e crítica de Cinema
MaDame Lumière





10. Top Model (The Model, 2016)
Diretor: Mads Matthiesen, Dinamarca


Quando o sonho de ser modelo, uma paixão obsessiva e os riscos do mercado da moda se encontram, uma jovem e sedutora mulher é levada a situações extremas. A top model Emma (Maria Palm) tem uma beleza misteriosa e desabrochante.  Seu tórrido caso de amor com o badalado fotógrafo Shane White (Ed Shrein) transforma o filme em um enigmático drama que denuncia o lado amargo do sedutor mundo fashion.






9. Queda livre (Freier Fall, 2013)
Diretor: Stephan Lacant, Alemanha

Um amor explosivo entre dois policiais, Marc (Hanno Koffler) e Kay (Max Riemelt) levam ambos a uma dramática queda livre em suas vidas. Marc está dividido entre a família e a opinião dos amigos, Kay está perdidamente apaixonado e ama com intensidade. As  boas atuações dos dois atores garantem cenas realistas que mostram paixão, sofrimento e desejos reprimidos.






8. Kiki, os segredos do desejo (Kiki, el amor se hace, 2016)
Diretor: Paco León, Espanha

Esta divertida comédia erótica é uma celebração de vários tipos de desejo e prazer: do amor a três à libido por pessoas que dormem, o longa liberta sem qualquer inibição diversas taras, sempre com diálogos engraçados e situações inusitadas. O mesmo espírito Almodovariano prevalece aqui, conta os segredinhos libidinosos, atiça a imaginação e esquenta a sessão.






7. A garota Húngara (Demimonde/Félvilág, 2015)
Diretor: Attila Szász, Hungria

As relações de poder, amor e sedução se desenvolvem na casa habitada pela prostituta Elza (Patricia Kovács) e suas duas empregadas, Rószi (Dorka Gryllus) e Kató (Laura Döbrösi). Um sedutor jogo de poder, obsessão, vingança e morte conduzem o espectador a um trágico desfecho e mostra que algumas histórias pessoais já nascem para ser tragédias sociais.





6. Raw (Grave, 2016)
Diretora: Julia Ducournau, França

Uma universitária vegetariana come carne durante o trote na faculdade. A partir daí, é possuída por um desejo voraz de devorar carne humana. Raw é cru como o título, um filme de horror sobre canibalismo com cenas viscerais de dar embrulho no estomago. A excelente atuação de Garance Marillier no papel de Justine cresce à medida que ela se torna mais letal em seu frágil corpo. Muito mais que um drama pessoal, Raw é um drama familiar.






5. Tempestade de Areia (Sufat Chol, 2016)
Diretora: Elite Zexer, Israel


Layla (Lamsi Ammar) é a jovem libertária que luta contra as tradições impostas por sua família  em uma aldeia beduína em Israel. Convivendo com pais rígidos e em conflito em um local pobre, silenciada até mesmo no direito a amar e negociada como mercadoria para um casamento, esse belo drama tem a força da rebeldia mas também a fraqueza imposta às mulheres por uma cultura tradicionalmente machista.





4. Masaan (Masaan, 2015)
Diretor: Neeraj Ghaywan, India

Com uma excelente direção que ganhou o prêmio Un Certain Regard de Cannes 2015, Masaan é um drama moderno que mostra a realidade dos jovens em uma Índia ainda tradicional e miserável. Com 4 histórias que se cruzam no roteiro, a repressão, o suicídio, a corrupção, a pobreza e o preconceito de castas surgem como subtemas entrelaçados a essa dramáticas realidades e fazem parte das duras consequências que impõem sofrimento e falta de liberdade às novas gerações. 






3. Invasão Zumbi (Train to Busan, 2016)
Diretor: Sang-ho Yeon,  Coréia do Sul




Uma história dinâmica sobre sobrevivência na qual os passageiros pegam o trem de Seul a Busan e fogem de um bando de zumbis. Com maestria, este é um imperdível zombie film Coreano que dá de dez a zero em muitos blockbusters americanos. O diretor Yeon assegura um ótimo ritmo, com uma combinação crível entre ação e drama familiar que garante momentos de tirar o fôlego e arrancar algumas lágrimas. O excelente elenco tem Yoo Gong  e Dong-seok Ma, respectivamente,  o executivo em redenção e o herói que rouba a cena e cuida da mulher grávida.





2.  Um sonho de amor (Io sonno L'Amore, 2009)
Diretor: Luca Guadagnino, Itália


A tradição dos Recchis, uma família industrial Italiana é colocada em xeque quando a refinada matriarca Emma (Tilda Swinton) cede ao desejo, amor e prazeres ao conhecer o chef Antonio (Edoardo Gabbriellini). O êxito (e sedução) do filme é a direção sensorial, envolvente e provocativa de Guadagnino que, com a excepcional atuação de Swinton, faz desmoronar o castelo de cartas desta riquíssima e conservadora família.






 1. Sing street : música e sonho (Sing Street, 2009)
Diretor: John Carney, Irlanda

Imagine um filme gracioso e agradável de assistir que reúne várias referências pop rock e cinéfilas e mostra um encantador rito de amadurecimento com muitas músicas cool, um garoto apaixonado (Ferdia Walsh-Peelo), uma musa inspiradora (Kelly Thornton) e uma turminha de amigos que montam uma banda? Imaginou? Ele é "Sing Street". Com um jeito criativo e descolado que não deixa a tradição dos músicos atrás e nem mesmo o lado deprê  da criação, John Carney realiza um longa nostálgico e, ao mesmo tempo, futurista para os jovens. Cheio de sonhos, romance e música, o filme retrata a época de escola, de descobrir músicas, de se apaixonar, fazer amigos e aspirar conquistas. Tem de tudo para tocar os corações de adultos e jovens.





Lista e ranking elaborados por Cristiane Costa para MaDame Listas

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

O mensageiro trapalhão (The Bellboy, 1960), de Jerry Lewis







Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira de Cinema, especialista em Comunicação 



Um dos grandes ícones da comédia, Jerry Lewis, faleceu neste último domingo (20  de Agosto) em Las Vegas, em decorrência de doença cardíaca. Aos 91 anos, o comediante já tinha um histórico de problemas no coração e havia passado por sérias complicações de saúde, entre elas,  câncer de próstata e fibrose pulmonar. Sua morte é aquela ocorrência que sempre será inaceitável para os admiradores de sua obra. 


Sua contribuição para o Cinema é tão diferenciada e única que ele, assim como Charlie Chaplin, Buster Keaton e Laurel & Hardy, rompem qualquer barreira entre vida e morte e continuam eternos na intersecção entre a memória do Cinema e a experiência e nostalgia do púlbico. Além de seu polivalente perfil com múltiplas habilidades como ator, diretor, roteirista, produtor, cantor, comediante, apresentador de TV, Jerry Lewis é o raro artista que desenvolveu a própria independência,  liberdade no processo criativo e o gerenciamento da carreira. 





Em O mensageiro trapalhão (The Bellboy, 1960), Lewis é o adorável mensageiro Stanley no hotel Fountainbleau em Miami Beach . Prestativo e trabalhador, ele encarna aquele funcionário que recebe ordens e as executa com dedicação e bom humor. Cria várias confusões absurdas e hilariantes.  Ainda que a intenção nunca foi ter um roteiro bem elaborado, Jerry brinca com situações bem comuns no show business.  A elite americana cercada de puxa sacos e afins em cenas como a  chegada de uma celebridade parecida com Stanley, uma competição de golfe e as relações de trabalho em luxuosos hoteis. Também, a opinião de Stanley não é solicitada e ele permanece mudo em grande parte do longa. Jogar luz na figura protagonista de um mensageiro não deixa de reunir a diversão com o tom provocativo.





O filme fez parte de uma nova fase de Lewis, quando ele inicia a direção em longas-metragens e não tinha mais dupla com Dean Martin.  Nos créditos iniciais, através da fala de um executivo, o espectador é avisado da modéstia da produção, de seu teor bobo e sem sentido. É exatamente aí que estão a graça e a curiosidade.  Quem quiser embarcar nas sequências do mensageiro trapalhão, já entra no clima do humor pastelão, apalermado, cheio de piadas. Realizado com forte improvisação, roteiro despretensioso e uma menor duração (72 min),  a comédia mostra o que Lewis se tornaria (e reforçaria) nessa época de ouro de seus longas-metragens como "Terror das mulheres" e "O professor aloprado" : um grande ator e palhaço para trazer o encanto dos absurdos. 


No longa, fica mais evidente que ele tem espetacular capacidade de protagonizar uma série de cenas (rápidos sketches) que exigem bastante preparo físico,  consciência corporal,  foco e competência de fazer performance pastelão. Também foi apoiado pelo videoassist, tecnologia que possibilitou que ele tivesse um controle maior da direção e da visualização de suas próprias cenas.  Sem dúvidas, os desafios do cinema mudo, da pantomima e da comédia maluca não são para qualquer um. Seu talento mímico é impressionante. Seu vigor para se arriscar na direção e, ao mesmo tempo, marcar seu estilo cômico é digno de aplausos. Seus gestos, expressões faciais e carisma são como uma impressão digital, um DNA.




Um dos maiores legados de Jerry Lewis foi sua dedicação à comédia, um dos gêneros mais difíceis de fazer. Muitas vezes e injustamente, ela é considerada de menor valor, sobretudo em uma cultura Americana que fincou suas bases cinematográficas em grandes épicos, dramas, musicais e westerns. Por essa importância e tantos risos e descontração, Jerry Lewis é um gênio imortal. Nem mesmo sua partida  poderá separá-lo dos corações cinéfilos.




Ficha técnica do filme IMDB O mensageiro trapalhão