quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

O lamento





Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação




O time dos diretores Sul Coreanos não costuma decepcionar, com Na Hong-ji e seu filme "Lamento" (The Wailing/ Gok-seong, 2016) não seria diferente. Com frescor em uma direção que não perde o foco e a autoconfiança no que está realizando, o longa é a prova mais recente de um horror sobrenatural que segura ao máximo o benefício da dúvida para o espectador. 



Ao longo de seus 156 minutos de duração, a história é envolvente e entrelaça uma série de cenas e twists que desloca o espectador para diferentes situações e direções. A constante dúvida e necessidade de descobrir o assassino é uma força atrativa mas também repulsiva, em especial quando um dos personagens que mais sofrem é uma criança, a pequena Hyo-Jin (Hwan-hee Kim), filha do policial Jong-goo (Do-wom Kwak).






Em uma pequena aldeia, vários assassinatos começam a acontecer. Tais acontecimentos são acompanhados de um clima macabro com aparente uso de magia negra e espíritos do mal. Com demais companheiros,  Jong-goo começa a  investigar as evidências, entretanto, inicialmente tanto o policial como seus colegas não estão efetivamente dedicados a encontrar o assassino.  


O diretor insere em cena o humor assim como o medo e a covardia de Jong-goo, detalhe que torna mais vivaz a transformação posterior do personagem. A investigação é levada a sério a partir do momento que Hyo-Jin tem comportamentos nada dóceis como o início de uma aparente possessão demoníaca. O pai inicia a jornada instintiva de proteger a filha, intensificando o efeito dramático do herói comum. 

O Lamento entrega um senso de direção muito sólido de Na Hong-ji. Mais maduro, cineasta vence o desafio de ter realizado um filme bastante longo a ponto do próprio tempo de duração não comprometer o resultado. Ele apreende toda a atenção para a desconfiança que toma conta da experiência, considerando que ali qualquer um pode ser o assassino e a natureza humana é testada a expurgar e enfrentar os próprios demônios. 




A cenografia, fotografia e direção de atores têm uma conexão bastante crível, na qual se conserva o espírito da tradição das histórias de fantasmas comuns na cinematografia asiática, mas também o diretor é consciente de não repetir o mais do mesmo, assim, o gore e o horror são sutis e bem combinados ao suspense e drama policial e ao contínuo clima de deixar o público sem qualquer certeza. O elemento humorístico é incluído de forma inteligente, até um mero xingamento da pequena Hyo-Jin carrega a dualidade do sofrimento e do cômico, coisas que determinados diretores asiáticos conseguem realizar com maestria.






Além da ótima performance de Do-wom Kwak, atrapalhado e vulnerável, o que possibilita criar um vínculo empático com o personagem e a figura de um pai comum que poderá ou não falhar, a grande estrela é Hwan-hee Kim que realiza uma atuação desafiadora para sua pouca idade. Não basta apenas mover o corpo  como se estivesse possuída pelo mal. Suas interações com o pai são sensíveis mas também tragicômicas. Por incrível que pareça, mesmo em meio ao sofrimento, há uma carga de humor em sua interpretação que poucas crianças poderiam realizá-lo sem cair no ridículo. 










Personagens coadjuvantes como a mulher misteriosa vestida de branco (Woo-hee Chun) e o homem japonês (Jun  Kunimura) realizam atuações fundamentais para o grande protagonista do filme: a dúvida. Suas aparições trazem a seguinte interrogação: culpado ou inocente? Quem são? A que vieram? Esse jogo narrativo do roteiro poderia ser uma manobra de tapeação do público, afinal, há vários filmes de horror que embromam o espectador e subestimam sua inteligência, entretanto, O Lamento provoca o lado detetivesco sem recorrer às velhas fórmulas do horror sobrenatural e amplia o olhar para variadas facetas e hipóteses. 







As mortes estão acontecendo, Hyo-Jin corre perigo e a presença de xamanismo parece ser a única solução para destruir o mal. Apesar de todos estes elementos narrativos, a história está além do espaço e o do tempo, ela ganha um plano mais fantasmagórico em uma realidade que podemos imaginar dentro e fora da história. Não existem certezas na ambivalência do ser humano e a violenta paisagem pintada por Na Hong-jin é apenas mais uma ponta desta  misteriosa ambiguidade. 


Com uma mescla de gêneros coesa e vertentes espirituais, O Lamento é um excelente trabalho de direção, equilibrado e refrescante em todos os sentidos e imperdível para os fãs e não fãs do gênero. Faz perceber que nós, como humanos, também somos fantasmas de carne e osso, que diversas vezes não saberemos como distinguir o bem e o mal e conviver com eles como aceitação e destino. Somos ambíguos por natureza  e talvez alguns  de nossos pecados nunca serão perdoados. 




Ficha técnica do IMDB O lamento 










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