quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

O Túnel






Por Cristiane Costa,  Editora e blogueira crítica de Cinema, especialista em Comunicação




É esperado que filmes catástrofe tragam bastante sofrimento, superação e lições de vida, assim, este senso comum é recorrente em situações nas quais a vida é colocada em risco. Entretanto, o que faz a diferença em um bom Cinema desastre? É exatamente não perder o humor e nem aquele fino fio de esperança. Neste caso, O Túnel (Teo-neol/ Tunnel, 2016)  de Kim Seong-hun é uma das gratas surpresas do Cinema Coreano, uma combinação de drama e suspense de tirar o fôlego, rir e arrancar algumas lágrimas. 





Entre momentos engraçados e tensos, o diretor articula um daqueles filmes no qual o protagonista é levado à exaustão, com pouca chance de sobrevivência. Jung-Soo (Jung-woo Ha) está tranquilamente dirigindo seu carro para encontrar a sua família quando, abruptamente, fica encurralado em um túnel. Preso entre as ferragens do carro, permanece ali com dificuldades de contato com a civilização, escassas água e alimentação e baixa carga de celular.


Diferente do Cinema Ocidental que, na maioria das vezes, não tem tanto tato e criatividade para expressar emoções sutis e usa catástrofes em um roteiro previsível, Kim Seong-hun abre o leque de possibilidades, tanto críticas, ridicularizando a mídia, a empresa e o governo, como também se aproxima de uma dimensão bem particular do protagonista em situações nas quais sua humanidade, em especial, a compaixão, o autocontrole e a esperança são colocadas em provação. 


O bom modus operandi da narrativa é o equilíbrio entre as esferas individual e coletiva e como a tragédia afeta de forma distinta cada uma destas dimensões. No plano individual, além de Jung-Soo, sua esposa Se hyn (Doona Bae, de Sense) e o engenheiro Dal-su  Oh (Dae Kyoung) passam por situações que exigem tomadas de decisão com respeito à vida e que agregam valor dramatúrgico e diferenciado à obra. São eles que formam o trio emotivo no qual o ser humano é testado em sua empatia, preocupação com o próximo e crença na sobrevivência.








Do outro lado, o plano coletivo é muito mais anônimo, vazio e egoísta. O diretor realiza a crítica social na qual o capitalismo e os lucros das construções civis mal realizadas estão acima da vida humana. Em cena, surgem governantes, assessores, jornalistas, empresários e não é possível se conectar a nenhum deles. São personas ridículas e a ridicularizar que pouco se preocupam com os outros. Em uma das cenas hilárias, a mídia é tão sensacionalista que, junto com o riso, vem a vergonha alheia.  Desta forma, embora necessária ao filme, a dimensão coletiva escrava de interesses capitalistas  e midiáticos e negligente com relação ao valor humano é muito medíocre.  Kim Seong-hun acerta o tom com um bom balanço entre essas duas dimensões: a importância da vida x o esvaziamento do ser humano.


No seu melhor, O Túnel conquista pela gentileza humana em situações aparentemente banais, principalmente quando, mesmo na iminência de morrer a qualquer momento, Jung-Soo é capaz de olhar para o outro, para um semelhante, para um animal.  Com altos e baixos entre a esperança e o desânimo, ele torna o filme mais palpável, assim,  há uma graça no ator que naturalmente faz qualquer um torcer por ele. As melhores cenas ocorrem dentro do túnel e com ele, evidência que reforça o vigor e fôlego da direção de  Kim Seong-hun e a ótima parceria com Jung-woo Ha . 


Entre escombros e com total controle das possibilidades de espaços, o diretor realiza uma das coisas mais difíceis na execução de planos  em lugares estreitos, reduzidos e claustrofóbicos: ele mostra bem mais o movimento pela vida, a esperança por uma pequena fresta de luz em algum lugar do túnel.  





Ficha técnica do filme IMDB O Túnel 








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