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Por Cristiane Costa, Editora e Crítica de Cinema | Especialista em Comunicação e Projetos
O horror, na sua potência mais cinematográfica, revela-se verdadeiramente eficaz quando abdica da obviedade para sustentar uma atmosfera onde a segurança é uma ilusão e a percepção é constantemente desafiada.
Nesse território, o desconforto e o mistério caminham em simbiose, exigindo do espectador uma entrega ao que não é percebido instantaneamente, mas que se infiltra de forma persistente nos sentidos.
No entanto, o que de fato evoca o medo mais profundo não emana do sobrenatural, e sim da constatação de que o ser humano é, em sua essência, um campo de forças onde a confiança raramente sobrevive à complexidade das intenções.
Por ser intrinsecamente difícil trabalhar com o que temos de mais vulnerável e, simultaneamente, com o que há de pior em nossa natureza, o horror torna-se um gênero de raríssima coesão, transformando qualquer tentativa de "dar a liga" correta em um projeto de alta ambição intelectual.
Em A Hora do Mal (Weapons, 2025), essa premissa ganha contornos de urgência ao estabelecer um marco temporal fatídico: de madrugada, às 02h17. O desaparecimento súbito de um grupo de crianças oferece ao espectador um enigma magnético que sustenta a narrativa: onde estão elas? Qual a força motriz por trás desse sumiço e por que, em uma turma inteira, apenas uma restou?
Essas questões conduzem o espectador ao mistério que envolve a sobrevivente, o que a torna estranha ou singular perante o abismo, e ao fio condutor que nos leva a questionar as figuras de autoridade ao redor, restando saber se a professora, vivida por Julia Garner, encarna o arquétipo da bruxa má ou se o mal é algo muito mais difuso e entranhado no cotidiano.
Nesse ponto, a metamorfose do ser em objeto não se manifesta através dos recursos narrativos habituais do gênero. Não estamos diante de zumbis tradicionais, mas de seres humanos que, ao sofrerem um distanciamento total de suas conexões empáticas, tornam-se cascas desprovidas de emoção, prontas para serem manipuladas por rituais de destruição.
Essa simbologia é poderosa e cruelmente real: o filme sugere que a desumanização é um processo prévio à violência. Uma vez que o indivíduo se desconecta do outro, ele deixa de ser um par para se tornar uma arma, muitas vezes influenciado por forças igualmente corrompidas.
Essa mecânica niilista revela uma engrenagem de trauma que parece não oferecer saída, operando dentro dos núcleos que deveriam ser de proteção: a família, o casal, as instituições. É nesse ponto que o filme ganha a densidade necessária, apenas quando a narrativa se abre para as performances de Garner e, especialmente, de Amy Madigan.
Recém-premiada com o Oscar 2026 de Melhor Atriz Coadjuvante, Madigan é quem salva o filme depois da espera paciente que o roteiro provoca, trazendo a gênese do mal; uma figura mergulhada em frustração e dor que, ao recusar-se a ser contrariada, exerce um controle letal sobre os demais. Através dela, o horror deixa de ser uma perseguição genérica para se tornar uma questão de intenção, má vontade e controle.
Entretanto, a ambição do diretor Zach Cregger esbarra em uma estética de antecipação que testa a paciência do espectador de forma arriscada. Ao contrário de obras como Hereditário ou Midsommar, que sustentam uma pressão psicológica constante através de um storytelling rigoroso, o roteiro aqui gasta um tempo excessivo antes de revelar o modus operandi da vilã.
Essa demora dilui o desconforto inicial, deixando a impressão de uma narrativa que hesita em entregar o seu melhor trunfo. O horror, então, passa a residir na banalidade das escolhas: o mal surge como uma visita inofensiva, um acolhimento a quem precisa, mas que se revela uma ameaça letal.
No geral, Cregger teve uma boa ideia e foi ambicioso, mas a narrativa demora a engajar. Se não fosse pelas atrizes femininas, especialmente Garner e Madigan, o filme correria sério risco de se tornar um fiasco, uma vez que até mesmo Josh Brolin acaba sendo pouco aproveitado em sua real potência dramática.
Em síntese, o que resta é o recorte da fragilidade humana lubrificado pelo medo e pelo egoísmo, elementos que revelam uma sociedade em declínio. O perigo não reside na carência de pertencimento, mas justamente na intolerância e na incapacidade de estar aberto ao outro.
Essa dinâmica se conecta profundamente com a contemporaneidade e a angústia instalada no coletivo. O filme nos deixa com a inquietação de que todos somos potencialmente letais, movidos pelas razões que acreditamos ser as certas, reduzindo nossa existência à frieza de um objeto de destruição.
Imagens. Divulgação.




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