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Crítica | Sirât (2025)

 



#CinemaEuropeu#CinemaEspanhol #Marrocos #Drama #CríticaSocial #Niilismo #ElDeseo #OliverLaxe #PedroAlmodovarProdutor




Por Cristiane Costa,  Editora e Crítica de Cinema | Especialista em Comunicação e Projetos




O cinema de Oliver Laxe é frequentemente definido por travessias que transcendem o deslocamento físico para alcançar um estado de suspensão metafísica. Em Sirât, produzido pela El Deseo, essa busca ganha contornos de um road movie existencial que utiliza o deserto do Marrocos como palco para uma jornada melancólica e árdua. 


A premissa de um pai, Luis (Sergi López), em busca de uma filha desaparecida funciona como um chamariz narrativo que, gradualmente, perde fôlego em favor de uma imersão sensorial. Nota-se, contudo, uma lentidão latente que precede a própria busca, manifestada na indagação sobre o tempo transcorrido até o início da jornada. Esse desespero intrínseco, embora avesso ao melodrama, revela-se no sacrifício de cruzar um território hostil na companhia de nômades contemporâneos, cujas vidas são pautadas pelo niilismo das raves ilegais.





Diretor Oliver Laxe no making do filme. Divulgação.




Essa travessia não se dá apenas pela imagem, mas também pelo som, que emerge como personagem central e, por vezes, intrusivo. A técnica apurada cria um design sonoro que transita entre o intrigante e o insuportável, funcionando como um recurso que reflete o modo de vida alucinógeno e distante do grupo de ravers. O ruído eletrônico atua como uma manifestação de autenticidade daqueles que buscam no som uma viagem existencial ou uma fuga de uma realidade repressiva. Entretanto, essa tentativa de escape é confrontada pela crueza do ambiente marroquino, filmado por Laxe com uma permanência que contrasta com o trânsito dos personagens. O deserto estabelece-se como testemunha solitária, uma dicotomia viva entre a oportunidade de saída e a prisão imposta por um solo que é, literalmente, um campo minado.



Essa construção sonora e visual encontra eco no reconhecimento técnico da obra, amplamente celebrado no Prêmio Goya, onde o longa conquistou seis estatuetas, incluindo Melhor Fotografia, Música Original e Montagem. A vitória em Melhor Som estabeleceu um marco histórico ao premiar, pela primeira vez, uma equipe composta exclusivamente por mulheres, com Laia Casanovas, Yasmina Praderas e Amanda Villavieja. Esse reconhecimento técnico, que se estende às indicações ao Oscar 2026 nas categorias de Melhor Som e Filme Internacional, valida a periculosidade da travessia como algo permeado por riscos físicos, mas essencialmente psicológicos.








Para além do rigor técnico, a narrativa se sustenta na solidariedade rústica entre o grupo e a família de Luis, fundamentada na sobrevivência mútua dentro de um inferno real que abrange desde a opressão social até as dificuldades intrínsecas da vida. A figura do filho, Esteban (Bruno Núñez), é o elemento que ancora essa experiência em camadas de afeto e autenticidade. Como uma criança em transição, que foge aos padrões normativos de acolhimento social, o menino torna-se o ponto de luz em meio ao niilismo do deserto. Sua presença humaniza a jornada, oferecendo leveza e esperança através de gestos simples, como a lealdade ao pai ou a busca pela irmã.



Essa centelha de esperança, contudo, é confrontada pelo sadismo fatalista da direção. O desfecho revela-se frustrante ao interromper a única via de esperança da narrativa, gerando um choque que altera a percepção do público sobre as consequências subsequentes. Ao optar por um rumo apressado e punitivo para a figura da criança, o filme parece sugerir que o inferno é uma constante inescapável em qualquer travessia sob condições hostis. Essa escolha impacta negativamente o equilíbrio do longa, transformando a melancolia existencial em uma constatação amarga de que a vida, em territórios de exceção, é um campo minado natural onde o risco não garante a redenção.








Assim, o encerramento reafirma a travessia como suspensão existencial, onde o silêncio traduz o vazio. Embora careça de inovação, o desfecho demonstra coerência com a trajetória de esvaziamento proposta. O silêncio que se estabelece no ir e vir dos personagens traduz uma melancolia existencial perene, independente de para onde se vá ou do que se tente escapar. O título Sirât, remetendo à ponte estreita, acaba por representar não uma superação espiritual gloriosa, mas a constatação de que o esforço para manter-se vivo é uma fuga contínua. Resta ao espectador o desconforto de uma obra que, ao filmar o misticismo do deserto, acaba por encontrar apenas o eco de um vazio que nenhuma rave ou afeto parece capaz de preencher totalmente.




3.5





Imagens Retrato filmes. Divulgação.

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