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Crítica | A Geopolítica do Des-pertencimento em 13 Dias, 13 Noites

 



Lançamento nos Cinemas: 26 de Março #CaliforniaFilmes


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Por Cristiane Costa,  Editora e Crítica de Cinema | Especialista em Comunicação e Projetos




O filme não precisa contar todos os detalhes de um conflito, mas equilibrar o recorte narrativo com nuances do que é ser humano em uma crise sócio-política é uma boa escolha para trazer um evento histórico para a contemporaneidade e nos fazer refletir sobre o compromisso pelo valor da vida.



Nesse sentido, o diretor Martin Bourboulon, baseando-se no livro autobiográfico do comandante Mohamed Bida, traz o longa 13 Dias, 13 Noites. A trama nos transporta para o agosto de 2021, em uma Cabul asfixiada pela iminente retomada do regime Talibã, onde a embaixada da França resiste como o último posto ocidental aberto. Interpretado com sobriedade por Roschdy Zem, Bida personifica a liderança que emerge do caos; chefe da segurança em meio ao desespero de quinhentas pessoas em busca de refúgio, ele se torna o condutor de uma missão que beira o impossível.





Diretor Francês Martin Bourboulon. Divulgação. 



Embora o cenário sugira um filme de ação convencional, a obra se sustenta como um thriller político de contenção, onde a verdadeira tensão não reside em reviravoltas mirabolantes ou no aprofundamento psicológico denso dos personagens, mas, ao contrário, está na precisão técnica e diplomática da evacuação. A virtude do roteiro reside em destacar a inteligência estratégica de Bida sob pressão extrema. Sua preocupação genuína com o destino humano em meio à debandada das tropas internacionais revela um herói pragmático, cuja maior habilidade é a de manter a integridade ética enquanto o mundo ao redor desmorona.



Dentro dessa perspectiva, a estética de Bourboulon evoca uma gramática visual que remete a produções consagradas como a série Homeland, conferindo à obra o vigor de um blockbuster francês sem esvaziar a densidade do conflito.



A direção de arte opera em um equilíbrio preciso entre a clausura da embaixada e a iminência do perigo externo, utilizando uma paleta de cores densa e ambientes predominantemente fechados que acentuam o isolamento da missão. À medida que a evacuação se aproxima, o uso estratégico de cenas noturnas potencializa o suspense, transformando o risco de um ataque terrorista em uma presença simbólica e onipresente, que dispensa a personificação física do antagonista para se manifestar como um clima de insegurança asfixiante.








Essa tensão atinge seu ápice na coreografia visual do comboio, onde a fileira de veículos em direção ao aeroporto se torna um emblema da vulnerabilidade institucional frente ao caos urbano de Cabul. Nesse percurso, paira a contínua ameaça de que, em países tomados pelo terrorismo, qualquer plano tático pode falhar diante da mudança repentina de estratégias dos extremistas ou da perseguição gratuita destinada a oprimir e punir aqueles que buscam a liberdade. O comboio, portanto, não é apenas deslocamento físico, mas metáfora da fragilidade humana diante da arbitrariedade da violência.



Já nas sequências que retratam o aeródromo, a cenografia e a fotografia abandonam o rigor militar para capturar o desespero cru da população local, em composições que tangenciam o horror coletivo e evidenciam como o terrorismo desfigura a vida comum. Ao mostrar o povo afegão em uma busca desesperada por sobrevivência, o filme utiliza esse contraste visual para reforçar que, para além da estratégia de retirada, o que está em jogo é o desmoronamento do senso de pertencimento e a urgência de preservar a dignidade humana em meio à decadência imposta pela violência.





Atriz Argelina Lyna Khoudri e ator e cineasta Franco-Marroquino Roschdy Zem. Divulgação.



A escolha de Roschdy Zem para encarnar o comandante Bida revela-se um acerto pela autenticidade e pelo vigor que o ator imprime à tela, valendo-se de sua ascendência para conferir uma camada de realismo que foge ao padrão europeu convencional. Com uma presença que equilibra uma rusticidade física à sobriedade necessária a um gestor de segurança, Zem entrega um personagem cuja autoridade não emana de um autoritarismo vazio, mas de uma profunda confiança técnica e retidão moral.



Embora o roteiro não se debruce em excessivas camadas psicológicas, a eficácia do protagonista reside justamente nesse pragmatismo humanista; Bida é o eixo de uma diplomacia de campo que, mesmo sob a ameaça direta do regime extremista, prioriza a preservação da vida sobre o protocolo rígido. Estabelece, com seus pares, como Martin (Christophe Montenez), uma relação de respeito fundamentada na competência e na empatia.





Atriz Dinamarquesa Sidse Babett Knudsen. Divulgação.




Essa dinâmica de liderança ganha contornos de maior dinamismo na interlocução com as figuras femininas que personificam a coragem em zonas de alta vulnerabilidade. A presença da tradutora franco-afegã, Eva (Lyna Khoudri), introduz uma camada quase surreal de perigo, dada a opressão sistêmica do regime local, servindo como uma ponte vital entre a embaixada e o fundamentalismo.



Ao lado dela surge a jornalista Kate (Sidse Babett Knudsen), que reforça o compromisso da imprensa e da sociedade civil que não desistem do outro, mesmo em cenários de desolação absoluta. Ao relegar os antagonistas a um papel quase figurativo, o diretor inteligentemente desloca o conflito para o campo psicológico, onde o verdadeiro adversário é o medo e a insegurança, permitindo que o brilho da obra resida na resiliência daqueles que escolhem proteger a humanidade.








A narrativa opera, portanto, em uma zona de intersecção entre o fôlego do entretenimento e a sobriedade do drama de observação, utilizando o recorte da evacuação para expor a face mais aguda do des-pertencimento. Ao situar o espectador no epicentro de uma capital em colapso, o filme abdica da dramatização excessiva para focar na crueza da única saída possível: o exílio compulsório.



Essa perda da terra, longe de ser um alívio, é apresentada como uma fratura identitária profunda; para o povo afegão, a fuga não é uma escolha, mas um escape desesperado de um território que deixou de ser seguro para se tornar o palco de um silenciamento imposto. O diretor evita o clichê ao mostrar que, mesmo para os sobreviventes que logram atravessar os portões do aeroporto, o que resta é a melancolia de quem se torna estrangeiro de sua própria história.








Essa sensação de derrota humanitária reverbera até mesmo na figura do comandante Bida, cuja jornada se encerra não com o triunfo do herói, mas com a tristeza de quem testemunha o desmoronamento de uma missão e de um povo com o qual criou laços. O filme é bem-sucedido ao não romantizar o conflito, deixando espaço para que o público reflita sobre a impossibilidade de diálogo com o extremismo e sobre como, no tabuleiro da geopolítica, o civil comum é sempre o primeiro a perder o solo sob os pés.



No desfecho, o que ecoa não é apenas a tensão da retirada militar, mas a dor do distanciamento físico e emocional de uma terra que, embora ocupada, permanece viva na memória de quem foi forçado a deixá-la para trás apenas para garantir o direito fundamental de sobreviver.




3,5


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