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Crítica | Valor Sentimental: A Anatomia da Ausência e a Linguagem da Arte

 




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Por Cristiane Costa,  Editora e Crítica de Cinema | Especialista em Comunicação e Projetos




Em Valor Sentimental (Sentimental Value, 2025), o cineasta norueguês Joachim Trier alcança o ápice de sua maturidade artística. Se a "Trilogia de Oslo" (Reprise, Oslo, 31 de Agosto e A Pior Pessoa do Mundo) focava nas crises de formação e identidade da juventude, aqui Trier opera em uma nova fase: a da reconciliação com o passado e com a herança emocional. É uma obra universal, que utiliza a "carne" do cinema para explorar a memória familiar como um organismo vivo. Esse movimento marca uma transição importante na filmografia de Trier: de narrativas centradas na juventude e no presente imediato, para uma reflexão sobre o peso da herança emocional e a necessidade de confrontar o passado.









O filme é mais um fruto da parceria histórica entre Trier e seu coroteirista Eskil Vogt. A dupla, reconhecida por equilibrar naturalismo e densidade filosófica, constrói diálogos que nunca soam expositivos. Eles entendem que, em uma família marcada pelo luto materno e pela ausência paterna, a verdade mora no espaço entre as palavras. A escrita de Vogt permite que o silêncio seja tão informativo quanto o texto, exigindo do espectador uma escuta ativa para captar o subtexto das mágoas não resolvidas que o tempo não foi capaz de apagar instantaneamente. Essa parceria, já consolidada em obras anteriores, reafirma aqui sua força: o roteiro não apenas descreve, mas cria espaços de silêncio e pausa que exigem paciência e atenção, transformando o espectador em participante ativo da experiência.










A direção de Trier utiliza a arquitetura da casa da família como um personagem constante. Através de um design de interior minucioso e uma fotografia que utiliza a luz fria da Noruega para esculpir a melancolia, o espaço geográfico deixa de ser apenas cenário. Rachaduras nas paredes, a câmera posicionada diante das portas e a acústica que permite ouvir o eco de outros cômodos sugerem que a casa é a memória física daquelas ausências. O cenário atua como um catalisador para a resolução do conflito, onde o vazio do abandono de Nora encontra um lugar para finalmente repousar. Além disso, o ritmo visual, com planos longos e cortes discretos, acompanha o tema da ausência, criando uma cadência contemplativa que reforça a sensação de suspensão e de tempo dilatado.





A escolha de Renate Reinsve para o papel de Nora é de uma sensibilidade ímpar. Ela encarna uma mulher madura, cujos ciclos não resolvidos com o pai, o cineasta Gustav Borg (Stellan Skarsgård), a impedem de avançar. O filme evita o sentimentalismo fácil ao tratar o perdão não como um evento, mas como um processo doloroso. A reconciliação ocorre por meio da arte como único idioma comum: quando as filhas leem o roteiro escrito pelo pai, a metalinguagem se torna o espaço onde a família consegue finalmente se comunicar.










A força da obra transborda para as categorias de atuação. Stellan Skarsgård entrega uma performance tão nuançada que, após vencer o Globo de Ouro 2026, surge como a ameaça definitiva à hegemonia de Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra), que detém o BAFTA e o SAG. Skarsgård oferece a exceção humana e contida que pode arrebatar o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Somam-se a ele as atuações de Elle Fanning (Rachel Kemp) e Inga Ibsdotter, ambas indicadas merecidamente ao Oscar 2026 de Melhor Atriz Coadjuvante. Rachel, ao confrontar Gustav, retira o cineasta de sua bolha de gênio, enquanto o diálogo entre as irmãs no terceiro ato é o estalo necessário para que Nora aceite as camadas emocionais de cada um, entendendo que nem toda mágoa precisa de uma resolução verbal para ser superada.




Valor Sentimental é um forte concorrente a Melhor Filme e Filme Internacional, apresentando-se como o contraponto perfeito ao brasileiro O Agente Secreto. Enquanto Kleber Mendonça Filho foca na memória política e coletiva, Trier mergulha na memória privada e celular. É um filme fascinante que prova que o silêncio final pode dizer muito mais do que qualquer perdão verbal, respeitando a integridade de seus personagens e a inteligência de quem os assiste. A recepção internacional em festivais como Cannes e Berlim confirma essa leitura: críticos estrangeiros destacam a maturidade de Trier e sua recusa ao sentimentalismo fácil. Sua obra exige uma escuta ativa e paciente, reafirmando o lugar do cinema como linguagem artística capaz de traduzir o indizível.




4,5



Imagens de Kasper Tuxen Andersen. Divulgação fotos por  Retrato filmes.


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