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Por Cristiane Costa, Editora e Crítica de Cinema | Especialista em Comunicação e Projetos
Dirigido e roteirizado por Emmanuel Poulain-Arnaud, o longa francês Olhe o Mar (Regarde) ancora sua narrativa na praia de Hossegor, destino de surfe consagrado no sudoeste da França, para investigar as complexas dinâmicas de uma reconciliação forçada pelas circunstâncias. Na trama, um casal divorciado, Audrey Fleurot e Dany Boon, precisa deixar de lado suas divergências e redescobrir antigos laços familiares diante de uma realidade incontornável: a cegueira inevitável do filho Milo, vivido por Ewan Bourdelles.
Inspirado em suas próprias vivências de superação diante de um diagnóstico de câncer, o realizador utiliza o cenário litorâneo e a prática do surfe adaptado como catalisadores sensoriais para o rapaz, escolhendo o tom da comédia humana para tatear a dor. Através desse olhar, o filme busca extrair leveza do desconforto gerado pelo choque do drama, transformando a provação em um espaço de redescoberta do afeto.
Embora o diretor acerte ao abordar uma condição de saúde tão delicada sob esse prisma mais suave, priorizando a reaproximação dos pais, o roteiro abdica de oportunidades valiosas para explorar a gravidade da perda da visão. Uma atenção maior aos conflitos internos de Milo, desafiando-o a compreender a real complexidade de sua nova condição, traria equilíbrio mais robusto entre dureza e humor, permitindo ao público acompanhar seu amadurecimento. Ainda assim, fica evidente que não existe fórmula exata para o luto; cada indivíduo vivencia a própria dor através de nuances particulares, oscilando entre o peso da negação e o alívio da simplificação.
Esse percurso ganha diferencial no carisma e na experiência técnica do elenco principal. Audrey Fleurot e Dany Boon demonstram um tempo de comédia natural, essencial para humanizar as vulnerabilidades daquele núcleo e envolver o público de maneira espontânea. Contudo, essa busca pela organicidade faz com que personagens secundários sejam pouco explorados, como o avô Nicolas Marié, cujo afeto na relação com o neto merecia mais espaço. O próprio Milo, em sua aparente facilidade em lidar com o diagnóstico, sugere uma aceitação que por vezes encobre seus medos, escolha diretiva que visa manter a atmosfera o mais palatável possível.
Divulgação: Autoral filmes.
É justamente no refúgio bucólico da casa do avô, distante da frieza burocrática das clínicas médicas e das consultas de reabilitação, que a narrativa encontra sua verdadeira força de coesão. Ao introduzir o mar e a presença de Nina (Amalia Blasco) como interesse afetivo do rapaz, a obra utiliza o surfe adaptado como símbolo potente de libertação e autonomia. Embora a direção demore a introduzir o esporte, tratando-o mais como ambientação do que núcleo dramático, o isolamento litorâneo funciona como verdadeiro fortalecedor emocional daquela família.
Olhe o Mar encerra-se não como estudo clínico sobre a deficiência, mas como tratado bem-humorado sobre como o afeto compartilhado e o contato com a natureza preparam o espírito para enfrentar os desafios mais profundos da impermanência humana.
Créditos imagens: Autoral filmes.



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