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Por Cristiane Costa, Editora e Crítica de Cinema | Especialista em Comunicação e Projetos
Após uma circulação premiada por festivais, o longa de estreia de Carol Rodrigues, Criadas, propõe um mergulho nas estruturas invisíveis e incômodas que moldam as relações afetivas e de poder no Brasil. A narrativa acompanha o reencontro entre as primas Sandra (Mawusi Tulani) e Mariana (Ana Flavia Cavalcanti), que cresceram sob o mesmo teto, mas separadas por barreiras intransponíveis.
Sandra, mulher negra retinta, retorna à antiga casa da infância em busca de memórias da mãe, Ivone (Ivy Souza), que exerceu ali a função de trabalhadora doméstica. Mariana, negra de pele clara, agora ocupa o imóvel como proprietária, herdeira de uma prosperidade que evidencia as contradições do colorismo e do apagamento de classe.
O filme desenha uma tensão familiar profunda que opera em chave dúbia: ao mesmo tempo em que as duas compartilham um passado comum, transitam como estranhas. Há uma revivescência dolorosa de traumas estruturais, manifestada sobretudo através da presença de Sandra. O texto fílmico deixa evidente que, embora criadas juntas, o papel de filha da trabalhadora da casa impunha a Sandra uma distância simbólica, gerando constante oscilação entre aproximação e retraimento.
Essa quebra de confiança e o desconforto permanente que permeiam a obra revelam uma das engrenagens mais perversas do racismo estrutural: a capacidade de projetar cisões e tensões dentro do próprio grupo, corroendo laços que deveriam ser de acolhimento.
Para dar vazão a esse sufocamento, a direção transforma a casa em personagem central e paradoxal, onde o conforto material do espaço colide com o desconforto das interações. Carol Rodrigues mescla drama psicológico, realismo fantástico e horror subjetivo como tentativas de transcender o cotidiano doloroso daquelas memórias através de metáforas.
No plano da linguagem, essa imersão fantástica por vezes carece de maior profundidade. A força da encenação reside mais na recordação e no silêncio do espaço do que nos artifícios de gênero. O filme opta por diálogos intencionalmente secos, pouco aprofundados na vertente dramática convencional. Essa escolha mimetiza a própria natureza do trauma: a dificuldade de nomear o que fere e lidar com cicatrizes históricas nunca totalmente elaboradas.
Esse desenho de fricção interna ganha relevo na interpretação do elenco principal. O carisma e a entrega técnica de Mawusi Tulani e Ana Flavia Cavalcanti sustentam o peso da obra, mesmo quando a narrativa escolhe caminhos árduos. Sandra busca ascensão socioeconômica através da engenharia, contraponto à estagnação velada de Mariana, cuja ausência de letramento racial revela sua falta de pertencimento em uma elite que a tolera sem absorvê-la.
A chegada de Raquel (Rudmira Fula), imigrante angolana que assume o serviço doméstico na casa, introduz nova camada de complexidade geográfica e geracional à diáspora. Sua presença explicita que a engrenagem colonial permanece ativa, apenas trocando de corpos e papéis.
A ética que rege os bastidores do filme, com equipe majoritariamente composta por profissionais negros, mulheres e pessoas LGBTQIAP+ em modelo horizontal, reflete-se na identidade visual que rejeita a homogeneidade estética do mercado tradicional. A fotografia de Julia Zakia valoriza corpos periféricos e retintos, filmados fora dos estereótipos de criminalidade ou submissão.
Ao retratar sujeitos contemporâneos que estudam, disputam espaços e enfrentam suas contradições, Criadas se estabelece como obra aberta e desafiadora. Seu desfecho, metafórico e flutuante entre sonho e realidade, não oferece conciliações, consolidando o filme como tratado denso sobre a permanência das estruturas coloniais na intimidade e a dolorosa busca de mulheres negras pela autoria de suas próprias histórias.
Fotos créditos: Vitrine filmes. Divulgação.


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