Lançamento nos Cinemas: 04 de Junho.
#OBoloDoPresidenteFilme #ThePresidentsCake #CinemaOrienteMédio #EstreiaNacional #KajaFilmes#MostraSP #HasanHadi #Infancia #Educacao #Resistencia #Cultura
Por Cristiane Costa, Editora e Crítica de Cinema | Especialista em Comunicação e Projetos
Se na Mostra SP o destaque recaiu sobre a dimensão afetiva e a autenticidade das crianças em cena, na estreia brasileira o olhar se volta para outro recorte: a inversão de papéis provocada pelo autoritarismo e sua pedagogia da submissão.
A chegada de O Bolo do Presidente (The President’s Cake) aos cinemas do país oferece uma oportunidade preciosa de observar o totalitarismo sob uma ótica raramente explorada pelo cinema de matiz histórica: a desumanização de suas futuras gerações através do cotidiano escolar. No premiado longa de Hasan Hadi, a farsa burocrática de uma ditadura se materializa na imposição de que crianças preparem um bolo para o aniversário de Saddam Hussein. Essa premissa, longe de ser um mero pano de fundo dramático, revela uma dinâmica profundamente autoritária que tenta anular a infância ao ocupar a mente dos jovens com as urgências e as graves preocupações da vida adulta.
Ao estabelecer essa exigência em um cenário de extrema escassez, o regime promove uma inversão radical de papéis. Enquanto a figura egocêntrica do ditador opera sob caprichos infantilizados e motivações ideológicas vaidosas, a protagonista Lamia (Baneen Ahmad Nayef) é forçada a adotar uma sabedoria pragmática e uma maturidade precoce para negociar a própria existência. Trata-se de um projeto de poder deliberado, que sabota o desenvolvimento das potencialidades na escola para criar barreiras ao pensamento crítico. Afinal, para estruturas autocráticas, é infinitamente mais simples controlar e impor limites do que educar para a cidadania plena.
Nesse contexto, a escola deixa de ser o território do lúdico e do acolhimento para funcionar como braço inicial do silenciamento institucional. O impacto gerado no espectador reside justamente em testemunhar uma juventude brutalmente dificultada, onde o espaço que deveria expandir horizontes serve para legitimar o medo e a obediência cega. O filme expõe como os governos totalitários temem o empoderamento de sua população, enxergando na educação emancipatória uma ameaça direta à manutenção de seus privilégios e à perpetuação de uma sociedade rigidamente patriarcal.
Diante do público contemporâneo, desvela-se o retrato de uma geração que, em sua comovente humildade, não possui outra rota de escape a não ser o sacrifício em nome da proteção familiar. Lamia e seu amigo Saeed (Sajad Mohamad Qasem) transitam por um cenário hostil onde o Estado não os acolhe nem os reconhece como sujeitos de direitos, mas sim como escudos burocráticos. A busca pelos ingredientes do bolo transmuta-se, portanto, em uma jornada de sobrevivência pura, na qual a doçura e a criatividade infantil resistem não como um ato de rebeldia política barulhenta, mas como a última salvaguarda da dignidade humana.
Ao abdicar das habituais representações de batalhas físicas e focar na aspereza dessas relações de poder, Hasan Hadi entrega um ensaio visual de fina ironia e potência devastadora. O Bolo do Presidente encerra sua narrativa deixando uma reflexão latente sobre o custo invisível dos regimes opressores. Através do olhar aguçado de sua pequena protagonista, compreende-se que a verdadeira resistência reside na capacidade de manter o afeto e o compromisso com os seus vivos, mesmo quando a estrutura ao redor foi desenhada para romper qualquer vestígio de esperança e equidade.
📌 Para ler a crítica realizada na época da Mostra SP, clique aqui.
Crédito imagens: Kaja Filmes. Comms TZM



0 comments:
Caro(a) leitor(a)
Obrigada por seu interesse em comentar no MaDame Lumière. Sua participação é essencial para trocarmos percepções sobre a fascinante Sétima Arte.
Este é um espaço democrático e aberto ao diálogo. Você é livre para elogiar, criticar e compartilhar opiniões sobre cinema e audiovisual.
Não serão aprovados comentários com insultos, difamações, ataques pessoais, linguagem ofensiva, conteúdo racista, obsceno, propagandista ou persecutório, seja à autora ou aos demais leitores.
Discordar faz parte do debate, desde que com respeito. Opiniões diferentes são bem-vindas e enriquecem a conversa.
Saudações cinéfilas
Cristiane Costa, MaDame Lumière