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Por Cristiane Costa, Editora e Crítica de Cinema | Especialista em Comunicação e Projetos
Em Foi Apenas um Acidente, o diretor Jafar Panahi opera na zona cinzenta entre o cotidiano banal e o trauma político latente. O filme entrega uma obra que vence a censura não apenas pelo seu contexto de produção clandestina, mas sobretudo pela sofisticação de sua narrativa. Através de um roteiro que ampara decisões morais complexas, o espectador recebe o benefício da dúvida ao confrontar o suposto ex-torturador, Eghbal (interpretado por Ebrahim Azizi), como um homem comum: um pai de família que manca e cuida de uma esposa grávida.
No entanto, Panahi é hábil ao semear o desconforto logo no incidente inicial. A reação de Eghbal sob uma trilha sonora festiva e o olhar de sua filha pequena indica que não se trata de um acidente trivial, mas do início de um desmoronamento ético. Essa ambiguidade se intensifica quando Vahid Mobasseri reconhece seu algoz não pelo rosto, mas pelo ruído da perna que manca e pelo timbre da voz, transformando o design de som em uma prova forense do trauma vivido.
Essa primazia do som sobre a imagem estabelece uma linguagem de vigilância constante. O uso de ruídos fora do plano, como o bater de uma porta de carro ou o motor de uma moto à distância, revela que a banalidade do dia a dia esconde uma retaliação contínua. A oficina de Vahid surge, então, como um microcosmo desse isolamento, funcionando como um purgatório de luz e sombra onde a calada da noite amplifica a paranoia de quem vive sob um regime opressor. Essa atmosfera sonora desemboca na tensão dramática que Panahi constrói com precisão.
Carros são uma assinatura na mise-en-scène de Panahi. Um microcosmo social.
É puro cinema o modo como Panahi filma o rosto apreensivo de Vahid Mobasseri reagindo ao que ouve no extracampo. A tensão desloca-se do ‘quem é o homem’ para o ‘quem Vahid se tornará’ sob a pressão desse gatilho traumático. A partir desse confinamento, o filme assume contornos de um road movie da resistência, onde o carro se torna o espaço de uma liberdade tensa e de uma solidariedade profunda entre ex-presos políticos que buscam por justiça. Essa escolha não é isolada em sua filmografia. Mais do que isso, o carro, em Panahi, nunca é apenas veículo: ele é câmara de vigilância, cápsula de intimidade e palco de confronto ético. Essa insistência revela como o diretor transforma o banal em linguagem política: dentro de um carro, o espectador está confinado junto aos personagens, sentindo a claustrofobia e a urgência do deslocamento, como se também fosse cúmplice desse confinamento.
Para equilibrar essa densidade, o diretor utiliza o drama cômico como um artifício brilhante para humanizar os personagens e aproximá-los da real angústia da dúvida. Afinal, a incerteza de reconhecer o próprio torturador é, em si, uma extensão da tortura imposta pelo sistema. Essa jornada torna-se profundamente honesta ao confrontar o algoz diante de sua própria humanidade familiar, onde a atuação de Mariam Afshari reafirma a necessidade inadiável do falar.
É impossível encerrar esta análise sem apontar a negligência gritante da Academia ao ignorar Foi Apenas um Acidente na categoria de Melhor Som. Em um ano em que blockbusters barulhentos dominaram as indicações técnicas, a ausência da obra de Panahi revela uma incompreensão profunda sobre o que constitui o virtuosismo sonoro. Ao contrário do espetáculo do volume, aqui o som é o próprio motor do suspense e a âncora do trauma. O design sonoro invisível esculpe o medo no silêncio da oficina e transforma o ruído de uma perna que manca em um veredito moral. Nesse sentido, ao esnobar o filme nesta categoria, a premiação ignora que, no cinema de resistência, o ouvido muitas vezes enxerga muito mais do que os olhos. O ouvido, aqui, é também a lente política que denuncia o invisível.
A consagração máxima com a Palma de Ouro em Cannes 2025 ratifica a importância histórica deste manifesto, premiando a coragem de um diretor que desafia a opressão através da metalinguagem. O desfecho, inteligentíssimo, não entrega o alívio da catarse, mas o peso da reflexão. A dúvida final é o espelho de um sistema que sobrevive ao fragmentar a verdade, provando que a perseguição política se perpetua na mente como um estado constante de alerta.




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