sábado, 12 de março de 2011

Bruna Surfistinha (2011)




Bruna Surfistinha, primeiro longa-metragem de Marcus Baldini , é um dos atuais líderes de bilheteria no Cinema Nacional e é a cinebiografia de Raquel Pacheco, a ex-garota de programa mais famosa do país que há seis anos atrás fez sucesso internacional com o lançamento do livro O Doce Veneno do Escorpião, relato de suas aventuras sexuais como prostituta, e com o seu popular blog no qual dava cotações ao desempenho sexual de seus clientes. Raquel era uma adolescente de classe média Paulista, com background educacional em bons colégios de São Paulo e que abandonou a casa dos pais motivada pela sua liberdade, autoconhecimento, ganho de dinheiro e inadequação àquele rígido mundo familiar. Deborah Secco interpreta a ex-garota de programa em excelente atuação, sob a competente preparação de atores do renomado Sergio Penna. Temos o retorno de Drica Moraes, sempre perfeita como uma das melhores atrizes do Cinema e TV no Brasil. Para um primeiro trabalho com tanta exposição comercial e um obrigatório material sexual, Marcus Baldini soube conduzir sua câmera cuidadosamente, sem ceder ao tom muito vulgar considerando que o filme é impregnado de cenas de sexo. Ele as dirige realisticamente de acordo com o cotidiano de uma garota de programa e aplica uma dose de bom humor, ótimas fotografia e montagem, fantástica trilha sonora com Céu, Radiohead, BlueBell.





O que tornou Raquel Pacheco uma garota de programa tão famosa e, agora, tema de um filme de grande alcance e repercussão nacionais?
Não foi somente em função da confissão escancarada de sua vida sexual, que levou para a cama de homens pobres a milionários, cobrando de R$ 20 a R$ 300 ou mais por programa, mas primeiramente pelo fato de que Raquel era uma garota que tinha de tudo para não se tornar uma prostituta. Ela foi adotada por seus pais, tinha casa, comida e boa educação, no entanto, tinha um sentimento de inadequação perante aquela realidade, precisava se libertar, ganhar dinheiro, conhecer a si mesma, além de ter uma relação tensa com a família. Além disso, ela uniu o seu gosto pelo sexo com a possibilidade de ter ganhos financeiros, sem depender de ninguém que ditasse regras e controlasse sua vida. Aliás, o gostar muito de sexo é uma das recorrentes afirmações da ex-garota de programa, traço que fez com que ela encarasse o pelotão de homens diversos a tratando como um objeto sexual com etiqueta de preço e ouvido para desabafos. Ela optou por esse caminho, o da "difícil vida fácil", com todas os desdobramentos humilhantes como o vício das drogas, a decarrota financeira e a solidão. Em segundo lugar, Raquel fez uma escolha na contra-mão do moralismo da sociedade preconceituosa que coloca as garotas de programa na clandestinidade, como seres anônimos do prazer que ficam entre quatro paredes. Com
Bruna Surfistinha, a garota de programa saiu da cama e foi parar nos programas de televisão, jornais e revistas como ares de celebridade e com status de escritora de best-seller nacional.





Embora o filme tenha contínuas e fortes cenas de uma garota de programa tendo relações sexuais com todo tipo de homem e entregue às drogas, cenas que não deixam de ser degradantes, Bruna Surfistinha é uma grata surpresa, um retrato realista de uma garota que tomou uma complexa decisão em plena adolescência: a de ser uma garota de programa. Tal decisão deve ser respeitada e bem observada durante a exibição até como forma de valorizar essa produção. Bruna Surfistinha se lançou em uma jornada de autoconhecimento e parecia não ter certeza onde tudo isso iria levá-la. De alguma forma, ela teve coragem para enfrentar o que vinha pela frente. Deborah Secco torna o personagem tão veridíco e tão bem realizado que chega a enobrecer a cinebiografia de Raquel Pacheco. Por mais que a ex-prostituta tenha se envolvido no fundo do poço, de desejada a ignorada pela sociedade, de garota de família a viciada em drogas e em sexo, a atuação de Deborah Secco conquista pela beleza, sensualidade e maturidade da atriz, que não está nada global na fita. De maneira geral, há como ter um certo respeito pela escolha de Bruna Surfistinha, mesmo que uns concordem, outros não. Muitas mulheres, inclusive as que tem um nível educacional elevado, optaram por ser prostitutas de luxo muito mais motivadas pelos ganhos financeiros, ou seja, têm a racionalidade da ex-garota de programa que afirmou que "também fazia isso pelo dinheiro e não por caridade", por isso, não é esperado que alguém aponte o dedo em Raquel Pacheco e a critique. O filme ilustra que ela teve propósitos mais relacionados à sua liberdade e um distanciamento familiar.
Ela começou a labuta em um prostíbulo no centro de São Paulo, longe de ser uma garota de programa de luxo. O bom do filme é que ele não julga a ex-prostituta, deixa o público tirar suas próprias conclusões.





Bruna Surfistinha leva a algumas reflexões sobre o que motiva algumas mulheres a optarem pelos caminhos da difícil vida fácil e até mesmo a outros caminhos que as levam ao prazer, à dor, à solidão e à autodestruição. É natural sair da sala de exibição e ficar pensando na escolha dessas garotas. O caso de Bruna pode ser (re)aplicado para outras situações que confrontam os ditos "bons e saudáveis hábitos" da sociedade. Muitas vezes, tudo o que uma mulher deseja é experimentar uma situação, provar o desconhecido, livrar-se das amarras dos preconceitos e do tradicionalismo, ser livre por alguns instantes, libertar-se afetivamente (e sexualmente). Pelo demonstrado no filme, Bruna Surfistinha gostava de sexo, era dedicada aos seus clientes a ponto de ser chamada de "a mulher perfeita": a que escutava os homens, permanecia calada e ainda transava com eles sem recalques e inibições. Tal citação pode parecer machista demais, no entanto, é a pura verdade que nutre o imaginário social com relação ao papel da prostituta, a da mulher a qual o homem procura e paga somente para o prazer e/ou fantasia, para suprir a carência de algo que ele não encontra em sua vida habitual: sexo e/ou diálogos descompromissados. Não a toa que o filme tem conquistado as bilheterias do país; qualquer material biográfico que se relaciona a uma vida regrada a muito sexo, polêmica e nudez é um prato cheio para o imaginário sexual do público Brasileiro. Após tantos anos, Bruna Surfistinha ainda sobrevive e tem mais de 1 milhão de espectadores no Cinema.


Avaliação MaDame Lumière






Título original: Bruna Surfistinha
Origem: Brasil

Gênero: Cinebiografia, Drama

Duração: 109 min

Diretor: Marcus Baldini

Roteirista(s):
Antonia Pelegrinno, Homero Olivetto e José Carvalho, baseado em livro de Raquel Pacheco, O Doce Veneno do Escorpião
Elenco: Deborah Secco, Cassio Gabus Mendes, Drica Moraes, Fabíula Nascimento, Cristina Lago, etc.



Confira o making off Trilha Sonora do Filme,
um dos pontos altos do filme





9 comentários:

  1. Ah, gostei bastante do filme! Como você mesmo falou é uma grata surpresa e é bom ver o amadurecimento de Secco como atriz nas telonas. Gostei mesmo ^^

    beijos :D

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  2. Nõ esperava muita coisa do filme, mas os comentários sobre ele estão muito bons, inclusive o seu. Fiquei curiosa!

    Beijos! ;)

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  3. Oi Darling!
    O seu texto me deixou com mais vontade de conferir o filme.

    Olha, eu nao julgo as prostitutas, muito menos a figura da Rachel Pacheco, mas tem itens na sua história que nao dá para saber se é fantasia para ela se tornar célebre ou não.
    Pelo que você especificou na crítica, o filme parece explicar melhor do que a própria Rachel dando entrevistas em programas. Sempre apática, falando mal, gaguejando um pouco e com contradições sobre sua vida exposta. Afinal ela resolveu se expor não? Como resolveu se tornar prostituta. E, é isso que me desagrada nela sabe? Sem uma explicação muito inteligente de sua parte falando as mesmas coisas e muitas vezes criando novas conversas sobre as mesmas perguntas.

    Interessante quando diz "difícil vida fácil", este termo esta presente em trabalhos como o documentário sobre as prostitutas curitibanas do projeto Olho Vivo (2004), por exemplo. Procure. Super recomendo!

    Olha, realmente nao entendo a posição da Bruna, mas cada um sabe de si. Só sei te dizer que nos seus "bons tempos" ela fez alguns filmes pornográficos. Depois do sucesso do blog e já deixando a velha profissão. O filme também passa nesta fase da vida dela?

    Ao menos, todo mundo diz elogios quanto a parte técnica, artística e direção de Baldini. Agora quero assistir, e depois de ver também uma entrevista da Secco no Programa Amaury Jr, já notei o talento da atriz em algumas cenas e pelo que todos dizem, vale um crédito.

    Bjs.

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  4. Eu concordo que o diretor Marcus Baldini dirigiu este filme de uma maneira excelente, sem apelar para o lado vulgar. A visão realista que ele oferece da prostituição é um dos pontos altos deste filme ao lado da grande performance da Deborah Secco.

    Meu problema com "Bruna Surfistinha", no entanto, foi a motivação da personagem ao entrar nessa vida de prostituição. Muito simplória e não colou comigo...

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  5. Alan,

    Também gostei do filme. Não esperava nada dele, mas me surpreendi com o trabalho bem feito. O roteiro não é um espetáculo, mas a forma como o filme foi dirigido e finalizado ficou bom.

    bjs

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  6. Mayara,

    Vale a pena conferir esse filme. Acho que , para a mulher, o filme tem mais chance de ser útil porque a gente começa a imaginar o que leva algumas mulheres a adotarem uma vida como a da Bruna Surfistinha.

    Bjs

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  7. Oi querido Rô,
    Obrigada pelo seu interessantíssimo comentário!
    Eu concordo com você com relação às entrevistas da Raquel Pacheco. Acho que são fracas, ela não sustenta muito a versão da história e entra em contradição, enfim, pensava que ela tinha uma linha de raciocínio mais madura, mas penso que a escolha por expor sua vida ao público tem intenções também comerciais, por isso pode haver um misto de fantasia e realidade, talvez aquele "deixa eu aumentar um pouquinho a história".

    Rô, o filme tem uma neutralidade. Ele vai nos conduzindo à vida da garota, do começo em um prostíbulo barato no Centro de SP até a sua vida de puta que conduz o seu próprio negócio,mas no final, a intenção do filme é mostrar o seu dia a dia, transas e mais transas que é a maior concentração da rotina de uma garota de programa, além do seu envolvimento com drogas.

    Eu, particulamente, não simpatizo com a real Bruna Surfistinha. Não por ela ser uma ex-garota da programa, porque não tenho nada contra as prostitutas, mas porque as entrevistas dela são ruins. Ela não consegue mostrar direito quem ela é, não vejo sinceridade, não vejo simpatia e muito menos carisma, embora eu respeite sua escolha. Quem quer ser prostituta na maior boa vontade, que seja, mas pelo menos, saiba assumir isso de uma forma sólida perante a mídia. Nunca vi uma declaração que fosse genuína da parte dela, ela enrola demais.

    Eu acho que ela só precisa dizer: Decidi ser prostituta e ponto final. Já é bem evidente que ela gosta de putaria, então assuma isso em poucas palavras. Será muito mais coerente.

    Eu gostei do filme, só do filme. A Raquel Pacheco para mim não faz a mínima diferença, não é uma figura pública que conquistou minha atenção e não tenho nem vontade de ler os seus livros, mas o filme em si, apreciei-o bastante. Gostei da forma como o Baldini lidou com o material biográfico, transformando isso em um Cinema bem condizente com uma boa técnica e também sensibilidade para uma reflexão sobre a vida das garotas de programa.

    Beijo,

    MaDam

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  8. Oi Kamila

    Concordo que a escolha dela foi bem simplória. Prefiro até dizer que a escolha dela não teve uma boa argumentação e nem foi sustentada depois em suas fracas entrevistas. Penso que ela quis entrar na vida de prostituição porque isso era uma forma dela sair de casa e romper de vez o relacionamento com os pais, fazer sexo desenfreado( que ela confirmou que gosta muito de sexo) e ganhar dinheiro com isso, no entanto tais motivos são nebulosos, porque até o próprio filme não tem muitas respostas para explicar as motivações de Bruna Surfistinha. Ela simplesmente saiu de casa e foi direto ao encontro da cafetina.

    Como o Rô colocou acima, também penso que as declarações da Raquel Pacheco não são muito assertivas. Talvez boa parte da história seja mais uma fantasia sexual da cabeça dela.

    Bj

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