quarta-feira, 30 de março de 2011

Drama (2010)







Marcando a estreia do jovem diretor Chileno Matias Lira em longas metragens, Drama relata a obsessiva jornada de 3 estudantes de teatro em busca do autoconhecimento e sucesso a qualquer preço, mesmo que o alto preço seja de natureza afetiva, com obscuros e instáveis desdobramentos psíquicos e angustiantes conflitos interpessoais. Trazendo sua bagagem educacional na dramaturgia, Lira utiliza um diálogo metalinguístico do teatro dentro do Cinema no qual os jovens interpretados por Isidora Urrejola, Eusebio Arenas e Diego Ruíz testam seus limites através das técnicas teatrais do dramaturgo Antoin Artraud, o Teatro da Crueldade. O professor motiva-os a sair pelas cosmopolitas ruas, vivenciar experiências diversas, buscar cruas verdades, ceder ao sofrimento, a dor, a paixão e ao prazer, e retornarem ao palco para expor intensamente tais descobertas. Com isso, os inexperientes jovens mergulham no submundo, de áreas de prostituição a bares noturnos, vivenciando a contra-mão da convencional sociedade Chilena.











Drama é na mais óbvia signficação da palavra um drama show alternativo; é um drama de jovens que se jogam em situações diversas que testam suas emoções, seus comportamentos. Ainda que sejam jovens bonitos, carentes e solitários, cada um à sua maneira, a idéia legítima deles não é buscar tanto uma identidade pessoal, mas buscar o sucesso, a superação na atuação teatral, o confete ao fim do ensaio. Agem instintivamente e motivados por um professor que não lhes dá trégua. Nisso reside o perigo aos seus psicológicos porque não há uma regra em suas ações nesse laboratório social do teatro, não há uma coerência técnica, a intenção é ser cruel consigo próprio e com o outro por isso há um jogo sádico-masoquista nessa película. Se é para ser o melhor ator ou a melhor atriz, estão dispostos a tudo, até a machucar, zombar e denegrir a imagem do outro, voltar e sofrer com o passado, colocar em risco suas carreiras futuras, sua saúde psíquica. Nesse sentido, as atuações são convicentes e não comprometem. Mateo (Eusébio Arenas) é um jovem sedutor, intempestivo, insano, traumatizado pelo desaparecimento da mãe. É atuante na ação protagonista porque é o centro da trama, tem uma postura pueril e de enfrentamento e provocação frente às instituições, afeta e/ou desequilibra o psicológico dos demais, Maria (Isidora Urrejola), sua apaixonada e submissa namorada e Ángel (Diego Ruiz), seu amigo gay que o deseja sexualmente.







O roteiro foi elaborado para ser uma viagem louca dos jovens, motivados pela droga Artraudiana injetada na veia, assim como o mais importante é a mescla de um olhar ficcional e outro não-ficcional no desenvolvimento da narrativa, que aproveita o contexto Chileno de ditadura e uma sociedade formal e castradora para pincelar crítica social e religiosa. Normalmente o sexo é amplamente usado como instrumento de prazer e liberdade, mas a grande ironia em Drama é que ele tenta ser libertino sem sê-lo por completo. A liberdade dos prazeres é mais exercida como discurso do que projetado em imagens tanto que o cartaz não é um ménage a trois, só uma sugestão no imaginário de quem o contempla. Além disso, o que é intrigante e factível para investigação e reflexão é que há planos nos quais a audiência não tem certeza se é realidade ou ficção, se é verdade ou dissimulação, afinal no teatro atores são atores assim como o homem é um ator social no palco do cotidiano.






Drama não é espetacular como Sétima Arte, porém considerando a cinematografia do Cinema Latino Americano, ele não faz o Cinema Chileno passar vergonha, principalmente para um estreante já que Lira usa boas técnicas de flashbacks, cortes, fotografia, montagem e, aproveita o seu background teatral para dar à película uma atmosfera mais pautada na dramaturgia. Drama também prevê algumas reflexões sobre a busca incenssante pelo sucesso a qualquer custo, o submundo que é a destrutiva mente humana e a imaturidade e a miópia existencial dos jovens carreiristas. Tanto Mateo quanto María e Ángel têm suficientes predicativos para vivenciarem positivamente novas experiências libertadoras, mas infelizmente tomam caminhos obsessivos, que nada agregam além do trauma, do desespero, da rejeição, da solidão, da dor e da morte.



Avaliação Madame Lumière





Título original: Drama
Origem: Chile
Gênero: Drama
Duração: 80 min
Diretor: Matias Lira
Roteirista(s): Sebastián Arrau, Eliseo Altunaga, Matias Lira
Elenco: Isidora Urrejola, Eusebio Arenas e Diego Ruíz

6 comentários:

  1. Não conhecia este filme Madame, a história dele nem me chamou muito a atenção já que já vi outros filmes com a mesma temática e melhor aproveitada. Mas,olha, fiquei apaixonado pea arte dos posters! hehehe

    []s

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  2. Seu texto foi o suficiente pra me deixar curiosa para conferir!

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  3. Me parece um filme interessante. Não conhecia... É uma proposta que permeia o cinema independente americano, e setores do europeu, há algum tempo. Apenas Cuarón perpassou a temática na América Latina... Vale mesmo a conferida!
    bjs

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  4. Oi Alan,

    É um filme meio louquinho, como a maioria dos independentes. Às vezes o acho um pouco forçado em algumas viagens do personagem do Mateo, mas ok, entendo a questão Artraudiana.

    bj

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  5. Oi Kamila,

    Confira sim. Aposto que você vai achar uma viagem louca desses jovens, rs!

    bj,

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  6. Oi Reinaldo,

    É verdade! Eu também não conhecia esse filme, confesso que fui mais inclinada a assistí-lo por ser do Chile e pela curiosidade dos posteres com o trio de atores, mas é tudo bem diferente com Lira, essa noção de ser ficção e não ficção, ambos mesclados. Acho que você pode vir a gostar do filme se considerar esses aspectos do Teatro da Crueldade, da busca dos jovens por essa intensidade vivencial, pelo extrapolar no cotidiano para levar a matéria ao teatro.

    bjs

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