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MaDame Cult | Suspiria: O Barroco Onírico e o Pesadelo em Transe de Dario Argento

 




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Por Cristiane Costa,  Editora e Crítica de Cinema | Especialista em Comunicação e Projetos




Lançado em 1977, Suspiria surge em um momento de efervescência do cinema europeu, quando diretores italianos exploravam o horror como metáfora para crises sociais e culturais. Dentro desse cenário, o diretor italiano Dario Argento inaugura não apenas um filme, mas um marco estético que se tornaria referência mundial. Como primeiro capítulo da trilogia As Três Mães, seguida por Inferno (1980) e A Mãe das Lágrimas (2007), Suspiria reafirma sua posição como obra central dentro da filmografia de Argento e como o mais celebrado dos três filmes.



Nesta obra-prima, o cineasta transcende os limites do horror convencional para fundar um tratado de estética barroca e delírio cinematográfico. A narrativa acompanha a chegada da jovem bailarina americana Suzy Bannion (vivida com magnética expressividade por Jessica Harper) à prestigiada academia Tanz, na Alemanha, um ambiente que paulatinamente se revela como a fachada para um clã secular de bruxaria. Longe de se ancorar nas fórmulas previsíveis e realistas do slasher que emergia na mesma década, o filme estabelece-se como um clássico do horror artístico, onde a lógica racional é deliberadamente sacrificada em prol de uma experiência sensorial hipnótica e puramente onírica.




Foto Divulgação: Suspiria. Crédito FJ Cines



A quebra com o realismo se manifesta imediatamente na cromatografia do medo desenhada por Argento e pelo diretor de fotografia Luciano Tovoli. O uso radical do processo Technicolor satura a tela com vermelhos viscerais, azuis cobalto e amarelos febris, compondo quadros de um preciosismo minucioso que projeta o público diretamente para dentro de um pesadelo acordado. Esse impacto estético, potencializado pela textura orgânica e perene da película de 35mm, transforma a arquitetura ornamentada e estilizada da academia em um labirinto perturbador. O espectador, tal como a protagonista, é tragado por uma geografia urbana marginalizada e isolada do mundo exterior, onde a beleza plástica flerta constantemente com a escuridão existencial.



A sinestesia da obra atinge seu ápice na trilha sonora composta pela banda de rock progressivo Goblin. Mais do que um mero acompanhamento dramático, a música opera como uma presença invisível e fantasmagórica que permeia cada frame do longa. Através de sussurros estridentes e arranjos eletrônicos que preenchem os espaços vazios do cenário, a sonoridade induz a plateia a um verdadeiro estado de transe. Na tela grande, o efeito é avassalador: o som ocupa integralmente o campo mental do espectador, gerando uma tensão crescente que alimenta o fascínio e a curiosidade mórbida que movem a jornada investigativa de Suzy.




Foto. Divulgação: Suspiria. Crédito FJ Cines



A recepção inicial foi marcada exatamente por este fascínio e estranhamento: críticos da época viam em Suspiria uma ruptura radical com o horror narrativo tradicional. Décadas depois, o filme consolidou-se como obra cult, estudado em cursos de cinema e artes visuais, e reverenciado por sua influência estética em videoclipes, moda e artes plásticas. Essa permanência reforça seu caráter atemporal.



Sob essa atmosfera de "conto de fadas estranho e perverso", o roteiro de Argento e Daria Nicolodi executa uma subversão cirúrgica no próprio conceito de balé clássico. Se a dança exige disciplina milimétrica e controle geométrico do corpo em busca de uma beleza ideal, a narrativa transforma a academia em um receptáculo de fragilidades e dores. As bailarinas, outrora símbolos de uma perfeição técnica ímpar, são convertidas em corpos vulneráveis e insecurezas diante das manifestações macabras que assolam a instituição.



Essa derrocada física e comportamental ecoa uma herança estética poderosa, servindo como uma das grandes fontes de referência para obras contemporâneas que debruçam-se sobre o colapso psicológico no universo da dança, como Cisne Negro de Darren Aronofsky. Reforçando que essa associação entre as obras é uma leitura crítica deste ensaio, baseada nas aproximações de ambiente e horror, e não necessariamente uma fonte oficial da produção.



Em meio a essa atmosfera frágil e perturbadora, o arco dramático tateia inicialmente os contornos de um mistério investigativo, conforme Suzy busca desvendar as conexões obscuras por trás dos desaparecimentos e do comportamento duvidoso do corpo docente, incluindo a diretoria da escola, Madame Blanc (Joan Bennett) e a severa professora Miss Tanner (Alida Valli). Contudo, essa estrutura racional desmorona de forma natural em direção ao delírio do horror sobrenatural puro. O sobrenatural não surge como um elemento externo e abrupto, mas sim como uma emanação orgânica daquele espaço onde o enigma e a feitiçaria se escondem atrás das paredes.




Foto.Divulgação. Suspiria - crédito FJ Cines


Nesse cenário de dissolução da realidade, não há como deixar de celebrar o protagonismo de Jessica Harper que se mostra definitivo para o êxito da obra. Desde o primeiro instante em que ela chega ao aeroporto sob a intensidade daquela chuva torrencial e enigmática, Harper entrega uma atuação exemplar, cuja força reside na imensa expressividade de seu olhar; a câmera flerta constantemente com suas reações, capturando nuances precisas de medo, desamparo e determinação diante do inexplicável. Sua presença emblemática, conjuntamente com o isolamento cênico e o foco rigoroso na interação entre os personagens, confere a Suspiria uma densidade dramática singular.



O impacto cultural de Suspiria é tão duradurouro que inspirou releituras contemporâneas, como o remake de Luca Guadagnino em 2018. Embora radicalmente diferente em tom e estética, essa nova versão confirma a força do original como obra seminal, capaz de gerar debates e interpretações mais de quarenta anos após seu lançamento.



É nesse conjunto de elementos, da estética saturada e hipnótica ao protagonismo de Harper, passando pela trilha sonora de Goblin e pela atmosfera de conto de fadas perverso, que se consolida a grandeza de Suspiria, conferindo-lhe o status de uma realização cinco estrelas, uma daquelas obras raras cujas marcas visuais e sonoras tornam qualquer tentativa de cópia impossível.





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