domingo, 28 de outubro de 2012

Mostra 2012: O Gebo e a Sombra (Gebo et l'ombre) - 2012



Adaptado da antiga peça homônima de 1923 do jornalista e escritor português Raul Brandão e resultado de uma parceria multicultural de França-Portugal, O Gebo e a Sombra é o recente filme de Manoel Oliveira, o cineasta que é uma prova viva de vigor no auge dos seus 103 anos. Traz um elenco estelar com os maravilhosos Michael Lonsdale, Claudia Cardinale e Jeanne Moreau, que juntos atuam em um emblemático  e doloroso diálogo sobre a miserável condição humana. Manoel de Oliveira é tão generoso que , embora é sabido que Michel Piccoli, uma parceria de longa data, era sua primeira escolha para Gebo, ele ofereceu o papel para o maravilhoso Lonsdale que, por sua vez, convidou a lenda Cardinale para representar Doroteia. Já Leonor Silveira é uma excelente atriz e uma das mais solicitadas pelo cineasta.
 
 
 
 
 
A história relata a história de Gebo (Lonsdale), um contabilista idoso que vive com a esposa amarga Doroteia (Cardinale) e a triste nora Sofia (Leonor Silveira), a  sustenta a família com esforço e honestidade em um cenário de pobreza e desesperança e tem um filho fugitivo, João (Ricardo Trêpa) que o rouba. A família é perseguida por essa sombra da miséria universal que assola o homem e se desdobra em conflitos existenciais e discussões sobre honestidade, sacríficio e pobreza.  O clímax se dá quando o violento João retorna a casa e desestabiliza uma família, provocando um desfecho dolorosamente surpreendente.
 
 
 
 
 
 
Em significativa parte de sua totalidade, o filme é realizado em internas na casa de Gebo, em torno de uma mesa da sala na qual o contabilista realiza cálculos e conversa com a esposa, nora, o filho e amigos. O texto antigo já existia em língua Francesa e Manoel planejou o filme para mantê-lo no idioma, com locações em Paris. Os diálogos são baseados em dores humanas do mundo: violência, pobreza, solidão, amargura etc., além das conversas sobre João, que ninguém sabe onde está e que faz a família sofrer; portanto é criada uma atmosfera monótona e pessimista que não apresenta uma esperança de dias melhores, embora haja ótimos momentos de humor principalmente com Moreau. As atuações dos atores são fenomenais e de muita força através da palavra e de suas fisionomias.  Lonsdale tem o carisma e a sabedoria de um homem experiente e retrata aquele pai de família que se sacrifica para não deixar seus entes queridos sofrerem mais. Silveira e Cardinale são um espetáculo à parte, respectivamente evocando, dentre outros sentimentos, a  solidão e a amargura, todas sofridas pela vida. A presença ilustre e bem humorada de Moreau, que rouba a cena em momentos muito especiais, dá graciosidade às cenas.  O espaço é bastante confinado, com profundidade através de portas e janelas, o que garante belíssimos planos como se os atores compusessem memoráveis quadros. Também outro traço de beleza é a força da palavra e sua musicalidade, bem apoiada pela trilha sonora, a ponto de expandir esse espaço e engrandecer o filme.
 
 
 
 
 
O Gebo e a Sombra, como estética cinematográfica, é um bel prazer. Segue o estilo de Manoel de Oliveira de forma muito fiel. Cada plano do longa mais parece uma pintura com uma palheta de cores que favorece o quanto o visual parece atemporal, basta observar as xícaras de café, os biscoitos, as frutas coloridas e as janelas e portas. Aqui, mais uma vez, Manoel Oliveira tem um cinema bem contemplativo que coloca a câmera de forma mais imóvel para que o público possa se deslumbrar, ouvir e refletir sobre a condição humana. O impacto é eficaz, pois abre espaço para perceber que esta miséria é a  real vida do homem. O fato de haver um elenco magnífico no qual todos tem o seu brilho próprio sem ofuscar o do outro é um excelente trabalho de direção de atores, baseado na confiança do cineasta e nos atores experientes. As atuações continuam bem teatralizados, como é comum nos filmes do realizador, mas com um elenco fascinante como esse, a emoção já começa na Cinefilia. 
 
 
 
 
 
Ficha técnica no ImDB
 
 

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