sábado, 13 de março de 2010

Um Profeta (Un Prophète) - 2009



Um Profeta, dirigido por Jacques Audiard venceu o Grande Júri no Festival de Cannes 2009, diversos Césares e foi indicado à categoria de melhor filme estrangeiro 2010 no Oscar, no Globo de Ouro e no BAFTA com todos os méritos de um filme francês orquestrado por um diretor experiente que sabe filmar a realidade com a precisão e a excelência do cinema Europeu. A história, enfocada na vida de um jovem e analfabeto preso arábe, Malik El Djebena, intepretado soberbamente pelo ator revelação Tahar Rahim tem várias camadas sócio-políticas, existenciais e religiosas, explorados sem extremos e de uma forma que engrandece a vida de um imigrante que passa da condição de marginal condenado e inexperiente para a de um influente líder do crime organizado. É uma película sobre a maturidade, a evolução e a influência pessoal de um homem, que se torna herói mesmo em sua condição periférica na sociedade.





El Djebena é um árabe que é condenado a 6 anos de prisão na França. Ao entrar no presídio, entra como o frágil homem que, ora poderá servir de mulher de outros homens, ora poderá sofrer a opressão de ser violentado por gangues, já que ele é jovem e não tem proteção. O jovem árabe se mostra mais vivaz do que o espectador imagina. A princípio, El Djebena tem que seguir as ordens de uma gangue de corsos liderados pelo poderoso mafioso César Luciani (Niels Arestrup), um homem muito mau, autoritário e sem escrupúlos que, mesmo estando preso, comanda o crime organizado de toda uma região e trata El Djebena como um objeto de posse. O jovem árabe se torna o homem de confiança de Luciani e, no decorrer do filme, obtém certos privilégios por sua boa conduta na cadeia, realizando externamente trabalhos criminosos para a máfia e participando ativamente de uma rede de influências muito bem articulada por ele que, cada vez mais, o levam a uma posição privilegiada. Ele também começa a se alfabetizar dentro da prisão e também a falar a língua dos corsos de forma autodidata, o que indica que ele tem uma visão estratégica de seu próprio futuro e autodesenvolvimento e não deve ser subestimado como um árabe ignorante e massacrado pelo preconceito social e racial.





Embora bastante longo e cansativo, o filme vencedor de
Jacques Audiard é bem dirigido com uma cinematografia bem realista que equilibra as nuances visuais claras e escuras como se fosse o dia a dia real nas prisões, harmoniza a visceralidade dos ambientes mais decadentes com um excelente elenco que mimetiza a divisão social francesa entre imigrantes e europeus e o crime organizado e é enriquecido pelo roteiro e o teor veridíco dos diálogos. O ponto forte do filme é Tahar Rahim, que visualmente tem um aspecto que mistura fragilidade, simplicidade e carisma misturado ao seu comportamento influente e intencionalmente estratégico. Rahim é muito mais que um protagonista, ele é o próprio filme. Durante toda a película, El Djebena é o homem que consegue transitar entre árabes e europeus, criminosos e policiais, amigos e inimigos e consegue fazê-lo tão bem entre os diferentes pólos se beneficiando das oportunidades que o coloquem em uma posição melhor. Somente um profeta poderia ter a visão aguçada e a influência no contexto em que vive, por isso o personagem é tão rico sob o ponto de vista comportamental e Rahim consegue revelar-se um formidável ator, principalmente nas cenas de liberdade que demonstram que ele é somente um homem simples que aprecia coisas que ele nunca teve como pisar na areia da praia e conviver no ambiente familiar de um amigo. Rahim tem a empatia do público por isso o fato dele ser um criminoso é estranhamente anulado porque, enfim, El Djebena é um sobrevivente no inferno e um homem que poderia ter tido uma vida melhor como tantos outros presidiários e tantos outros cidadãos. Torcer pela sua maturidade e evolução é inevitável.



Rahim amadurece seu papel à medida que evolué no drama, com isso El Djebena cresce na história e, de forma sublime em um cinema social e reflexivo, El Djebena é um herói que também é um profeta, estabelecendo um novo olhar profético sobre o imigrante que saí da periferia de sua natureza humana, discriminado socialmente em uma Europa intolerante invadida pela imigração e se desenvolve como uma pessoa de respeito, de perspicaz esperteza, projetada para uma nova ordem, a do imigrante que se torna líder em terra estrangeira, a do imigrante que merece respeito e dignidade onde quer que pise.


Avaliação MaDame Lumière




Título original: Un Prophète
Origem: França
Gênero: Drama
Duração: 155 min
Diretor(a): Jacques Audiard
Roteirista(s):Jacques Audiard and Thomas Bidegain
Elenco: Tahar Rahim, Niels Arestrup, Adel Bencherif

3 comentários:

  1. Madame,

    vi o trailer e baixei o filme, está no meu pc e ainda não vi. Mas, seu post me serviu de belo estímulo!

    Como sempre, analisa socialmente e psicologicamente, isso me atrai na sua escrita.

    Beijo!

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  2. esse é prioridade, né?!
    quero ver ugentemente.

    tb tô na correria aqui mas tenho que dar uma passada aqui e comentar! ;)

    bjs.

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  3. Não é uma obra-prima. É um filme crú, inteligente. Espero que saia em Blu-ray, pelo que li em sites estrangeiros a qualidade de vídeo está ótima.

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