segunda-feira, 30 de março de 2015

El Cuerpo (The Body ) - 2012





Em um desafiador gênero como o thriller com clara marca registrada narrativa que traz elementos de horror e mistério e uma forte atmosfera de tensão, a produtora espanhola Rodar y Rodar é especialista no assunto. Seus suspenses criam um clima de ambiguidades entre personagens e despertam uma curiosidade detetivesca que, misturada ao mistério da história e um roteiro de reviravoltas, apreendem ao máximo a atenção do público.  Com experiência em longas premiados como O Orfanato (2007) e  Los Ojos de Julia (2010), ambos produzidos por Guillermo del Toro, a Rodar y Rodar lançou El Cuerpo (2012), primeiro longa de Oriol Paulo (co-roteirista de Los Ojos de Julia) que traz no elenco Bélen Rueda, José Coronado e Hugo Silva. 






Novamente em mais uma parceria com a produtora após estrear em Los Ojos de Julia e ser indicada ao prêmio Goya, Belén Rueda se destaca como uma atriz fetiche para esse tipo de Cinema Fantástico. Em El Cuerpo, ela é Mayka Villaverde, uma poderosa empresária, de personalidade controladora e dúbia, casada com o jovem Alex Ulloa (Hugo Silva). Ambos evidenciam um casamento falido no qual o afeto é forçado  e as diferenças surgem com diálogos irônicos e mal resolvidos.  Com o desaparecimento de um corpo no necrotério, Alex começa a ser investigado por Jaime Peña (José Coronado). 


El Cuerpo é um imperdível suspense por conservar o estilo dos thrillers da Rodar y Rodar, que mistura o realismo com o fantástico e tem um roteiro bem construído com elementos surpresa, sujeito a manobras que movem as peças do jogo entre as personagens. A história começa com um corpo que desaparece misteriosamente e um casamento desgastado, ou seja, bons motivos para motivar os mais curiosos, dessa forma, leva o público a crer que essa pode ser uma história de crime passional, porém muitas surpresas ocorrem à medida de que as personagens não são confiáveis e agem como supostos suspeitos. O elenco corrobora  a afirmação de que os atores espanhóis têm um talento especial para trabalhar com thrillers, principalmente porque a forma como eles atuam traz um certo humor trágico embutido na trama como se vê nas cenas de suspense dos filmes de Almodóvar.






Além de ser um excelente entretenimento, El Cuerpo é a realização contemporânea de um gênero que nem todo o roteirista e diretor têm talento para realizá-lo bem, por isso merece ser analisado sob uma perspectiva de um híbrido de vários elementos narrativos que retomam aspectos importantes de outras referências do Cinema, inclusive as clássicas como a tradição do Cinema Noir, do Suspense Hitchcockiano e das tragédias românticas. A prática, a história e a metalinguagem do Cinema suportam amplamente o êxito dessa película, evidenciadas através da construção da narrativa que usa histórias de fantasmas, do crime, da investigação, da intriga e da figura da mulher sedutora e dissimulada do Cine Noir, do clima de suspeita e do mistério do corpo morto de Hitchcock, da vingança e da paranoia das histórias de mistério e horror.




Toda a trama é construída com a combinação desses elementos de forma muito acertada e com uso de flashbacks para jogar o público na teia das dúvidas e elevar a tensão desde o início. Ao ver o corpo de uma mulher casada que some como um fantasma, a primeira suspeita paira sob o marido e sua amante. Aos poucos, a narrativa destila doses ambíguas da relação entre Mayka e Alex e o corpo desaparecido torna-se apenas um detalhe pois analisar quem são esses personagens  e, em especial, como Alex reage às acusações faz parte do processo investigativo, dessa forma, o próprio espectador é desafiado a ser o detetive, com a potencial e ligeira impressão de que está sendo enganado pelo roteiro ou que precisa achar um furo nele para descobrir o desfecho. Essa vontade de ser um bom detetive cresce com a história à medida que, em algum momento específico, pode haver uma manobra diferente para a revelação do crime.  






Para o sucesso do longa, o elenco é um diferencial e o desenvolvimento dos personagens tem uma boa base Noir. Belén Rueda incorpora a femme fatale capaz de dominar o próprio marido como se ele fosse apenas seu mero objeto. Com atitudes dúbias e falas irônicas, ela é o tipo de mulher com a qual nenhum homem gostaria de estar mais casado. Por trás da enigmática beleza espanhola e pseudo autoconfiança da personagem de Alex, está a ótima interpretação de Hugo Silva. Ele encarna um homem vulnerável que parece ter tudo sob controle mas não o tem, assim, ele faz o papel do homem apaixonado, fraco e feito como fantoche pelas mulheres, o que eleva consideravelmente a qualidade desse roteiro ao lado de José Coronado, o detetive que tem a missão de transformar a investigação no inferno de Alex.


O Cinema Espanhol através da produtora Rodar y Rodar têm se destacado em realizar suspenses e reconhecer talentos no audiovisual, o que facilita muito a busca do público por thrillers que tenham mais chance de dar certo, de conhecer diretores e roteiristas habilidosos nesse gênero e de trazer satisfação à experiência cinematográfica. Com a influência de Guillermo del Toro, entusiasta  e expert em filmes que têm elementos sobrenaturais e um toque Hitcockiano, Oriol Paulo realiza um ótimo thriller psicológico que até mesmo Hitchcock teria gostado do desfecho.








Ficha técnica do filme ImDb El Cuerpo

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