segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Mostra 2014: Winter Sleep ( Kis uykusu) - 2014




Winter Sleep, o grande vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes 2014 é um filme essencial sobre a tensão nas relações humanas. As tensões que extraem uma madura visão da complexidade do ser humano e  de sua frágil autenticidade ao lidar com o outro, mesmo que para isso, intensos conflitos estremeçam as relações. Sob a direção magnífica de Nuri Bilge Ceylan, diretor turco que foi aclamado pelo júri do grande prêmio de Cannes 2011 com Era uma vez na Anatólia,  desta vez ele entrega ao legado da Sétima Arte um virtuoso trabalho de direção cinematográfica e uma emblemática atuação de forte cunho existencial de Haluk Bilginer.


Nas paisagens frias e longíquas da Anatolia, Aydin (Bilginer) é dono de um hotel local e um homem  endinheirado que contrasta com a modesta situação da comunidade local. Com uma personalidade misteriosa e autoritária, ele tem uma tempestuosa relação com sua jovem esposa Nihal (Melisa Sözen) e tem uma irmã recém divorciada, Necla (Demet Akbag) que guarda mágoas e arrependimentos cada vez mais aparentes com seu isolamento e comodismo no vilarejo. Nesse núcleo familiar  discussões eclodem como barris de pólvora em momentos emblemáticos do roteiro e, o melhor de tudo, ninguém tem razão. Todos tem o seu ponto de vista e seus próprios demônios  e desabafos complementam  uma ampla e profunda visão da condição humana. Com um fascinante texto e uma duração de mais de 3 horas que passam desapercebidas, o  longa é um primor do começo ao fim com ápices narrativos de dolorosa catarse a qualquer individuo que se entregar ao poderoso efeito dessa obra prima do Cinema Turco.




Haluk Bilginer: crível e notória atuação


Winter Sleep recolhe o público a um ambiente frio e isolado. É nesse cenário congelante que as discussões acaloradas são detonadas como um estopim. O isolamento sem qualquer saída os coloca em um microcosmo da nossa humanidade e nele está a rica reflexão sobre nós mesmos. Tudo é dirigido de forma muito realista, logo o público testemunha os diálogos como um observador de um núcleo familiar bastante solitário e, portanto, não há espaço para outras distrações. O foco maior é observar Aydin e como todos reagem à sua volta. Seus olhares, seus silêncios, seus gestos, suas palavras, tudo está ali para ser notado com atenção. Ao ter Aydin como um tipo de todo poderoso do local a quem todos temem e devem respeito, os incômodos do passado e presente deixam as relações tensas e ele é alvo de ataques mas também ataca sem sair da sua condição de homem experiente, maduro e também calejado pela vida.  O resultado das atuações e seus diálogos cortantes (mas com momentos bem humorados) evidenciam o excelente trabalho de direção de atores de Nuri Bilge Ceylan. O elenco não interpreta com maniqueísmos e estereotipos, pelo contrário, cada papel foi desenvolvido com uma lúcida percepção da espontaneidade das relações e suas tensões. Até em reações verbalmente agressivas, há um tom de honestidade dos sentimentos e o quanto somos vulneráveis.



O magnífico trabalho de fotografia do filme e a escolha das locações retratam uma parte do mundo que poderia ser facilmente replicada em qualquer outra realidade. Ali estão problemas econômicos, políticos, sociais e culturais começando pelo núcleo de uma família que sai do calor da Turquia e abre um negócio na Anatolia e vai até a população em estado de pobreza, passando pelo carater existencial. Com isso, o longa consegue desenvolver tanto o drama coletivo como o individual em variadas camadas.  Como  Ceylan escreve o roteiro com sua esposa Ebru, existe o ponto de vista da mulher, muito bem inserido na narrativa porque as estruturas sociais tradicionais prevalecem como a da cultura. Homens como autoridade e provedores e mulheres presas à rotina e sem independência, tanto que nas relações de Aydin  com  sua irmã e esposa fica mais evidente o papel passivo da mulher que, em alguma fase de sua vida, tentará romper essas barreiras sociais de desigualdade entre gêneros, seja através de sua opinião ou de sua ação.  Além do mais, há planos  fundamentais que levam Aydin e Nihal de encontro a um outro nível social: a miserável população local. Ao mesmo tempo que há respeito e solidariedade, há  a violência e a desconfiança que se desenvolveram do conflito entre as classes. Essas rachaduras de classes tão distintas  que se aproximam e se repelem garantem cenas com um olhar bem contemporâneo do drama social.


Winter Sleep é um filme muito verdadeiro na forma que as pessoas se expressam em suas complexidades e animosidades.  Além de todas suas virtudes, o longa é um belíssimo trabalho de linguagem textual em um roteiro com profundos significados que cedem espaço à reflexão do expectador. O texto tem fragmentos tão sublimes até nos momentos mais cruéis. As palavras falam muito e muito de nós.




Ficha técnica do filme ImDB Winter Sleep.

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