quinta-feira, 20 de novembro de 2014

MaDame Noir: Fuga do Passado (Out of the Past) - 1947


MaDame Noir:
O melhor do Film Noir
por MaDame Lumière








Com direção de Jacques Tourneur e adaptado do romance Build My Gallows High de Daniel Mainwaring, que o escreveu sob o pseudônimo de Geoffrey Homes e trabalhava como réporter no San Francisco Chronicle, Fuga do Passado é um dos melhores Noir de todos os tempos e é clássico fundamental na filmografia do gênero por ter primorosa estrutura narrativa, excepcional direção e uma atuação objetiva e consistente do elenco.


Seguindo uma coesa estrutura presente - passado - presente muito bem articulada e uma das mais magníficas nos grandes noir,  a história apresenta Jeff Markham (Robert Mitchum), um ex-detetive que trabalhava para o apostador Whit Sterling (Kirk Douglas). Fora do submundo, agora Markham vive em uma pequena cidade da California, está apaixonado por uma bela e gentil mulher, Meta (Rhonda Fleming) e trabalha em um posto de gasolina. Ao receber a visita de um dos capangas de Sterling, a paz de Markham é impactada e o passado vem à tona, ele terá que reencontrar Sterling e fazer mais um servicinho ao corrupto. Na sequência, com alternância para flashback e em belíssimo plano em um carro em movimento e com narração, Markham começa a contar o segredo para Meta. No passado, Sterling o contratou para encontrar a femme fatale Keith (Jane Greer), que havia atirado em Sterling e lhe roubado uma quantia. Markham se envolve passionalmente com Keith e , com a  narrativa retornando ao presente, uma trama de traição, paixão, corrupção e jogos ambíguos coloca em risco a vida do detetive.


Fuga do Passado é um noir único, daqueles que tem uma história inesquecível de um herói comum que só precisava de uma chance para ser feliz mas está condenado pelo destino. Robert Mitchum, em excelente performance, é o herói boa gente, apaixonado e cercado por armadilhas e, portanto, ele é essencialmente trágico. Ele não consegue escapar do próprio passado por mais que tenha fugido dele. O submundo o persegue e idiotas como Sterling também.  Para complementar mais um atrativo componente da história surge a hipnótica Jane Greer na pele da dissimulada Keith. Com sua elegância, seus olhos apaixonados e juras de amor à Markham, essa mulher é um problema desde o início. Ela é tão envolvente que é possível acreditar nela e, por isso,  se destaca como uma das mulheres noir mais cínicas e sedutoras da história. 


Mesmo com estética similar  a outros noir e um tempo narrativo que usa flashbacks, o longa tem seu brilho próprio. Basta observar o plano mais inicial que o capanga de Sterling dirige um carro e a câmera estática faz o expectador acompanhar o trajeto. Com cortes bem definidos e um detetive misterioso que contrasta com o local, ele encontra Markham e sugere que não haverá mais paz, o ex-detetive terá que retornar à Nova York e lidar com o vingativo gângster.  A linguagem cinematográfica dessa sequência já orquestra magnificamente o tom do filme com um homem da cidade grande que retorna do passado para incomodar o presente alheio em uma cidade interiorana. Jacques Tourneur faz um trabalho sólido de direção na alternância dos tempos narrativos, incluindo também planos gerais e diurnos com locações no interior dos USA e México e ambiente noturno e urbano, com uso premeditado de fotografia noir de baixa iluminação e sombras. Essa versatilidade da atmosfera visual enriquece bastante a experiência com o longa e varia o espaço em comparação a outros noir que usam locações mais internas como casas, escritórios e bares. Aqui é possível ver cachoeira, rio e praia, por exemplo. O filme também se destaca por ter alguma fotografia mais solar que é ressaltada pelo plano geral em paisagens. Essa alternância claro e escuro é um bom recurso e contrasta bem a dicotomia paz do interior x o submundo  da cidade. No interior está  o novo amor de Markham e seu leal ajudante surdo-mudo. Na cidade está o mundo gângster e a ex-amante de caráter duvidoso. 







Como de costume, os diálogos são muito bons. O texto é tão excelente que a narração de Markham tem um forte teor intimista que possibilita ao público acreditar muito mais no que ele está falando e sentindo. Os pontos de virada são surpreendentes e ressaltam a função dramatúrgica de Markham como um herói predestinado ao infortúnio. Porém, aqui há um diferencial que agrega muito valor: o romance entre Markham e Keith. Este noir é tipicamente romântico em parte relevante da projeção, principalmente no primeiro ato do passado quando ambos se conhecem. A paixão é irresistível e faz perder o bom senso de que podem ser descobertos e perseguidos por Sterling. Os diálogos entre eles têm uma emoção de "viver aqui e o agora, apenas nós dois" embalados por uma trilha sonora comovente.  As cenas são belíssimas e tem um efeito cinematográfico fascinante nos beijos,  declarações de amor e na tensão sexual dos amantes, certamente a química e o texto entre Robert Mitchum e Jane Greer é um dos pontos altos. Além do mais, a relação é polarizante, ou seja, vai da paixão e das promessas de amor até o sarcasmo, mentiras, a desconfiança e a obsessão.  Como coadjuvante, Kirk Douglas completa o triângulo amoroso,  é obcecado por Keith e está disposto a tê-la como uma prisioneira.  Todas essas relações se tornam dolorosamente dramáticas no  encontro e desencontro dos amantes e valorizam Fuga do Passado não somente como um fascinante suspense mas um drama noir pautado no romantismo e na obsessão.








Ficha técnica do filme ImDB Fuga do Passado

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