sábado, 22 de novembro de 2014

Núpcias de Escândalo (The Philadelphia Story) - 1940








As imortais comédias românticas do final dos anos 30 e início dos 40 como  Do Mundo nada se leva  de Frank Capra (1938), Jejum de Amor de Howard Hawks (1940) e Núpcias de um escândalo de George Cukor (1940) têm alguns pontos em comum que refletem o contexto da Grande Depressão, o comportamento da alta sociedade Americana, a influência do Jornalismo e a importância dada à matéria de capa e a combinação romântica entre pessoas de classes sociais diferentes. Esses roteiros também foram adaptados de peças teatrais e significam um bem sucedido entretenimento para o público, rendendo prêmios importantes como o Oscar. Em Núpcias de Escândalo, dirigida por George Cukor e com produção de um dos mais influentes da época, Joseph Mankiewicz, o script é de Donald Odgden e Waldo Salt baseado na peça de Philip Barry e, em 1941, venceu o Oscar de melhor roteiro adaptado além de melhor ator coadjuvante para James Stewart.



Com a elegante e impactante presença de Katharine Hepburn como Tracy Lord, uma socialite da Philadelphia que separou-se do ricaço C.K. Dexter Haven (Cary Grant) e está às vésperas de seu segundo casamento com George Kittredge (John Howard), outro ricaço. O editor de uma revista local pressiona o escritor Mike Connor (James Stewart) a realizar uma matéria sobre o dia a dia da noiva. Mike não aceita muito bem esse tipo de trabalho jornalístico mas precisa de dinheiro. Ele e a fotógrafa Imbrie (Ruth Russey) com o qual mantém um affair são recebidos na casa de Tracy e essa aproximação entre  todos eles e os familiares influencia os rumos do casamento e do comportamento da socialite.





Katharine Hepburn entre 3 homens: Libertador para a época



Núpcias de Escândalo é uma comédia romântica sofisticada e cheia de graça. Mesmo que ocorra em um ambiente da alta sociedade, os personagens são desprovidos da arrogante e extrema ostentação e a empatia do elenco é naturalmente desenvolvida. Para começar o  sabor elegante da comédia, a forma como a câmera enquadra Katharine Hepburn  ressalta o espírito de deusa que ela tem na narrativa. Tracy é a protagonista e contracena essencialmente com três homens que a elogiam e a admiram, cada um à sua maneira. Dexter ainda mantém o afeto por ela mas ambos se enfrentam como um pé de guerra . Mike é o escritor, o homem modesto que não deseja fazer a matéria mas se aproxima de Tracy, aprende a revelá-la e fica fascinado pelo que está atrás das aparências. George é o homem de negócios emergente, vaidoso e possessivo que tem em Tracy sua grande conquista. No meio deles está Hepburn em estado de graciosidade sem deixar de expor o lado mulher mimada, segura de si e arrogante da socialite.  A atuação dela é excepcional e ela reina nas cenas como fundamental para o êxito da história. Bastante refinada, feminina e com competência técnica nos diálogos, Hepburn sabe valorizar o seu próprio papel e, ao mesmo tempo, ceder espaço para o brilho de seus companheiros de elenco.




Katharine Hepburn e Cary Grant : uma relação mal resolvida


No desenvolvimento da narrativa, o roteiro faz mais a diferença do que a direção que, ainda assim, é excelente. Logo no início, uma inesquecível sequência de planos digna de homenagear os trejeitos físicos do Screwball e o saudoso Charles Chaplin. Os diálogos inteligentes e sedutores têm bom timing cômico e a escolha do elenco é aderente à função dramatúrgica de cada personagem, o que é fundamental para essa história porque fala de transformação mais humanizada de uma socialite. Tracy é vista como deusa e mantém um comportamento duro consigo mesma e com os outros. De certa forma, ser considerada uma deusa poderia ser um elogio de beleza e de inspiração mas na história isso precisa ser quebrado sem depreciar o valor de Tracy, de suas virtudes e emoções. Ela tem que ser mais sensível à fragilidade dos outros e a de si, ouvir o seu coração. Para viabilizar essa mudança na história, o papel de James Stewart é essencial. Merecidamente ganhador do Oscar, ele surge como essa figura mais humilde, sincera e de nível social inferior para quebrar essa casca da elite Americana. De maneira bem apropriada, ele é um outsider que mostra o reflexo da fusão entre classes durante a Grande Depressão Americana e passa de  um comportamento reativo inicial e pouco confortável para outro completamente diferente e mais cômico. A finèsse e charme de Cary Grant continuam intocáveis e, embora tenha um personagem mais  briguento e orgulhoso, suas falas cortantes e irônicas são imperdíveis, em especial, ao lado de Hepburn com a qual ele trabalhou em Levada da Breca (1938).


Considerada uma das comédias mais brilhantes pelo American Film Institute, Núpcias de Escândalo tem um importante componente de libertação feminina para a época, certamente um choque para os conservadores. Como o sexo  ainda era bem encoberto pela censura, os roteiristas criavam histórias que em momentos específicos sugerem discretamente a sexualidade e o faziam muito bem nas comédias românticas. Ao inserir Tracy entre três homens que a desejam, dar a opção para ela tomar decisões afetivas (inclusive flertar e beijar mais de um homem) e provocar no público a curiosidade com quem ela ficará no final, o longa é mais convidativo e revelador. É um presente cinematográfico que atravessa décadas e continua com um humor cheio de frescor e romantismo para celebrar o Amor. 







Ficha técnica do filme no ImDB Núpcias de Escândalo

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