domingo, 23 de novembro de 2014

MaDame Gângster: Os intocáveis (The Untouchables) - 1987


MaDame Gângster:
A Máfia no Cinema



Este MaDame Gângster menciona alguns spoilers e mostra imagens de planos, indicando algumas características recorrentes da linguagem cinematográfica usada por Brian de Palma.




Tema recorrente em filmes e séries que abordam a Máfia, a Lei Seca nos USA proibiu o negócio de bebidas alcoólicas do início dos anos 20 até 1933 e abriu espaço para a sua produção, transporte e comercialização clandestina e a um período de crimes envolvendo gângster . Nesse contexto, surgiu a figura de Al Capone, um líder mafioso temido e uma das figuras mais míticas nas obras audiovisuais do tema.  Os intocáveis é um dos clássicos mais exitosos de Brian de Palmaum diretor que se deu bem melhor em longas inseridos nesse contexto como os também sensacionais Scarface (1983) e O Pagamento Final (Carlito's Way, 1993). 


Estrelado por um elenco de primeira, o longa coloca 4 homens do bem na linha de frente para encarar o império corrupto de Al Capone (Robert de Niro) e levá-lo à cadeia: Agente federal Eliot Ness (Kevin Costner) que lidera a equipe. Jim Malone (Sean Connery), um veterano e estratégico policial que não foi corrompido pelo sistema. Agente George Stone (Andy Garcia), jovem policial, tecnicamente eficaz e com impetuosa ação do início da carreira e agente Oscar Wallace (Charles Martin Smith), oficial responsável pela Contabilidade e que se une ao grupo para apoiar a investigação e sair a campo. Eles formam Os Intocáveis que significa que são os que não se vendem por propinas em uma Chicago dominada por um sistema corrupto em várias esferas: do político ao policial, a decadência de caráter  e o domínio de Al Capone são o modus operandi. Não se pode confiar em quase ninguém.




Plano com plongèe : uma escolha de linguagem 
para apresentar o submundo dominado por Al Capone.



Brian de Palma usa o que tem de melhor em sua direção: seu caso de amor com a câmera que conduz o público ao clima de tensão absoluta.  Ele é um diretor que nasceu para suspenses e mantém a sua devoção às influências de Hitchcock. Adiciona o DNA do thriller através da construção de sequências de planos primorosamente bem estilizados para segurar ao máximo o suspense. Acima de tudo, o cineasta é fiel e assertivo ao seu estilo. Essa combinação de ação e suspense em Os intocáveis é realizada com bom planejamento dos planos e da edição que levam a audiência a não tirar os olhos da tela. O expectador é incentivado a observar os recursos que ele usa (e sua intenção na narrativa) como manobrar ângulos verticais de belo impacto visual como o plogèe (filmado por cima) logo no plano inicial com o poderoso Al Capone. Mais adiante nas melhores cenas de ação, cortes rápidos que revelam diferentes aspectos da cena e/ou perspectivas. Esses recursos ressaltam que Brian de Palma é um diretor muito visual e vale mais a pena observar as imagens não verbais do que os diálogos em seus grandes clássicos. 



Plano com recurso voyeurista: tipicamente um toque a la De Palma





Plano com o carrinho de bebê: Misto de suspense e horror.
 Momento de tensão em sequência de ação!


Muito mais do que um thriller, Os intocáveis é um filme de ação.  Brian de Palma tem uma qualidade positiva para alguns de seus filmes: o dom de construir boas e violentas sequências de ação. Assim como realizou boas e decisivas cenas em O Pagamento Final,  neste aqui ele realiza extensa sequência do enfrentamento entre o herói e os mafiosos em uma estação de trem.  Há o mesmo clima de tensão apoiado também por trilha sonora. É deslumbrante o cuidado técnico ao dirigir Kevin Costner e Andy Garcia em grande estilo até para segurar o carrinho de um bebê. De Palma leva em si um senso de justiça, não perdoa a máfia e arquiteta uma imperdível ação para matar os bandidos e tirar o fôlego da audiência.  Essa característica do diretor tem muito a ver com seu estilo voyeurista. As sequências longas prolongam o efeito do suspense e convida o público a observar o ambiente e o encadeamento de situações que culminam em um golpe final. O expectador se sentirá parte integrante da cena, principalmente ao mirar os primeiros planos dos rostos como o de Kevin Costner em uma briga no  alto de um prédio ou observar com um binóculo a movimentação de uma negociação entre mafiosos.  Os olhos são muito enquadrados pela câmera em variadas cenas. Com esse voyeurismo, é natural de Palma projetar as cenas com uma forte intenção de fazer o expectador  analisar melhor o que está acontecendo. Ao ser voyeur à la De Palma, há um prazer cinematográfico até mesmo ao ver a mais cruel cena. 







Influência de gênero Western além das fronteiras de Chicago



De maneira brilhante, a dimensão espacial não se limita à cidade de Chicago. Brian de Palma busca referências no western em uma sequência na qual surgem os 4 intocáveis no campo montados em seus cavalos e, em parceria com policiais locais, estão preparados para armar uma emboscada e atacar uma negociação dos mafiosos. Um trabalho exemplar de direção de Brian de Palma que teve a participação de Morricone, especialista em trilhas para faroestes e ganhador do Grammy por este score. Outra referência metalinguística a outros gêneros foi adicionar a violência com uma dramatização aterrorizante e sangue para todo o lado (como ele já fez em seus filmes de terror como Carrie, a Estranha). Essa evidência influenciada pelo horror é vista com Sean Connery que rasteja pela casa. Connery ganhou o Oscar e o Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante por esse papel . Sua participação é emblemática pela integridade, pelo conhecimento daquele ambiente corrupto, pela mentoria e pelo senso de justiça. Sua aproximação ao personagem Kevin Costner é pautada muito mais do que uma parceria mas em uma figura paterna e inspiracional. 





Plano em tomada interna, profundidade de campo e sangue: 
Referência no Terror



No que se refere ao desenvolvimento dos personagens, a escolha dos atores foi muito crível e, em especial, a caracterização e o figurino. Além da presença magnífica de Sean Connery, Kevin Costner tem uma atuação consistente e cresce no papel à medida que fica mais seguro e esperto. Seu ar de bom moço, homem de família e humildade para pedir ajuda é simbólico e contrasta com a inescrupulosa figura de Al Capone que não mostra vulnerabilidades e a quem todos temem. Charles Smith é um ótimo coadjuvante e tem estilo excêntrico, cômico. Ele saí  da função burocrática de um contador e concilia o entendimento de questões da Receita Federal com a ação em campo, uma escolha improvável por ele não ter uma aparência temerosa. Andy Garcia complementa os intocáveis como o latino que representa o imigrante com seus ideais para ter um ofício institucionalizado nos EUA e fazer a diferença como policial. Essa diversidade dos personagens  enriquece o desenvolvimento da narrativa e a sinergia entre eles.  Para completar esse elenco excepcional, Robert de Niro é transformado em Al Capone com um bom uso de maquiagem e vestuário.O interessante de sua participação  é a sua fantástica capacidade de aparecer em poucos momentos e, ainda assim, ser inesquecível ao transitar entre o grotesco vilão e o senso de humor negro. Imediatamente é possível ir com a cara de Al Capone por mais bandido que ele seja.




Plano contra-plongèe( filmado a partir de baixo), posteriormente com zoom, 
chegando a níveis de primeiro plano e plano detalhe dos olhos:
Momento emblemático de Kevin Costner com intenção de expressiva superioridade


Convém salientar que o filme tem um excelente roteiro escrito por David Mamet, fato que chamou a atenção de Brian de Palma e o fez se interessar pelo projeto. Mamet é um roteirista conciso e objetivo e entende que o Cinema é mais imagem e como os planos são justapostos com uma fluída edição, desta forma, o olhar e a orquestração do diretor são fundamentais e facilitados quando bem amparados por um excelente roteiro. Prova disso é o seu livro Sobre direção de Cinema, uma série de fragmentos de palestras e indicam como Mamet está sensível à importância de uma boa construção dos planos. A parceria entre ele e De Palma caiu como uma luva porque Mamet pôde se colocar no lugar do diretor ao  escrever um roteiro  não problemático e que contribui para a decupagem. Para fechar esse clássico com chave de ouro, Os Intocáveis é um filme obrigatório para análise de direção. Saindo  do estigma de copiar Hitchcock, argumento de tantos que criticam De Palma como um imitador de diretores, aqui ele deixa sua marca como um excelente linguista cinematográfico e prova que tem talento próprio.










Ficha técnica do filme ImDB Os intocáveis




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