terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Preciosa - Uma História de Esperança (Precious) - 2009

Everything is a gift from the universe.
Tudo é um presente do universo.
(Keyes Jr. Ken)


O novo filme independente de Lee Daniels baseado no romance homônimo de Ramona Lofton (Sapphire) é feito para todas as garotas preciosas do mundo, exatamente como citado em uma emblemática frase "For Precious Girls everywhere". O adjetivo preciosa foi usado para nomear a jovem protagonista, interpretada pela estreante Gabourey Sidibe, uma problemática adolescente afrodescendente que nasceu no Harlem e que tem uma vida de cão na mais legítima e triste das demonstrações: Abusada pela autoritária, agressiva e inútil mãe, violentada sexualmente pelo pai canalha, mãe de uma filha mongolóide e grávida do segundo filho, ambos frutos do incesto com o pai soropositivo que, também a contamina com o HIV. Além disso, Precious é uma jovem que é desprovida de toda a imagem de perfeição pregada pela hipócrita e preconceituosa sociedade atual: ela é negra, gorda, pobre e analfabeta, indicando que a romancista Sapphire reuniu em Precious tudo que não é valorizado no mundo contemporâneo e, muito inteligentemente, colocou o nome de Preciosa, de estimável grande valor. Em um mundo pré-fabricado de loiras e bem-sucedidas Giseles Bündchen, mulheres frutas siliconadas e plastificadas e adolescentes bulímicas que buscam o corpo esguio e se esquecem de olhar para algo mais valioso dentro delas, Preciosa - uma História de Esperança é um grande chamado para a valorização do indivíduo, independente do que é pregado na mídia e pasteurizado na cabeça vazia de diversas pessoas.



Clareece Precious Jones é uma adorável sonhadora, cuja vida é o mais triste retrato da trajetória de tantas outras jovens preciosas que têm suas vidas devastadas pela violência e o desamor advindo do lugar que deveria significar Amor: a família. Ela sonha como o seu professor de matemática abrindo mão da esposa branca para viver com ela. Ela sonha em ser magra, de pele clara e cabelos lisos e longos. Ela sonha em ser uma cantora de sucesso. Ela sonha em ser a namorada de um belo e atraente homem. Ela sonha com uma mãe amorosa. Ela sonha com o amor das pessoas. Ela simplesmente sonha em ter uma vida normal que a faça se sentir preciosa. Em termos de direção e roteiro, estes planos imaginários de sonhos são muito bem entrelaçados no drama se misturando à sua trágica e dura realidade. Lamentavelmente, o ambiente familiar de Clareece é um pesadelo. A mãe Mary (Mo'Nique, indicada ao Globo de Ouro 2010 como melhor atriz coadjuvante por esta atuação)
é a figura mais grotesca de uma pseudomaternidade. Não faz absolutamente nada a não ser fumar o seu cigarrinho sentada no sofá enquanto abusa moralmente da filha que só serve para cozinhar para ela, acrescido o fato de que ela odeia a filha por ter "roubado seu homem", exemplo clássico da pobreza de espírito já que ela é a cúmplice calada dos abusos sexuais de seu marido, perpetuando seu silêncio submisso às atrocidades cometidas contra Precious, sendo desta forma também uma pobre mulher refém de um marido moralmente doente. Os insultos de Mary são devastadores a ponto de causar o asco total na sensível platéia, chamando a filha de burra, porca e uma série de nomes humilhantes, não a incentivando a ir à escola e crescer na vida, afinal há mulheres que não nasceram para receberem o valioso nome de mãe, mulheres que parecem ter nascido do próprio mal, a raiz da brutalidade moral.



Neste contexto infeliz, Precious depende da mãe financeiramente que tem a custódia dela e da filha. Por outro lado, Mary depende do cheque da assistência social, logo é uma típica sanguessuga. Em uma das cenas que causam mais indignação com a natureza podre de mães como Mary, ela e Precious recebem a assistente social em visita à casa delas que averigua como anda a criação da filha de Precious no entanto a filha dela não reside lá, só é levada quando é necessário "teatralizar" uma situação de bons cuidados com a criança. Precious acaba sendo expulsa da escola com a segunda gravidez e, sendo uma ótima aluna de matemática, é indicada para uma escola alternativa na qual é alfabetizada e tem a perspectiva de uma vida melhor. Lá, ela tem como professora a Senhora Rain (Paula Patton de Deja Vu) que muito além de seu ofício educacional ajuda Precious a revelar o melhor dela e não desistir da vida, atuando também como
uma espécie de "mentora". No desdobramento da história, Precious conhece o enfermeiro John (Lenny Krevitz) e a assistente social Sra Weiss (Mariah Carey, neste papel em uma pequena participação porém bem mais madura e consistente em comparação à performance framboesca em Glitter e, recentemente ganhadora do Breakthrough Performance Award no Palm Springs International Film Festival).




A mais preciosa verdade de Preciosa é relatar que a vida não é um paraíso mas sempre há esperança, só depende do nosso primeiro passo. Como diz o mote no início do filme : Tudo é um presente do universo, até nas piores circunstâncias porque, uma vez superadas, a vida nos presenteia com algo melhor. Sempre há a possibilidade de fazer escolhas que nos direcionem a vencer mais um obstáculo. Precious, a jovem negra, obesa, mãe solteira de 2 filhos, estuprada pelo pai e abusada pela mãe aprende a escrever textos poéticos encontrando lirismo em sua tragédia, Precious aprende as letras do alfabeto que lhe dão mais dignidade para enfrentar o seu futuro e o mundo. Com esta superação como exemplo, Lee Daniels produz um filme inspirador que cativa e emociona e tem toda a qualificação para desbancar as mega-produções e a mega injustiça que a própria sociedade impõe às pessoas que não seguem o ideal de perfeição e sucesso. A forma como o filme é enquadrado dá uma dimensão da violência imposta na vida de Precious. Tanta violência psicológica que talvez tantas outras jovens não teriam o psicológico que ela teve para seguir adiante. Jovens que não teriam o psicológico para negar os vícios do mundo, portas de entrada para uma fuga existencial: drogas, crime, prostituição, alcoolismo, etc. Sobreviver em um mundo como o dela é um martírio diário, sua fuga consistiu em ir à escola, aprender a ler e a escrever e não desistir do seu filho Abdul, mesmo sendo filho de um estupro e de um incesto. Preciosa - uma História de Esperança é um filme com uma carga dramática fortíssima mesmo reservando momentos graciosos com a estreante Gabourey Sidibe que tem um estilo carismático e simpático. O longa-metragem acaba valorizando Precious mesmo em meio à sua vida degradante. Acima de tudo, Precious é uma boa garota que tem valor, por isso ela só poderia receber o nome de Preciosa. Terminei de assistir o filme e só pude pensar como tenho valor, não importa o que os outros me digam e me façam, não importa se sou gorda ou magra, negra ou branca, pobre ou rica, eu também sou preciosa. Você também é preciosa(o).



Avaliação Madame Lumière


Título original: Precious
Origem:
EUA
Gênero:
Drama
Duração: 110 min
Diretor(a):
Lee Daniels

Roteirista(s):
Geoffrey Fletcher, Ramona Lofton
Elenco: Gabourey Sidibe, Mo'Nique, Paula Patton, Mariah Carey, Sherri Shepherd, Lenny Kravitz, Stephanie Andujar, Chyna Layne, Amina Robinson, Xosha Roquemore, Angelic Zambrana, Aunt Dot, Nealla Gordon, Grace Hightower, Barret Isaiah Mindell

10 comentários:

  1. Madame você escreve com a alma e por isso sues textos são magníficos!

    Fazendo uma correção (bem de metido) a Mariah não foi indicada ao Globo de Ouro. A Mo´Nique sim!!

    Beijos
    (to 24 horas online aqui! rsrsrsrs)

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  2. Oi Eri,

    Obrigadaaaaaaaa, meu cinéfilo Salvador. Já fiz esta importante correção. Eu logo vi que estava louca, confundi a premiação do Palm Springs no qual ela aparece bêbada haha... Logo vi que ela apareceu muito pouco e sem grande atuação em Preciosa para merecer a indicada ao Globo de Ouro. Muito obrigada, Eriiiiii!!!!!!!

    Mo'Nique foi bem... conseguiu despertar minha raiva, o desgosto total com o tipo de mãe que ela representa.

    Eu realmente escrevo com a minha alma, tenho este estilo, esta marca pessoal que é muito mais aflorada quando escrevo sobre o que gosto e acredito.

    Beijo!!!!!

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  3. Olá!
    Primeiramente, muito obrigado pela visita e por seguir o cine Freud. Já sabe que és super bem vinda sempre! hehe

    Teu blog é um encanto! tu tens reunido títulos tão diferentes entre si, que trazem preciosidades. Parabéns.
    vou segui-la, certamente.

    abraços.

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  4. pois é madame, estou curioso para ver esse filme. Sem dúvidas o asecto dramático da história da personagem é o que atrai na história. Identifico muitos pontos em comum da trajetória de Precious e o de Jamal ( o herói) de Quem quer ser um milionário?
    Mesmo a narrativa sendo diferente. Esses dois filmes abordam legítimos underdogs.
    Obviamente, qua quando eu assistir o filme, essa impressão pode mudar. E Preciosa tb terá critica lá em Claquete.
    Bjs

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  5. Olá Renato, que bom receber tua visita. Seja bem vindo sempre:<))), colega cinéfilo de Divã (rs)!

    Grande abraço,

    Saudações cinéfilas e freudianas.

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  6. Olá Monsieur, estou ansiosa por sua crítica. Quero que dividamos olhares. Muito bem colocado o tema dos underdogs. Embora sejam narrativas bem diferentes, eles se encontram à margem da sociedade, sem uma sustentação familiar que lhes apoie. Acho que, neste sentido, a vida de Precious e Jamal se aproximam, mas o delineamento dos personagens é bem diferente. Assistirei novamente Quem quer ser um milionário para poder aferir os pontos de intersecção. beijo e obrigada pela contribuição!

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  7. Fabuloso filme, merecedor de todo o género de aclamação da crítica e dos prémios. É puro Cinema, ao equilibrar tão harmoniosamente o realismo e a ilusão que são inerentes a esta arte.

    E destaco a interpretação de Mo'Nique — plena de ímpeto e fúria, esta actriz é uma absoluta força da natureza! Que lhe entreguem o Óscar!

    Cumprimentos cinéfilos.

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  8. Olá Sam,
    Gosto bastante deste equilíbrio dicotômico do realismo e da ilusão. Um dos pontos altos do filme. Mo'Nique está um monstro de interpretação. Uma mulher muito má, boa o suficiente para concorrer fortemente ao Globo de Ouro. Vamos esperar o Oscar também. Estou ansiosa pela lista!

    Cumprimentos cinéfilos

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  9. oi madame meu nome e monique me sentia um pouco infeliz mas ao ver o filme me lembrei do quanto deus foi bom comigo,so mesmo um choque de realidade pra nos lembrar de como e a vida fora do nosso mundinho perfeito...bju

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  10. Oi Monique,

    Obrigada pela sua visita. Exatamente! O filme tem esta vantagem, ele nos mostra que tem pessoas em piores situações que a nossa e isso, de certa forma, mesmo sendo triste ver alguém sofrer, nos tranquiliza, afinal ninguém quer ter uma vida infeliz. bjs!

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MaDame Lumière