sábado, 9 de janeiro de 2010

Casa de Areia - 2005



Gosto muito de Casa de Areia, filme nacional de Andrucha Waddington com Fernanda Montenegro e Fernanda Torres em imperdíveis atuações em família. Bacana ver mãe e filha trabalhando juntas, talentosas e um patrimônio para nós, brasileiros. Daquelas que não precisam falar nada em cena para passar emoção ao público. Logo no começo do filme, há uma cena que elas andam juntas pelos Lençois Maranhenses sob aquele sol escaldante. Suor, cansaço, união e nenhuma palavra dita. Uma imagem que já diz tudo, dispensa até monossílabos.


Casa de Areia é o típico filme que as cenas e interpretações falam por si. Belas. Poéticas. Só olhando pra sentir e, com o passar do tempo, o filme se faz presente novamente em minha vida como se as areias tocadas ao vento retornassem para o mesmo lugar, o meu lugar. Agora, o que eu quero mesmo é louvá-lo pelas metáforas que trouxe à minha mente: Fernanda Montenegro e Fernanda Torres fazem o papel de mãe e filha, que são levadas à uma região inóspita e labiríntica, no meio da areia e sem saída. Essa é a casa de areia, aqui no sentido de lar. Elas vivem neste lugar e este passa a ser sua casa, livre de qualquer materialismo, fora de qualquer convivência com a capital e o capital.




Como isso é possível?
Aqui que está uma das perguntas mais relevantes sobre o filme e que me dá a melhor resposta. O que se percebe no enredo - areia é algo que se esvai muito rápido, imóvel, passa com o tempo, sendo substituido por uma nova areia. Elas conseguem passar mais de 50 anos nesta Casa de Areia e é nesta areia, racionalmente inconstante que elas firmam sua casa e as relações. Nesta areia que se move, a vida delas também se move : morte, incompreensão, sexo, amor, confiança, revolta, esperança. No meio da necessidade, o que não tem é o que é da "capital", por mais que num primeiro impulso e até como "meta" o objetivo seja sair de lá, percebo que com o passar dos anos(e na troca de gerações porque há uma alternância de personagens entre Fernanda Montenegro, Torres e outros atores), sempre há uma geração que se habitua ao lugar. Porque no fundo, o tempo castiga, o tempo molda essas vidas e é ele quem manda e desmanda. Ele comanda tanto que elas não podem fazer nada e, seguramente, essa deve ser a idéia dos roteiristas (Elena Soarez, Luiz Carlos Barreto e Andrucha Waddington). Deixa-las imóveis, desgastadas pelo tempo.





Esta Casa de Areia é um microcosmo de um mundo possível de encontrarmos nosso lugar, mesmo que desprovidos do dono do mundo, o dinheiro. Lá onde não tem nada só AREIA, onde o dinheiro guardado não vale nada, onde todos os seus pertences não valem nada. A mensagem final tem uma relação interessante com a realidade e para fechar este tema: Maria, interpretada por Fernanda Montenegro como 3ª geração é a única que consegue sair deste lugar e ir para a capital (porque é necessário para fechar a mensagem final no diálogo mãe e filha que lhes deixo abaixo).

Ao voltar à Casa de Areia e reencontrar sua mãe (também Fernanda Montenegro envelhecida com muita maquiagem), Maria conta que o homem pisou na lua e, Auréa (a mãe) pergunta à ela: "O que ele encontrou lá, filha?". Maria responde: Areia!




Me surpreendi com este comentário incrível de Maria, em um reveladora evocação da originalidade desta parte do enredo e minha leitura do filme só se confirmou : O homem, em busca de evolução e patrocinado por avanço tecnológico, pisou na lua e encontrou areia. A relação e o contraponto com aquele mar de areia, onde elas viveram por anos, é que o homem encontrou na LUA (marca temporal) o que elas encontraram no meio do Maranhão por toda uma vida: AREIA (marca atemporal). Só que não havia capital, somente havia o que era mais rudimentar. Não havia futuro, nem qualquer marcação cronológica de um presente de conquistas para a humanidade. Havia só coração. Havia só sobrevivência. Havia só desapego; estes sim são elementos atemporais que interessam à nossa evolução humana.


Avaliação Madame Lumière


Título original: Casa de Areia
Origem:
Brasil
Gênero:
Drama
Duração: 103 min
Diretor(a):
Andrucha Waddington
Roteirista(s):
Elena Soarez, Luiz Carlos Barreto e Andrucha Waddington
Elenco: Fernanda Montenegro, Fernanda Torres, Ruy Guerra, Seu Jorge, Luiz Melodia, Enrique Díaz, Stênio Garcia, Emiliano Queiroz, João Acaiabe, Camilla Facundes, Haroldo Costa, Jorge Mautner, Nelson Jacobina

10 comentários:

  1. Este filme é totalmente sensivel, metafórico, profundo. A premissa tem argumento muito bem desenvolvido, sem falar no espetáculo do duelos interpretativos das "Fernandas", mãe e filha em plena sintonia e talento!

    Eu procuro ele em dvd. Vi duas vezes, apenas. Nunca achei pra venda.

    Abraço e seu blog é muito bom!

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  2. Uau. Que bela epifania. Lembro de ter gostado desse filme à época que o assisti.Mas lendo sua critica agora é como se ele se revelasse para mim agora. Acho que vc aprofundou a questão, em um viés filosófico, que a critica nacional ainda não havia experimentado. Parabéns pelo aguçado olhar madame.
    A lua e o maranhão... Nossa
    Bjs

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  3. Obrigada Reinaldo. Tão feliz agora em saber que você pôde ter esta descoberta ao ler minhas linhas. O filme tem esta mensagem para mim e, nem sei o que a crítica nacional pensa sobre o filme, só sei que eu simplesmente viajei pra Lua... do Maranhão.
    Beijo

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  4. Cristiano, ele é metaforicamente lindo demais. Pra mim, está entre os melhores nacionais e, lendo seu comentário, dá vontade de ter um exemplar em casa. abs

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  5. Outro texto incrível Madame.

    Me parece que nós, brasileiros, desacreditamos no nosso cinema! Quando temos verdadeiras obras-primas como Cidade de Deus e Central do Brasil. Vejo pelos meus colegas na escola, adolescentes de 15, 16 anos, que nem sequer assistiram os citados! Ou pela minha locadora onde alugo filmes. O único nacional que tem é Se Eu Fosse Você! Dá pra acreditar???

    Beijos Madame, e obrigado por comentar lá no blog!! Também fiquei tocado pela temática paterna de O Rei Leão!! E gostaria de fazer um pedido. Poderia colocar o MaDame Lumière na minha lista de blogs amigos??

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  6. Para mim, esse é um filme que se perde em sua própria ambição. Não gosto de "Casa de Areia", exceto dos seguintes aspectos: a fotografia, a trilha sonora e as atuações das duas Fernandas.

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  7. Olá Eri,
    As pessoas deveriam apreciar mais o cinema nacional. Com relação a estes filmes brasileiros, percebo que as locações nas locadoras próximas à minha residência têm mais saídas destes últimos filmes "globais" de comédia como Se eu fosse você 1, 2, A mulher invisível e Divã.

    Embora goste de comédia, é cansativo ver que os brasileiros que não são muito esclarecidos com relação à cinema nacional tendo uma visão subestimada ainda, tende a vê-lo como uma continuidade das novelas globais ou as antigas pornochanchadas. Acho o cúmulo algumas locadoras não terem estes grandes filmes nacionais como você mesmo citou.

    Vamos fazer a mudança na blogosfera, né? Sempre penso que, além da paixão, nós cinéfilos temos um papel de mostrar o valor do Cinema para as pessoas e saber tirar o joio e o trigo do longa ao invés de sair metralhando os filmes, principalmente os nacionais.

    É claro que pode colocar meu blog no hall de seus amigos.

    Beijo da Madame!

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  8. Olá Kamila,
    Que pena que você não gosta deste filme! A atuação das duas Fernandas e a Fotografia têm uma grande força em a Casa da Areia, já as considero uma ambição que deu certo. abs, Madame

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  9. Ola boa noite. Gosto muito deste filme, e queria saber se tem uma possibilidade de baixar ele. E impossível achar este filme para venda na França (sou francês). Muito obrigado.
    ps : é a primeira vez que visito seu site, parabéns !

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  10. Olá Maurice Bom dia! Obrigada pela sua visita no meu blog. Estou muito contente que alguém que está tão distante o localizou.

    Eu assisti este filme no cinema e, depois, em DVD pois tem na locadora perto de casa. Vou verificar se o encontro em um link para você baixá-lo.

    Abraço!

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