sábado, 30 de janeiro de 2010

Invictus ( Invictus ) - 2009


"I dream of an Africa which is in peace with itself."
"Eu sonho com uma África que esteja em paz com ela mesma".
(Nelson Mandela)



O que faz um homem ser um líder? Saber valorizar as pessoas? Saber influenciá-las? Saber inspirá-las? Saber movê-las a um propósito maior? Ser um líder é saber tudo isso e, muito mais. É, acima de tudo, colocar-se no lugar do outro e, harmoniosamente, identificar o que os outros têm de valor e onde elas são capazes de chegar juntas para um bem coletivo. É saber tolerar os indiferentes e os resistentes, traçando estratégias genuínas para conciliar as diferenças. O que faz um líder é humildade, carisma, espírito visiónario, influência, superação e inspiração e, Nelson Mandela, um dos maiores líderes estadistas do mundo à frente da presidência da África do Sul, um país torturado pelo preconceito racial herdado do apartheid é definitivamente um dos melhores líderes da História, símbolo de inspiração de que um homem pode mover multidões em favor de um mundo melhor. Reconhecido como carismático e influente líder, Nelson Mandela conquistou sua liberdade após 27 anos preso, chegou à Presidência com as primeiras eleições diretas da África do Sul e foi essencialmente o líder em busca de paz e tolerância, vencendo o apartheid, perdoando aqueles que o colocaram na prisão.



Em Invictus, novo filme do supremo Clint Eastwood, Nelson Mandela é a inspiração, a transpiração e a ação. Baseado no livro Conquistando o inimigo, Nelson Mandela e o jogo que uniu a África do Sul (Playing the enemy : Nelson Mandela and the game that made a Nation) do jornalista John Carlin, o longa-metragem ambienta o espectador nos bastidores presidenciais e esportivos antes e durante a Copa do Mundo de Rúgbi em 1995, o esporte preferido dos sul-africanos brancos, fanáticos pelo time de Springboks (Brokke) a nação esportiva Rúgbiana tão representativa da África do Sul. Nelson Mandela (Morgan Freeman, excelente) saíndo da prisão e confrontando-se com a segregação racial e social em seu país, precisava de uma estratégia influente que desmoronasse os muros da intolerância entre negros e brancos. Ele poderia usar a oratória carismática em seus discursos mas isso não seria suficiente, ele precisava servir-se de exemplos práticos, inspiradores, emocionalmente catalisadores para uma união além dos discursos políticos. O real desafio de Nelson Mandela era criar uma nova identidade para o povo Sul-Africano, a identidade de uma nova nação, sem o apartheid. E, ao invés de focar diretamente nos negros, naturalmente aliados, ele se adentrou em seu espírito visionário a traçar um plano de influência no campo inimigo, servindo-se do esporte rúgbi, paixão e ponto fraco dos brancos sul-africanos a fim de conquistá-los e, consequentemente, também despertar nos negros a paixão nacional que uniria o seu povo em uma nação multirracial. Mas como fazê-lo se o time de Rúgbi nacional era um real desastre? Como levar um time fiasco à elite internacional do Rúgbi? Como fazê-lo ganhar uma Copa do Mundo em território Sul-Africano criando este ambiente altamente produtivo de celebração da união entre brancos e negros através do esporte? Nelson Mandela apoia o time de Rúgbi, a campanha pré temporada dos jogos e, para isso, conta com um aliado, o capitão do time François Pienaar (Matt Damon) que é o líder da seleção nacional inspirado pelo estadista líder nacional.


Invictus não é o melhor filme de Clint Eastwood e apresenta-se como bom porém sem diálogos muito perspicazes e impregnados de um conteúdo inteligente como outras películas do diretor. A emoção do argumento é que deve ser levado em conta para se extrair o melhor desta produção. Embora a idéia do roteiro seja inspiradora entrelaçando temas como liderança e paixão, política e esportes, Invictus deve ser observado sob a persepctiva da estratégia de Nelson Mandela em sua campanha pacífica contra o apartheid e de seu perfil como líder, capaz de perdoar aqueles que o fizeram muito mal ao invés de usar uma liderança rancorosa e ditatorial capaz de aflorar ainda mais o ódio entre raças. Ele usou o inimigo positivamente. O Springboks simbolizava uma das bandeiras da segregação racial. Logo, qual a diferença entre um líder bom e um líder ótimo? O líder ótimo não conquista só aqueles que já estão ao seu lado, ele conquista também aqueles que o odeiam e o faz de forma conciliatória para um propósito bem mais edificante. Esta seja talvez uma das habilidades de liderança mais dificéis de se encontrar, perdoar o inimigo, tolerá-lo e ver a importância dele para um bem comum. Em Invictus, Morgan Freeman tem uma ótima atuação porque incorpora este humilde carisma de Nelson Mandela de se colocar perante os outros de forma igual e não hierárquica e, para tornar o registro mais verossímil, interpreta muito bem Nelson Mandela na linguagem corporal e oral, desde a forma como anda e sorri, até o sotaque manso com inglês pausado. Matt Damon incorpora bem a truculência de um jogador de Rúgbi, viril e bem encorpado fazendo contraponto com uma expressão que reúne força, mansidão, humildade e superação, tão necessárias a um capitão de equipe. Tanto Morgan Freeman quanto Matt Damon têm um elo no qual valorizam ambos e isso torna Invictus um trabalho de dois líderes de estilos distintos mas que se convergem para um único propósito. Nelson Mandela confia em François Pienaar e o incentiva de que a África do Sul ganhará a Copa do Mundo. François Pienaar recebe o voto de confiança de Nelson Mandela e, pouco a pouco, se sensibiliza que o presidente é um grande exemplo para ele, um homem que, preso durante 27 anos, foi capaz de perdoar aqueles que o prenderam. Dada esta introspecção de François Pienaar e, sendo branco, ele se torna um excelente exemplo de quebra de qualquer preconceito entre raças. Esta mesma quebra de intolerância também se dá com a guarda presidencial de Nelson Mandela, que une brancos e negros que aprendem a trabalhar juntos e se respeitarem. São os seguranças do presidente que garantem ótimos momentos de aceitação das diferenças entre as duas raças.








Invictus pode não ser engenhoso, porém Clint Eastwood garante mais uma vez um filme para a reflexão social a partir de uma faceta histórica, assim como o fez em Gran Torino. As cenas de esporte ainda são as melhores cenas do filme, câmeras bem manipuladas que registraram a luta pela vitória, o esforço dos atletas, a torcida febril do povo. Há momentos tocantes como a cena solidária em que o time de Rúgbi treina meninos de uma favela e, quando fica evidente que Nelson Mandela tem fragilidades como qualquer ser humano independente de posição social, exemplificadas rapidamente através de seus problemas familiares. Como lacunas, além do roteiro ser mais linear, Invictus poderia ter um discurso mais inspirador através da ação dos personagens e, não digo, por só palavras, mas por ações muito além das gentilezas do presidente, sua visão e discurso e dos brados motivacionais de François Pienaar. Refiro-me a inspirar a ação (inspiração) como se o filme tivesse poros e transpirasse liderança e união; neste ponto, Invictus poderia ter sido potencializado cinematograficamente e, principalmente, plasticamente porque unir liderança, esportes e um povo dividido pelo preconceito é um desafiador e nobre tema para torná-lo um organismo vivo na própria tela de cinema. Não nego que esperava um filme no qual sentisse-o emocionalmente como se o suor dos atletas fosse o suor de nossas vidas contra à intolerância. A inspiração que inspira e transpira ficou mais nítida nas cenas mais finais relacionadas aos jogos de Rúgbi. Esta luta por uma vitória que simbolicamente é a vitória do povo Sul-Africano contra o apartheid é belíssima e o meu desejo foi levantar-me da cadeira do cinema e ser uma seguidora de Mandela em meus pequenos nichos de atuação. Ser ainda mais "a mestre do meu destino, a capitã da minha alma" assim como Invictus de Clint Eastwood e Invictus de William E. Henley.


Avaliação Madame Lumière


Título original: Invictus
Origem: EUA
Gênero: Drama
Duração:
133 min

Diretor(a):
Clint Eastwood
Roteirista(s):
Anthony Peckham. Baseado na obra da John Carlin

Elenco: Morgan Freeman, Matt Damon, Tony Kgoroge, Patrick Mofokeng, Matt Stern, Julian Lewis Jones, Adjoa Andoh, Marguerite Wheatley, Leleti Khumalo, Patrick Lyster, Penny Downie, Sibongile Nojila, Bonnie Henna, Shakes Myeko, Louis Minnaar

10 comentários:

  1. Uma pena que Invictus não seja tudo aquilo não. Nelson Mandela merecia!!

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  2. Olá Eri, uma pena mesmo! Concordo totalmente com você! Acho que se perdeu uma grande oportunidade de tornar este filme um ícone da cinebiografia... bjs!

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  3. Lindo review, Madame. Curti muito suas reflexões sobre liderança. Concordo plenamente. :)

    Mas, infelizmente, fica aquele sentimento de que o Clint poderia ter feito algo melhor com esse material. De qualquer forma, um belo filme.

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  4. Obrigada, Bruno. Liderança é uma rara virtude e, por isso, é inspiradora.

    Apesar dos pesares, o filme ainda inspira, principalmente através do espírito de superação esportivo. bjs!

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  5. Acho que Invictus é o filme que deveria ser. Solene, reverente e inspirador. Assim como sua critica madame. É lógico que é natural esperar sempre mais de Eastwood, mas entendo que o filme cumpre suas prorrogativas com excelência. É acadêmico e bem realizado. Não é grande cinema, e francamente, não tinha essa pretensão. A minha critica já está pronta e eu posto amanhã.
    Bjs madame

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  6. Madame, seu texto sobre liderança me lembrou das minhas aulas de administração da faculdade! E você está corretíssima.

    Nem conferi o trailer do filme, mas com o seu texto dá para ter uma boa base do que se trata, e como é um filme de clint, espera-se algo com reflexo a sociedade, como você disse.

    Eu sempre acabo detestando os filmes de Clint, mais precisamente por causa do final dos filmes, principalmente Sobre Meninos e Lobos, onde o lado "triste/negativo" do filme reinou completamente. Mas enfim... com certeza são filmes com uma grande carga de importância a ser entregue a sociedade, e isso é de se valorizar!

    Bjos!

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  7. Oi Reinaldo, também acho que, conhecendo Eastwood da forma que conheço, ele reverenciou Mandela sem extremos. Clint nunca é de excessos, não é mesmo? Ele foi centrado no foco do livro de John Carlin, não tinha muito o que adornar além de falar da manobra de Mandela em questão. De fato, eu sempre espero mais deste grande diretor, mas gostei de Invictus. Um belo filme, tem um mote inspirador, amo esportes, aprecio grandes histórias de Liderança.
    bjs!

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  8. haha... Raphael você é o máximo! Gostei da autenticidade do post com referências de suas aulas de administração. É que trabalho com liderança na minha carreira, por isso você se identificou e para mim é fácil falar sobre líderes.

    Sugiro que assista este filme. Tem esportes e lideranças e se você é de administração, poderá fazer várias analogias bacanas. bjs!

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  9. Pra mim, um filme que disse ao que veio, certeiro! Dou créditos ao Freeman, acima de tudo um 'puta ator', admiro ele! é voraz, versátil também!

    Sabe um filme do Clint que adoro? A Troca...
    quem sabe um dia você comenta dele aqui? beijo

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  10. Cris, o Morgan Freeman é realmente o cara do filme. A caracterização do personagem em pequenas sutilezas de Mandela foi impressionante e ele o faz com maestria. O cara é um "puta ator" mesmo e com Clint Eastwood ao seu lado ele fica bem melhor.

    Comento sim! Anotei a sua sugestão!
    bjs

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