segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds) - 2009

Poster de Inglorious Basterds
tão pop quanto Quentin Tarantino


Quentin Tarantino
é um gênio em uma das formas mais admiráveis que existe para o papel de um diretor e roteirista de Cinema: Inteligente, cool, bem humorado, cínico, metalinguístico e, adoravelmente chocante, sanguinário e musical. Em seu novo longa-metragem, Bastardos Inglórios, ele tem todos estes predicativos e se superou usando menos sangue e mais provocação, com uma violência que caminha tanto para uma reflexão sobre o Nazismo e suas sequelas na História Mundial como também como "um tapa na cara" deliciosamente vingativo em Hitler e em todas as formas de humilhação através do poder que culminam em intolerância, morte, guerras. Para o deleite da comunidade cinéfila, Bastardos Inglórios evoca como o Cinema é linguagem fundamental para reconstruir também momentos históricos da forma que se espera, no amâgo do desejo, é possível escrever uma nova história reflexiva através da Sétima Arte e formar uma opinião mais consciente e humana, criando novos heróis para que uma nova História seja construída sem os erros do passado, libertando os heróis que existem em nós. Servindo-se de um roteiro afiado regado de suspense, western e humor negro, embalado por uma trilha sonora imperdível e diálogos bem preparados, milimetricamente inteligentes, definitivamente um roteiro digno de mérito como obra-prima Tarantinesca, Quentin conseguiu colocar nazistas, incluindo o Alto Comando do Terceiro Reich e o próprio Führer Adolf Hitler dentro de um Cinema Parisiense e fritá-los durante a ocupação da Alemanha na França na 2ª Guerra Mundial. Um anti-exemplo através da violência
Tarantesca que deseja dar fim à própria violência., aqui representada pelo Nazismo. Uma catarse cinematográfica usando o Cinema dentro do próprio Cinema para o gozo cinéfilo de amantes como eu.



Bastardos Inglórios é um filme extremamente bem-feito com a marca do diretor: várias linguagens e referências de seu estilo desde o Pop à Música spaghetti Western e o Cinema, trabalhadas coerentemente para um desfecho supreendente e bem amarrado. Já no iníco do filme, ouço o vislumbre da música
The Verdict (do la Condanna), um mix de clássico e western (que aliás, lembra Kill Bill). Ao começar assistí-lo, a primeira idéia é "este é um filme de Quentin Tarantino", faceta que só é reservada aos grandes mestres do Cinema. A história se desenvolve a partir de capítulos que criam o clima de suspense humor entrelaçado pela ação guerra western e, começa com a matança de judeus sob a liderança do coronel nazista Hans Landa (Christoph Waltz na melhor, mais suprema e talentosa perfomance do filme) logo após um excepcional e inteligente diálogo entre seu personagem e o de Denis Menochet, o qual mantém uma família judia escondida no porão e, em um dos momentos mais impressionantes do filme, cede à influência de Hans.

Neste genocídio a jovem judia Shosanna Dreyfus (Mélanie Laurent) foge e, após alguns anos, é focalizada com sua nova identidade, dona de um cinema em Paris que, por uma ironia do destino, será o cinema escolhido pela liderança do Terceiro Reich para a exibição de uma grande prèmiere, de propaganda Nazista, do filme "Orgulho da Nação" cujo protagonista é o persuasivo e ambicioso Frederick Zoller (Daniel Brühl, de Adeus Lênin) cuja sangrenta e homicida dedicação a favor do Nazismo o tornou um espécie de celebridade, protagonizando o filme carnificina. Enquanto isso, os Bastardos Inglórios são um grupo americano judeu liderado por Aldo Raine "Apache"(Brad Pitt) que mata brutalmente os nazistas, sendo uma verdadeira "pedra no sapato" do Terceiro Reich/SS. Neste processo de morte e vingança contra os Nazistas, Raine se úne à atriz Bridget Von Hammersmark (Diane Kruger) que, famosa por seus filmes alemães, será cúmplice na "operação Kino" que planeja matar os nazistas durante esta prèmiere. Coincidentemente, Shosanna planeja o mesmo com o seu amante que, aliás, é um homem negro, dando um exemplo o quão perspicaz é Quentin Tarantino, colocando uma judia e um negro, odiados e excluídos pelo Nazismo, em um letal plano de vingança. Perfeito!



Minha experiência com Bastardos Inglórios foi bem mais contemplativa porque eu fiquei fascinada pela direção de Quentin Tarantino e como ele articula cada cena, cada diálogo, cada personagem.
Fiquei fascinada pelo roteiro e cada palavra dos diálogos perspicazes e objetivos, perfeitamente brilhantes, em especial, na atuação de Christoph Waltz, fora do comum, impressionantemente talentoso, completamente bem articulado em seus argumentos e capaz de arrancar a mais profunda admiração mesmo sendo um implacável caçador , agente do Terceiro Reich. Definitivamente, Christoph é um coadjuvante que tirou a cena de Brad Pitt sem minimizar a equilibrada e ótima atuação de todo o elenco, muito bem selecionado e bem trabalhado na caricatura de judeus, franceses, alemães e americanos. Consumi a tela totalmente mergulhada de como Tarantino é um grande diretor com um estilo próprio e como conseguiu rodar um longa-metragem que, através da violenta subversão, tem uma proposta otimista e construtiva. Acredito piamente que o humor negro e afiado pode servir como uma mera brincadeira Tarantesca, como se ele brincasse com o seu vídeo game dentro de uma sala de Cinema, no entanto ele tem lá o seu lado profissionalmente idealista de transmitir uma mensagem de aprendizagem servindo-se da Sétima Arte que lhe é tão intríseca, um dos poucos que usam a violência de uma forma aceitável para exaltar o quão talentoso ele pode ser e o quanto seu Cinema é único, logo o sangue jorrado em seus filmes não é tão gratuito assim, pelo menos, não em Bastardos Inglórios.





Historicamente, dentro do cinema de Guerra, Bastardos Inglórios nasceu para ser um filme muito diferenciado, elaborado na contra-mão do óbvio, ele é um mundo paralelo e controlado pelas mãos e mente de Quentin. Ele parece fazer e desfazer rindo enquanto dirige, mas neste filme, há um grau de seriedade, um compromisso em mostrar uma outra história com cara de ficção, deformando a História com uma narrativa imaginária, afinal no Cinema tudo é possível. Ainda que tenha uma narrativa ficcional, o filme consegue ser muito autêntico porque o desejo de explodir quem faz mal à humanidade pode estar guardado no coração de qualquer ser humano, mas também está o desejo de (re)fazer um cenário histórico com uma nova direção que elimine ou não cause tanta dor, ou que, no mínimo, dê uma voz que não foi dada justamente a todos, por isso Bastardos Inglórios representa uma voz contra o Nazismo usando até mesmo como local o próprio Cinema, nesta metalinguagem formidável e tão necessária. Não é a toa que, antes de explodir o Cinema com os Nazistas, Shosanna dá espaço à VOZ: "Marcel, ateie o fogo!" E logo mais, aparece a maravilhosa cena do cigarro que flutua no ar antes de incendiar as fitas de Nitrato, a risada escancarada de Shosanna em meio às chamas, a cara de "estou frito" de Hitler, enfim tudo perfeitamente bem enquadrado no negro e cínico humor de Tarantino em performática direção em nome da "vingança judia". Confesso que morri de rir nesta cena ainda que eu seja uma pessoa pacifista, no entanto, Tarantino tem este dom exclusivo de transformar violência em riso negro e revelá-la na mais sombria veia humorística da audiência.



Já que não é possível voltar no tempo e fazer justiça, por que não criar uma heróina como Shosanna e um debochado líder como Aldo para pôr um fim simbólico à guerra e seus principais líderes malfeitores? Por que não criar heróis para ser mente e a voz de uma vingança positiva para a reflexão, destituindo a glória de indivíduos e de um sistema que foram uma máquina mortal, o antro da carnificina? - Em Bastardos Inglórios tudo isso toma forma. A metáfora de uma explosão é ironicamente uma reconstrução, a de um novo Cinema chamado Vida, com cenas mais humanas, com protagonistas mais humanos, com um entendimento mais humano, não para a Guerra mas para a Paz, desta forma, Tarantino deixou o capítulo seguinte para ser escrito por nós.


You know somethin', Utivich?
I think this might just be my masterpiece.
(Lt Aldo Raine)

Avaliação Madame Lumière




Trilha sonora Bastardos Inglórios: fundamental para o filme
assim como Christoph Waltz




MusicPlaylist
Music Playlist at MixPod.com






Título original: Inglorious Basterds
Origem:
Alemanha, EUA, França
Gênero:
Ação, Aventura, Guerra, Drama
Duração: 153 min
Diretor(a):
Quentin Tarantino

Roteirista(s): Quentin Tarantino

Elenco: Brad Pitt, Mélanie Laurent, Christoph Waltz, Eli Roth, Michael Fassbender, Diane Kruger, Daniel Brühl, Til Schweiger, Gedeon Burkhard, Jacky Ido, B.J. Novak, Omar Doom, August Diehl, Denis Menochet, Sylvester Groth

10 comentários:

  1. nossa... que maravilha de post. concordo com cada palavra. você expressou praticamente os mesmos sentimentos que eu tive ao ver o filme.

    a atuação do cristoph waltz foi algo fora do comum.

    parabéns pelo post e pelo blog. adicionei nos meus links e virei seguido!

    abs!!

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  2. Mais um post plenamente bem focado, construído, este é um filme que eu digo: um novo argumento narrativo proposto por Tarantino, ainda que, obviamente, tenha o estilo dele sempre. Um filme único e de longe sua obra-prima.

    Abs

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  3. Mademe,

    vc fala como um garoto numa loja de brinquedos.

    Seu texto está excelente assim como o filme.

    Sou outro fanático por filmes e em especial pela obra (um deleite reciclado) de Tarantino.

    Aqui ele chegou no ápice, saiu da juventude e fez seu primeiro filme adulto (ainda que Kill Bill Volume 2 já demonstrasse isso).

    Parabéns!

    Comprei a trilha sonora fantástica e ouço bastante. Ennio Morricone também é um gênio!
    E um livro com o roteiro original do filme!

    E para confirmar que esta é a obra prima do diretor, o próprio Quentin brinca com um trocadilho na última fala de Aldo Raine.

    Abs!

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  4. Concordo com tudo o que disseste neste post. É a obra prima de tarantino e um dos melhores filmes dos últimos anos. Não há mais o que acrescentar.
    Bjs

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  5. Quantas visitinhas boas! Obrigada, rapazes!

    Bruno: Também gostei muito do seu blog. Obrigada e vou aproveitar e adicioná-lo aqui para eu poder te seguir mais de perto!

    Contemplar a magnitude do poder de atuação de Christoph Waltz é tão impressionante que chego a desejar que todos os atores performem como ele, olho para a sua fria e elegante persuasão e chego a devorá-lo e venerá-lo na tela. Uma performance muito rara!

    Abs!

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  6. Cristiano: Sim, sim, sim! Este argumento narrativo é digno de ser obra prima. Ainda mantendo as raízes do seu estilo, ele se recicla com este roteiro. Abs!

    PS: Obrigada por gostar do meu texto. Na verdade, eu escrevo de Cinema de uma forma mais "oral" e não vou mudar, por isso não aprecio tanto o meu texto como eu gostaria, mas agradeço a todos e fico feliz que estejam gostando desta comunicação naturalmente apaixonada.

    Abs!

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  7. Olá Rodrigo: Que bom receber tua visita.

    Hahaha, adorei este "você fala como um garoto em loja de brinquedo". Muito bem colocado pois gosto de brincar de realidade também, afinal o Cinema é o playground mais verdadeiro que existe.

    Também amo Ennio Morricone, ao lado de Hanz Zimmer e Alexandre Desplat. Viajo em suas magníficas interpretações.

    A última fala de Aldo Raine é perfeitamente bem colocada: a criatura representando as palavras de seu criador.

    Grande abraço e também gostei do seu blog, principalmente no tipo de seleção dos filmes que faz.

    Abs

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  8. Oi querido Reinaldo, obrigada mais uma vez. Seguimos confirmando que Bastardos Inglórios é uma MASTERPIECE!
    bjs

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  9. Outro texto dos deuses Madame!!

    E você conhece trihas sonoras sim! Enio Morricone, Hans Zimmer e Alexandre Desplat são magníficos! Um bom goste fora de série o seu Madame.

    Beijos.

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  10. Oi Eri,
    Super obrigada! Sim, conheço um pouco principalmente estes meus queridinhos. bjs

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