terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Ensaio sobre a Cegueira ( Blindness ) - 2008

Julianne Moore, a grande atriz em Blindness
Ela tem os olhos que devemos ter!



Ensaio sobre a Cegueira, dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles ( de Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel) e adaptado da obra literária do escritor português José Saramago causou polêmica ao ser apresentado na Abertura do Festival de Cannes de 2008, dividindo as opiniões de renomados críticos internacionais e, como esperado, o comparando aquém da visceral obra literária do ganhador do Nobel de Literatura que, inclusive, demorou a ceder os direitos de adaptação do filme com a clássica frase "O cinema destrói a imaginação", comportamento muito natural para um renomado e competente escritor que dissecou a sórdida degradação da humanidade que perde a já perdida visão. Saramago, com maestria, entrega à Literatura Mundial, um ensaio único sobre mudança. O drama, estrelado no cinema por um seleto elenco com Juliane Moore, Mark Ruffalo, Alice Braga, Danny Glover e Gael García Bernal tem seu foco em uma desastrosa, caótica e misteriosa epidemia de cegueira branca que toma conta da cidade e força os indivíduos a mostrar quem são, com seus sentimentos de amor, soliedariedade, esperança, devassidão, egoísmo, oportunismo, impotência, entre outros. Uma miscelânea de comportamentos humanos, destacando principalmente os mais orgânicos e podres ao perderem totalmente a sua visão e o controle de suas vidas.



Falar sobre Ensaio sobre a Cegueira renderia posts e posts a depender do recorte de vários temas intrísecos a este caos apocalíptico cheio de camadas existenciais, por isso pretendo ser o mais curta possível ressaltando em resumidas linhas o que faz desta obra inteira uma das melhores reflexões do Comportamento Humano (fora de controle) existente na Literatura que, agora , está facilmente resumida no filme de Meirelles. Desejo arduamente que, apesar das injustas críticas negativas que o filme recebeu, você, como meu leitor possa ver a beleza deste ensaio e a sua importância para que recuperemos nossa própria visão sobre nós mesmos, em nossas atuações mais degradantes que podem ser enfrentadas e estirpadas. Primeiramente e, de forma muito pessoal, encaro Ensaio sobre a Cegueira como um Ensaio sobre a Mudança e para a Mudança, uma obra que visa a fechar os olhos dos protagonistas para abrir os nossos olhos, tal que sejamos tão heróis como o personagem de Juliane Moore, magnífica no papel da esposa do médico, a única personagem que não perde a visão para ser nossos próprios olhos e é um clássico, solidário e heróico exemplo de força e amor através da sua visão que tudo vê , tudo tolera e tudo supera.




Convém que eu comente que o filme, muito bem dirigido pela competência de Meirelles, não tem o propósito de ser igual à obra literária porque este diálogo intertextual tem suas limitações mas também tem seu caratér de ser exclusivo e diferenciado em cada um dos planos, seja literário, seja cinematográfico, por isso ainda que eu ache que Fernando Meirelles equilibrou sua direção com um estilismo muito organizado e uma fotografia tão clara como a brancura leitosa da cegueira que me dá a impressão de ser um ambiente milimetricamente controlado por ele, entendo que o diretor também equilibrou no plano das imagens a degradação existente no livro, evitando que o filme fosse muito orgânico, visceralmente repugnante. Ele fez um trabalho excepcional de uma complexa obra literária e deu o tom certo tal que o filme incomode a audiência para uma reflexão mais engajada, muito mais do que somente entretê-la ou causar-lhe asco. Ele passou a mensagem de Saramago sendo um cineasta e não um literário, como assim devia fazê-lo, logo não vejo nenhum sentido para algumas infelizes críticas à Ensaio sobre a Cegueira - o filme.

Gabriel Gael García, em um das melhores performances do filme
como um canalha insano e oportunista que decide ser um líder autonomeado
obrigando as mulheres a oferecerem sexo em troca de comida. Podridão total!


A repugnância da humanidade, a meu ver e, elevada a um nível além do filme é que ela já está cega há muito tempo, tão cega e miseravelmente desprovida de caráter em boa parte dos indivíduos que ela já executa várias das ações do filme como a violência, a sórdida corrupção, o desejo carnal e amoral incontrolável, o descaso das autoridades, etc. logo o filme consegue ser contemporâneo perfeitamente simulando esta podridão, basta lembrar-se da degradante cena de estupro coletivo em troca de alimentos, uma das mais fortes e certeiras do filme. Por outro lado, Ensaio sobre a Cegueira não é um filme todo pessimista, há uma humanidade nele liderado pela performance maravilhosa de uma das minhas divas, Juliane Moore que mostra um auto-controle fora de série em meio a um contexto fora de controle e, ela acaba por ser a grande líder, mãe e heróina de um pequeno grupo que sobrevive suportando uns aos outros. Ela acaba sendo bem mais do que somente os seus olhos de testemunha, ela é benignamente conciliadora a ponto de perdoar até mesmo a traição do marido (Mark Ruffalo) e a prostituta (Alice Braga) que, entre os escombros do hospital no qual se encontram em quarentena, ela pega o marido no flagra em uma clássica e infiel rapidinha que foge ao controle da lealdade conjugal, sem dúvidas, outra grande cena do filme considerando que o sexo, em momentos de dor, é um grande analgésico libertador das tensas pulsões que urgem pelo prazer da carne e da alma, que urge por um pouco de vida e amparo em meio ao desespero e a dor.





Finalmente, recuperar a visão só é possível a quem se doa ao amor, à confiança e à união e se abre à uma família que se formou em torno da mulher do médico em um momento de perda e dor que, na minha opinião, representa a família que a humanidade deveria ser e ainda pode ser quando se coloca no lugar do outro, nisto reside, o belíssimo efeito catártico do filme: a importância da visão sobre o mundo e o próximo em uma frágil sociedade cheia de cegos depravadamente egoístas e mortais. Ensaio sobre a cegueira é, de forma soberba, uma das melhores obras para catalisar a mudança nos indivíduos porque, expondo como em um espelho, a devassidão e degradação da humanidade em uma extraordinária jornada caótica e solitária a uma cegueira, totalmente isolados, humilhados e vulneráveis e, carentes de qualquer apoio das autoridades governamentais, tidos como doentes abandonados como animais, eles se tornam o reflexo da própria praga contemporânea que precisa encontrar a cura, a cura que está dentro deles.



Avaliação Madame Lumière



Título original: Blindness
Origem:
Canada, Brasil, Japão

Gênero:
Drama

Duração: 118 min
Diretor(a):
Fernando Meirelles
Roteirista(s): José Saramago, Don McKellar
Elenco: Julianne Moore, Mark Ruffalo, Alice Braga, Yusuke Iseya, Yoshino Kimura, Don McKellar, Maury Chaykin, Mitchell Nye, Danny Glover, Gael García Bernal, Scott Anderson, Isai Rivera Blas, Jackie Brown, Martha Burns, Joe Cobden

8 comentários:

  1. Adoro "Ensaio Sobre a Cegueira" porque acho um trabalho de adaptação notável, que coloca em tela o que de melhor tem no livro complexo do José Saramago. Além disso, tem a direção soberba do Fernando Meirelles, aquela excelente composição estética e a atuação brilhante da Julianne Moore.

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  2. Olá Kamila, que bom sua presença aqui! Eu gosto do filme e, felizmente, não somos garotas cegas na escuridão da vida, não é mesmo? Eu soube apreciar o brilhante trabalho nesta adaptação e sei que o livro é complexo, não seria fácil expor este tema na tela.

    Obrigada e Beijo da Madame!

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  3. Olha, acho esse filme tremendamente injustiçado. Uma senhora realiazação, que como vc bem disse, renderia posts e posts. Um filme de muitas camadas e nuançes. Fernando Meirelles traduziu o caos imaginado por
    Saramago de forma brilhante e eloquente.
    Bjs

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  4. Bota injustiçado nisso!
    Eu acho que Saramago não é um escritor fácil, nem para ler, a começar que me incomoda o fato das "ausência de vírgulas", logo o fato de Fernando Meirelles se interessar em rodar um desafio destes já lhe dá o direito de aplausos, além disso considerando a metáfora deste ensaio, colocar isso no filme de uma forma tolerante para a audiência não é fácil. Diga-se de passagem, a idéia é brilhante, mas imaginar as imagens que fluem do romance para o cinema podem ser deprimentes se não forem transpostas com um certo equilíbrio na técnica e na sensibilidade.

    Eu confio no profissionalismo de Fernando Meirelles e, como estudei Literatura entendo como é difícil ter a responsabilidade e o peso de adaptar um livro do nível de Ensaio sobre a Cegueira com um escritor que estava sendo aclamado por um Nobel de Literatura, acrescita a "(in)direta cobrança de fazer um trabalho mais próximo do perfeição fazendo jus à justiça de um romance brilhante. Ao analisar também o quanto Fernando Meirelles se dedicou em entregar a melhor adaptação, preocupado até mesmo com José Saramago como "audiência", vejo que ele é muito responsável e que há críticos totalmente descartáveis que não usam a crítica de forma construtiva.

    Beijo da Madame!

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  5. Muito bem construído seu foco neste post, deu pra sentir bem o tom do filme, aliás: um filmaço. Perde pra força do livro, mas continua ser um exemplo de efeito cinematográfico de bom gosto!

    seu blog sempre ótimo!

    Tenho curiosidade de saber quem é você, de verdade. Seria possível? abraço

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  6. Ahá, já perguntei isso antes né C... sem revelar identidades secretas aqui. rsrs

    Bjs madame

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  7. Oi Cristiano,

    Obrigada pelo comentário, vindo de um apimentário master como você com um blog excelente só posso dizer que apimentaste meu dia(rs).

    Quem sou? Sou sua xará Cristiane, paulistana e vivo em São Paulo, como bem comentado pelo meu caro Reinaldo, preservo a minha identidade ainda que eu evoque o meu alter-ego escancaradamente para falar genuinamente sobre o cinema na minha vida, mas obviamente você é bem vindo para me conhecer. Escreva-me no privado quando quiser.

    Abraço,

    Apimentária Madame!

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  8. Ensaio Sobre a Cegueira é um filme incrível. Meirelles exalou uma competência fora do comum, com este filme. Completamente arrebatador, atuações maravilhosas... bem um filme incrível!
    Sem contar que agradou em muito o Saramago, que cheou a chorar depois que o viu...
    E sério Madame, sobre este filme, o seu texto foi o melhor que li até agora, conseguiu passar tudo o que o filme quis enfatizar!
    Bjs =D

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