domingo, 10 de janeiro de 2010

Contra a Parede ( Gegen die Wand ) - 2004


De todas as opções do Cine Europeu, tenho uma história de amor com o cine Alemão, pra dizer a verdade, com a Língua e Literatura Alemã que tive o privilégio de estudar e que, espero voltar a me profundar novamente pois sinto muitas saudades destes estudos que tanto contribuíram para minha formação humanística. Desejo resgatar novamente estas memórias Germanísticas através do Cinema e, em todos os demais campos de grandes pensadores como Goethe, Freud, Nietzche, Marx, etc. que possam a vir estabelecer qualquer diálogo com minhas jornadas de blogueira.


Neste gosto cinéfilo alemão, costumo ser mais contemporânea. Permaneço mais "vintage" com relação aos clássicos Hollywoodianos. Filmes inesquecíveis e fundamentais do Cinema Alemão como Corra Lola Corra, Edukators, Adeus, Lênin e o Túnel marcaram tanto a minha vida muito além de seus próprios enredos. Foi a forma inicial de conciliar o contato com a língua e o Cinema, de uma forma mais convidativa, cativante, apaixonante. Neste processo de explorar novos filmes, entrou também o cult longa-metragem Contra a Parede, de origem híbrida (Alemanha e Turquia), um longa tão vibrante em sua atmosfera trágica que ganhou o Urso de Ouro de Melhor Filme (2004) no Festival Internacional de Cinema em Berlim e conta com uma trilha sonora inesquecível: I feel You de Depeche Mode, Temple of Love de Sisters of Mercy com participação da voz orientalíssima de Ofra Haza, a clássica After Laughter (comes tears) de Wendy Rene, Agla Sevdam de Yusuf Taskim, Yine mi Cicek de Sezen Aksu, Tract de Alexander Hacke, Life's what you make it (do Talk Talk) na versão do Zinoba, enfim tudo isso só para ilustrar o peso multidiverso da trilha sonora que é um elemento primordial em Contra a Parede.



O filme tem a direção de Faith Akin (de New York, Eu te Amo) e ocorre na Alemanha, onde a ação protagonista gira em torno do povo turco. Como não é surpresa para ninguém, há muitas famílias de origem Turca que são cidadãos alemães. Eles fazem parte da reconstrução da Alemanha, são a massa de imigrantes que, em processos como este, no qual há uma previsível intolerância por parte da população nativa, se desenvolve uma rixa entre Alemães e Turcos, mesmo que velada, o que leva imigrantes à uma triste posição periférica. Contra a Parede mostra um lado mais marginal dos turcos na Alemanha sem focar no lado alemão e em nenhum confronto direto entre povos. É acima de tudo, uma história trágica de amor.

O protagonista de origem turca Cahit Tomruk (em excepcional interpretação de Birol Ünel) faz o papel de um vagabundo que coleta garrafas em um
night club, vive num sujo cubículo alugado, se droga e entra em um processo de degradação com seu comportamento destrutivo, desta forma, tendo uma vida que, metaforicamente, é como ir contra a parede em uma rua sem saída. A outra protagonista é Sibel (Sibel Kekilli), uma jovem alemã problemática de origem turca, oprimida pelo tradicionalismo da família, pela falta de liberdade. Drama e humor negro se misturam à fita em um longa que julgo uma ótima metáfora como atitudes autodestrutivas são acompanhadas de uma predisposição para encontrar a felicidade que, infelizmente, não encontra espaço social para tomar forma e nem mesmo relações afetivas sólidas e, também, como atitudes destrutivas aliviam a dor mas não a matam. Em determinado avanço de Contra a Parede, a fragilidade da vida dos protagonistas é ressaltada, ou seja, quando tudo parecia dar certo, eis que a possibilidade de amar, ser amado e ser feliz desmorona.




Contra a Parede
relata o relacionamento de Cahit e Sibel, que após tentarem se suicidar, se conhecem em uma clínica psiquiátrica. Ele jogou o carro contra uma parede. Ela cortou os pulsos. Na clínica, Sibel percebe que Cahit é turco e já o pede em casamento pois os pais aprovariam seu matrimônio com um, sinalizando muito mais o desespero de uma jovem que vive a opressão da tradicional família do que necessariamente o seu transtorno psíquic. E, há mais uma variável que interessa muito ao enredo: ela pede um estranho em casamento para poder ter uma vida livre o que implica relacionar-se com vários homens, afirmação que ela deixa bem claro ao dizer-lhe em um conversa de bar: Quero viver, Cahit! Quero viver, dançar, transar!E não apenas com um cara, sacou?. Ela está disposta até mesmo a lavar, passar e cozinhar para Cahit sem qualquer vínculo sexual a fim de se livrar da famílila. Mal sabia Cahit que o lado volúvel de Sibel traria consequências para a liberdade dele, manchando com sangue a história dos dois para sempre.



À princípio Cahit não tem nada a perder pois vive numa imunda espelunca após a morte da mulher Katharina, a vida dele está em destroços. Ele acaba cedendo ao convite de casamento. Chegava ao fim o aprisionamento de Sibel. Até aqui, é muito bacana esse enfoque do roteiro, de filmar uma mulher de origem muçulmana cuja libertação virá de duas formas : ou ela se casa com um turco ou ela se suicida (e de fato, antes de
"pedi-lo em casamento" ela tenta se matar, extremamente instável e predisposta a facilmente se autoagredir). Ela insiste para um casamento de fachada, porque simplesmente ela não quer viver com os pais, ela quer uma vida sexual independente, tanto que eles nem têm vida sexual entre eles(pelo menos por um tempo) e ela sai com outros homens. Chega um momento da história que eles se apaixonam, há cenas de ciúmes e até morte que os envolve e quando tudo poderia dar certo suas vidas são separadas. Um roteiro trágico, belo e coerente para o que virá depois.


O filme é muito visceral e intenso, porque se vê como estes personagens são discriminados em sua individualidade e como tentam se libertar desta opressão que as suas culturas e meios lhe impõem, mesmo que destrutivamente. As vísceras são derramadas na tela, o sexo forte e aliviante é exaltado, porque, a todo o tempo, a vida deles é uma situação sem saída, desprovida do mínimo de dignidade de vida cuja carência leva os amantes a se unirem e desenvolverem uma afeição além dos interesses iniciais da relação. Contra a Parede ressalta que fugas são como um calvário, seja nos entorpecentes, no álcool, no casamento de fachada, na infidelidade, no sexo por sexo, são como jogar o carro contra a parede e se estourar por inteiro, destruir-se para esvaziar-se do vazio da tristeza e da dor. Estes fatos levam à destruição mas, ironicamente, também levam à redenção quando Cahit e Sibel têm seus destinos unidos em um sentimento surpreendente de amor e união. Mesmo em meio a contradições, eles encontram uma vida mais "normal" e, por incrível que pareça, Sibel será uma esposa convencional, uma das grandes viradas deste roteiro.



Independente do seu desfecho, Contra a Parede me dá a dimensão de uma tragédia de cunho social e também afetivo: tenho compaixão por Cahit e Sibel, por suas vidas marginais na Alemanha, mas ao mesmo tempo, repudio os seus momentos pessoais de destruição mesmo compreendendo que viver o inferno está intimamente ligado com a busca por analgesia em lugares obscuros. Mais tarde, sinto novamente pena por seus tristes destinos seguindo direções diferentes, como se as vidas de Cahit e Sibel fossem predestinadas a ter um profundo descontentamento, como se não lhes coubesse se regozijarem, por isso a canção final chora: "que possam as montanhas se regozijar em meu lugar".


Avaliação Madame Lumière



Ağla sevdam, ağla,/ chore meu amor, chore
Ağla, zorba bu dünya,/chore, este mundo é cansativo

Ağla, susma ağla,/chore, não fique calado(a), chore

Ağla, ağla./chore, chore
...
Aşığım, ben sana çok aşığım

Eu estou apaixonado(a) por você, muito apaixonado(a) por você


(Trecho da música Agla Sevdam, de Yusuf Taskin, tocada em emocionante cena, após uma tragédia, quando a possibilidade de Cahit e Sibel ficarem juntos e felizes como marido e mulher se desfaz). Tão perfeita porque os dois já estavam apaixonados.



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Título original: Gegen die Wand
Origem:
Alemanha, Turquia
Gênero:
Drama
Duração: 121 min
Diretor(a):
Fatih Akin
Roteirista(s):
Fatih Akin
Elenco: Birol Ünel, Sibel Kekilli, Catrin Striebeck, Meltem Cumbul, Stefan Gebelhoff, Francesco Fiannaca, Mona Mur, Ralph Misske, Philipp Baltus, Hermann Lause, Karin Niwiger, Demir Gökgöl, Cem Akin, Aysel Iscan, Monique Akin

4 comentários:

  1. Conheci o cinema de Fatih Akin através desse filme. Assim como vc achou que ele filma com desenvoltura uma tragédia social e afetiva.Além do fato de serem os alemães, as autoridades maiores em flagar a pertubação humana! Além dos garndes pensadores citados por vc no inicio da resenha, os eventos que marcaram a alemanha no século XX corroboraram para que o país se destinguesse dessa maneira. Contra parede é sintomático disso. Para mim, dramaticamente não é um grande filme, mas historicamente é imprescendível.
    Bjs madame

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  2. Gostei do adjetivo sintomático usado por você, Contra a Parede o é. Eu agregaria à sua última frase: é historicametne imprescindível mas não exalta a história do confronto entre alemães e turcos. É uma nuance que é sugestiva mas não é explorada e, se fosse ressaltado esta dimensão mais social do que só explorar um relacionamento amoroso e a condição periférica deles na sociedade, o filme seria bárbaro, no mínimo, mais dramático.

    Beijo!

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  3. Eu não encontrei este filme por aqui, mas preciso garimpá-lo no Emule, ainda hoje eu baixo. Assim que assistir, comento contigo. O contexto do suicidio é ponto forte no filme, notei isso.

    Preciso conferir,

    belo texto!

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  4. Oi Cristiano,

    Eu comprei este filme há muito tempo atrás porque não perdia a chance de ter um filme interessane e mais "moderno" com o idioma alemão. Vale a pena assistir, principalmente pelo apimentário mor da blogosfera (rs).

    Contra a Parede tem uma atmosfera também bem sexual, o que faz todo o sentido pois o sexo, na maioria dos filmes, é diversão analgésica, fuga essencial na rota dos jodidos.

    O suicídio é um ponto forte, principalmente em Sibel, reforçando que é como um grito de dor, um pedido de ajuda, como sempre. abs,

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