sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Foi apenas um sonho (Revolutionary Road) - 2008

Qual o peso de desistir de um sonho na iminência de sua materialização e, conformar-se com um presente vazio e com falta de esperança? E se o sonho é a verdade que queremos viver e sempre somos impedidos de vivê-la, acomodando-se à mentira de estar feliz em uma rotina que, sabemos, nos aprisiona, mata pouco a pouco o lúdico dos mais intensos desejos entregando às nossas vidas apenas um prêmio de compensação que é a zona de conforto de uma vida incompleta, os papéis que desempenhamos em contextos familiares e profissionais, carregados de muitas responsabilidades e poucos sonhos, o comodismo em sua mais realista forma . April Wheeler (Kate Winslet), uma atriz fracassada que se tornou dona de casa no estilo de vida americana nos anos 50 resume bem o filme Foi Apenas um Sonho (The Revolutionary Road, de Sam Mendes) ao dizer ao marido Frank (Leonardo di Caprio) a mais real das verdades a qual somos impelidos a não lembrar, naturalmente movidos por uma atitude paliativa para atenuar a dor da não concretização dos nossos mais loucos sonhos: "Ninguém esquece a verdade, Frank! Apenas mentem melhor!"



O filme é uma adaptação do romance homônimo de Richard Yates, que acompanha a vida do casal Wheeler em uma triste história de amor, mergulhada em sonhos e promessas de uma vida mais intensa. Foi apenas um sonho é um drama trágico e atemporal perfeito para os loucos sonhadores que desejam trocar a vida certa pela duvidosa. Frank e April desejam deixar sua vida confortável nos USA e mudar-se para Paris com os dois filhos. Ela está disposta a sustentá-lo com um emprego de secretária em alguma agência do Governo e, com as economias do casal, Frank terá tempo hábil para pensar o que fará da vida. Frank em seus recém completos 30 anos tem um emprego burocrático e enfadonho em uma empresa na qual o pai trabalhou 20 anos sem qualquer tipo de reconhecimento. April não seguiu a carreira de atriz após um fiasco em uma apresentação e depende financeiramente do marido, insatisfeito com o próprio trabalho. E, eu, um ser naturalmente sonhador, libertário e insatisfeito, me vi no próprio filme na trágica heroína April, em especial, em momentos que desejo fugir para Paris ou qualquer lugar que se apresente mais excitante do que minha rotina cheia de compromissos. Quem nunca se sentiu assim, não é mesmo?. Convém mencionar que no drama, personagens coadjuvantes como os colegas de trabalho de Frank e os vizinhos do casal e suas previsíveis e negativas reações ao ver o entusiasmo do casal combinam com o coletivo do American Way of Life, o famoso "suas vidas estão bem como estão, porque vocês querem se mudar para Paris?", encarando Frank e April com surpreendente indignação. Além disso, Helen Givings (Kathy Bates), a simpática corretora de móveis que arranja casas bonitas para casais americanos, o lar, a expressão máxima da vida perfeitinha americana traz Kathy em uma atuação essencial para reforçar este contexto e esta mentalidade dos anos 50. Estes personagens secundários, porém altamente relevantes combinam com a sociedade vazia e acomodada da época, reagindo com ironia, inveja, indiferença aos sonhos de escapismo.




Envolvida em contemplar como os sonhos se esvaziam neste grande filme, mais um drama arrebatador de
Sam Mendes com excelente direção, principalmente de arte, elenco e figurino, surgiram muita catarse e lembranças de sonhos passados, uns que deram certo, outros que nem tanto. Na verdade, o ser humano mente muito bem, principalmente para si próprio quando há aspectos de sua vida que exigem maior realização pessoal mas, ao mesmo tempo, são zonas de conforto e de impossibilidade de mudanças imediatas. O emprego estável é uma delas e há várias pessoas como Frank que trabalham em áreas que não gostam e ainda pensam que a vocação certa ou o tão sonhado novo ofício irá surgir-lhes como num passe de mágica. Há várias mulheres talentosas e de forte personalidade como April que dependem financeiramente do marido, deixam carreiras para trás para cuidar dos filhos e, ainda que sejam boas mães, não conseguem virar a página, aceitar aquela condição de donas de casa em tempo integral, sonham com uma vida mais excitante. Poucos têm a força, a coragem e a oportunidade certa para fazer grandes mudanças e muitos até o querem mas faltam as condições e os momentos adequados (afinal todos precisam sobreviver com o mínimo de segurança e tomar decisões importantes com o mínimo de bom senso), por isso, Foi Apenas um sonho é uma formidável alegoria de que é bom sonhar com um objetivo um tanto surreal porém possível de realização, tentar concretizá-lo e se decepcionar em não torná-lo realidade. Crescemos com este processo, ainda que corramos o risco de uma jornada dramática, dolorosamente penosa e, aprendemos a mentir menos e a aceitar uma vida menos hipócrita, com menos chance de ser frustrante.



Kate Winslet (em divina atuação, chave para o sucesso do filme) só quer viver. Ela diz "Queria que voltássemos a viver". Sem dúvidas, um pensamento que passa pelo menos 1 vez na cabeça de alguém que tenha o mínimo de amor à própria vida e à necessidade de vivê-la de forma mais plena. Ter o sonho de ir à qualquer lugar que não seja onde estamos, de ter um algo a mais que ainda não nos pertence. No entanto, o que queremos, de fato? Este excelente roteiro nos move a esta reflexão: O que é suficiente para nós em nossas vidas reais? Por que esta sensação de permanente insatisfação ou de ter variadas lacunas que permanecem vazias aguardando ser preenchidas com o extraordinário da vida? Por que casais apaixonados destróem seus relacionamentos à medida que o casamento deteriora os sonhos com promessas não concretizadas? Como diz April "Nunca fomos especiais nem destinados a nada?" Para ela, não importa somente ser o casal Wheeler, admirado por todos, o casal bacana que mora na Revolutionary Road em uma bela casa. Não è a toa que a sede por algo mais excitante é tão grande que tanto Frank quanto April têm momentos adúlteros como forma de recorrer ao sexo para preencher com o casual a rotina de suas vidas , ressaltando que em momentos de vazio e dor os amantes tendem à traição, desdobramento da ânsia por uma liberdade inexistente, rápido analgésico de um casamento monótomo e em crise. Pouco a pouco, o casamento vai sucumbindo junto com o sonho frustrado. Com isso, Foi Apenas um sonho é um drama nato, extremamente contemporâneo e eficaz, com a assinatura cinematográfica de Sam Mendes que, também faz referência ao modo de vida americano no aclamado Beleza Americana (1999).



Convém mencionar que a atuação de John (
Michael Shannon, excepcionalmente magnífico), filho de Helen Givings com passagens por hospitais psiquiátricos e que passa a visitar o casal Wheeler tem um papel coadjuvante muito peculiar, interessante e de real importância como o questionador da problemática deste casal e de suas vidas. Sendo um homem considerado "insano", ele é desbocado e, sendo desbocado, ele prova que muitos loucos falam a verdade, por isso são adoravelmente loucos. Ele provoca April e Frank com suas colocações autênticas "O que aconteceu, Frank? Deu para trás? Decidiu que ficaria melhor aqui? Percebeu que é mais confortável aqui no velho vazio sem esperança? Uau" É por aí! Olhe a cara do Frank! Michael Shannon é must have actor neste drama e está brilhante em sua sã insanidade, fazendo o contraponto com o comodismo da sociedade. E, é exatamente ele que complementa o filme com um revelador desabafo "Eu estou feliz de não ser essa criança", destacando que, April estando grávida de um filho indesejado, gravidez que também contribuiu para que eles não fossem à Paris e desistissem do grande sonho francês está tão infeliz que a criança lhe é um estorvo; de forma intrigante, tal comentário faz pensar que estes são os filhos da América, crianças indesejadas de sonhadores pais frustrados. Mais interessante ainda é a eterna dúvida que pesará no pensamentos de Shep Campbell (David Harbour), o vizinho que transou com April que ficará sem saber se o filho que April abortou é seu ou de Frank, se ele é (indiretamente) culpado ou não pela fatalidade da vida dos Wheelers. Neste contexto, o drama se torna mais intenso, mais pertubador, mais supremo. O sonho americano "American Way of Life" é um grande pesadelo, o que torna Foi Apenas um sonho um filme sensivelmente dramático em seu deslumbrante roteiro, que evoca a crise existencial da modernidade, principalmente a de casais, que mostra o quanto podemos destruir nossas vidas reais quando nos frustamos com sonhos não realizados, quando estressamos os relacionamentos com quem amamos em virtude de uma vida frustrada. Foi Apenas um sonho é sublime em sua mais dolorosa e trágica verdade, principalmente a de não aceitarmos a vida que nos é dada. Vazia ou não, ela ainda é a nossa vida, temos que ter coragem de vivê-la.


Avaliação Madame Lumière


Título original: Revolutionary Road
Origem: EUA
Gênero: Drama
Duração:
119
min
Diretor(a):
Sam Mendes
Roteirista(s):
Justin Haythe, Richard Yates
Elenco: Leonardo DiCaprio, Kate Winslet, Michael Shannon, Ryan Simpkins, Ty Simpkins, Kathy Bates, Richard Easton, Sam Rosen, Maria Rusolo, Gena Oppenheim, Kathryn Dunn, Joe Komara, Allison Twyford, David Harbour, John Ottavino

6 comentários:

  1. A frase que mais me chocou nesse filme foi ``Eu estou feliz de não ser essa criança´´!!

    Ainda acho que não é um filmasso, mas DiCaprio e Winslet estão magníficos!!

    Beijos MaDame!!

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  2. Oi Eri, esta frase foi forte mesmo e, Michael Shannon nos provê uma força interpretativa que eu, particulamente, adorei neste papel.

    Gostei da frase "Ninguém esquece a verdade, Frank! Apenas mentem melhor!", uma das mais lúcidas citações nos últimos filmes existentes.

    É um filme muito bem feito e a ex-dupla de Titanic faz bonito, dá gosto de assistir a cada cena mais dramática! bjs!

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  3. adorei esse filme. Foi injustamente, excluído as categorias do oscar ano passado. Felizmente, Michael Shannon chegou aos finalistas. Foi apenas um sonho é tudo isso que vc exaltou madame, um filme que mostra o pesadelo do american way of life. Um ideal que todos buscamos. Bjs

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  4. Oi Reinaldo, também adorei este filme. Demorei horrores para assistí-lo. Sempre o via na locadora e achava que era mais um draminha de casais, no entanto, me surpreendi com a riqueza psicológica deste drama. Fenomenal!

    Bjs!

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  5. Madame,

    O Sam Mendes teve uma incursão do teatro ao cinema brilhante, da mesma maneira que Elia Kazan e Mike Nichols.

    Este filme é muito bem construído.
    Atuações dignas e pura nostalgia à la TITANIC (incluindo a Kathy Bates).

    Amo!

    Bjokas!

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  6. Rô, eu amo este filme, achei ele muito bem construído também. Dá até gosto de assistí-lo e assistí-lo e assistí-lo. Penso que a experiência de Sam Mendes no teatro contribui muito para imprimir às cenas uma forte carga dramática. É práticamente o teatro da vida real na tela, mas sem ter jeito de teatro. Bjokas e obrigada pelos comentários. Estava com saudades de você aqui!

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