segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Um Homem Sério (A Serious Man) - 2009


Indicado Oscar 2010 - melhor filme
melhor roteiro original
Resenha integrante da Maratona Oscar 2010
por MaDame Lumière.
Glamourize-se antes da premiação
com MaDame.

Atenção à sugestão: Leia essa crítica somente se já tenha assistido o filme.


A vida tem lá os seus mistérios, não é mesmo? E eles se tornam mais inconvenientes quando impactam nossas vidas negativamente com uma série de problemas e perguntas sem respostas, por mais que você, homem ou mulher, tente ser uma pessoa séria, ter uma vida responsável com a família, com o trabalho, com os amigos e vizinhos, ser verdadeiramente temente ao seu credo e respectivas tradições, mesmo assim, o caos insiste em desabar na sua vida. Se você se esforça em ser um homem ou uma mulher séria, você se identificará com o novo filme dos sarcásticos irmãos Coen, um dos filmes indicados à categoria de melhor filme no Oscar 2010, merecidamente. O inteligente enredo, brilhantemente satírico com o toque único do humor negro a la Coen, toma como exemplo uma família judia na década de 60, em especial, através do protagonista Larry Gopnik (Michael Stuhlbarg, formidável), professor universitário de física, o bom homem que mesmo mergulhado em problemas e dúvidas é passivo e comformista. Existirá lugar no mundo para homens como Larry? Larry vê uma série de acontecimentos azarados em sua vida e para dar a nuance perfeita de tal caos, a interpretação de Michael Stuhlbarg está suprema com caras e bocas desesperadas na medida certa para uma estética dos irmãos Coen, muito bem humorada na sua forma mais satírica e negra. Embora seja utilizado o judaísmo no texto, o novo trabalho dos irmãos Coen se adequa muito bem a vários credos, chegando a ser universal, mas se adere perfeitamente também ao Cristianismo através de Jó, o homem temente a Deus que recebe uma série de provações e, mesmo assim, mantém-se fiel ao seu Senhor.








O judeu Larry começa sua saga tenebrosa quando seu casamento começa a afundar repentinamente. Sua esposa Judith (Sari Lennick, sinistra) o aborda friamente e diz que está com outro homem, Sy Ableman (Fred Melamed, ótimo e, ironicamente intitulado na película como "O homem sério"). Ela deseja o divórcio urgente e pede para que ele saía de casa. Ele se muda para um hotel levando seu problemático irmão, Arthur (Richard Kind) no seu encalço. Seu filho rebelde Danny (Aaron Wolff, hilário) gosta de fumar um baseado, ouvir música na sala de aula, roubar a grana da irmã e está às vésperas do seu Bar Mtizvá (que é um ritual religioso judaico de passagem do jovem para a maturidade). Sua filha Sarah (Jessica McManus) é um jovem estranha que pensa só em fazer uma plástica no nariz. Enfim, uma família complicada, sem diálogo e sem harmonia na qual cada um cuida da própria vida. Larry também está com problemas no trabalho com um aluno imigrante que tem péssimas notas e nitidamente deseja suborná-lo, ele se vê pressionado a colocar em risco sua ética profissional, além de estar sob avaliação da comissão da universidade que está aferindo se ele merece ou não sua estabilidade no cargo e que vem recebendo cartas anônimas que põem em risco a reputação de Larry. Ele está com múltiplos problemas que são formidavelmente colocados em cena com direito a umas gargalhadas obscuras na platéia, afinal, rir da desgraça alheia faz parte do entretenimento Coen(iano), e a todo momento, Larry parece caminhar à sua própria condenação, seja na relação familiar, comunitária e profissional, ele é sempre testado com uma nova incógnita.






O caos de Larry leva-o a tomar uma decisão: buscar ajuda pastoral dos rabinos. Nas tentativas, as mais engraçadas possíveis, ninguém tem uma resposta para Larry, embora haja diálogos que levam o espectador à reflexão, a de que não há uma resposta, nunca ninguém a teve, não seria diferente agora, confirmando a frase de abertura da película: "Receba com simplicidade tudo o que acontece com você. Por isso, Um Homem Sério é tão rico em suas pobres respostas porque, de fato, na tentativa de ser "um homem sério" somos assolados pelo caos como se a lei de Murphy fosse parte principal do processo de provação e acontecesse bem mais com pessoas íntegras. Vale a pena ser um homem sério? Eis a questão. Além disso é sabido que seguir um credo mesmo que seja o credo na própria vida é também sofrer, não ter controle sobre tudo e muito menos entender sobre tudo seja no campo terreno seja no campo espiritual, a verdade é nua e crua, assim com os personagens dos irmãos Coen, estamos entregues ao destino, seja ele divino ou não. Nesse aspecto, o filme é muito funcional porque não há um ser humano normal que não tenha vivenciado situações difíceis e incompreensíveis. É natural do ser humano questionar. Uns reclamam mais , outros menos, uns buscam ajuda espirtitual somente na solidão de suas orações, outros buscam ajuda espiritual com líderes e outras referências espirituais, mas no final de toda a jornada, a velha moral da história serve para todo mundo: provações são necessárias mesmo que pareçam injustiças desnecessárias. Larry se sente injustiçado e isso é intríseco ao ser humano, ninguém gosta de ter a sensação de estar sendo castigado pela vida, nesse ponto, Um Homem Sério é honesto com o espectador ainda que seja dirigido de uma forma cômica para extrair o riso sombrio, a película também consegue ser honesta porque não há superação na vida de Larry, não interessa tal superação nessa obra, o que vale é o aqui e o agora e qual o próximo tormento de Larry que, talvez um dia, encontre sua paz, nunca saberemos assim como nunca saberemos as respostas para muitas de nossas perguntas.





Além de uma clean e belíssima fotografia de Roger Deakins, há performances com grandes sacadas para essa reflexão como palavras do rabino Nachtner (George Wyner) : "estas suas pertubações talvez sejam como dor de dentes"(de fato, elas passam...), "não sabemos de tudo" (exato, inclusive os líderes religiosos), as palavras do grande e inacessível rabino Marshak (Alan Mandell, hilário) citando trecho de Jefferson Airplane (da música Somebody to love) em diálogo com Danny pós
Bar Mtizvá, cena que merece atenção no desfecho e é fabulosamente um tapa na cara dos mais caóticos por respostas; assim como a bandeira americana se movendo na aproximação de uma forte tempestade que se torna a metáfora ideal de que no caos da crise que assolou economia americana ninguém teve as respostas que desejava, nem os que não tiveram suas vidas tão impactadas e nem os que viveram o marasmo em sua própria sobrevivência pessoal e familiar, como o desemprego, por exemplo. Esse filme pode parecer inútil em não dar respostas claras e complexas e até apresentar uma visão negativa, no entanto, ocorre exatamente o contrário, Um Homem sério é revelador exatamente por não enganar-nos, logo a sátira funciona como deve funcionar: conta uma verdade simples porém de reflexão profunda. Homens sérios nunca conseguem ser levados a sério como deveriam ser, mas aqui na sublime ironia dos Coen, eles são. São levados a sério para que reflitam se vale a pena continuarem sérios.


Avaliação MaDame Lumière



Título original: A Serious Man
Origem:
EUA
Gênero:
Drama, Comédia Dramática
Duração:
106 min
Diretor(a):
Joen Coen, Ethan Coen
Roteirista(s): Joen Coen, Ethan Coen
Elenco: Michael Stuhlbarg, Richard Kind, Fred Melamed, Sari Lennick, Aaron Wolff, Jessica McManus, Peter Breitmayer, Brent Braunschweig, David Kang, Benjy Portnoe, Jack Swiler, Andrew S. Lentz, Jon Kaminski Jr., Ari Hoptman, Alan Mandell

7 comentários:

  1. Estou estupefado! Que critica perfeita! Exprime exatamente o que significa o filme. É muito semelhante a minha apreciação do filme. O que corrobora nossas suspeitas(já são certezas, mas pra que espalhar né?!)de sintonia plena.rsrs

    Bjs

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  2. Oi Reinaldo, você revisou este também? Já revisamos Educação também haha...Hoje comecei algumas atividades novas, cheguei tarde e nem tive tempo de ir no Claquete respondendo ainda as mensagens aqui e postando o de hoje. Nossa, obrigada pela sintonia, vou lá no seu blog pra ler sua review.

    Sobre esta reflexão, eu incorporei o texto e também o filme porque eu já me senti assim e estou passando por um processo deste em uma das áreas de minha vida. Na verdade, tenho minha fé e, vira e mexe, me vejo como uma teimosa garota séria que faz perguntas sem respostas. bjs!

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  3. Reinaldo, o que acontece com a gente, hein? Acho tão loucamente raro isso, não sei o que pensar mais sobre nossa sintonia cinéfila. Rsrs!

    Engraçado é ver como a gente se incomodou quando a gente não concordou um com o outro também haha...

    Repetindo o começo da minha resenha:

    "A vida tem lá os seus mistérios, não é mesmo?". Não teremos a resposta para tal sintonia, mas que ela existe, existe e muito!

    bjs!

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  4. Muito bem Madame Dietrich,

    acho este o filme mais pessoal dos irmãos judeus Coen!

    Sempre gostei dos roteiros deles, especialmente FARGO. Não terá o sucesso comercial de ONDE OS FRACOS NAO TEM VEZ e QUEIME DEPOIS DE LER..mas é um cult de imediato.

    Sério..é um filme sério dos Coen!

    Bjokas!

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  5. Madame, repito o que Reinaldo disse:

    QUE CRÍTICA PERFEITA!

    Eu não vi o filme(novidade, rs), mas de todos os blogueiros e até de uns sites que andei lendo - a sua é a mais cativante, detalhadada e harmônica.

    Os irmãos Coen mais uma vez inovando e, ao mesmo tempo, se mantendo no topo com seu estilo! Percebi que este filme me define muito mais que o "Onde os fracos não tem vez"...mas, vou esperar lançar em dvd pra conferir...

    Percebi, pelas suas palavras, o toque 'humano' do filme....preciso conferir e já!

    Beijos e beijos pra ti!

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  6. Oi Rodrigo

    Exato! Tem um toque autobiográfico no filme e gosto da forma como eles colocam tal aspecto pessoal sem revelá-los completamente.

    Gostei da sua sábia citação. Os irmãos Coen não brincam em serviço. bjs

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  7. Cris,

    Obrigada pela gentileza!

    Penso que o humor negro dos irmãos Coen é acompanhado de um toque humano que nem todo mundo consegue enxergar porque se preende ao lado satírico deles. Na verdade, eles são sérios até mesmo quando riem. bjs

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